Rick Riordan 

O Filho de Netuno




2
                    AGRADECIMENTOS...
Nossos merecidos agradecimentos vo  toda nossa equipe de traduo da
mafia dos livros e de seu Departamento#01 que esteve empenhada na
concluso de mais esse projeto.
Obrigado  vocs, tradutores, revisores e organizadores que desprenderam
de seu tempo para uma atividade na qual no esperam nada alm de
respeito e admirao e  esse o sentimento que temos para com vocs, por
isso e graas a vocs somos uma equipe to forte!
Parabns por terem nos presenteado com tamanha dedicao e para alguns
casos destaco um comprometimento incrvel...
Parabns e Obrigado...


Aos Tradutores: Laila, Lauren, Reuel Luiz, Samy,   TM, T.
Likken, Ana Carla, Renan, Mnica Alamos, Tradutor/Moderad, Jos
Rocha, Tywin, Guilherme Munaretto, M.S Lisboa, Amanda Vill,
Renan Lima, Wallace Fla, Prscila de Melo, Guilherminho, Aninha,
MaUrO, Levi Nogueira  Muito Obrigado!


Aos Revisores: Laila, Miguel Oliveira, Letcia, rafaela zluhan, Reuel
Luiz, Renato, Pedro, Amanda Vill, Jair, Diego Barros, Guilherme
Queluz, Tamy Lever, Lauren, Ariel Rocha, S.M Lisboa, Willian
Ericson, Gabriel Costa, Priscila Caldas, Carlos Bolseiro, Pedro
Henrique, Tradutor/Moderad, Paulinha Muruel, Joana Arajo, eduardo
 Muito Obrigado!


 Revisora Final: Laila  Muito Obrigado!


 Organizao da .mafia dos livros. e do Departamento#01 : Ricardo
Pereira, Laila


E a Organizao da traduo em si: Ricardo Pereira, Laila


                                                                      3
ndice:
Agradecimentos ...................................................................................6
Mapa......................................................................................................6
I .............................................................................................................7
II..........................................................................................................15
III ........................................................................................................28
IV ........................................................................................................39
V..........................................................................................................54
VI ........................................................................................................61
VIII .....................................................................................................77
IX ........................................................................................................86
X..........................................................................................................96
XI ......................................................................................................110
XII.....................................................................................................115
XIII ...................................................................................................125
XIV ...................................................................................................134
XV.....................................................................................................146
XVII..................................................................................................158
XVIII ................................................................................................172
XIX ...................................................................................................176
XX.....................................................................................................182
XXI ...................................................................................................190
XXII..................................................................................................198
XXIII ................................................................................................205
XXIV ................................................................................................208
XXV ..................................................................................................212
XXVI ................................................................................................219
XXVII...............................................................................................227
XXVIII .............................................................................................236
XXIX ................................................................................................243
XXX ..................................................................................................252
XXXI ................................................................................................264
XXXII...............................................................................................272
XXXIII .............................................................................................279
XXXIV..............................................................................................286
XXXV ...............................................................................................295

                                                                                                              4
XXXVI..............................................................................................301
XXXVII ............................................................................................313
XXXVIII ..........................................................................................320
XXXIX..............................................................................................329
XL .....................................................................................................335
XLI....................................................................................................339
XLII ..................................................................................................345
XLIII ................................................................................................353
XLIV.................................................................................................359
XLV ..................................................................................................363
XLVI.................................................................................................366
XLVII ...............................................................................................372
XLVIII..............................................................................................379
XLIX.................................................................................................382
L ........................................................................................................388
LI ......................................................................................................399
LII.....................................................................................................407
Glossrio ..........................................................................................417




                                                                                                           5
          Agradecimentos
Para Becky, que partilha o meu santurio na Nova Roma.
  Mesmo Hera nunca poderia me fazer esquecer voc.




                     Mapa




                                                         6
                                        I



AS SENHORAS COM CABELO DE SERPENTE estavam comeando a
irritar Percy.
        Elas deviam ter morrido h trs dias atrs quando ele deixou cair
sobre elas uma caixa de bolas de boliche no Napa Bargain Mart1. Elas
deviam ter morrido h dois dias atrs quando ele passou sobre elas com um
carro de polcia em Martinez2. Elas definitivamente deveriam ter morrido
esta manh quando ele cortou fora suas cabeas no Tilden Park3.
       No importa quantas vezes Percy as matou e as assistiu se
desmoronar em p, elas apenas se mantiveram re-formando como grandes
bolas ms de poeira. Ele no podia at ter a impresso de fugir delas.
        Ele alcanou o topo do morro e prendeu a respirao. Quanto tempo
desde a ltima vez em que ele as matou? Talvez duas horas. Elas nunca
pareceram ficar mais tempo mortas que isso.
         Nos ltimos dias, ele quase no dormiu. Ele comeu tudo o que pde
furtar  maquinas de vender Gummi Bears, bagels ranosos, at mesmo um
burrito Jack in the Crack4, que foi uma nova perda pessoal. Suas roupas
estavam rasgadas, queimadas e salpicadas de lama de monstro.
        Ele s sobreviveu tanto tempo, porque as duas senhoras de cabelos
de serpente  grgonas, elas chamavam a si mesmas  pareciam no poder
mat-lo tambm. Suas garras no cortavam sua pele. Quebravam os dentes
sempre que tentaram mord-lo. Mas Percy no poderia continuar muito mais
tempo. Logo que ele entrasse em colapso por exausto e, em seguida  to


1
  Napa Bargain Mart: Espcie de loja de departamentos.
2
  Martinez: Cidade da Califrnia.
3
  Tilden Park: Parque regional na rea da baa de So Francisco.
4
  Gummi Bears: Tipo de doce de goma em forma de ursinhos.
Bagels: Tipo de po, no formato de anel.
Jack in the Crack: Ficou meio confuso, mas parece que  um tipo de estabelecimento
que coloca substncias que viciam nos hambrgueres e tacos.


                                                                                7
difcil como ele estava para matar, ele tinha certeza de que as Grgonas
iriam encontrar um caminho.
       Para onde correr?
         Ele examinou o seu entorno. Em diferentes circunstncias, ele
poderia ter gostado da vista.  sua esquerda, montes dourados rolavam para
o interior, com lagos, bosques e um pequeno nmero de rebanhos de vacas.
 sua direita, a regio plana de Berkeley e Oakland marchavam para o oeste
 um vasto tabuleiros de damas dos bairros, com vrios milhes de pessoas
que provavelmente no querem que a sua manh seja interrompida por dois
monstros e um semideus sujo.
        Mais a oeste, a Baa de So Francisco brilhava sob uma nvoa
prateada. Passado isso, uma parede de nvoa engolia mais de So Francisco,
deixando apenas o topo dos arranha-cus e as torres da ponte Golden Gate.
        Uma vaga tristeza pesava sobre o peito de Percy. Algo lhe dizia que
ele esteve em So Francisco antes. A cidade tinha alguma ligao com
Annabeth  a nica pessoa que ele podia se lembrar de seu passado. Sua
memria dela era frustrantemente turva. A loba tinha prometido que ele iria
v-la novamente e recuperar sua memria  se ele tivesse sucesso em sua
jornada.
       Se ele tentar atravessar a baa?
        Era tentador. Ele podia sentir o poder do oceano no horizonte. A
gua sempre o reviveu. A gua salgada era a melhor. Ele descobriu isso dois
dias atrs, quando ele tinha estrangulado um monstro do mar, no Estreito
Carquinez. Se ele pudesse chegar  baa, ele poderia ser capaz de fazer uma
ltima cartada. Talvez ele pudesse at mesmo afogar as Grgonas. Mas a
margem estava  pelo menos dois quilmetros de distncia. Ele teria que
atravessar toda uma cidade.
        Ele hesitou por um outro motivo. A loba Lupa havia lhe ensinado a
aguar seus sentidos  confiar nos instintos que o estavam guiando para o
sul. Seu radar autodirecional estava formigando como louco. O fim de sua
jornada estava prximo  quase diretamente debaixo dos seus ps. Mas
como poderia ser isso? No havia nada no topo da colina.
         O vento mudou. Percy sentiu o cheiro azedo de rptil. A cem metros
ladeira abaixo, algo balanou os galhos  madeiras estalando, mastigando as
folhas, assobiando.
       Grgonas.



                                                                         8
        Pela milionsima vez, Percy quis que seus narizes no fossem to
bons. Eles sempre disseram que elas podiam sentir o cheiro dele porque ele
era um semideus  filho meio-sangue de algum deus romano antigo. Percy
tentou rolar na lama, chapinhou atravs de riachos, at mesmo mantendo
purificadores de ar junto ao bolso assim ele teria aquele cheiro de carro
novo; mas aparentemente o fedor de um semideus era difcil de mascarar.
        Ele correu para o lado oeste do topo. Era demasiado ngreme para
descer. A inclinao despencava vinte e quatro metros, direto para o telhado
de um complexo de apartamentos construdo no lado da colina. Quatro
metros e meio abaixo, uma rodovia surgia a partir da base do morro e
terminava o seu caminho em direo a Berkeley.
        timo. No h outro caminho para fora do morro. Ele conseguiu
ficar encurralado.
        Ele olhou para o fluxo de veculos fluindo para oeste em direo 
So Francisco e desejou que ele estivesse em um deles. Ento ele percebeu
que a estrada deveria atravessar o morro. Deve haver um tnel... diretamente
sob seus ps.
         Seu radar interno enlouqueceu. Ele estava no lugar certo, demasiado
alto. Ele tinha que verificar esse tnel. Ele precisava de um caminho para a
auto-estrada  rpido.
        Ele atirou fora sua mochila. Ele tinha conseguido pegar um monte de
suprimentos no Napa Bargain Mart: um GPS porttil, fita adesiva,
superbonder, isqueiro, garrafa de gua, rolo de acampar, um travesseiro
confortvel de panda (como visto na TV), e um canivete suo 
praticamente todas as ferramentas que um semideus moderno poderia
desejar. Mas ele no tinha nada que servisse como um pra-quedas ou um
tren.
        Isso o deixou com duas opes: pular vinte e quatro metros para sua
morte, ou ficar e lutar. Ambas as opes soavam muito ruins.
       Ele amaldioou e puxou sua caneta do bolso.
        A caneta no parecia grande coisa, apenas uma esferogrfica regular
barata, mas quando Percy a destampava, ela crescia em uma espada de
bronze brilhante. A lmina perfeitamente equilibrada. A ala de couro
encaixava na mo como se tivesse sido projetada para ele. Gravado ao longo
da guarda estava uma antiga palavra grega que Percy de algum modo
entendeu: Anaklusmos - Contracorrente.
       Ele acordou com esta espada na sua primeira noite na Casa dos
Lobos  dois meses atrs? Mais? Ele havia perdido a trilha. Ele encontrou-se

                                                                          9
no ptio de uma manso incendiada no meio do mato, vestindo shorts, uma
camiseta laranja, e um colar de couro com um monte de contas de argila
estranho. Contracorrente estava em sua mo, mas Percy no tinha idia do
que ele era, ou como ele tinha chegado l. Ele estava descalo, congelando e
confuso. E ento vieram os lobos. . .
        Mesmo ao lado dele, uma voz familiar sacudiu-o de volta ao
presente:
       -- A est voc!
       Percy tropeou para longe da grgona, quase caindo para fora da
borda da colina.
       Esse era o nome de uma - Beano.
         Ok, o nome dela no era realmente Beano. Foi o mais perto que
Percy pode imaginar, ele era dislxico, porque as palavras se torciam quando
ele tentava ler. A primeira vez que ele tinha visto a grgona, posando como
recepcionista no Bargain Mart com um grande boto verde que dizia: BEM-
VINDOS! MEU NOME  STHENO, ele pensou que isso dizia Beano.
        Ela ainda estava usando seu colete verde de empregados do Bargain
Mart sobre um vestido estampado de flores. Se voc apenas olhasse para seu
corpo, voc poderia pensar que ela era alguma atarracada velha av  at que
voc olhasse para baixo e percebesse que ela tinha ps de galo. Ou voc
olhasse e visse as presas de javali de bronze saindo dos cantos de sua boca.
Seus olhos brilhavam vermelhos e em seu cabelo estava um ninho de
serpentes brilhantes verdes se contorcendo.
        A coisa mais horrvel sobre ela? Ela ainda estava segurando a
bandeja de prata grande de amostras grtis: Crispy Cheese 'n' Wieners. Seu
prato estava todo amassado de todas as vezes que Percy tinha matado-a, mas
essas pequenas amostras pareciam perfeitamente bem. Stheno s ficava
carregando-as por toda a Califrnia, para que ela pudesse oferecer a Percy
um lanche antes que ela o matasse. Percy no sabia por que ela continuava
fazendo isso, mas se ele precisasse de uma armadura, ele iria tomar dela os
Crispy Cheese 'n' Wieners. Esse material era indestrutvel.
       -- Experimente um? -- Stheno ofereceu.
       Percy afastou-a para longe com sua espada. -- Onde est sua irm?
       -- Oh, coloque a espada longe, -- Stheno censurou. -- Voc j sabe
que, mesmo bronze Celestial no pode matar-nos por muito tempo. Pegue
um Cheese 'n' Wiener! Eles esto  venda nesta semana, e eu odeio mat-lo
com o estmago vazio.

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        -- Stheno! -- A segunda grgona apareceu  direita de Percy to
rpido, ele no teve tempo para reagir. Felizmente ela estava muito ocupada
olhando para a irm dela, para dar-lhe muita ateno. -- Eu lhe disse para
deslocar-se sobre ele e mat-lo!
       Stheno sorriu vacilante. -- Mas, Euryale... -- Ela disse o nome
como se rimasse com Muriel. -- No posso dar a ele a primeira amostra?
          -- No, sua imbecil! -- Euryale voltou para Percy e arreganhou suas
presas.
        Com exceo de seu cabelo, que era um ninho de cobras corais, em
vez de vboras verdes, ela parecia exatamente como sua irm. Seu colete do
Bargain Mart, o vestido florido, at mesmo as presas estavam decoradas com
adesivos de 50% de desconto. Seu crach lia-se: OL! MEU NOME 
MORRER, MORRA SEMIDEUS!
        -- Voc nos levou um bocado em uma perseguio, Percy Jackson,
-- disse Euryale. -- Mas agora voc est preso, e teremos a nossa vingana!
         -- Os Cheese 'n' Wieners esto apenas $2,99, -- adicionou Stheno
prestativa. -- Departamento de mercearia, corredor trs.
        Euryale rosnou. -- Stheno, o Bargain Mart era uma fachada! Voc
est sendo aborgine! Agora, abaixe a bandeja ridcula e me ajude a matar
esse semideus. Ou voc se esqueceu que ele  o nico que vaporizou
Medusa?
        Percy se afastou. Mais quinze centmetros e ele estaria rolando pelo
ar. -- Olhe, senhora, ns j passamos por isso. Eu nem me lembro de matar
Medusa. Eu no me lembro de nada! No podemos simplesmente fazer uma
trgua e falar sobre suas promoes semanais?
        Stheno deu  sua irm um olhar com beicinho, que era difcil de
fazer com presas de bronze gigante. -- Podemos fazer isso?
         -- No! -- Os olhos vermelhos de Euryale perfuravam Percy. -- Eu
no ligo para o que voc se lembra, filho do deus do mar. Eu posso sentir o
cheiro do sangue da Medusa em voc.  fraco, sim, h vrios anos, mas voc
foi o ltimo a derrot-la. Ela ainda no voltou do Trtaro. A culpa  sua!
        Percy realmente no entendeu isso. O conjunto "morrer e em seguida
retornar do Trtaro" o conceito deu-lhe uma dor de cabea. Claro que, assim
como a idia de que uma caneta esferogrfica poderia se transformar em
uma espada, ou que os monstros podem disfarar-se com algo chamado
Nvoa, ou que Percy era o filho de um deus de cracas incrustadas de cinco
mil anos atrs. Mas ele acreditava. Mesmo que sua memria tenha sido

                                                                          11
apagada, ele sabia que era um semideus da mesma maneira ele sabia que seu
nome era Percy Jackson. Desde a sua primeira conversa com a loba Lupa,
ele admitiu que este louco mundo confuso de deuses e monstros era sua
realidade. O que quase o sugou.
         -- Que tal chamar isso de um empate? -- ele disse. -- No posso
mat-la. Voc no pode me matar. Se vocs so irms da Medusa, como a
Medusa, que transformava as pessoas em pedra, eu no deveria estar
petrificado agora?
         -- Heris! -- Euryale disse com desgosto. -- Eles sempre trazem
isso  tona, assim como a nossa me! "Porque voc no pode transformar as
pessoas em pedra? Sua irm pode transformar as pessoas em pedra." Bem,
desculpe desapont-lo, rapaz! Essa foi a maldio de Medusa somente. Ela
era a mais terrvel na famlia. Ela tem toda a sorte!
       Stheno parecia ferida. -- Mame disse que eu era a mais hedionda.
       -- Silncio! -- Euryale estalou. -- Quanto a voc, Percy Jackson, 
verdade que voc carrega a marca de Aquiles. Isso faz de voc um pouco
mais difcil de matar. Mas no se preocupe. Ns vamos encontrar uma
forma.
       -- A marca de qu?
        -- Aquiles, -- Stheno disse alegremente. -- Oh, ele era lindo!
Mergulhado no rio Estige quando uma criana, voc sabe, ento ele era
invulnervel, exceto por um pequeno ponto em seu tornozelo. Isso  o que
aconteceu com voc, querido. Algum deve ter te descarregado no Estige e
fez a sua pele como o ferro. Mas no se preocupe. Heris como voc sempre
tem um ponto fraco. Ns s temos que encontr-lo, e ento ns podemos te
matar. No vai ser lindo? Pegue um Cheese 'n' Wiener!
        Percy tentou pensar. Ele no se lembra de nenhum mergulho no
Estige. Ento novamente, ele no se lembrava de muita coisa. Sua pele no
dava a sensao de ser ferro, mas isso poderia explicar como ele resistiu
tanto tempo contra as grgonas.
        Talvez, se ele simplesmente casse da montanha... ele iria
sobreviver? Ele no queria se arriscar, no sem alguma coisa para retardar a
queda, ou um tren, ou...
        Ele olhou para a travessa de prata grande de amostras grtis de
Stheno. Hmm...




                                                                         12
        -- Reconsiderando? -- Stheno perguntou. -- Muito inteligente,
querido. Eu adicionei algum sangue de grgona  estes, assim sua morte ser
rpida e indolor.
       Percy estava com a garganta apertada. -- Voc adicionou o seu
sangue no Wieners Cheese 'n' Wieners?
        -- S um pouco. -- Stheno sorriu. -- Um pequeno corte sobre meu
brao, mas voc  um doce por se preocupar. O sangue do nosso lado direito
pode curar qualquer coisa, voc sabe, mas o sangue do nosso lado esquerdo 
mortal...
       -- Sua idiota! -- Euryale guinchou. --Voc no deveria dizer-lhe
isso! Ele no vai comer as salsichas se voc lhe disser que esto
envenenadas!
        Stheno parecia atordoado. -- Ele no vai? Mas eu disse que seria
rpido e indolor.
        -- No se preocupe! -- As unhas de Euryale cresceram em garras.
-- Ns vamos mat-lo da maneira mais difcil, apenas nos manter cortando
at encontrar o ponto fraco. Uma vez que derrotemos Percy Jackson, vamos
ser mais famosas que Medusa! Nossa patrona nos recompensar
grandemente!
        Percy agarrou sua espada. Ele teria que ter tempo para se mover
perfeitamente  alguns segundos de confuso, pegue o prato com a mo
esquerda...
           Mantenha-as falando, pensou ele.
        -- Antes de me cortar em pedaos, -- disse ele, -- quem  essa
patrona que voc mencionou?
        Euryale zombou. -- A deusa Gaia,  claro! Aquela que nos trouxe
de volta do esquecimento! Voc no vai viver tempo suficiente para
conhec-la, mas seus amigos iro enfrentar em breve sua ira. Mesmo agora,
seus exrcitos esto marchando para o sul. Na Festa da Fortuna, ela vai
acordar, e semideuses sero ceifados como... como...
           -- Como os nossos preos baixos do Bargain Mart! -- Stheno
sugeriu.
           -- Gah! -- Euryale gritou para sua irm.
       Percy teve a abertura. Ele pegou o prato de Stheno, espalhando o
venenoso Cheese 'n' Wieners, e golpeou Contracorrente na cintura de
Euryale, cortando-a ao meio.

                                                                        13
       Ele ergueu o prato, e Stheno se viu diante de seu prprio reflexo
gorduroso.
       -- Medusa! -- ela gritou.
       Sua irm Euryale desmoronou em p, mas ela j estava comeando a
se formar novamente, como um boneco de neve que no derrete.
       -- Stheno, sua idiota! -- ela gorgolejava com seu rosto semi-
formado a partir do monte de p. -- Isso  apenas o seu prprio reflexo!
Apanhe-o!
       Percy bateu a bandeja de metal no topo da cabea de Stheno, e ela
desmaiou inconsciente.
        Ele colocou o prato atrs do seu traseiro, fez uma orao silenciosa
para que o deus romano supervisionasse sua estpida arte de andar de tren,
e pulou do lado da colina.




                                                                         14
                                   II



UMA NICA COISA QUANDO ESTIVER DESPENCANDO a 80 km/h
em uma bandeja de petiscos  se perceber que  uma m idia quando se est
na metade do caminho, j  tarde demais.
        Percy por pouco escapou de uma rvore, raspou numa pedra e girou
trezentos e sessenta graus se atirando em direo  rodovia. A estpida
bandeja de petiscos no tinha direo hidrulica. Ele ouviu as irms
grgonas gritando e um vislumbre do cabelo de coral de Euryale no topo da
colina, mas no teve tempo para se preocupar com isso. O telhado do
apartamento pairava abaixo dele como a proa de um navio de batalha.
Coliso frontal em dez, nove, oito...
       Ele conseguiu girar para o lado para evitar quebrar as pernas no
impacto. A bandeja deslizou pelo telhado e velejou pelo ar. A bandeja foi
para um lado. Percy foi para o outro.
        Enquanto caa na direo da rodovia, uma cena horrvel passou pela
sua mente: seu corpo sendo esmagado contra o pra-brisas de um carro
esportivo, algum suburbano irritado tentando empurr-lo com os limpadores.
Garoto idiota de dezesseis anos cado do cu! Estou atrasado!
        Milagrosamente, uma rajada de vento soprou de um lado  o
suficiente para tir-lo da rodovia e cair em um amontoado de arbustos. No
foi uma aterrissagem suave, mas era melhor que o asfalto.
       Percy grunhiu. Ele queria ficar ali e desmaiar, mas tinha que
continuar em movimento.
        Ele lutou para ficar de p. Suas mos estavam arranhadas, mas
nenhum osso parecia estar quebrado. Ele ainda tinha a mochila. Em algum
lugar da viagem de tren ele havia perdido a espada, mas Percy sabia que
reapareceria a qualquer hora em seu bolso na forma de caneta. Era parte de
sua magia.
        Ele olhou para a colina. Era difcil de perder as grgonas, com os
cabelos coloridos de cobra e as vestes verdes brilhantes do Bargain Mart.
Elas estavam descendo o declive, mais lentas que Percy, mas com um pouco

                                                                       15
mais de controle. Aqueles ps de galinha deviam ser bons em escalada.
Percy sups que talvez tivesse cinco minutos antes de elas o alcanarem.
        Perto dele, uma alta cerca de arame separava a rodovia de uma
vizinhana de ruas sinuosas, casas confortveis e rvores de eucalipto. O
arame provavelmente estava l para impedir as pessoas de irem no meio da
rodovia e fazerem coisas idiotas  como esquiar em uma bandeja pela pista 
mas as correntes estavam cheias de buracos. Percy podia facilmente entrar
na vizinhana. Talvez ele pudesse encontrar um carro e dirigir para oeste
para o oceano. Ele no gostava de roubar carros, mas nas ltimas semanas,
em situaes de vida e morte, ele havia "emprestado" vrios, inclusive uma
viatura policial. Ele iria devolv-los, mas os carros nunca duraram muito
tempo.
        Ele olhou para o leste. Bem como havia adivinhado, uma centena de
metros da rodovia cortava a base do penhasco. Duas entradas de tneis, um
para cada direo do trfego, o encaravam como duas rbitas de uma caveira
gigante. No meio, onde estaria o nariz, uma parede de cimento se sobressaa
da colina, com uma porta de metal, como a entrada de uma carvoeira.
       Devia ser um tnel de manuteno. Isso  provavelmente o que os
mortais pensariam se notassem a porta, de qualquer forma. Mas eles no
podiam ver atravs da Nvoa. Percy sabia que a porta era mais que isso.
         Duas crianas de armadura flanqueavam a entrada. Elas vestiam uma
mistura bizarra de elmos romanos, couraas, bainhas, jeans, camisetas roxas,
e tnis de atletismo branco. O guarda da direita parecia uma garota, era
difcil de ter certeza com toda aquela armadura. O da esquerda era um cara
baixo e forte com um arco e aljava nas costas. Os dois seguravam bastes de
madeira com pontas de ferro, como arpes  moda antiga.
        O radar interno de Percy silvava como louco. Depois de tantos dias
horrveis, ele finalmente havia chegado  sua meta. Seus instintos diziam que
se passasse pela porta, devia encontrar segurana pela primeira vez desde
que os lobos que o tinham mandado para o sul.
        Ento por que ele sentia tanto medo?
        Mais acima da colina, as grgonas estavam pulando sobre o telhado
do apartamento. Trs minutos de distncia  talvez menos.
        Parte dele queria correr para a porta da colina. Ele teria que entrar no
meio da rodovia, mas ento seria uma corrida curta. Ele podia fazer isso
antes das grgonas alcanarem-no.
        Parte dele queria rumar a oeste para o oceano. Era onde ele estaria a
salvo. Era onde seu poder seria maior. Aqueles guardas romanos na porta

                                                                             16
deixavam-no preocupado. Algo dentro dele dizia: Esse no  meu territrio.
Isso  perigoso.
        -- Voc est certo,  claro. -- Disse uma voz perto dele.
         Percy pulou. Primeiro ele achou que Beano tinha se esgueirado
sorrateiramente at ele, mas a senhora sentada nos arbustos era at mais
repulsiva que a grgona. Ela parecia uma hippie que tinha sido chutada para
o lado da estrada talvez h quarenta anos atrs, onde esteve colecionando
lixo e trapos desde ento. Ela usava um vestido feito de tecido tie-dye5,
mantas rasgadas e sacos de plstico de supermercado. Seus tufos de cabelo
crespo eram marrom-cinzentos, como espuma de root bear6, amarrados para
trs com uma faixa com o sinal da paz. Verrugas cobriam seu rosto. Quando
ela sorriu, mostrou exatamente trs dentes.
        -- No  um tnel em manuteno. -- Confessou. --  a entrada
para o acampamento.
        Um estremecimento subiu pela espinha de Percy. Acampamento. ,
era de onde ele veio. Um acampamento. Talvez essa fosse sua casa. Talvez
Annabeth estivesse por perto.
        Mas algo parecia errado.
       As grgonas ainda estavam no telhado do apartamento. Ento
Stheno gritou de alegria e apontou na direo de Percy.
        A velha hippie ergueu as sobrancelhas.
        -- No h muito tempo, criana. Voc precisa fazer sua escolha.
        -- Quem  voc? -- Percy perguntou, pensando que no tinha
certeza se queria saber. A ltima coisa que precisava era de outra mortal
inofensiva que se transformava em um monstro.
      -- Ah, pode me chamar de Juno. -- Os olhos da senhora cintilaram
como se tivesse feito uma piada excelente. --  Junho, no ? Eles
nomearam o ms por minha causa!
        -- Certo... Olha, tenho que ir. Duas grgonas esto vindo. No quero
que elas te machuquem.
        Juno cruzou as mos sobre o corao.


5
  Tie-dye: Tcnica para tingir tecidos. Significa "Amarrar e Tingir".
Contemporaneamente, o Tye-Dye esteve na moda entre as dcadas de 1960 e 1970,
entre os adeptos do movimento hippie.
6
  Root Bear: Bebida no alcolica comum nos EUA, feita  base de extrato de razes.

                                                                                17
        -- Que fofo! Mas isso faz parte de sua escolha!
        -- Minha escolha...
        Percy olhou nervoso na direo da colina. As grgonas tinham tirado
as vestes verdes. Asas saram de suas costas  pequenas asas de morcego,
que brilhavam como bronze.
        Desde quando elas tinham asas? Talvez fossem decoraes. Talvez
fossem muito pequenas para erguer uma grgona no ar. Ento as duas irms
saltaram do apartamento e dispararam na direo dele.
        Legal. Muito legal.
        -- Sim, uma escolha. -- Juno disse, como se estivesse sem pressa.
-- Pode me deixar aqui  merc das grgonas e ir para o oceano. Chegaria l
com segurana, eu garanto. As grgonas ficaro bem felizes de me atacar e
te deixar ir. No mar, nenhum monstro vai incomod-lo. Estar seguro no
fundo do mar. Pode comear uma nova vida, viver at a maturidade, e
escapar de uma grande dose de dor e sofrimento que est em seu futuro.
        Percy tinha certeza de que no iria gostar da segunda opo.
        -- Ou?
       -- Ou voc pode fazer um favor para uma velha senhora. Carregue-
me para o acampamento com voc.
        -- Carregar voc?
         Percy esperava que ela estivesse brincando. Ento Juno arrumou a
saia e o mostrou o p inchado e roxo.
      -- No posso chegar l sozinha. -- Disse ela. -- Me carregue para o
acampamento do outro lado da rodovia, pelo tnel, e do outro lado do rio.
         Percy no sabia o que ela queria dizer com rio, mas isso no parecia
ser fcil. Juno parecia ser muito pesada. As grgonas estavam a apenas 80
metros de distncia agora, deslizando na direo dele porque sabiam que a
caa estava quase acabada.
        -- E eu teria que te carregar at esse acampamento por qu...?
       -- Porque seria uma gentileza! -- Disse ela. -- E se no fizer isso,
os deuses morrero, o mundo que conhecemos perecer, e todos de sua
antiga vida sero destrudos. Claro, voc no se lembraria deles, ento
suponho que isso no importa. Voc estar seguro no fundo do mar...
        Percy engoliu. As grgonas gritaram e mergulharam para atacar.


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       -- Se eu for para o acampamento, -- ele disse, -- vou conseguir
minha memria de volta?
         -- Possivelmente. -- Disse Juno. -- Mas ateno, voc vai se
sacrificar muito! Vai perder a marca de Aquiles. Voc vai sentir dor,
sofrimento e perder tudo o que j conheceu. Mas pode ter uma chance de
salvar seus velhos amigos e recuperar sua antiga vida.
        As grgonas estavam circulando no ar, provavelmente estudando a
velha, imaginando quem seria o novo jogador antes de atacar.
       -- E os guardas na porta? -- perguntou Percy.
       Juno sorriu.
        -- Ah, eles vo deixar voc entrar, querido. Pode confiar naqueles
dois. Ento, o que me diz? Vai ajudar uma senhora indefesa?
         Percy duvidava de que Juno fosse indefesa. No pior dos casos se
tratava de uma armadilha. Na melhor das hipteses este era uma espcie de
teste. Percy odiava testes. Desde que perdeu sua memria, sua vida era um
grande preencha-o-vazio. Ele era ___________, de __________. Se sentia
_______________ e se os monstros o pegassem, ele seria ___________.
       Ento pensou em Annabeth, a nica parte da sua antiga vida que ele
se lembrava, que tinha certeza. Ele tinha que encontr-la.
       -- Eu vou te carregar. -- Percy pegou a velha.
        Ela era mais leve do que ele esperava. Percy tentou ignorar seu
hlito azedo e as mos calejadas que agarraram o seu pescoo. Ele
atravessou o trnsito. O motorista buzinou, outro gritou algo que foi se
perdendo no vento. A maioria apenas desviou e olhou irritado, como se
tivessem que lidar com um monte de crianas carregando velhas hippies por
toda a rodovia em Berkeley.
       Uma sombra pairou sobre ele. Stheno gritou alegremente:
       -- Garoto esperto! Achou uma deusa para carregar, no ?
       Uma deusa?
       Juno gargalhou com prazer, murmurando Oooopa, com um carro
quase os matando.
       Em algum lugar  esquerda, Euryale gritou:
       -- Peguem-nos! Dois prmios so melhores que um!



                                                                       19
        Percy fugiu para o outro lado da pista. De algum jeito chegou vivo.
Ele viu as grgonas descendo, carros desviando enquanto os monstros
passavam. Ele se perguntou o que os mortais viam atravs da Nvoa 
pelicanos gigantes? Algum de asa delta fora de curso? A loba Lupa disse a
ele que as mentes mortais no conseguiam acreditar em nada  exceto na
verdade.
       Percy correu para a porta da colina. Juno ficava mais pesada a cada
passo. O corao de Percy deu um pulo. Suas costelas doeram. Um dos
guardas gritou. O cara com o arco tirou uma flecha. Percy gritou:
       -- Esperem!
        Mas o garoto no estava mirando nele. A flecha passou perto da
cabea de Percy. Uma grgona gemeu de dor. O segundo guarda preparou a
lana, gesticulando freneticamente para Percy se apressar.
       Oitenta metros da porta. Quarenta e oito.
        -- Te peguei! -- Berrou Euryale. Percy virou enquanto uma flecha
batia na testa dela. Euryale rolou pela pista. Um caminho a acertou e a
empurrou por algumas centenas de metros, mas ela s escalou a cabine, tirou
a flecha da cabea e voltou ao ar.
       Percy chegou  porta.
       -- Valeu. -- Ele disse aos guardas. -- Bom tiro.
       -- Isso devia t-la matado! -- o arqueiro protestou.
       -- Bem-vindo ao meu mundo. -- Percy murmurou.
       -- Frank, -- a garota disse. -- Traga-os para dentro, rpido!
Aquelas so grgonas.
        -- Grgonas? -- A voz do arqueiro fraquejou. Era difcil falar muito
sobre ele, por baixo do elmo, mas ele parecia forte como um lutador, talvez
com catorze ou quinze anos. -- A porta vai segur-las?
        Nos braos de Percy, Juno gargalhou. -- No, no vai. Adiante,
Percy Jackson! Atravesse o tnel, o rio!
        -- Percy Jackson? -- A guarda tinha pele escura, com cabelo
encaracolado por baixo do elmo. Ela parecia mais nova que Frank  talvez
treze anos. Sua espada embainhada descia quase at o tornozelo. Mesmo
assim, Ela soava como a encarregada.
       -- Certo, voc obviamente  um semideus. Mas quem  a... -- Ela
olhou para Juno. -- No importa. S entrem. Vou dar cobertura.

                                                                         20
         -- Hazel, -- o garoto disse. -- No banque a maluca.
         -- Vai! -- ela exigiu.
         Frank amaldioou em outra lngua  era latim?  e abriu a porta.
         -- Vamos!
         Percy seguiu, cambaleando com o peso da senhora, que estava
definitivamente ficando mais pesada. Ele no sabia como aquela Hazel
seguraria as grgonas sozinha, mas ele estava muito cansado para discutir.
        O tnel atravessava a rocha slida, com a largura e altura de um
corredor de escola. Primeiro parecia um tpico tnel de manuteno, com
cabos eltricos, sinais de perigo e caixas de fuso nas paredes, lmpadas em
gaiolas de fio ao longo do teto. Enquanto corria para o fundo da colina, o
cho de cimento mudava para azulejos de mosaico. As luzes mudaram para
tochas de canavial, que queimavam, mas no soltavam fumaa. Alguns
metros  frente, Percy viu um retngulo de luz do dia.
        A senhora estava agora mais pesada que uma pilha de sacos de areia.
Os braos de Percy sacudiram a tenso. Juno murmurou uma msica em
latim, como uma cano de ninar, que no ajudou Percy a se concentrar.
Atrs dele, as vozes das grgonas ecoaram no tnel. Hazel gritou. Percy
ficou tentado a descarregar Juno e voltar para ajudar, mas ento o tnel
inteiro sacudiu com o rugido de pedras caindo. Houve um som de grito,
como as grgonas tinham feito quando Percy derrubou bolas de boliche
encaixotadas nelas em Napa. Ele olhou para trs. O fim oeste do tnel agora
estava cheio de poeira.
         -- No deveramos ver se Hazel est bem? -- ele perguntou.
        -- Ela vai ficar bem... espero. -- Frank disse. -- Ela  boa no
subterrneo. Fique correndo! Estamos quase l.
         -- Quase onde?
         Juno riu. -- Todas as estradas o levam aqui, criana. Devia saber
disso.
         -- Deteno? -- Percy perguntou.
         -- Roma, criana. -- A senhora disse. -- Roma.
        Percy no tinha certeza que havia ouvido certo. Verdade, sua
memria se fora. Seu crebro no se sentia bem desde que havia acordado na
Casa dos Lobos. Mas ele tinha certeza absoluta que Roma no ficava na
Califrnia.


                                                                            21
        Eles continuaram correndo. A luz no fim do tnel ficou mais
brilhante, e finalmente saram  luz do sol.
        Percy congelou. Sobre seus ps estava um vale em forma de tigela
de vrios metros de largura. O cho do vale estava repleto de pequenas
colinas, plancies douradas e trechos de floresta. Um pequeno rio claro
desaguava em um lago no centro e ao redor do permetro.
        Devia ser em algum lugar ao norte da Califrnia  carvalhos vivos e
rvores de eucalipto, colinas douradas e cu azul. Aquela montanha grande
do interior  como era chamada, Monte Diablo?  ascendia  distncia, bem
aonde devia estar.
        Mas Percy sentiu como se tivesse entrado em um mundo secreto. No
centro do vale, abrigado pelo lago, estava um cidadezinha de edifcios de
mrmore branco com telhados de telha vermelha. Alguns tinham abbadas e
arcadas de colunas, como monumentos nacionais. Outros pareciam palcios,
com portas douradas e jardins largos. Ele podia ver uma praa com colunas
independentes, fontes e esttuas. Um coliseu romano de cinco andares
brilhava no sol, perto de uma longa arena oval como uma pista de corrida.
         Do lado sul, outra colina estava dotada com mais prdios
impressionantes  templos, Percy adivinhou. Vrias pontes de pedra
atravessavam o rio como se atravessassem o vale, e no norte uma longa linha
de arcos estendidos nas colinas rumo  cidade. Percy achou que parecia um
trilho de trem elevado. Ento ele percebeu que devia ser um aqueduto7.
        A parte mais estranha do vale estava logo abaixo dele. A cerca de
trezentos e vinte metros, do outro lado do rio, estava algum tipo de
acampamento militar. Tinha cerca de um quilmetro quadrado, com
muralhas trreas por todos os quatro lados, os topos alinhados com espiges
afiados. Do lado de fora das paredes corria um fosso, tambm repleto de
espiges. Torres de vigia de madeira ascendiam de cada canto, tripuladas por
sentinelas com bestas8 enormes. Faixas roxas estavam penduradas nas torres.
Um porto aberto no lado distante do acampamento, levando na direo da
cidade. Uma porta mais estreita estava fechada  margem do rio. Dentro, a
fortaleza fervilhava de atividades: dzias de crianas indo e voltando de
quartis, carregando armas, polindo armaduras. Percy ouviu o barulho de
martelos na forja e cheiro de carne cozinhando na fogueira. Algo naquele
lugar parecia muito familiar, mas nem tanto.

7
  Aqueduto: Canal subterrneo ou fora do solo, feito para conduzir gua de um lugar
para outro.
8
  Bestas: Arma Popular na Idade Mdia. Constava de um arco curto e duro, montado
atravessado na extremidade de um cepo. Tambm conhecido como balestra.

                                                                                22
       -- Acampamento Jpiter. -- Frank disse. -- Estaremos a salvo
assim que...
        Passos ecoaram no tnel atrs deles. Hazel saiu na luz. Ela estava
coberta com poeira de pedra e ofegando. Ela tinha perdido o elmo, ento seu
cabelo encaracolado caa pelos ombros. Sua armadura tinha longas marcas
de corte na frente pelas patas de uma grgona. Um dos monstros tinha
marcado-a com uma etiqueta de 50% de desconto.
       -- Eu as atrasei um pouco, -- ela disse. -- Mas estaro aqui em
segundos.
       Frank amaldioou.
       -- Temos que atravessar o rio.
       Juno apertou o pescoo de Percy com mais fora. -- Ah, sim,
obrigada. No posso molhar meu vestido.
        Percy mordeu sua lngua. Se essa senhora era mesmo uma deusa, ela
devia ser a deusa do mau cheiro, do peso ou dos hippies inteis. Mas ele j
tinha chego to longe. Seria melhor mant-la por perto.
         uma gentileza, ela havia dito. E se no fizer isso, os deuses
morrero, o mundo que conhecemos perecer, e todos de sua antiga vida
sero destrudos.
       Se fosse um teste, ele no podia tirar um zero.
        Cambaleou algumas vezes enquanto corria para o rio. Frank e Hazel
o seguiram. Eles chegaram  margem do rio, e Percy parou para recuperar o
flego. A correnteza era rpida, mas o rio no era muito profundo. S uma
rocha estava atravessando na direo dos portes da fortaleza.
       -- Vai, Hazel. -- Frank tirou duas flechas de uma vez. -- Escolte
Percy para a entrada em segurana.  minha vez de segurar esses caras.
       Hazel assentiu e foi para a margem. Percy comeou a seguir, mas
algo o fez hesitar. Geralmente ele adorava a gua, mas esse rio parecia...
Poderoso, e no necessariamente amigvel.
         -- O Pequeno Tibre. -- Disse Juno simptica. -- Flui com o poder
do Tibre original, rio do imprio.  sua ltima chance de voltar, criana. A
marca de Aquiles  uma beno grega. No pode cont-lo se entrar no
territrio romano. O Tibre vai lav-lo.
        Percy estava muito exausto para entender tudo aquilo, mas pegou o
ponto principal.


                                                                         23
       -- Se eu atravessar, no vou mais ter pele de ferro?
        Juno sorriu. -- Ento o que vai ser? Segurana, ou um futuro de dor,
possivelmente?
        Atrs dele, as grgonas gritaram enquanto voavam do tnel. Frank
deixou as flechas voarem.
       Do meio do rio Hazel gritou:
       -- Percy, vem logo!
        No topo das Torres de vigia, trompas soaram. As sentinelas tiraram e
miraram os arcos na direo das grgonas. Annabeth, Percy pensou. Ele
entrou no rio. Era gelado, muito mais que imaginava, mas no importava
para ele. Uma nova fora surgiu por seus membros. Seus sentidos
formigaram como se tivesse sido injetada cafena nele. Ele chegou ao outro
lado e colocou a mulher no cho enquanto os portes do acampamento se
abriam. Dzias de crianas de armadura saram. Hazel deu um sorriso
aliviado. Ento olhou por cima do ombro de Percy, e sua expresso mudou
para horror.
       -- Frank!
       Frank estava no meio do caminho pelo rio quando as grgonas o
pegaram. Elas desceram do cu e o agarraram em cada brao. Ele gritou de
dor enquanto as patas arranhavam sua pele.
       As sentinelas gritaram, mas Percy sabia que eles no podiam atirar
livremente. Eles acabariam matando Frank. As outras crianas
desembainharam as espadas e estavam prontas para entrar na gua, mas
estavam atrasadas.
       S havia um jeito.
        Percy impulsionou as mos. Uma sensao intensa e desagradvel
preencheu seu intestino, e o curso do rio Tibre obedeceu a seu comando. O
rio se elevou de cada lado de Frank. Mos gigantes de gua surgiram do
crrego, copiando os movimentos de Percy. As mos gigantes agarraram as
grgonas, que derrubaram Frank, surpresas. Ento as mos levantaram os
monstros que gritavam com seus punhos lquidos. Percy ouviu as outras
crianas gritarem e recuarem, mas continuou focado em sua tarefa. Ele fez
um gesto esmagador com seus pulsos, e as mos gigantes afundaram as
grgonas no Tibre. Os monstros chegaram ao fundo e viraram p. Nuvens
brilhantes da essncia das grgonas lutavam para se refazer, mas o rio os
separou como um liquidificador. Logo, todo o trao das grgonas tinham



                                                                         24
descido rio abaixo. Os redemoinhos sumiram, e a correnteza voltou ao
normal.
        Percy ficou na margem. Suas roupas e pele soltavam vapor como se
as guas do Tibre o tivessem dado um banho de cido. Ele se sentiu exposto,
sensvel... Vulnervel.
        No meio do Tibre, Frank tropeou, parecendo aturdido, mas
perfeitamente bem. Hazel nadou at ele e o ajudou a chegar at a margem.
S ento Percy percebeu que as outras crianas haviam ficado quietas.
        Todos estavam olhando para ele. S a senhora, Juno, parecia no
estar abalada.
       -- Bem, foi um passeio adorvel. -- Ela disse. -- Obrigada, Percy
Jackson, por me trazer ao Acampamento Jpiter.
       Uma das garotas pareceu chocada.
       -- Percy... Jackson?
       Soou como se ela reconhecesse seu nome. Percy focou nela,
esperando ver um rosto familiar.
        Ela era obviamente uma lder. Vestia um manto roxo majestoso
debaixo da armadura. Seu busto estava decorado com medalhas. Devia ter a
idade de Percy, com olhos escuros perfurantes. E cabelo preto longo. Percy
no a reconheceu, mas a garota o encarou como se o tivesse visto em seus
pesadelos.
       Juno riu com prazer. -- Ah, sim! Vocs vo se divertir muito juntos!
        Ento, s porque o dia j no tinha sido estranho o suficiente, a
senhora comeou a brilhar e mudar de forma. Ela cresceu at virar uma
deusa de dois metros de altura em um vestido azul, com um manto que
parecia pele de bode sobre seus ombros. Seu rosto era severo e espantoso.
Em sua mo estava um cajado com uma flor de ltus no topo.
        Se fosse possvel os campistas parecerem mais pasmos, eles
conseguiram. A garota de manto roxo se ajoelhou. Os outros seguiram a
lder. Uma criana caiu to rpido que quase se cortou com a espada.
       Hazel foi a primeira a falar.
       -- Juno.
        Ela e Frank tambm caram de tornozelos, deixando Percy, o nico
de p. Ele sabia que provavelmente devia se ajoelhar tambm, mas depois de



                                                                        25
ter carregado a senhora para to longe, no sentiu que deveria dar-lhe muito
respeito.
       -- Juno, hein? -- ele disse. -- Se passei no seu teste, posso ter
minha memria e minha vida de volta?
       A deusa sorriu.
        -- Na hora certa, Percy Jackson, se obter sucesso neste
acampamento. Voc foi bem hoje, o que  um bom comeo. Talvez ainda
haja esperana para voc.
       Ela se virou para as outras crianas.
       -- Romanos, apresento-lhes o filho de Netuno. Por meses ele esteve
adormecido, mas agora est despertado. O destino dele est em suas mos. A
Roda da Fortuna se aproxima rapidamente, e a Morte deve ser libertada se
quiserem ter qualquer esperana em batalha. No falhem comigo!
        Juno tremeluziu e desapareceu. Percy olhou para Hazel e Frank para
algum tipo de explicao, mas eles pareciam to confusos quanto ele. Frank
estava segurando algo que Percy no havia notado antes - dois frasquinhos
de argila com rolhas, como poes, um em cada mo. Percy no tinha ideia
de onde vieram, mas viu Frank guard-los no bolso. Frank deu um olhar a
ele como Vamos falar sobre isso depois.
         A garota de manto roxo deu um passo  frente. Ela examinou Percy
cautelosamente e Percy no pde afastar a impresso de que ela queria correr
at ele e atravess-lo com a adaga.
       -- Ento, -- disse friamente -- um filho de Netuno, que veio at ns
com a beno de Juno.
       -- Olha, -- ele disse -- minha memria est um pouco maluca. H,
desapareceu na verdade. Eu te conheo?
       A garota hesitou.
       -- Sou Reyna, pretora da Vigsima Legio. E no, eu no te
conheo.
        Essa ltima parte era mentira. Percy podia dizer pelos olhos dela.
Mas ele tambm entendeu que se discutisse com ela sobre isso ali, na frente
dos soldados, ela poderia no gostar.




                                                                         26
       -- Hazel, -- disse Reyna -- traga-o para dentro. Quero question-lo
na principia9. Ento o mandaremos para Octavian. Devemos consultar os
agouros antes de decidir o que fazer com ele.
       -- O que quer dizer -- Percy perguntou -- com 'decidir o que fazer
comigo'?
       As mos de Reyna tocaram a adaga. Obviamente ela no estava
acostumada a ter suas ordens questionadas.
        -- Antes de aceitar qualquer um no acampamento, devemos
interrog-lo e ler os agouros. Juno disse que seu destino est em nossas
mos. Temos que saber se Juno nos trouxe um novo recruta... -- Reyna
estudou Percy como se achasse um problema. -- Ou -- ela disse mais
esperanosamente -- se nos trouxe um inimigo para matar.




9
    Principia: Edifcio central de um Castrum, ou seja, um Forte Romano.

                                                                           27
                                   III



PERCY NO TINHA MEDO DE FANTASMAS, o que era bom. Metade
das pessoas no acampamento estavam mortas.
        Guerreiros de roxo cintilante estavam parados do lado de fora do
arsenal, polindo espadas fantasmagricas. Outros andavam na frente do
quartel. Um menino fantasma perseguia um cachorro fantasma pela rua. E
nos estbulos, um cara grandalho de brilho vermelho com cabea de um
lobo cuidava de uma manada de... aquilo eram unicrnios?
        Nenhum dos campistas prestava muita ateno nos fantasmas, mas
enquanto a comitiva de Percy caminhava, com Reyna na liderana e Frank e
Hazel de cada lado, todos os espritos pararam o que estavam fazendo e
encararam Percy. Alguns pareceram zangados. O menininho fantasma gritou
algo como greggus! e ficou invisvel.
        Percy tambm queria poder ficar invisvel. Depois de algumas
semanas sozinho, toda aquela ateno o deixava apreensivo. Ele ficou entre
Hazel e Frank e tentou parecer invisvel.
       -- Estou vendo coisas? -- Ele perguntou. -- Ou eles so...
        -- Fantasmas? -- Hazel se virou. Ela tinha olhos assustadores, como
catorze quilates de ouro. -- So lares. Deuses da casa.
       -- Deuses da casa. -- Percy disse. -- Tipo... Menores que os
verdadeiros deuses, mas maiores que os deuses de apartamento?
        -- So espritos ancestrais. -- Frank explicou. Ele havia tirado seu
elmo, revelando um rosto infantil que no combinava com o corte de cabelo
militar ou seu corpo robusto. Ele parecia uma criana que tinha tomado
esterides e entrado para a Marinha. -- Os lares so um tipo de mascotes. --
Ele continuou. -- Na maior parte do tempo eles so inofensivos, mas nunca
os tinha visto to agitados.
        -- Eles esto olhando para mim. -- Percy disse. -- Um fantasma
criana me chamou de greggus. Meu nome no  Greg.



                                                                         28
        -- Graecus. -- Hazel disse. -- Assim que se acostumar em estar
aqui, vai comear a entender latim. Semideuses tem um talento natural para
isso. Graecus significa grego.
        -- Isso  ruim? -- Percy perguntou.
        Frank limpou a garganta.
        -- Talvez no. Voc tem esse tipo de aparncia, o cabelo escuro e
tudo. Talvez eles achem que na verdade voc  grego. Sua famlia  de l?
        -- No fao ideia. Como eu disse, minha memria sumiu.
        -- Ou talvez... -- Frank hesitou.
        -- O qu? -- Percy perguntou.
        -- Acho que nada. -- Frank disse. -- Os romanos e gregos tinham
uma antiga rivalidade. s vezes romanos usam graecus como um insulto
para algum estranho... Um inimigo. No me preocuparia com isso.
        Ele soou bem preocupado.
        Eles pararam no meio do acampamento, onde duas ruas se uniam em
um T. Uma placa rotulava uma rua como via praetoria. A outra rua,
atravessando o meio do acampamento, estava rotulada como via principalis.
Debaixo dos marcadores estavam placas pintadas  mo como BERKELEY
A 8 QUILMETROS; NOVA ROMA A 1,6 QUILMETROS; ROMA
ANTIGA A 11648 QUILMETROS; HADES A 3696 QUILMETROS
(apontando diretamente para baixo); RENO A 332 QUILMETROS, E
MORTE CERTA: VOC EST AQUI!
        Para uma morte certa, o lugar parecia bem limpo e ordenado. Os
prdios eram caiados, arrumados com exagero como se o acampamento
tivesse sido projetado por um professor de matemtica espalhafatoso. Os
quartis tinham varandas sombrias, onde os campistas descansavam em
redes, jogavam cartas e tomavam refrigerante. Cada dormitrio tinha uma
coleo diferente na frente mostrando algarismos romanos e vrios animais
-- guia, urso, lobo, cavalo, e algo que parecia um hamster.
       Junto da Via Praetoria, filas de lojas anunciavam comida, armadura,
armas, caf, equipamentos de gladiador e retalhos de toga. Uma
concessionria de bigas tinha um grande anncio na frente: CAESAR XLS
COM FREIO AUTOMTICO, NENHUM DENRIO10 A MENOS!


10
  O denrio era parte do sistema monetrio romano. Uma pequena moeda de prata
que era a de maior circulao no Imprio.

                                                                            29
        Em um canto da calada estava o prdio mais impressionante --
uma cunha de dois andares, feita de mrmore branco, com prticos de
colunas, como um banco  moda antiga. Guardas romanos estavam em frente
a ele. Em cima da porta, estava um cartaz grande e roxo com letras SPQR11
douradas bordadas dentro de uma coroa de louros.
        -- Seu quartel-general? -- Percy perguntou.
        Reyna olhou para ele, seus olhos ainda frios e hostis.
        --  chamado de principia. -- Ela examinou a plebe de campistas
curiosos que os tinham seguido desde o rio. -- Todos voltem s suas
funes. Darei uma atualizao  vocs na reunio de hoje  noite. Lembre-
se, teremos jogos de guerra depois do jantar.
        O pensamento do jantar fez o estmago de Percy roncar. O aroma de
churrasco do refeitrio deu gua na boca. A padaria no fim da rua tambm
cheirava muito bem, mas ele duvidava que Reyna o liberasse para ir at l.
       A multido se dispersou relutante. Alguns comentaram sobre as
chances de Percy.
        -- Ele est morto. -- Disse um.
        -- Devem ter sido aqueles dois que encontraram ele. -- Disse outro.
       -- . -- Murmurou outro. -- Deixe-o se juntar  Quinta Coorte.
Gregos e geeks.
       Algumas crianas riram disso, mas Reyna fez uma careta para eles,
que sumiram.
       -- Hazel. -- Reyna disse. -- Venha conosco. Quero seu relatrio do
que aconteceu nos portes.
        -- Eu tambm? -- Frank disse. -- Percy salvou minha vida. Temos
que deix-lo...
        Reyna deu a Frank um olhar to severo que ele deu um passo para
trs.
        -- Devo te lembrar, Frank Zhang, -- ela disse -- que voc est no
prprio probatio. Voc tem causado problemas o suficiente essa semana.


11
   SPQR  um acrnimo para a frase latina Senatus Populusque Romanus. A
traduo  "O Senado e o Povo Romano".
A frase era inscrita nos estandartes das legies romanas e era o nome oficial do
Imprio Romano.

                                                                                   30
        As orelhas de Frank ficaram vermelhas. Ele brincava com um
pingente amarrado no pescoo. Percy no tinha prestado muita ateno
naquilo, mas parecia um crach feito de chumbo.
        -- V ao arsenal. Vou te chamar se precisar.
        -- Mas... -- Frank parou. -- Sim, Reyna.
        Ele correu de Reyna, que apontou para Hazel e Percy na direo do
quartel-general.
      -- Agora, Percy Jackson, vamos ver se podemos melhorar sua
memria.


        O principia era mais impressionante por dentro. No teto brilhava um
mosaico de Rmulo e Remo debaixo de sua me loba adotada (Lupa havia
contado essa histria milhes de vezes para Percy). O cho era de mrmore
polido. As paredes estavam envoltas em veludo, ento Percy se sentiu dentro
da tenda de acampamento mais cara do mundo. Ao longo das paredes estava
uma exposio de cartazes e varas de madeira cravadas com medalhas e
bronze  smbolos militares, Percy adivinhou. No centro estava um
mostrurio vazio, como se o cartaz principal tivesse sido retirado para a
limpeza ou algo do tipo.
         No canto, uma escada levava para baixo. Estava bloqueada por uma
fileira de barras de ferro como uma porta de priso. Percy se perguntou o que
havia l em baixo  monstros? Tesouros? Semideuses amnsicos que tinham
conhecido o lado mau de Reyna?
        No centro da sala, uma longa mesa de madeira estava repleta de
pergaminhos, notebooks, tablets, adagas, e uma tigela grande cheia de
jujubas, que parecia estar fora do lugar. Duas esttuas de galgos em tamanho
real  uma prata e uma dourada  ladeavam a mesa. Reyna foi para trs da
mesa e se sentou em uma das duas cadeiras de encosto alto. Percy desejou
poder sentar na outra, mas Hazel ficara de p. Percy teve a sensao que ele
tambm teria que ficar.
        -- Ento... -- ele comeou a dizer.
        As esttuas de cachorro arreganharam os dentes e rosnaram.
        Percy franziu o cenho. Normalmente ele gostava de cachorros, mas
aqueles o encaravam com olhos de rubi. Seus dentes pareciam to afiados
quanto navalhas.
        -- Quietos meninos. -- Reyna disse aos galgos.

                                                                          31
        Eles pararam de rosnar, mas continuaram vendo Percy como se
estivesse imaginando-o em um saco de rao.
       -- Eles no atacaro, -- Reyna disse -- a menos que voc tente
roubar alguma coisa, ou a menos que eu mande. Eles so Argentum e
Aurum.
        -- Prata e Dourado. -- Percy disse. Os significados em latim
apareceram em sua cabea, assim como Hazel havia dito que aconteceria.
Ele quase perguntou qual era qual. Ento percebeu que era uma pergunta
idiota.
        Reyna colocou sua adaga na mesa. Percy teve a vaga sensao que
eles j haviam se visto antes. Seu cabelo era preto e liso como uma pedra
vulcnica, tranado nas costas. Ela tinha a pose de um espadachim 
relaxada, mas ainda assim vigilante, como se pronta para entrar em ao a
qualquer momento. As linhas de preocupao ao redor dos olhos a faziam
parecer mais velha do que provavelmente era.
        -- Devemos nos conhecer. -- ele decidiu. -- No lembro quando.
Por favor, se puder me contar qualquer coisa...
        -- As coisas mais importantes primeiro. -- Reyna disse. -- Quero
ouvir sua histria. Do que voc lembra? Como chegou aqui? E no minta.
Meus cachorros no gostam de mentirosos.
        Argentum e Aurum rosnaram para enfatizar o ponto.
        Percy contou sua histria  como ele havia acordado na manso em
runas nas florestas de Sonoma. Ele descreveu o tempo com Lupa e sua
matilha, aprendendo a linguagem de gestos e expresses, aprendendo a
sobreviver e a lutar.
        Lupa o ensinou sobre os semideuses, monstros e deuses. Ela tinha
explicado que ela era uma dos espritos guardies da Roma Antiga.
Semideuses como Percy ainda eram responsveis por continuar as tradies
romanas nos tempos modernos  lutar com monstros, servir aos deuses,
proteger mortais, e sustentar a memria do imprio. Ela tinha perdido
semanas treinando-o, at ele estar to forte, resistente e perverso quanto um
lobo. Quando ela ficou satisfeita com suas habilidades, mandou-o para o sul,
dizendo que se sobrevivesse na jornada, deveria encontrar uma nova casa e
recuperar sua memria.
      Nada pareceu surpreender Reyna. De fato, ela pareceu achar isso
bem comum  exceto por uma coisa.



                                                                          32
        -- Nenhuma memria? -- ela perguntou. -- Voc no se lembra de
nada ainda?
       -- Partes vagas e peas soltas. -- Percy olhou para os galgos. Ele
no quis mencionar Annabeth. Pareceu muito particular, e ele ainda estava
confuso sobre onde encontr-la. Ele tinha certeza que eles tinham se
conhecido em um acampamento  mas esse no parecia ser o lugar certo.
         Alm disso, ele ficou relutante em compartilhar sua nica memria
clara: o rosto de Annabeth, o cabelo loiro e os olhos cinzentos, o jeito que
ela ria, atirando seus braos ao redor dele, e dando um beijo nele sempre que
fazia algo estpido.
        Ela deve ter me beijado muito, Percy pensou.
       Ele temia que se falasse sobre essa memria para algum, ela
evaporaria como um sonho. Ele no podia arriscar.
        Reyna girou a adaga.
         -- A maior parte do que descreveu  normal para semideuses. At
certa idade, de um jeito ou de outro, encontramos o caminho para a Casa dos
Lobos. Somos testados e treinados. Se Lupa achar que somos dignos, nos
manda para o sul para entrar para a legio. Mas nunca tinha ouvido falar de
algum que perdeu a memria. Como encontrou o Acampamento Jpiter?
        Percy contou a ela sobre seus trs ltimos dias  as grgonas que no
morreriam, a senhora que virou uma deusa, e finalmente quando conheceu
Hazel e Frank no tnel da colina.
        Hazel continuou a histria dali. Ela descreveu Percy como corajoso e
herico, o que o deixou desconfortvel. Tudo o que ele havia feito tinha sido
carregar uma senhora hippie.
        Reyna o estudou.
        -- Voc  velho para um recruta. Tem o qu, dezesseis?
        -- Por a -- Percy respondeu.
         -- Se voc perdeu tantos anos sozinho, sem treino ou ajuda, devia
estar morto. Um filho de Netuno? Voc deveria ter uma aura poderosa que
atrairia todos os tipos de monstros.
        -- . -- Percy disse. -- Fui avisado sobre esse cheiro.
        Reyna quase sorriu para ele, o que deu esperana a Percy. Talvez ela
fosse humana, afinal de contas.



                                                                          33
        -- Voc deve ter ficado em algum lugar antes da Casa dos Lobos. --
Ela disse.
        Percy encolheu os ombros. Juno havia dito alguma coisa sobre ele
estar adormecido, e ele tinha uma sensao vaga que ele tinha ficado mesmo
 talvez por um bom tempo. Mas isso no fazia sentido.
        Reyna suspirou.
       -- Bem, os cachorros no te comeram, ento acho que est falando a
verdade.
        -- timo. -- Percy disse. -- Da prxima vez, posso passar pelo
polgrafo?
       Reyna se levantou. Ela passeou na frente dos cartazes. Seus
cachorros de metal a viam ir e voltar.
        -- Mesmo se eu aceitar que voc no  um inimigo. -- Ela disse. --
Voc no  um recruta comum. A Rainha do Olimpo simplesmente no
aparece no acampamento, anunciando um novo semideus. Da ltima vez que
um deus maior nos visitou em pessoa foi... -- Ela balanou a cabea. -- S
ouvi lendas sobre essas coisas. E um filho de Netuno... no  um bom
pressgio. Especialmente agora.
        -- O que h de errado com Netuno? -- Percy perguntou. -- E o que
quer dizer com especialmente agora?
        Hazel deu a ele um olhar de aviso.
        Reyna continuou passeando.
       -- Voc lutou com as irms da Medusa, que no tem sido vistas h
milhares de anos. Voc agitou nossos Lares, que esto te chamando de
graecus. Voc veste smbolos estranhos  essa camisa, as contas no seu
pescoo. O que querem dizer?
        Percy olhou para sua camiseta laranja esfarrapada. Devia ter tido
palavras alguma vez, mas estavam muito desbotadas para ler. Ele deveria ter
jogado a camisa fora algumas semanas atrs. Estava em pedaos, mas no
conseguia suportar a idia de se livrar disso. S ficou lavando-a em crregos
e fontes de gua da melhor maneira que conseguia e a colocando de volta.
       Quanto ao colar, cada uma das quatro contas de argila estava
decorada com um smbolo diferente. Uma mostrava um tridente. Outra era
uma miniatura do Velocino de Ouro. A terceira estava gravada com o
desenho de um labirinto, e a ltima tinha a imagem de um prdio  talvez o
Empire State Building?  com nomes gravados ao redor que Percy no

                                                                          34
reconheceu. As contas pareciam importantes, como fotos de um lbum de
famlia, mas ele no conseguiu se lembrar do que significavam.
       -- No sei. -- Ele disse.
       -- E sua espada? -- Reyna perguntou.
       Percy checou o bolso. A caneta havia reaparecido como sempre. Ele
pegou-a, mas ento percebeu que nunca tinha mostrado a espada para Reyna.
Nem mesmo Hazel e Frank a tinham visto. Como Reyna sabia sobre ela?
        Tarde demais para fingir que ela no existia... ele destampou a
caneta. Contracorrente apareceu inteira. Hazel ofegou. Os galgos rosnaram
apreensivamente.
        -- O que  isso? -- Hazel perguntou. -- Nunca tinha visto uma
espada assim.
        -- Eu j. -- Reyna disse sombriamente. --  muito antiga... um
modelo grego. Costumvamos ter algumas no arsenal antes de... -- Ela
parou. -- O metal  chamado bronze celestial.  mortal para monstros, como
o ouro imperial, mas muito raro.
       -- Ouro imperial? -- Percy perguntou.
       Reyna desembainhou a adaga. Com certeza a lmina era de ouro.
        -- O metal foi consagrado nos tempos antigos, no Panteo de Roma.
Sua existncia era rigorosamente guardada em segredo dos imperadores 
um jeito de seus campees matarem monstros que ameaavam o imprio.
Costumvamos ter mais armas como essa, mas agora... bem, ns as
riscamos da lista. Eu uso essa adaga. Hazel tem uma spatha, uma espada de
cavalgaria. Mas essa sua arma no  romana, de qualquer modo.  outro
sinal que voc no  um semideus comum. E seu brao...
       -- O que tem? -- Percy perguntou.
        Reyna ergueu seu prprio antebrao. Percy no tinha notado antes,
mas ela tinha uma tatuagem: as letras SPQR, espadas cruzadas e uma tocha,
e debaixo disso, quatro linhas paralelas como cdigos de barra.
       Percy olhou para Hazel.
      -- Todos a temos. -- Ela confirmou, erguendo seu brao. -- Todos
os membros completos da legio tm.
       A tatuagem de Hazel tambm tinha as letras SPQR, Mas ela s tinha
um cdigo de barra, e seu emblema era diferente: um grifo preto como uma
cruz com os braos curvos e uma cabea:

                                                                       35
      Percy olhou para seus prprios braos. Alguns arranhes, lama, e
uma mancha de Crispy Cheese `n' Wiener, mas sem tatuagens.
        -- Ento voc nunca foi um membro da legio. -- Reyna disse. --
Essas marcas no podem ser tiradas. Acho que talvez... -- Ela balanou a
cabea, como se estivesse descartando uma idia.
        Hazel deu um passo  frente.
        -- Se ele sobreviveu sozinho todo esse tempo, talvez tenha visto
Jason. -- Ela se virou para Percy. -- Voc nunca viu um semideus como ns
antes? Um cara de camisa roxa, com marcas no brao...
       -- Hazel. -- A voz de Reyna era firme. -- Percy j tem o bastante
com que se preocupar.
       Percy tocou a ponta de sua espada, e Contracorrente voltou para a
forma de caneta.
        -- Nunca vi ningum como vocs antes. Quem  Jason?
        Reyna deu um olhar irritado para Hazel.
         -- Ele ... era meu colega. -- Ela apontou para a segunda cadeira
vazia. -- A legio normalmente tem dois pretores12 eleitos. Jason Grace,
filho de Jpiter, era nosso outro pretor at desaparecer em Outubro.
        Percy tentou calcular. Ele no prestou muita ateno no calendrio
no deserto, mas Juno tinha mencionado que agora era Junho.
       -- Quer dizer que ele j se foi h oito meses, e vocs no o
encontraram?
        -- Ele pode no estar morto. -- Hazel disse. -- No vamos desistir.
        Reyna fez uma careta. Percy teve a impresso que esse Jason devia
ser mais que s um colega.
        -- As eleies s acontecem de duas maneiras. -- Reyna disse. --
Ou a legio coloca algum como um escudo depois de uma grande batalha 



12
  Pretor (em latim Prtor) era um cargo associado  carreira poltica na Roma
Antiga. Havia vrios tipos de pretores, entre eles o "pretor urbano", que cuidavam da
cidade de Roma, e o "'pretor peregrino", que cuidava da zona rural e da relao com
as comunidades estrangeiras.

                                                                                  36
e no tivemos nenhuma grande batalha  ou temos uma votao na noite de
24 de Junho, na Festa da Fortuna. Que ser em cinco dias.
        Percy franziu o cenho.
        -- Vocs tm uma festa para tuna13?
       -- Fortuna. -- Hazel corrigiu. -- Ela  a deusa da sorte. O que quer
que acontea no dia da festa pode afetar o resto do ano. Ela pode conceder
ao acampamento boa sorte... ou muita m sorte.
       Reyna e Hazel olharam para a cadeira vazia, como se estivessem
pensando no que estava faltando.
        Um arrepio trouxe Percy de volta.
        -- Uma Festa da Fortuna... As grgonas falaram disso. E depois
Juno. Eles disseram que o acampamento seria atacado nesse dia, alguma
coisa de uma deusa malvadona chamada Gaia, e um exrcito, e a Morte
sendo libertada. Est me dizendo que esse dia  nessa semana?
        Os dedos de Reyna apertaram o punho da adaga.
       -- Voc no vai falar nada sobre isso fora desta sala. -- Ela
ordenou. -- No quero voc espalhando mais pnico nesse acampamento.
      -- Ento  verdade. -- Percy disse. -- Sabe o que vai acontecer?
Podemos parar isso?
        Percy tinha acabado de conhecer aquelas pessoas. Ele nem tinha
certeza se gostava de Reyna. Mas queria ajudar. Eles eram semideuses, o
mesmo que ele. Tinham os mesmos inimigos. Alm disso, Percy se lembrou
do que Juno tinha dito a ele: no era s o acampamento que estava em risco.
Sua antiga vida, os deuses, e o mundo inteiro seriam destrudos. O que quer
que esteja vindo, era enorme.
        -- J conversamos o suficiente por enquanto. -- Reyna disse. --
Hazel, leve-o ao Templo do Morro. Encontre Octavian. No caminho pode
responder as perguntas de Percy. Fale sobre a legio para ele.
        -- Sim, Reyna.
        Percy ainda tinha muitas perguntas, parecia que seu crebro iria
derreter. Mas Reyna deixou bem claro que a audincia havia acabado. Ela
embainhou a adaga. Os cachorros de metal se levantaram e rosnaram,
avanando lentamente na direo de Percy.

13
  Em ingls tuna significa Atum, Percy confunde as palavras, mas no faz muito
sentido traduzido.

                                                                                 37
       -- Boa sorte com o agouro, Percy Jackson. -- ela disse. -- Se
Octavian te deixar viver, talvez possamos comparar as notas... sobre seu
passado.




                                                                     38
                                     IV



NO CAMINHO PARA FORA DO ACAMPAMENTO, Hazel comprou
um caf expresso e um bolinho de cereja de Bombilo, o vendedor de caf de
duas cabeas.
         Percy devorou o bolinho. O caf estava timo. Agora, Percy pensou,
se ele pudesse tomar um banho, trocar de roupa e dormir um pouco, ele
estaria ouro. Talvez at ouro imperial.
        Ele viu um grupo de crianas de trajes de banho e toalhas na cabea
em um prdio que tinha vapor saindo de uma carreira de chamins. Risos e
sons de gua ecoavam de dentro, como uma piscina interna -- o tipo de
lugar que Percy adorava.
        -- Casa de Banho -- Hazel disse. -- Vamos te levar para l depois
do jantar, espero. Voc no viveu at ter tido um banho romano.
        Percy suspirou exasperado.
       Enquanto se aproximavam do porto da frente, os quartis ficavam
maiores e mais bonitos. At os fantasmas pareciam melhores -- com
armaduras mais extravagantes e auras mais brilhantes. Percy tentou decifrar
os smbolos nos cartazes suspensos nas frentes dos prdios.
        -- Vocs so divididos em chals diferentes? -- ele perguntou.
        -- Mais ou menos -- Hazel se abaixou como uma criana montada
em uma guia gigante mergulhando. --Temos cinco Coortes14 de quarenta
crianas cada. Cada Coorte  dividida em quartis de dez -- como, tipo
colegas de quarto.
        Percy nunca foi bom em matemtica, mas tentou multiplicar.
        -- Est me dizendo que tem duzentas crianas nesse acampamento?
        -- Por a.


14
  Coortes  o nome de uma forma romana de diviso dos exrcitos. Uma ala de um
exrcito.

                                                                            39
       -- E todas elas so filhas de deuses? Os deuses tm ficado
ocupados.
       Hazel riu.
        -- Nem todas elas so filhas de deuses maiores. Centenas so de
deuses romanos menores. Alm disso, muitos dos campistas so legados --
segunda ou terceira gerao. Talvez seus pais tenham sido semideuses. Ou
seus avs.
       Percy piscou.
       -- Filhos de semideuses?
       -- Por qu? Isso te deixa surpreso?
        Percy no tinha certeza. Nas ltimas semanas ele esteve to
preocupado com sobreviver dia a dia. A ideia de viver o bastante para ser um
adulto e ter filhos -- isso parecia um sonho impossvel.
       -- Esses legad...
       -- Legados -- Hazel corrigiu.
       -- Eles tm poderes como um semideus?
        -- s vezes sim. s vezes no. Mas podem ser treinados. Os
maiores generais e imperadores romanos -- sabe, todos eles foram
reclamados como descendentes dos deuses. Na maior parte do tempo
estavam falando a verdade. O adivinho do acampamento que vamos
conhecer, Octavian,  um legado, descendente de Apolo. Ele tem o dom da
profecia, supostamente.
       -- Supostamente?
       Hazel fez uma cara azeda.
       -- Voc ver.
       Isso no fez Percy se sentir melhor, se esse Octavian tinha o destino
de Percy nas mos.
         -- Ento, essas divises -- ele perguntou -- as Coortes, sei l o
qu... vocs foram divididos de acordo com seu parentesco divino?
       Hazel o encarou.
        -- Que ideia terrvel! No, os oficiais decidem onde colocar os
recrutas. Se fossemos divididos de acordo com o deus, as Coortes seriam
todas desiguais. Eu ficaria sozinha.


                                                                         40
        Percy sentiu uma pontada de tristeza, como se ele estivesse nessa
situao.
          -- Por qu? Qual  seu ancestral?
          Antes de poder responder, algum atrs deles gritou:
          -- Espere!
        Um fantasma correu na direo dela -- um senhor com um
medicamento no estmago e uma toga to longa que ficava tropeando nela.
Ele os alcanou e recuperou o flego, sua aura roxa tremendo a seu redor.
          --  ele? -- o fantasma apontou. -- Um novo recruta para a Quinta,
talvez?
          -- Vitellius -- Hazel disse -- estamos meio com pressa.
        O fantasma fez uma careta para Percy e caminhou ao redor dele,
inspecionando-o como um carro usado.
        -- No sei -- ele grunhiu. -- S precisamos do melhor para a
Coorte. Ele tem todos os dentes? Consegue lutar? Ele limpa os estbulos?
          -- Sim, sim e no -- Percy disse. -- Quem  voc?
        -- Percy, esse  Vitellius -- a expresso de Hazel disse: Somente
faa a vontade dele. -- Ele  um de nossos lares, tem um interesse em novos
recrutas.
         Na varanda prxima, outros fantasmas riram enquanto Vitellius ia e
vinha, tropeava na toga e passava por cima do cinto da espada.
        --  -- Vitellius disse -- nos dias de Csar -- Jlio Csar, lembre-
se -- a Quinta Coorte tinha alguma coisa! Vigsima Legio Fulminata,
orgulho de Roma! Mas nesses dias? A vergonha veio a ns. Olhe para Hazel,
usando uma spatha. Arma ridcula para uma legionria romana --  para
cavalaria! E voc, garoto -- voc cheira como um cano de esgoto grego.
No tem tomado banho?
          -- Estive meio ocupado lutando com grgonas -- Percy disse.
        -- Vitellius -- Hazel interrompeu -- temos que ler os agouros de
Percy antes de ele poder entrar. Por que no vai ver Frank? Ele est no
arsenal checando o inventrio. Sabe quanto ele valoriza sua ajuda.
          As sobrancelhas peludas e roxas do fantasma se ergueram.
      -- Marte Todo-Poderoso! Eles deixaram o probatio checar o
armamento? Seremos arruinados!


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        Ele saiu cambaleando pela rua, parando sempre a alguns metros para
pegar sua espada ou arrumar sua toga.
        -- Ceeeeerto -- Percy disse.
        -- Desculpe -- Hazel disse. -- Ele  excntrico, mas  um dos lares
mais velhos. Est por aqui desde que a legio foi fundada.
        -- Ele chamou a legio de... Fulminata? -- Percy disse.
         -- Armada do Relmpago -- Hazel traduziu. --  nosso lema. A
Vigsima Legio participou do Imprio Romano inteiro. Quando Roma caiu,
vrias legies desapareceram. Fomos para o subterrneo, agindo sob ordens
secretas do prprio Jpiter: ainda vivo, recrutando semideuses e seus filhos,
mantendo Roma. E foi assim desde ento, se mudando para onde quer que a
influncia romana estivesse mais forte. Nos ltimos sculos, estivemos na
Amrica.
         Mesmo soando bizarro, Percy no teve problemas em acreditar. De
fato, soou familiar, como algo que ele sempre soube.
        -- E voc  da Quinta Coorte -- ele adivinhou, -- que talvez no
seja a mais popular?
        Hazel fez uma careta.
        -- . Entrei em Setembro.
        -- Ento... algumas semanas antes desse Jason desaparecer.
        Percy sabia que tinha acertado o ponto sensvel. Hazel olhou para
baixo. Ela ficou em silncio o bastante para contar cada pedra do pavimento.
        -- Vamos l -- ela disse finalmente. -- Vou te mostrar minha vista
favorita.


        Eles pararam do lado de fora das portas principais. A fortaleza
estava localizada no ponto mais alto do vale, ento podiam ver tudo muito
bem.
        A rua levava para o rio e se dividia. Uma levava para o sul
atravessando uma ponte que levava  colina com todos os templos. A outra
levava ao norte para uma cidade em verso miniatura da Roma Antiga.
Diferente do acampamento militar, a cidade parecia catica e colorida, com
prdios abarrotados de ngulos casuais. Mesmo daquela distncia Percy
podia ver as pessoas reunidas na praa, compradores circulando pelo
mercado ao ar livre, pais com crianas nos parques.

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           -- Vocs tm famlias aqui? -- ele perguntou.
        -- Na cidade,  claro que sim -- Hazel disse. -- Quando se  aceito
na legio, voc tem dez anos de servio para prestar. Depois disso, voc
pode ir para onde quiser. A maioria dos semideuses vai para o mundo
mortal. Mas para alguns -- bem,  muito perigoso sair daqui. O vale  um
santurio. Voc pode ir ao colgio na cidade, se casar, ter filhos, se aposentar
quando ficar velho.  o nico lugar seguro na Terra para pessoas como ns.
Ento, , vrios veteranos fazem suas casas ali, sob proteo da legio.
        Semideuses adultos. Semideuses que podem viver sem medo, se
casar, montar uma famlia. A mente de Percy no conseguia acreditar nisso.
Parecia bom demais pra ser verdade.
           -- Mas e se o vale for atacado?
           Hazel apertou os lbios.
       -- Temos defesas. As fronteiras so mgicas. Mas nossa fora no 
o que costumava ser. Recentemente, os ataques de monstros vm
aumentando. O que voc disse sobre as grgonas no morrerem...
percebemos isso tambm, com outros monstros.
           -- Sabe o que est causando isso?
        Hazel olhou ao longe. Percy sabia que ela estava escondendo algo --
algo que no era para ela dizer.
           -- ...  complicado -- ela disse. -- Meu irmo disse que a Morte
no ...
           Ela foi interrompida por um elefante.
           Algum atrs dele gritou:
           -- Abram caminho!
        Hazel arrastou Percy para fora da estrada enquanto um semideus
passava montado em um paquiderme adulto coberto em armadura Kevlar15
preta. A palavra elefante estava gravada do lado da armadura, o que parecia
meio bvio para Percy.


15
  Kevlar  uma marca registrada da DuPont para uma fibra sinttica de aramida
muito resistente e leve. Trata-se de um polmero resistente ao calor e sete vezes mais
resistente que o ao por unidade de peso. O kevlar  usado na fabricao de cintos de
segurana, cordas, construes aeronuticas, velas, coletes  prova de bala, linha de
pesca, na fabricao de alguns modelos de raquetes de tnis e para fitas de alguns
modelos de pedal de bumbo.

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        O elefante estrondeou na estrada e se virou para o norte, indo em
direo a um grande campo aberto onde algumas fortificaes estavam sob
construo.
          Percy cuspiu o p da boca.
          -- O que o...?
          -- Elefante -- Hazel explicou.
       -- , eu li a placa. Por que vocs tm um elefante em um colete 
prova de balas?
        -- Jogos de guerra hoje  noite -- Hazel disse. -- Esse  Hannibal.
Se no o incluir, ele fica triste.
          -- O que no podemos permitir.
        Hazel riu. Era difcil acreditar que ela estava to melanclica h
pouco tempo atrs. Percy se perguntou sobre o qu ela estava prestes a falar.
Ela tinha um irmo. Mesmo assim ela havia dito que estaria sozinha se o
acampamento a classificasse por seu parente divino. Percy no conseguia
imaginar. Ela parecia uma pessoa boa e legal, madura para algum que no
podia ter mais que treze anos. Mas ela tambm parecia estar escondendo
uma tristeza profunda, como se sentisse culpada por alguma coisa.
       Hazel apontou para o sul, do outro lado do rio. Nuvens escuras
estavam se juntando no Templo da Colina. Clares vermelhos de relmpago
lavavam os monumentos em luz cor de sangue.
          -- Octavian est ocupado -- Hazel disse. --  melhor chegarmos l.


      No caminho eles passaram por alguns caras com pernas de bode
perambulando do lado da estrada.
          -- Hazel! -- um deles gritou.
        Ele trotou com um sorriso largo no rosto. Vestia uma camisa
havaiana desbotada e nada de calas exceto o pelo amarronzado de bode.
Seu enorme cabelo afro balanava. Seus olhos estavam escondidos por baixo
dos culos cor de arco-ris. Ele segurava um cartaz de papelo que dizia
VOU TRABALHAR CAMINHANDO E CANTANDO embora por
denrios16.
          -- Oi, Don -- Hazel disse. -- Desculpa, no temos tempo...

16
     Denrio: Antiga moeda romana.

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        -- Ah, que legal! Que legal! -- Don trotou junto deles. -- Ei, esse
cara  novato! -- Ele apontou para Percy. -- Voc tem trs denrios para o
nibus? Porque deixei minha carteira em casa, e tenho que trabalhar, e...
        -- Don -- Hazel censurou. -- Faunos no tm carteiras. Ou
trabalhos. Ou casas. E ns no temos nibus.
        -- T legal -- ele disse alegremente -- mas voc tem denrios?
        -- Seu nome  Don, o Fauno? -- Percy perguntou.
        -- . Ento?
       -- Nada -- Percy tentou manter a cara de srio. -- Por que faunos
no tm trabalho? Eles no deviam trabalhar para o acampamento?
        Don bufou.
        -- Faunos! Trabalharem para o acampamento! Hilrio!
       -- Faunos so, hm, espritos livres -- Hazel explicou. -- Eles
aparecem por aqui porque, bem,  um lugar seguro para aparecer e mendigar.
        -- Ah, a Hazel  incrvel! -- Don disse. -- Ela  to legal! Todos os
outros campistas so tipo, `v embora, Don'. Mas ela  tipo `por favor v
embora, Don'. Eu adoro ela!
       O fauno pareceu contente, mas Percy ainda o achava fora de lugar.
No pde tirar a impresso de que faunos deviam ser mais que mendigos
pedindo denrios.
        Don olhou para o cho na frente deles e engasgou. -- Ah!
        Ele estendeu a mo para alguma coisa, mas Hazel gritou:
        -- Don, no!
        Ela o tirou do caminho e pegou um pequeno objeto reluzente. Percy
o viu de relance antes de Hazel o jogar no bolso. Ele podia jurar que era um
diamante.
       -- Qual , Hazel -- Don reclamou. -- Eu poderia comprar
rosquinhas por um ano com isso!
        -- Don, por favor -- Hazel disse. -- V embora.
       Ela soou abalada, como se tivesse acabado de salvar Don do peso de
um elefante  prova de balas.
        O fauno suspirou.



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       -- Ah, no consigo ficar bravo com voc. Mas eu juro,  como se
voc desse boa sorte. Toda vez que voc caminha por...
          -- At logo, Don -- Hazel disse rapidamente. -- Vamos, Percy.
          Ela comeou a correr. Percy teve de correr para acompanh-la.
         -- O que foi aquilo? -- Percy perguntou. -- O diamante na
estrada...
          -- Por favor -- ela disse. -- No pergunte.
        Eles andaram em silncio pelo resto do caminho para o Templo da
Colina. Um caminho de pedra torto levava a uma variedade maluca de
pequenos altares e grandes abbadas. As esttuas dos deuses pareciam seguir
Percy com os olhos. Hazel apontou para o Templo de Belona.
          -- Deusa da guerra -- ela disse. --  a me de Reyna.
        Ento eles passaram por uma cripta vermelha macia decorada com
caveiras humanas e estacas de ferro.
          -- Por favor, no me diga que vamos entrar a -- Percy disse.
          Hazel balanou a cabea.
          -- Esse  o Templo de Marte Ultor.
          -- Marte... Ares, o deus da guerra?
        -- Esse  seu nome grego -- Hazel disse. -- Mas , o mesmo cara.
Ultor significa o Vingador. Ele  o segundo deus mais importante de Roma.
        Percy no ficou empolgado em ouvir isso. Por alguma razo, s de
olhar para aquele prdio vermelho feio o fazia ficar furioso.
         Ele apontou para o topo. Nuvens giravam em volta do templo maior,
um pavilho redondo com um anel de colunas brancas suportando um
telhado.
       -- Esse deve ser de Zeus -- h, quer dizer, de Jpiter?  para onde
estamos indo?
      --  -- Hazel soou irritada. -- Octavian l os agouros ali -- o
Templo de Jpiter, o Optimus Maximus.
          Percy teve que pensar nisso, mas as palavras em latim trincaram no
ingls.
          -- Jpiter... o melhor e maior?
          -- Certo.

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        -- Qual o ttulo de Netuno? -- Percy perguntou. -- O mais legal e
mais incrvel?
        -- H, nem tanto -- Hazel apontou para um prediozinho azul do
tamanho de um barraco de ferramentas. Um tridente coberto de teia de
aranha pendia acima da porta.
        Percy espiou l dentro. Em um pequeno altar estava uma tigela com
trs mas secas mofadas.
        Seu corao afundou.
        -- Lugar popular.
        -- Me desculpe, Percy -- Hazel disse --  que... os romanos
sempre tiveram medo do mar. S usavam navios quando precisavam mesmo.
Mesmo nos tempos modernos, ter um filho de Netuno por a quase sempre
era um mau pressgio. Na ltima vez que um se juntou  legio... bem isso
foi em 1906 quando o Acampamento Jpiter era localizado do outro lado da
Baa de So Francisco. Houve esse enorme terremoto...
        -- Est me dizendo que um filho de Netuno causou isso?
          --  o que dizem -- Hazel olhou se desculpando. -- De qualquer
jeito... Os romanos respeitam Netuno, mas no o adoram tanto.
        Percy olhou para as teias no tridente. timo, ele pensou. Mesmo se
ele entrasse para o acampamento, ele nunca seria amado. A melhor
esperana era assustar seus novos colegas de acampamento. Talvez se ele
assustasse bem, eles o dessem algumas mas mofadas.
        Mesmo assim... de p no altar de Netuno, ele sentiu alguma coisa
agitando dentro dele, como ondas ondulando por suas veias. Ele tirou o
ltimo pedao de comida de seu passeio da mochila -- uma rosquinha velha.
No era muito, mas colocou-a no altar.
        -- Ei... h, pai -- ele se sentiu bem idiota falando com uma tigela de
frutas. -- Se puder me ouvir, me ajuda, est bem? Devolva minha memria.
Me diga... me diga o que fazer.
        Sua voz vacilou. Ele no queria ser emocional, mas estava exausto e
assustado, e esteve perdido por tanto tempo, ele daria qualquer coisa para
alguma orientao, Ele queria saber algo sobre sua vida, sem agarrar
memrias ausentes.
        Hazel colocou a mo em seu ombro.
        -- Vai ficar tudo bem. Est aqui agora. Voc  um de ns.


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       Ele se sentiu estranho, dependendo de uma garota da oitava srie que
ele mal conhecia para se consolar, mas estava feliz que ela estivesse ali.
Acima deles, um trovo retumbou. Uma luz avermelhada preencheu a colina.
       -- Octavian est quase acabando -- Hazel disse. -- Vamos l.


        Comparado ao galpo de ferramentas de Netuno, o templo de Jpiter
era definitivamente optimus e maximus.
        O cho de mrmore estava repleto de mosaicos extravagantes e
inscries em latim. Cento e dez metros acima, o teto de ouro brilhava. O
templo inteiro era ao ar livre. No centro ficava um altar de mrmore, onde
um garoto em uma toga estava fazendo algum tipo de ritual na frente de uma
esttua gigante do prprio grandalho: Jpiter, o deus do cu, vestido em
uma toga prpura tamanho XXXL, segurando um raio.
       -- No parece ele -- Percy murmurou.
       -- O qu? -- Hazel perguntou.
       -- O raio-mestre -- Percy disse.
       -- Do que voc t falando?
       -- Eu... -- Percy franziu o cenho. Por um segundo achou ter
lembrado de alguma coisa. Depois se foi. -- Nada, eu acho.
        O garoto no altar ergueu os braos. Mais luz avermelhada iluminou
o cu, sacudindo o templo. Ento abaixou os braos, e as trovoadas pararam.
As nuvens viraram de cinza para branco e se desfizeram.
        Um truque muito impressionante, considerando que o garoto no
parecia to impressionante. Ele era alto e magro, com cabelo cor de palha,
jeans maior que o tamanho, uma camiseta larga e toga caindo. Ele parecia
um espantalho vestindo um lenol.
       -- O que ele est fazendo? -- Percy murmurou.
       O cara na toga se virou. Ele tinha um sorriso torto e um brilho
maluco nos olhos, como se estivesse jogando videogame intensamente. Em
uma mo segurava uma faca. Na outra alguma coisa parecida com um
animal morto. O que no o fazia parecer menos maluco.
       -- Percy -- Hazel disse. -- esse  Octavian.
       -- O graecus! -- Octavian anunciou. -- Que interessante.
       -- H, oi -- Percy disse. -- Voc est matando animaizinhos?


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       Octavian olhou para a coisa fuzilada na mo e riu.
        -- No, no. Nos tempos antigos, sim. Costumvamos ler a vontade
dos deuses examinando as tripas do animal -- galinhas, bodes, esse tipo de
coisa. Hoje em dia, usamos isso.
      Ele passou a coisa mutilada para Percy. Era um ursinho de pelcia
destripado. Ento Percy notou que havia uma pilha de animais de pelcia
mutilados no p da esttua de Jpiter.
        -- Srio? -- Percy perguntou.
        Octavian desceu da plataforma. Ele provavelmente tinha dezoito
anos, mas to magro e doentiamente plido, poderia se passar por mais novo.
Primeiro ele pareceu inofensivo, mas quando chegou mais perto, Percy no
teve tanta certeza. Os olhos de Octavian brilhavam com uma curiosidade
chocante, como se devesse destripar Percy to facilmente quanto um ursinho
e se aprenderia algo com isso.
        Octavian estreitou os olhos.
        -- Voc parece nervoso.
        -- Voc me lembra algum -- Percy disse. -- No lembro quem.
       -- Provavelmente meu homnimo, Octavian -- Augusto Csar.
Todos dizem que tenho uma notvel semelhana.
        Percy no achava que fosse isso, mas no pde fechar a memria.
        -- Voc me chamou de o grego?
        -- Vi isso nos agouros. -- Octavian apontou a faca para a pilha de
estofados no altar. -- A mensagem dizia O grego voltou. Ou provavelmente
o ganso chorou. Acho que a primeira interpretao  a correta. Quer entrar
na legio?
       Hazel falou por ele. Ela disse a Octavian tudo o que tinha acontecido
desde quando se conheceram no tnel -- as grgonas, a luta no rio, o
aparecimento de Juno, a conversa com Reyna.
        Quando ela mencionou Juno, Octavian pareceu surpreso.
        -- Juno -- ele refletiu. -- A chamamos de Juno Moneta. Juno a
Informadora. Ela aparece em tempos de crise, para aconselhar Roma sobre
grandes ameaas.
       Ele olhou para Percy, como se dissesse: como gregos misteriosos,
por exemplo.


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        -- Ouvi que a Festa da Fortuna  nessa semana -- Percy disse. --
As grgonas avisaram que haveria uma invaso nesse dia. Voc viu isso no
seu estofamento?
         -- Infelizmente no. -- Octavian suspirou. -- A vontade dos deuses
est difcil de discernir. E nesses dias, minha viso est realmente escura.
        -- Vocs no tm... sei l -- Percy disse -- um orculo ou algo do
tipo?
         -- Um orculo! -- Octavian sorriu. -- Que ideia fofinha. No,
receio que estamos com orculos em falta. Agora, se formos questionar os
livros sibilinos, como recomendei...
        -- Os livros sibioqu? -- Percy perguntou.
        -- Livros de profecia -- Hazel disse -- que Octavian  obcecado.
Os romanos costumavam consult-los quando desastres aconteciam. A
maioria acredita que eles foram queimados quando Roma caiu.
        -- Alguns acreditam nisso -- Octavian corrigiu. -- Infelizmente
nossa liderana atual no vai autorizar uma busca para procurar por eles...
        -- Porque Reyna no  idiota -- Hazel disse.
       -- ...ento s temos alguns trechos que restaram dos livros --
Octavian continuou. -- Algumas predies misteriosas, como essa.
        Ele apontou com o queixo para as inscries no cho de mrmore.
Percy encarou as linhas de palavras, esperando no entend-las. Ele quase
ficou chocado.
        -- Essa. -- Ele apontou, traduzindo enquanto lia em voz alta:


        Sete meios-sangues respondero ao chamado.
        Em tempestade ou fogo, o mundo ter acabado...


        -- , . -- Octavian terminou sem olhar:


        Um juramento a manter com um alento final,
        E inimigos com armas s Portas da Morte afinal.




                                                                         50
       -- Eu... eu conheo essa. -- Percy pensou que o trovo estava
sacudindo o templo de novo. Ento percebeu que seu corpo inteiro estava
tremendo. --  importante.
       Octavian arqueou a sobrancelha.
       -- Claro que  importante. Ns a chamamos de Profecia dos Sete,
mas tem milhares de anos. No sabemos o que significa. Toda vez que
algum tenta interpret-la... Bem, Hazel pode te contar. Coisas ruins
acontecem.
       Hazel olhou para ele.
       -- S leia o agouro para Percy. Ele pode entrar para a legio ou no?
        Percy quase podia ver a mente de Octavian trabalhando, calculando
ou no se Percy seria til. Ele ergueu a mo para a mochila de Percy.
       -- Que espcime bonito. Posso?
        Percy no entendeu o que ele quis dizer, mas Octavian arrancou o
travesseiro de panda do Bargain Mart que estava no topo da bolsa. Ele tinha
uma bela afeio por ele. Octavian se virou na direo do altar e ergueu a
faca.
       -- Ei! -- Percy protestou.
         Octavian cortou a barriga do panda e derramou a espuma no altar.
Ele atirou a carcaa do panda para o lado, murmurou algumas palavras sobre
a espuma e se virou com um grande sorriso no rosto.
        -- Boas notcias! -- ele disse. -- Percy pode entrar para a legio.
Vamos nome-lo em uma Coorte no jantar de hoje  noite. Diga a Reyna que
eu aprovo.
       Os ombros de Hazel relaxaram.
       -- H... timo. Vamos, Percy.
        -- Ah, e Hazel -- Octavian disse. -- Estou feliz em dar as boas-
vindas a Percy na legio. Mas quando as eleies para pretor chegarem,
espero que se lembre...
        -- Jason no est morto -- Hazel respondeu. -- Voc  o agoureiro.
Era para estar procurando por ele!
         -- Ah, eu estou! -- Octavian apontou para a pilha de animais de
pelcia destripados. -- Consulto os deuses todo dia! Ai de mim, depois de
oito meses no achei nada. Claro, ainda estou procurando. Mas se Jason no
voltar at a Festa da Fortuna, precisamos agir. No podemos ter um vazio no

                                                                         51
poder por muito tempo. Espero que voc me apie como pretor. Significaria
muito para mim.
           Hazel cerrou os punhos.
           -- Eu. Apoiar. Voc?
        Octavian tirou a toga, colocando ela e a faca no altar. Percy notou
sete linhas no brao de Octavian -- sete anos de acampamento, Percy
adivinhou. A marca de Octavian era uma harpa, o smbolo de Apolo
        -- Afinal de contas -- Octavian disse a Hazel -- devo conseguir te
ajudar. Seria um desperdcio se aqueles rumores terrveis sobre voc
ficassem circulando... ou, que os deuses probam, se eles virassem realidade.
        Percy colocou a mo no bolso e agarrou a caneta. O cara estava
chantageando Hazel. Estava na cara. Um sinal de Hazel, e Percy estava
pronto para acionar Contracorrente e ver como Octavian gostaria de estar do
outro lado de uma lmina.
           Hazel respirou profundamente. Seus dedos estavam brancos.
           -- Vou pensar sobre isso.
           -- Excelente -- Octavian disso. -- Falando nisso, seu irmo est
aqui.
           Hazel enrijeceu.
           -- Meu irmo? Por qu?
           Octavian encolheu os ombros.
        -- Por que seu irmo faz alguma coisa? Ele est te esperando no
santurio do seu pai. S... ah, no convide ele para ficar por muito tempo.
Ele tem um efeito perturbador nos outros. Agora, se me der licena, tenho
que continuar procurando pelo nosso pobre amigo perdido, Jason. Prazer em
conhec-lo, Percy.
       Hazel saiu correndo do pavilho, e Percy a seguiu. Ele tinha certeza
que nunca esteve to satisfeito em sair de um templo em toda sua vida.


        Enquanto Hazel descia a colina, ela amaldioava em latim. Percy
no entendeu tudo, mas ele pegou filho de uma grgona, cobra sedenta de
poder, e algumas sugestes de onde Octavian podia enfiar sua faca.
           -- Odeio esse cara -- ela murmurou em ingls. -- Se tivesse um
jeito...


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       -- Ele no vai se eleger para pretor mesmo, vai? -- Percy
perguntou.
        -- Queria poder ter certeza. Octavian tem um monte de amigos, a
maioria deles comprados. O resto dos campistas tem medo dele.
        -- Tem medo de um carinha magrelo?
        -- No o subestime. Reyna no  to ruim, mas se Octavian
compartilhar seu poder... -- Hazel tremeu. -- Vamos ver meu irmo. Ele vai
querer te conhecer.
        Percy no discutiu. Ele queria conhecer esse irmo misterioso, talvez
descobrir algo sobre Hazel -- quem era seu pai, que segredo ela estava
escondendo. Percy no podia acreditar que ela tinha feito alguma coisa para
ser culpada. Ela parecia to legal. Mas Octavian tinha agido como se
soubesse de alguma coisa de primeira sobre ela.
         Hazel levou Percy para dentro de uma cripta preta ao lado da colina.
De p na frente dela estava um adolescente em jeans preto e jaqueta de
aviador.
        -- Ei -- Hazel chamou. -- Te trouxe um amigo.
        O garoto se virou. Percy teve outro daqueles flashes estranhos: como
se fosse algum que ele devesse conhecer. O garoto era quase to plido
quanto Octavian, mas com olhos escuros e cabelo preto bagunado. Ele no
se parecia com Hazel. Ele usava um anel de caveira de prata, um cinto de
corrente e uma camisa preta com desenho de caveira. Do seu lado pendia
uma espada preta.
       Por um microssegundo quando viu Percy, o garoto pareceu chocado
-- em pnico, como se tivesse sido pego por um holofote.
        -- Esse  Percy Jackson -- Hazel disse. -- Ele  um cara legal.
Percy, esse  meu irmo, o filho de Pluto.
        O garoto recuperou a compostura e levantou a mo.
        -- Prazer em conhec-lo -- ele disse. -- Sou Nico di Angelo.




                                                                          53
                                      V



HAZEL SE SENTIU COMO SE TIVESSEM ACABADO DE
PLANTAR duas bombas nucleares. Agora ela estava esperando para ver
qual delas explodiria primeiro.
       At aquela manh, seu irmo Nico tinha sido o semideus mais
poderoso que ela havia conhecido. Os outros no Acampamento Jpiter o
viam como um viajante excntrico, to inofensivo quanto os faunos. Hazel
sabia melhor. Ela no tinha crescido com Nico, sequer o tinha conhecido por
muito tempo. Mas ela sabia que Nico era mais perigoso que Reyna, ou
Octavian, ou talvez at mesmo Jason.
        E ento ela conheceu Percy.
        No incio, quando ela o viu tropeando pela estrada com a velha
senhora em seus braos, Hazel tinha pensado que ele poderia ser um deus
disfarado. Mesmo que ele estivesse espancado, sujo e encurvado de
exausto, ele tinha uma urea de poder. Ele tinha a boa aparncia de um deus
romano, com olhos verde-mar e cabelos pretos soprados ao vento.
        Ela ordenou que Frank no disparasse nele. Ela pensou que os
deuses poderiam estar testando-os. Ela tinha ouvido mitos como esse: um
garoto com uma velha senhora pede por abrigo, e quando os rudes mortais
recusam -- boom, eles so transformados em lesmas banana.
        Ento Percy havia controlado o rio e destrudo as grgonas. Ele tinha
transformado uma caneta em uma espada de bronze. Ele havia despertado
todo o acampamento com a conversa sobre os graecus.
        Um filho do deus do mar...
        H muito tempo, havia sido dito a Hazel que um descendente de
Netuno iria salv-la. Mas poderia Percy realmente tirar a maldio dela?
Parecia demais para esperar.
       Percy e Nico apertaram as mos. Eles estudaram um ao outro
cuidadosamente, e Hazel lutou contra o impulso de correr. Se aqueles dois
batessem as espadas mgicas, as coisas poderiam ficar feias.


                                                                          54
       Nico no aparentava medo. Ele estava magro e desleixado em suas
roupas pretas amarrotadas. Seu cabelo, como sempre, parecia que ele tinha
acabado de sair da cama.
        Hazel se lembrava de quando ela o havia conhecido. A primeira vez
que ela o tinha visto desembainhar aquela espada, ela quase riu. A maneira
como ele a chamou de "Ferro estgio", todo com-jeito-de-srio -- ele parecia
ridculo. Este garoto magrelo e branco no era um lutador. Ela certamente
no tinha acreditado que eles estavam relacionados.
       Ela havia mudado de ideia sobre isso bem rpido.
        Percy fez uma careta. -- Eu... Eu conheo voc.
       Nico ergueu as sobrancelhas: -- Voc conhece? -- Ele olhou para
Hazel por uma explicao.
        Hazel hesitou. Alguma coisa sobre a reao de seu irmo no estava
certa. Ele estava se esforando para agir casualmente, mas quando ele havia
visto Percy pela primeira vez, Hazel tinha notado seu olhar momentneo de
pnico. Nico j conhecia Percy. Ela tinha certeza disso. Por que ele estava
fingindo o contrrio?
        Hazel forou-se a falar. -- Hm... Percy perdeu sua memria. -- Ela
contou ao seu irmo o que tinha acontecido desde que Percy havia chegado
aos portes.
       -- Ento, Nico... -- ela continuou cuidadosamente, -- Eu pensei...
voc sabe, voc viaja por toda parte. Talvez voc tenha conhecido
semideuses como Percy antes, ou...
        A expresso de Nico ficou to escura quanto o Trtaro. Hazel no
entendia o por qu, mas ela entendeu a mensagem: desista.
        -- Essa histria sobre o exrcito de Gaia, -- Nico disse. --Voc
avisou Reyna?
       Percy assentiu. -- Quem  Gaia, afinal?
        A boca de Hazel ficou seca. S de ouvir esse nome... Tudo o que ela
podia fazer era impedir que seus joelhos se encurvassem. Ela se lembrou de
uma suave voz adormecida de mulher, um caverna brilhante, e sentindo seus
pulmes se encherem de leo negro.
        -- Ela  a deusa da terra. -- Nico olhou para o cho como se ela
pudesse estar ouvindo. -- A deusa mais antiga de todos. Ela est em um
sono profundo na maior parte do tempo, mas ela odeia os deuses e seus
filhos.

                                                                         55
         -- A Me-Terra...  m? -- Percy perguntou.
          -- Muito, -- Nico disse gravemente. -- Ela convenceu seu filho, o
Tit Cronos - hum, quero dizer, Saturno - a matar seu pai, Urano, e dominar
o mundo. Os Tits governaram por um longo tempo. E ento os filhos dos
Tits, os deuses do Olimpo, os derrubaram.
         -- Essa histria parece familiar, -- Percy pareceu surpreso, como
se uma antiga memria tivesse vindo parcialmente  tona. -- Mas eu no
acho que j tenha ouvido a parte sobre Gaia.
          Nico deu de ombros. -- Ela ficou louca quando os deuses
assumiram. Ela tomou um novo marido, Trtaro, o esprito do abismo, e deu
 luz a uma raa de gigantes. Eles tentaram destruir o Monte Olimpo, mas os
deuses finalmente os venceram. Pelo menos... na primeira vez.
         -- A primeira vez? -- Percy repetiu.
          Nico olhou para Hazel. Ele provavelmente no queria faz-la
sentir-se culpada, mas ela no podia evitar isso. Se Percy soubesse a verdade
sobre ela, e as coisas horrveis que ela havia feito...
          -- No vero passado, -- Nico continuou, -- Saturno tentou
retornar. Houve uma segunda Guerra Tit. Os romanos no Acampamento
Jpiter atacaram violentamente seu quartel-general no Monte tris, do outro
lado da baa, e destruram seu trono. Saturno desapareceu... -- Ele hesitou,
observando o rosto de Percy. Hazel ficou com a impresso de que seu irmo
estava nervoso pelo que mais da memria de Percy poderia voltar.
          -- Hm, de qualquer forma, -- Nico continuou, -- Saturno
provavelmente sumiu de volta para o abismo. Todos ns achvamos que a
guerra estava acabada. Agora parece que a derrota dos Tits despertou Gaia.
Ela est comeando a acordar. Eu tenho ouvido relatos de gigantes
renascendo. Se eles pretendem desafiar os deuses de novo, eles
provavelmente vo comear por destruir os semideuses...
         -- Voc disse isso  Reyna? -- Percy perguntou.
         --  claro. -- A boca de Nico se retesou. -- Os romanos no
confiam em mim.  por isso que eu estava esperando que ela ouvisse voc.
Filhos de Pluto... bem, sem ofensa, mas eles acham que somos piores at
mesmo do que filhos de Netuno. Ns somos m sorte.
         -- Eles deixaram que Hazel ficasse aqui, -- Percy observou.
         -- Isso  diferente, -- Nico disse.
         -- Por qu?

                                                                          56
         -- Percy, -- Hazel interveio, -- olha, os gigantes no so o pior
problema. At mesmo... mesmo Gaia no  o pior problema. A coisa que
voc disse sobre as grgonas, como elas no morreram, esse  o nosso maior
problema. -- Ela olhou para Nico. Ela estava ficando perigosamente perto
de seu prprio segredo agora, mas por alguma razo Hazel confiava em
Percy. Talvez porque ele tambm era um forasteiro, talvez porque ele tinha
salvado Frank no rio. Ele merecia saber o que eles estavam enfrentando.
          -- Nico e eu, -- ela disse cuidadosamente, -- pensamos que o que
est acontecendo  que... a Morte no est...
         Antes que ela pudesse terminar, um grito veio colina abaixo.
          Frank correu na direo deles, vestindo sua cala jeans, camiseta
roxa do acampamento, e jaqueta de brim. Suas mos estavam cobertas com
graxa de limpar armas.
          Como toda vez que ela via Frank, o corao de Hazel saltou uma
batida e realizou um pouco de sapateado -- o que realmente a irritava.
Claro, ele era um bom amigo -- uma das nicas pessoas no acampamento
que no a tratava como se ela tivesse uma doena contagiosa. Mas ela no
gostava dele dessa maneira.
         Ele era trs anos mais velho do que ela, e ele no era exatamente
um Prncipe Encantado, com essa combinao estranha de rosto de beb e
corpo macio de lutador de luta-livre. Ele parecia um coala fofinho com
msculos. O fato de que todo mundo sempre tentou junt-los -- os dois
maiores perdedores no acampamento! Vocs so perfeitos um para o outro
-- apenas fazia Hazel mais determinada a no gostar dele.
        Mas seu corao no agia como planejado. Ele ficava louco sempre
que Frank estava por perto. Ela no tinha se sentido assim desde... Bem,
desde Sammy.
          Pare com isso, ela pensou. Voc est aqui por uma razo -- e no 
para arranjar um novo namorado.
          Alm disso, Frank no sabia de seu segredo. Se ele soubesse, ele
no seria to legal com ela.
         Ele chegou ao santurio. -- Hey, Nico...
          -- Frank. -- Nico sorriu. Ele parecia achar Frank engraado,
talvez porque Frank fosse o nico no acampamento que no era apreensivo
perto dos filhos de Pluto.
         -- Reyna me enviou para buscar Percy, -- Frank disse. --
Octavian aceitou voc?

                                                                         57
         -- Sim, -- Percy disse. -- Ele trucidou meu panda.
          -- Ele... Oh. O pressgio? Sim, ursos de pelcia devem ter
pesadelos com aquele cara. Mas voc est dentro! Precisamos deix-lo limpo
antes da reunio noturna.
        Hazel percebeu que o sol estava ficando baixo sobre as colinas.
Como o dia havia passado to rpido?
         -- Voc est certo, -- ela disse. --  melhor que ns...
         -- Frank, -- Nico interrompeu, -- por que voc no leva Percy
para baixo? Hazel e eu alcanaremos vocs logo.
         Uh-Oh, Hazel pensou. Ela tentou no parecer ansiosa.
          -- Essa ... essa  uma boa ideia, -- ela conseguiu dizer. -- Vo
na frente, pessoal. Ns vamos alcan-los.
          Percy olhou para Nico mais uma vez, como se ele ainda estivesse
tentando reconhecer uma memria.
           -- Eu gostaria de falar com voc um pouco mais. No posso
afastar a sensao de...
         -- Claro, -- Nico concordou. -- Mais tarde. Eu vou ficar durante a
noite.
         -- Voc vai? -- Hazel disse abruptamente. Os campistas estavam
amando isso - o filho de Netuno e o filho de Pluto chegando no mesmo dia.
Agora tudo o que eles precisavam era de mais alguns gatos pretos e espelhos
quebrados.
         -- V em frente, Percy, -- Nico disse. -- Acomode-se. -- Ele se
virou para Hazel, e ela teve a sensao de que a pior parte do dia ainda
estava por vir. -- Minha irm e eu precisamos conversar.


         -- Voc o conhece, no ? -- Hazel disse.
         Eles se sentaram no telhado do Santurio de Pluto, que era
coberto de ossos e diamantes. Tanto quanto Hazel sabia, os ossos sempre
estiveram ali. Os diamantes eram culpa dela. Se ela se sentasse em qualquer
lugar por muito tempo, ou apenas ficasse ansiosa, eles comeariam a
aparecer ao seu redor como cogumelos depois de uma chuva. Vrios milhes
de dlares de pedras brilhavam no telhado, mas felizmente os outros
campistas no tocariam neles. Eles sabiam mais do que roubar templos --
especialmente o de Pluto -- e os faunos nunca viriam aqui em cima.

                                                                        58
         Hazel estremeceu, lembrando sua chamada prxima de Don
naquela tarde. Se ela no tivesse se movido rapidamente e apanhado aquele
diamante da estrada... ela no queria pensar nisso. Ela no precisava de outra
morte em sua conscincia.
         Nico balanou seus ps como uma criana pequena. Sua espada de
ferro estgio estava ao seu lado, prxima  spatha17 de Hazel. Ele
contemplou o vale, onde equipes de construo estavam trabalhando no
Campo de Marte, construindo fortificaes para os jogos desta noite.
          -- Percy Jackson. -- Ele disse o nome como um encantamento. --
Hazel, eu tenho que ser cuidadoso com o que eu digo. Coisas importantes
esto em jogo aqui. Alguns segredos precisam permanecer em segredo. Voc
de todas as pessoas -- deve entender isso.
           As bochechas de Hazel ficaram quentes. -- Mas ele no  como...
como eu?
         -- No, -- Nico disse. -- Sinto muito, eu no posso te contar
mais. No posso interferir. Percy tem que encontrar seu prprio caminho
neste acampamento.
           -- Ele  perigoso? -- Ela perguntou.
         Nico conseguiu dar um sorriso seco. -- Muito. Para seus inimigos.
Mas ele no  uma ameaa para o Acampamento Jpiter. Voc pode confiar
nele.
           -- Como eu confio em voc, -- Hazel disse amargamente.
          Nico torceu seu anel de caveira. Ao seu redor, ossos comearam a
tremer como se estivessem tentando formar um novo esqueleto. Sempre que
ele ficava mal-humorado, Nico tinha esse efeito na morte, uma espcie de
maldio como a de Hazel. Entre eles, representavam duas esferas de
controle de Pluto: morte e riquezas. s vezes Hazel pensava que Nico tinha
conseguido a melhor parte.
         -- Olha, eu sei que  difcil, -- Nico disse. -- Mas voc tem uma
segunda chance. Voc pode fazer as coisas de maneira certa.
         -- Nada sobre isso  certo, -- Hazel disse. -- Se eles descobrirem
a verdade sobre mim...




17
  A spatha era um tipo de espada reta, medindo entre 0,75 e 1m, usado no territrio
do imprio romano.

                                                                                 59
         -- Eles no vo, -- Nico prometeu. -- Eles vo ser chamados para
uma misso em breve. Eles tm que ser chamados. Voc vai me deixar
orgulhoso, Bi...
         Ele se conteve, mas Hazel sabia do que ele quase a havia chamado:
Bianca. A verdadeira irm de Nico -- aquela que havia crescido com ele.
Nico poderia se preocupar com Hazel, mas ela nunca seria Bianca. Hazel era
simplesmente a coisa mais prxima que Nico poderia conseguir -- um
prmio de consolao do Mundo Inferior.
         -- Sinto muito, -- ele disse.
         A boca de Hazel ficou com gosto de metal, como se pepitas de
ouro fossem aparecendo debaixo de sua lngua. -- Ento  verdade sobre a
Morte?  culpa de Alcioneu?
          -- Acho que sim, -- Nico disse. -- Est ficando ruim no Mundo
Inferior. Papai est enlouquecendo tentando manter as coisas sob controle.
Pelo que Percy disse sobre as grgonas, as coisas esto piorando at aqui,
tambm. Mas olha,  por isso que voc est aqui. Todas essas coisas no seu
passado -- Voc pode fazer algo bom sair disso. Voc pertence ao
Acampamento Jpiter.
          Isso soou um tanto ridculo, Hazel quase riu. Ela no pertencia a
esse lugar. Ela nem pertencia  esse sculo.
          Ela deveria ter sabido melhor do que focar no passado, mas ela se
lembrava do dia em que sua antiga vida havia sido destruda. A escurido a
atingiu to de repente, ela nem mesmo teve tempo de dizer, Oh-oh. Ela
voltou no tempo. No um sonho ou uma viso. A memria veio sobre ela
com uma clareza perfeita, ela sentiu que estava verdadeiramente ali.
         No seu aniversrio mais recente. Ela havia apenas feito 13. Mas
no dezembro passado -- em 17 de dezembro de 1941, o ltimo dia que ela
viveu em Nova Orleans.




                                                                        60
                                   VI



HAZEL ESTAVA CAMINHANDO PARA CASA SOZINHA pelos
estbulos. Apesar da noite fria, ela estava vibrando de calor. Sammy tinha
apenas a beijado na bochecha.
       O dia tinha sido cheio de altos e baixos. Crianas na escola
brincavam com ela sobre sua me, chamando-a de bruxa e um monte de
outros nomes. Isso vinha acontecendo h muito tempo,  claro, mas foi
piorando. Boatos foram se espalhando sobre maldio de Hazel. A escola era
chamada Academia St. Agnes para Crianas de Cor e Indgenas, um nome
que no tinha mudado em cem anos. Assim como seu nome, o lugar
mascarava um monte de crueldade sob um fino verniz de bondade.
        Hazel no entendia como outras crianas negras poderiam ser to
ms. Elas deveriam ter se conhecido melhor, j que elas mesmos tinham que
aturar xingamentos. Mas eles gritaram com ela e roubaram seu almoo,
sempre pedindo aquelas jias famosas:
        -- Onde esto os diamantes amaldioados, menina? Me d um
pouco ou vou te machucar! -- Eles empurravam-na na fonte de gua, e
atiravam pedras se ela tentasse abord-los no parque infantil.
        Apesar do quanto eles eram horrveis, Hazel nunca lhes deu
diamantes ou ouro. Ela no odiava ningum tanto assim. Alm disso, ela
tinha um amigo, Sammy, e isso era o suficiente.
        Sammy gostava de brincar que ele era o perfeito estudante de St.
Agnes. Ele era mexicano-americano, de modo que ele se considerava de cor
e indgena.
       -- Eles deveriam me dar uma bolsa dupla, -- dizia ele.
        Ele no era grande ou forte, mas ele tinha um sorriso louco e fazia
Hazel rir.
       Naquela tarde ele levou-a para os estbulos, onde trabalhava como
um cavalario. Era um clube de equitao para "brancos apenas",  claro,
mas era fechado em dias de semana, e com a guerra, falava-se que o clube
poderia ter que desligar-se completamente at que os japoneses fossem

                                                                        61
chicoteados e os soldados voltassem para casa. Sammy podia geralmente se
esgueirar para ajudar Hazel a cuidar dos cavalos. De vez em quando eles iam
cavalgando.
         Hazel amava cavalos. Eles pareciam ser os nicos seres vivos que
no tinham medo dela. Pessoas a odiavam. Gatos sibilavam. Ces rosnavam.
Mesmo os estpidos hamsters da sala de aula da senhorita Finley
guinchavam de terror quando ela lhes dava uma cenoura. Mas os cavalos no
se importavam. Quando ela estava na sela, ela podia andar to rpido que
no havia nenhuma possibilidade de pedras preciosas surgirem em seu
rastro. Ela quase sentia-se livre de sua maldio.


        Naquela tarde, ela tinha tirado um garanho alazo castanho lindo
com uma juba negra. Ela galopou para o campo to rapidamente que ela
deixou Sammy para trs. No momento que eles emparelharam, ele e seu
cavalo estavam ambos sem flego.
        -- Do que voc est correndo? -- Ele riu. -- Eu no sou to feio,
sou?
        Estava frio demais para um piquenique, mas eles fizeram um de
qualquer maneira, sentados sob uma rvore de magnlia com os cavalos
amarrados a uma cerca de diviso ferroviria. Sammy trouxe-lhe um bolinho
com uma vela de aniversrio, que tinha ficado esmagado no passeio, mas
ainda era a coisa mais doce que Hazel j tinha visto. Eles cortaram ao meio e
compartilharam.
        Sammy falou sobre a guerra. Ele desejava que tivessem idade
suficiente para ir. Ele perguntou a Hazel se ela iria escrever-lhe cartas se ele
fosse um soldado indo para o exterior.
        --  Claro, estpido, -- disse ela.
       Ele sorriu. Ento, como se movido por um impulso repentino, ele
cambaleou para a frente e a beijou na bochecha.
        --Feliz aniversrio, Hazel.
        No era muito. Apenas um beijo, e nem mesmo nos lbios. Mas
Hazel sentia como se estivesse flutuando. Ela mal se lembrava da cavalgada
de volta para os estbulos, ou de dizer adeus  Sammy.
        Ele disse:
        -- Vejo voc amanh, -- como sempre fazia. Mas ela nunca mais o
veria novamente.

                                                                             62
        No momento em que ela voltou para o Bairro Francs, estava
ficando escuro. Enquanto ela se aproximava de casa, sua sensao de calor
desapareceu, substituda pelo pavor.
        Hazel e sua me, a rainha Marie, como ela gostava de ser chamada,
viviam em um velho apartamento em cima de um clube de jazz. Apesar do
incio da guerra, havia um clima festivo no ar. Novos recrutas perambulavam
pelas ruas, rindo e falando de combater os japoneses. Eles fariam tatuagens
nas salas de estar ou se declarariam para seus amores nas caladas. Alguns
poderiam subir para a me de Hazel ler sua sorte ou comprar encantos de
Marie Levesque, a famosa rainha grisgris18.
        -- Voc ouviu? -- Um dizia. -- Duas moedas por este amuleto de
boa sorte. Eu o levei para um cara que eu conheo, e ele disse que  uma
pepita de prata verdadeira. Vale vinte dlares! Aquela mulher vodu  louca!
        Por um tempo, esse tipo de conversa trouxe para Rainha Marie um
monte de negcios. A maldio de Hazel tinha comeado lentamente. No
incio parecia uma bno. As pedras preciosas e o ouro s apareciam de vez
em quando, e nunca em grandes quantidades. Rainha Marie pagou suas
contas. Eles comiam bife no jantar uma vez por semana. Hazel at arranjou
um vestido novo. Mas, ento, histrias comearam a se espalhar. Os
moradores comearam a perceber quantas coisas horrveis aconteciam com
as pessoas que compravam os encantos de boa sorte ou foram pagos com o
tesouro da Rainha Marie. Charlie Gasceaux perdeu o brao em uma
colheitadeira enquanto usava um bracelete de ouro. Sr. Henry da loja geral
caiu morto de um ataque cardaco depois de rainha Marie fixar um rubi em
sua lapela.
         Pessoas comearam a sussurrar sobre Hazel, de como ela podia
encontrar jias amaldioadas ao caminhar pela rua. Nestes dias apenas
forasteiros vinham visitar sua me, e no muitos deles, tambm. A me de
Hazel havia se tornado temperamental. Ela dava a Hazel olhares ressentidos.
        Hazel subiu as escadas o mais silenciosamente que pde, no caso de
sua me ter um cliente. No andar de baixo do clube, a banda estava afinando
seus instrumentos. A padaria ao lado tinha comeado a fazer beignets 19 para
a manh seguinte, enchendo as escadas com o cheiro de manteiga
derretendo. Quando ela chegou ao topo, Hazel pensou ter ouvido duas vozes
dentro do apartamento. Mas quando ela espiou na sala, sua me estava

18
   Gris-gris  um amuleto usado por negros africanos. Acho que como a me de
Hazel era uma espcie de mstica, a chamavam por este nome.
19
   Beignet  uma massa, parecida com Donuts, polvilhada com acar de confeiteiro,
s vezes com recheio.

                                                                               63
sentada sozinha na mesa de sesso, os olhos fechados, como se estivesse em
transe. Hazel a tinha visto dessa forma, muitas vezes, fingindo falar com
espritos para seus clientes, mas nunca quando ela estava sozinha. A Rainha
Marie havia sempre dito a Hazel que seu gris-gris era "bobeira e falso". Ela
realmente no acreditava em amuletos ou adivinhao ou fantasmas. Ela era
apenas uma artista, como um cantor ou uma atriz, fazendo um show por
dinheiro.
        Mas Hazel sabia que sua me acreditava em alguma mgica. A
maldio de Hazel no era bobagem. Rainha Marie s no queria pensar que
era culpa dela, que de alguma forma ela tinha feito Hazel da forma como ela
era.
         --Foi seu maldito pai, -- Rainha Marie resmungava em seu estado
de esprito mais negro. -- Ao vir aqui em sua fantasia prateada e terno preto.
A nica vez que eu realmente invoquei um esprito, e o que eu ganho? Ele
satisfez o meu desejo e arruinou minha vida. Eu deveria ter sido uma rainha
real. A culpa  dele se voc saiu desta forma.
       Ela nunca pode explicar o que ela queria dizer, e Hazel havia
aprendido a no perguntar sobre seu pai. Isso apenas irritava mais sua me.
        Enquanto Hazel observava, Rainha Marie murmurou algo para si
mesma. Seu rosto estava calmo e relaxado. Hazel ficou impressionada com o
quo bela ela parecia, sem sua carranca e os vincos em sua testa. Ela tinha
uma juba exuberante de ouro marrom, cabelo como o de Hazel, e a mesma
pele escura, marrom como um gro de caf torrado. Ela no estava usando as
vestes cor de aafro extravagantes ou pulseiras de ouro que ela usava para
impressionar clientes, apenas um simples vestido branco. Ainda assim, ela
tinha um ar majestoso, sentando-se em linha reta e com dignidade na sua
cadeira dourada, como se ela realmente fosse uma rainha.
        -- Voc estar segura aqui, -- ela murmurou. -- Longe dos deuses.
        Hazel abafou um grito. A voz que vinha da boca de sua me no era
dela. Parecia uma mulher mais velha. O tom era suave e calmante, mas
tambm de comando, como um hipnotizador dando ordens.
        Rainha Marie ficou tensa. Ela fez uma careta durante seu transe, e
ento falou com sua voz normal:
        -- muito longe. Muito frio. Muito perigoso. Ele me disse que no.
        A outra voz respondeu:
      -- O que ele j fez por voc? Ele lhe deu uma criana envenenada!
Mas podemos usar seu dom para o bem. Podemos contra-atacar os deuses.

                                                                           64
Voc estar sob minha proteo, no norte, longe do domnio dos deuses. Eu
vou fazer meu filho seu protetor. Voc vai viver como uma rainha, afinal.
        Rainha Marie estremeceu.
        -- Mas e quanto a Hazel...
        Em seguida, o rosto se contorceu em um sorriso de escrnio. Ambas
as vozes falaram em unssono, como se tivessem encontrado alguma coisa
para concordar:
        --Uma criana envenenada.
        Hazel fugiu descendo as escadas, seu pulso acelerou.
       No final, ela correu para um homem de terno escuro. Ele segurou os
ombros dela com fortes dedos frios.
        -- Calma, criana. -- disse o homem.
         Hazel notou o anel com uma caveira de prata em seu dedo, ento o
tecido estranho de seu terno. Nas sombras, a l preta slida parecia mudar e
ferver, formando imagens de rostos em agonia, como se as almas perdidas
estivessem tentando escapar das dobras de sua roupa.
        A gravata era negra com listras de platina. Sua camisa era cinza
lpide. Seu rosto -- o corao de Hazel quase saltou de sua garganta. Sua
pele era to branca que parecia quase azul, como o leite frio. Ele tinha uma
ponta de cabelo preto gorduroso. Seu sorriso era gentil o suficiente, mas seus
olhos estavam inflamados e irritados, cheios de poder louco. Hazel tinha
visto aquele olhar nos noticirios do cinema. Este homem parecia
terrvelmente com Adolf Hitler. Ele no tinha bigode, mas de outra forma ele
poderia ter sido gmeo de Hitler, ou seu pai.
       Hazel tentou se afastar. Mesmo quando o homem a soltou, ela no
conseguiu se mover. Seus olhos congelaram-na no lugar.
        -- Hazel Levesque, -- ele disse em uma voz melanclica. -- Voc
cresceu.
        Hazel comeou a tremer. Na base das escadas, o cimento rachado
inclinou sob os ps do homem. Uma pedra brilhante apareceu do concreto
como se a terra cuspisse uma semente de melancia. O homem olhou para a
pedra, sem surpresa. Ele se abaixou.
        -- No!-- Hazel chorou. -- amaldioado!
       Ele pegou a pedra, uma esmeralda perfeitamente formada. -- Sim, .
Mas no para mim. To bonito... vale mais do que este edifcio, eu imagino.

                                                                           65
-- Ele escorregou a esmeralda para seu bolso. -- Sinto muito pelo seu
destino, criana. Eu imagino que voc me odeie.
       Hazel no entendeu. O homem parecia triste, como se ele fosse
pessoalmente responsvel por sua vida. Ento veio a verdade: um esprito
em prata e preto, que tinha cumprido desejos de sua me e arruinou sua vida.
        Seus olhos se arregalaram. -- Voc? Voc  meu...
         Ele colocou a mo sob o queixo. --Eu sou Pluto. A vida nunca 
fcil para os meus filhos, mas voc tem um fardo especial. Agora que voc
tem treze anos, devemos tomar providncias.
        Ela empurrou a mo dele.
        -- Voc fez isso comigo? -- Ela exigiu -- Voc amaldioou a mim
e a minha me? Voc nos deixou sozinhas?
        Seus olhos ardiam com as lgrimas. Este homem branco rico em um
terno fino era seu pai? Agora que ela tinha treze anos, ele apareceu pela
primeira vez e dizendo que estava arrependido?
        -- Voc  mau! -- Ela gritou. -- Voc arruinou nossas vidas!
       Os olhos de Pluto se estreitaram. -- O que sua me lhe disse,
Hazel? Ela nunca explicou seu desejo? Ou disse porque voc nasceu sob
uma maldio?
        Hazel estava zangada demais para falar, mas Pluto parecia ler as
respostas em seu rosto.
        -- No... -- Ele suspirou. -- Eu suponho que ela no disse. Muito
mais fcil me culpar.
        -- O que voc quer dizer?
        Pluto suspirou. -- Pobre criana Voc nasceu muito cedo. Eu no
posso ver claramente o seu futuro, mas um dia voc vai encontrar o seu
lugar. Um descendente de Netuno vai lavar a sua maldio e lhe dar paz.
Receio, porm, que no seja por muitos anos...
       Hazel no acompanhou nada disso. Antes que ela pudesse responder,
Pluto estendeu a mo. Um bloco de notas e uma caixa de lpis de cor
apareceu na palma de sua mo.
        -- Eu entendo que voc gosta de arte e equitao, -- disse ele. --
Estes so para a sua arte. J para o cavalo... -- Seus olhos brilharam. -- Isso,
voc ter que lidar sozinha. Agora eu preciso falar com sua me. Feliz
aniversrio, Hazel.

                                                                             66
        Ele se virou e subiu as escadas -- assim, como se tivesse riscado
Hazel fora de sua lista de "coisas para fazer" e j tivesse esquecido dela.
Feliz aniversrio. V fazer um desenho. Vejo voc em outros treze anos.
        Ela estava to atordoada, to irritada, to de cabea para baixo e
confusa que ela s ficou paralisada na base da escadaria. Ela queria jogar
fora o lpis de cor e pisar em cima deles. Ela queria acusar Pluto e depois
chut-lo. Ela queria fugir, encontrar Sammy, roubar um cavalo, sair da
cidade e nunca mais voltar. Mas ela no fez nenhuma dessas coisas.
        Acima dela, a porta do apartamento abriu, e Pluto entrou.
        Hazel ainda estava tremendo de frio por causa de seu toque, mas ela
subiu as escadas para ver o que ele faria. O que ele diria para Rainha Marie?
Quem iria falar, a me de Hazel, ou aquela voz horrvel?
        Quando ela chegou  porta, Hazel ouviu uma discusso. Ela espiou
para dentro.
       Sua me parecia ter voltado ao normal, gritando e com raiva,
jogando coisas ao redor do salo enquanto Pluto tentava argumentar com
ela.
       -- Marie,  insanidade, -- disse ele. -- Voc vai estar muito alm
do meu poder para proteg-la.
       --Me proteger?-- Rainha Marie gritou. -- Quando voc me
protegeu?
        O Terno escuro de Pluto brilhava, como se as almas presas no
tecido estivessem ficando agitadas.
        -- Voc no tem idia, -- disse ele. --Eu mantive voc viva, voc e
a criana. Meus inimigos esto por toda parte, entre deuses e homens. Agora,
com a guerra  frente, s vai piorar. Voc deve ficar onde eu possa...
       -- A polcia acha que eu sou uma assassina! -- Rainha Marie gritou.
--Meus clientes querem me enforcar como uma bruxa! E Hazel, sua
maldio est piorando. Sua proteo est nos matando.
        Pluto estendeu as mos num gesto de splica. -- Marie, por favor...
       --No! -- Rainha Marie virou-se para o armrio, tirou uma valise
de couro, e atirou-a sobre a mesa. -- Estamos saindo, -- ela anunciou. --
Voc pode manter sua proteo. Estamos indo para o norte.
        -- Marie,  uma armadilha, -- alertou Pluto. -- Quem est
sussurrando em seu ouvido, quem est voltando-a contra mim...


                                                                          67
        -- Voc me virou contra voc! -- Ela pegou um vaso de porcelana e
jogou nele. Ele quebrou no cho, e pedras preciosas derramado em todos os
lugares - esmeraldas, rubis, diamantes. A coleo inteira de Hazel.
        -- Voc no vai sobreviver, -- disse Pluto. -- Se voc for para o
norte, voc vai morrer. Posso prever isso claramente.
       -- Saia! -- Disse.
        Hazel desejou que Pluto ficasse e argumentasse. O que quer que
seja que sua me estava falando, Hazel no gostou. Mas o pai dela mexeu a
sua mo atravs do ar e se dissolveu em sombras... como se ele realmente
fosse um esprito.
        Rainha Marie fechou os olhos. Ela respirou fundo. Hazel ficou com
medo de que a voz estranha pudesse possu-la novamente. Mas ela falou, e
era ela mesma.
       --Hazel, -- ela retrucou, -- saia de trs dessa porta.
        Tremendo, Hazel obedeceu. Ela apertou o bloco de notas e os lpis
coloridos contra o seu peito.
        Sua me estudou-a como se ela fosse uma amarga decepo. Uma
criana envenenada, as vozes tinham dito.
       -- Faa as malas, -- ela ordenou. -- Estamos nos mudando.
       -- On-onde? -- Hazel perguntou.
       -- Alaska, -- respondeu a rainha Marie. -- Voc vai se tornar til.
Ns vamos comear uma nova vida.
        A forma como a me dela disse isso, soou como se estivessem indo
para criar uma "nova vida" para algum ou alguma outra coisa.
       -- O que Pluto quis dizer? -- Hazel perguntou. -- Ele  realmente
meu pai? Ele disse que voc fez um desejo...
       -- V para o seu quarto! -- Sua me gritou. -- Faa as malas!
       Hazel fugiu, e de repente ela foi arrancada do passado.


       Nico estava balanando seus ombros. -- Voc fez de novo.
         Hazel piscou. Eles ainda estavam sentados no teto do santurio de
Pluto. O sol estava baixo no cu. Mais diamantes tinham aparecido ao seu
redor, e seus olhos ardiam de tanto chorar.
       -- S-sinto muito, -- ela murmurou.
                                                                       68
       -- No sinta, -- disse Nico. --Onde voc estava?
       -- No apartamento da minha me. No dia em que nos mudamos.
        Nico concordou. Ele entendia a sua histria melhor do que a maioria
das pessoas. Ele tambm era um garoto da dcada de 1940. Ele tinha nascido
poucos anos aps Hazel, e tinha sido trancado em um hotel de magia por
dcadas. Mas o passado de Hazel foi muito pior do que o de Nico. Ela
causou tantos danos e misria...
        -- Voc tem que trabalhar em controlar essas memrias, -- Nico
advertiu. -- Se um flashback como esse acontecer quando voc estiver em
combate...
       -- Eu sei, -- disse ela. -- Estou tentando.
         Nico apertou a mo dela. -- Est tudo bem. Eu acho que  um efeito
colateral de... voc sabe, o seu tempo no Mundo Inferior. Esperanosamente
isso vai ficar mais fcil.
        Hazel no tinha tanta certeza. Depois de oito meses, os apages
pareciam estar ficando piores, como se sua alma estivesse tentando viver em
dois diferentes perodos de tempo de uma vez. Ningum jamais voltou dos
mortos, antes, pelo menos, no que ela saiba. Nico estava tentando
tranquiliz-la, mas nenhum deles sabia o que iria acontecer.
         -- Eu no posso ir para o norte novamente, -- disse Hazel. -- Nico,
se eu tiver que voltar para onde tudo isso aconteceu...
        -- Voc vai ficar bem, -- ele prometeu. -- Voc vai ter amigos
neste tempo. Percy Jackson, ele tem um papel a desempenhar nesse
processo. Voc pode sentir, no pode? Ele  uma boa pessoa para se ter ao
lado.
       Hazel se lembrou do que Pluto lhe disse h muito tempo: Um
descendente de Netuno vai lavar a sua maldio e te dar paz.
        Seria Percy? Talvez, mas Hazel sentiu que no seria to fcil. Ela
no tinha certeza se mesmo Percy poderia sobreviver ao que estava
esperando no norte.
      -- De onde ele veio? -- Ela perguntou. -- Por que os fantasmas o
chamam de grego?
        Antes que Nico pudesse responder, cornetas sopraram do outro lado
do rio. Os legionrios se aglomeraram para a reunio da noite.
        --  melhor ir at l, -- disse Nico. -- Eu tenho a sensao que os
jogos de guerra de hoje a noite vo ser interessantes.

                                                                         69
                                     VII



NO CAMINHO DE VOLTA, HAZEL TROPEOU EM UMA BARRA
DE OURO.
    Ela sabia que no deveria correr to rpido, mas estava com medo de
chegar atrasada  revista das tropas. A Quinta Coorte tinha os centuries20
mais legais do acampamento. Mas at mesmo eles teriam que puni-la se
chegasse tarde. Punies romanas eram severas: esfregar as ruas com uma
escova de dente, limpar o curral dos touros no coliseu, ser costurado dentro
de um saco cheio de doninhas furiosas e emborcado no Pequeno Tibre -- as
opes no eram nada agradveis.
     A barra de ouro surgiu do cho e ela bateu com o p. Nico tentou peg-
la, mas ela caiu e ralou as mos.
     -- Voc est bem? -- Nico ficou de joelhos e tentou pegar a barra.
     -- No! -- Hazel advertiu.
    Nico congelou. -- Certo. Desculpe.  s que... nossa. Aquela coisa 
enorme -- Ele puxou um frasco de nctar do bolso de sua jaqueta de aviador
e derramou um pouco nas mos de Hazel. Imediatamente os cortes
comearam a se curar. -- Consegue ficar de p?
    Ele a ajudou a se levantar. Os dois fitaram o ouro. Era do tamanho de
um po, gravado com um nmero de srie e as palavras "Tesouro dos EUA".
     Nico balanou a cabea. -- Pelo Trtaro! Como...?
     -- No sei -- Hazel disse miseravelmente. -- Poderia ter sido enterrado
l por ladres ou ter cado de um vago h um sculo atrs. Talvez tenha
migrado de um cofre do banco mais prximo. O que quer que esteja no cho,


20
  As legies romanas tinham como unidade bsica de guerra a Centria. Esta 
formada por um quadrado de 10 fileiras de 10 homens cada, dando o total de 100
soldados, de onde advm o nome centria. O centurio era o soldado responsvel
por comandar a centria, dando ordens que deveriam ser prontamente obedecidas
pelos soldados, especialmente as formaes militares.

                                                                                 70
a qualquer lugar perto de mim -- simplesmente surge do nada. E quanto
maior o valor...
     -- Maior o perigo -- Nico franziu as sobrancelhas. -- A gente devia
cobrir isso. Se os faunos encontrarem...
    Hazel imaginou uma nuvem de cogumelos crescendo na estrada, faunos
carbonizados lanados em todas as direes. Aquilo era algo terrvel para se
considerar.
    -- Isso deveria afundar de volta ao cho depois que eu sasse,
eventualmente, mas s para ter certeza...
     Ela tinha praticado esse truque, mas nunca com algo to pesado e denso.
Ela apontou para a barra de ouro e tentou se concentrar.
     O ouro levitou. Ela direcionou sua raiva, o que no era difcil -- ela
odiava aquele ouro, ela odiava sua maldio, ela odiava pensar em seu
passado e em todos as formas que tinha falhado. Seus dedos formigaram. A
barra de ouro brilhou com o calor.
    Nico engoliu em seco. -- Hum, Hazel, tem certeza que...?
     Ela fechou a mo. O ouro se torceu como se fosse massa de vidraceiro.
Hazel fez a barra se transformar em um anel gigante e grumoso. Ento
agitou a mo na direo do cho. Sua rosquinha de um milho de dlares se
enterrou na terra. Foi pra tal profundidade que no sobrou nada, a no ser
uma linha de lama fresca.
    Nico arregalou os olhos. -- Aquilo foi... assustador.
    Hazel no achou aquilo to impressionante comparado aos poderes de
um cara que podia reanimar esqueletos e trazer pessoas de volta dos mortos,
mas foi bom ter surpreendido ele pra variar.
     Dentro do acampamento, as cornetas assopraram novamente. As
Coortes iriam comear a ser chamadas, e Hazel no estava com vontade de
ser costurada em um saco cheio de doninhas.
    -- Depressa! -- ela falou para Nico, e eles correram para os portes.


    Na primeira vez que Hazel viu a legio reunida, ela ficou to intimidada
que quase saiu de fininho para os quartis se esconder.
     As primeiras quatro Coortes, cada uma composta de crianas fortes,
estavam em fila na frente de seus quartis nos dois lados da Via Praetoria. A
Quinta Coorte se reunia bem no final, em frente  principia, j que seus

                                                                            71
quartis estavam no canto de trs do acampamento, prximas aos estbulos e
s latrinas. Hazel teve que correr bem no meio da legio para chegar ao seu
lugar.
     Os campistas estavam vestidos para guerra. Suas cotas de malha e suas
grevas polidas brilhavam por cima de camisetas roxas e jeans. Desenhos de
caveira e espada decoravam seus elmos. At mesmo suas botas de combate
de couro pareciam ferozes com seus sapatos de ferro com cunha, timos para
andar pela lama ou pisar em rostos.
     Em frente aos legionrios, como uma linha de domins gigantes,
estavam seus escudos dourados e vermelhos, cada um do tamanho de uma
porta de geladeira. Cada legionrio carregava uma lana parecida com um
arpo chamada pilo, um gldio21, uma adaga, e mais um bocado de outros
equipamentos. Se voc estivesse fora de forma quando chegasse  legio,
voc no ficaria daquele jeito por muito tempo. S de andar por a em sua
armadura j era exerccio suficiente.
     Hazel e Nico correram pela rua enquanto todo mundo prestava ateno,
fazendo com que sua entrada fosse realmente notada. Seus passos ecoavam
nas pedras. Hazel tentou evitar contanto visual, mas ela notou Octavian na
frente da Primeira Coorte rindo dela, convencido no seu elmo de centurio
emplumado, com uma dzia de medalhas no seu peito.
     Hazel ainda estava fervendo por causa de suas chantagens mais cedo.
Estpido ugure22 e seu dom de profecia -- com tantas pessoas no
acampamento para descobrir seu segredo, por que tinha que ser justamente
ele? Ela tinha certeza que ele teria implicado com ela h semanas atrs, mas
ele sabia que seus segredos valiam muito mais para ele como influncia. Ela
queria no ter se livrado daquela barra de ouro para poder bater com ela em
sua cara.
    Ela passou correndo por Reyna, que estava indo pra frente e pra trs no
pgaso Scipio -- apelidado de Skippy23, porque ele era da cor de manteiga
de amendoim. Os ces de metal, Aurum e Argentum, trotavam ao seu lado.
Sua capa roxa de comandante ondeava atrs dela.

21
   Gldio: O gldio era a espada utilizada pelas legies romanas. Era uma espada
curta, de dois gumes, de mais ou menos 60 cm, mais larga na extremidade. Era
muito mais uma arma de perfurao do que de corte, ou seja, devia ser utilizada
como um punhal, ou uma adaga, no combate corpo-a-corpo.
22
   Os ugures eram sacerdotes da Roma Antiga que usavam os hbitos dos animais
para tirar pressgios, exemplos disso so o seu vo, o seu canto e suas prprias
entranhas, e o apetite dos frangos sagrados.
23
   Skippy  uma marca americana de manteiga de amendoim, por isso o apelido.

                                                                              72
     -- Hazel Levesque -- ela chamou. -- Estou feliz que tenha podido se
juntar a ns.
     Hazel sabia que era melhor no responder. Ela tinha esquecido a
maioria de seus equipamentos, mas ela se apressou para chegar em seu lugar
ao lado de Frank e tomou sentido. Seu centurio-lder, um cara grande de
dezessete anos chamado Dakota, estava justamente chamando seu nome -- o
ltimo da lista.
    -- Presente! -- ela gritou.
    Graas aos deuses. Tecnicamente, ela no estava atrasada.
     Nico se juntou a Percy Jackson, que estava fora da linha com um bando
de guardas. O cabelo de Percy estava molhado por causa da casa de banhos.
Ele colocara roupas limpas, mas ainda parecia desconfortvel. Hazel no
podia culp-lo. Ele estava prestes a ser apresentado a duzentas crianas
fortemente armadas.
     Os Lares foram os ltimos a tomar posio. Suas formas roxas
bruxuleavam enquanto brigavam por lugares. Eles tinham o hbito irritante
de ficar metade dentro, metade fora de pessoas vivas, fazendo com que as
pessoas parecessem uma fotografia borrada, mas, finalmente, os centuries
conseguiram aquiet-los.
     -- Cores! -- Octavian gritou.
     Os porta-estandartes deram um passo  frente. Eles vestiam capas de
pele de leo e seguravam mastros decorados com os emblemas de cada
Coorte. O ltimo a apresentar seu estandarte foi Jacob, o portador da legio
da guia. Ele segurava um longo mastro com absolutamente nada no topo. O
trabalho deveria ser uma grande honra, mas Jacob obviamente o odiava.
Embora Reyna insistisse em seguir a tradio, toda vez que o mastro sem
guia era erguido, Hazel podia sentir a vergonha encrespando-se na legio.
    Reyna fez o pgaso descansar.
      -- Romanos! -- ela anunciou. -- Vocs provavelmente ouviram sobre
a incurso hoje. Duas grgonas foram levadas pelo rio por causa deste
recm-chegado, Percy Jackson. Juno o guiou at aqui, e o proclamou como
filho de Netuno.
    As crianas nas filas de traz estenderam o pescoo para ver Percy. Ele
ergueu a mo e disse: -- Oi.
       -- Ele procura se juntar  legio -- Reyna continuou. -- O que os
augrios dizem?


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       -- Eu li as entranhas! -- Octavian anunciou, como se tivesse matado
um leo com as prprias mos ao invs de rasgar um panda de pelcia. --
Os augrios so favorveis. Ele est qualificado para servir!
        Os campistas deram um grito: Ave! Salve!
       Frank estava um pouco atrasado com seu `ave', ento seu grito
pareceu um eco muito alto. Os outros legionrios deram risadinhas.
        Reyna acenou para os comandantes seniores para que dessem um
passo a frente -- um de cada Coorte. Octavian, como o centurio mais
velho, se virou para Percy.
       -- Recruta -- ele perguntou, -- voc tem credenciais? Cartas ou
alguma referncia?
        Hazel se lembrou disso na sua chegada. Um monte de crianas
trouxeram cartas de semideuses mais velhos do mundo exterior, adultos que
foram veteranos no acampamento. Alguns recrutas tinham patrocinadores
ricos e famosos. Alguns eram da terceira ou quarta gerao de campistas.
Uma boa carta podia te dar um lugar nas melhores Coortes, s vezes, at
trabalhos especiais como mensageiro da legio, o que o isentaria de
trabalhos duros como cavar trincheiras ou conjugar verbos latinos.
        Percy trocou de p. -- Cartas? Hum, no.
        Octavian torceu o nariz.
      No  justo! Hazel queria gritar. Percy carregou uma deusa at o
acampamento. Que recomendao melhor que essa ele queria?
       Mas a famlia de Octavian enviara crianas para o acampamento por
mais de um sculo. Ele adorava lembrar aos recrutas que eles eram menos
importantes que ele.
        -- Sem cartas -- Octavian disse pesarosamente. -- Algum
legionrio ir apoi-lo?
        -- Eu irei! -- Frank deu um passo  frente. -- Ele salvou minha
vida!
       Logo houve gritos de protesto das outras Coortes. Reyna ergueu a
mo por silncio e encarou Frank.
        -- Frank Zhang -- ela disse, -- pela segunda vez, s hoje, lhe
lembro de que voc est em probatio. Seu parente divino ainda nem lhe
reclamou. Voc no est qualificado a apoiar outro campista at que tenha
recebido sua primeira faixa.


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        Frank pareceu quase morrer de vergonha.
        Hazel no podia deix-lo l, sem fazer nada. Ela deu um passo para
fora da linha e disse: -- O que Frank quer dizer  que Percy salvou a vida de
ns dois. Eu sou um membro integral da legio. Eu apoiarei Percy Jackson.
        Frank olhou de relance para ela, grato, mas os outros campistas
comearam a murmurar. Hazel era mais ou menos qualificada. Ela s tinha
recebido sua faixa algumas semanas atrs, e o "ato valoroso" que a fez
conseguir a faixa foi por acidente, na maior parte. Alm do mais, ela era
filha de Pluto, e um membro da desvalida Quinta Coorte. Ela no estava
fazendo quase nenhum favor a Percy Jackson dando apoio a ele.
       Reyna torceu o nariz, mas se virou para Octavian. O ugure sorriu e
encolheu os ombros, como se a ideia o divertisse.
        Por que no? Hazel pensou. Colocar Percy na Quinta Coorte faria
dele uma ameaa menor, e Octavian gostava de manter seus inimigos em um
nico lugar.
        -- Muito bem -- Reyna anunciou. -- Hazel Levesque, voc pode
apoiar o recruta. Sua Coorte o aceita?
        As outras Coortes comearam a tossir, tentando no rir. Hazel sabia
o que eles estavam pensando: Outro perdedor para a Quinta.
        Frank bateu seu escudo no cho. A Quinta Coorte o seguiu, embora
no parecessem muito animados. Seus centuries, Dakota e Gwen, trocaram
olhares aflitos, como se falassem um para o outro: "Aqui vamos ns, de
novo".
        -- Minha Coorte falou -- Dakota disse. -- Ns aceitamos o recruta.
        Reyna olhou para Percy com pena. -- Parabns, Percy Jackson.
Voc est agora em probatio. Voc receber uma placa com seu nome e sua
Coorte. Em tempo de um ano, ou at que complete um ato valoroso, voc se
tornar um membro integral da Duodcima Legio Fulminata. Sirva a Roma,
obedea s regras da legio e defenda o acampamento com honra. Senatus
Populusque Romanus!
        O resto da legio ecoou o viva.
        Reyna guiou o pgaso para longe de Percy, como se estivesse
aliviada por ter terminado com ele. Skippy expandiu suas belas asas. Hazel
no podia deixar de sentir uma pontada de inveja. Ela daria qualquer coisa
por um cavalo como aquele, mas isso nunca iria acontecer. Os cavalos eram
apenas para os comandantes, ou para cavaleiros brbaros, no para
legionrios romanos.

                                                                          75
        -- Centuries -- Reyna disse, -- vocs e suas tropas tm uma hora
para jantar. Depois nos encontraremos no Campo de Marte. A Primeira e
Segunda Coorte iro defender. A Terceira, a Quarta e a Quinta iro atacar.
Boa sorte!
       Todos gritaram vivas -- pelos jogos de guerra e pelo jantar. As
Coortes saram da fila e correram para o refeitrio.
        Hazel acenou para Percy, que caminhava pela multido com Nico ao
seu lado. Para a surpresa de Hazel, Nico estava sorrindo para ela.
        -- Bom trabalho, irmzinha -- ele disse. -- Aquilo foi corajoso,
apoiar Percy.
        Ele nunca tinha a chamado de irmzinha antes. Ela se perguntou se
era assim que ele chamava Bianca.
       Um dos guardas deu a Percy sua placa de probatio, que Percy enfiou
em seu colar de couro com as prolas estranhas.
        --Valeu, Hazel -- ele disse. -- Hum, o que exatamente significa...
voc ter me apoiado?
        -- Eu garanto o seu bom comportamento -- Hazel explicou. -- Eu
te ensino as regras, respondo suas perguntas, me certifico de que voc no
envergonhe a legio.
       -- E... se eu fizer alguma coisa errada?
      -- Ento me matam junto com voc -- Hazel disse. -- Com fome?
Vamos comer.




                                                                       76
                                    VIII




PELO MENOS A COMIDA DO ACAMPAMENTO ERA BOA.
Espritos do vento invisveis -- aurae -- serviram os campistas e pareciam
saber exatamente o que cada um queria. Eles sopraram pratos e copos na
mesa to rapidamente que o refeitrio parecia um furaco delicioso. Se voc
se levantasse muito rpido, provavelmente seria acertado por feijes ou uma
carne assada.
        Hazel jantou sopa de camaro -- sua comida favorita quando queria
consolo -- o que a fazia se lembrar de quando era uma menina em Nova
Orleans, antes de sua maldio ter comeado e sua me ficar to amarga.
Percy comeu um cheeseburguer e uma soda estranha azul brilhante. Hazel
nunca tinha visto aquilo, mas Percy provou e sorriu.
         -- Isto me deixa feliz -- ele disse. -- No sei o porqu... Mas me
deixa.
       S por um segundo, uma das aurae se tornou visvel -- uma menina
com cara de duende em um vestido de seda branco. Ela riu quando encheu o
copo de Percy, ento desapareceu numa rajada.
         O refeitrio parecia particularmente barulhento naquela noite. Risos
ecoavam nas paredes. Bandeiras de guerra sussurravam das vigas de cedro
do teto enquanto as aurae sopravam, mantendo os pratos de todo mundo
cheios. Os campistas comeram no estilo de Roma, sentados em divs ao
redor de mesas baixas. As crianas a toda hora se levantavam e trocavam de
lugar, espalhando rumores sobre quem gostava de quem e todas as outras
fofocas.
         Como sempre, a Quinta Coorte sentava no lugar de menos honra.
Suas mesas eram no final do refeitrio, prximo  cozinha. A mesa de Hazel
era a que tinha menos pessoas. Naquela noite havia ela e Frank, como
sempre, com Percy e Nico, e seu centurio, Dakota, que Hazel imaginava
que tinha sentado l, porque ele se sentia obrigado a dar boas-vidas ao novo
recruta.
        Dakota se reclinava taciturno em seu div, misturando acar em sua
bebida. Ele era um cara musculoso com cabelo preto encaracolado e olhos


                                                                          77
que no pareciam olhar na direo certa, fazendo com que Hazel sentisse que
o mundo se inclinava toda vez que olhava para ele. No era um bom sinal ele
estar bebendo tanto e to cedo quela hora da noite.
        -- Ento -- ele arrotou, balanando o seu clice. -- Bem vindo 
Percy, festa -- ele franziu as sobrancelhas. -- Festa, Percy. Tanto faz.
        -- Hum, valeu -- Percy disse, mas ele estava prestando ateno em
Nico. -- Eu estava me perguntando se a gente poderia conversar, sabe...
Sobre onde eu poderia ter visto voc antes.
        -- Claro -- Nico disse um pouco rpido. -- O negcio  que eu
passo a maior parte do meu tempo no Mundo Inferior. Ento, a no ser que
eu tenha te visto por l de alguma forma...
        Dakota arrotou. -- Embaixador de Pluto, eles o chamam. Reyna
nunca tem certeza do que fazer com esse cara quando ele nos visita. Voc
deveria ter visto a cara dela quando ele apareceu com Hazel, pedindo a
Reyna para aceit-la. Hum, sem ofensas.
       -- Nenhuma -- Nico parecia aliviado por terem mudado o assunto.
-- Dakota ajudou muito, apoiando Hazel.
        Dakota corou. -- , bem... Ela parecia uma boa menina. Acabou que
eu estava certo. Ms passado, quando ela me salvou do, oh, voc sabe.
        -- Caramba! -- Frank procurou por seu peixe e suas batatinhas
fritas. -- Percy, voc deveria t-la visto! Foi como Hazel conseguiu sua
faixa. Os unicrnios decidiram fugir...
       -- No foi nada -- Hazel disse.
        -- Nada? -- Frank protestou. -- Dakota teria sido pisoteado! Voc
ficou bem na frente deles, os espantou, salvou a pele dele. Eu nunca vi nada
como aquilo.
        Hazel mordeu o lbio. Ela no gostava de falar sobre aquilo, e se
sentia desconfortvel, o jeito com que Frank a fez parecer uma herona. Na
verdade, ela estava com medo que os unicrnios se machucassem naquele
pnico. Seus chifres eram de metal precioso -- ouro e prata -- ento ela
tentou mant-los  parte, simplesmente se concentrando, guiando os animais
por seus chifres e os levando para os estbulos. Ela conseguiu um lugar
integral na legio, mas tambm comearam os rumores sobre seus poderes
estranhos -- rumores que a faziam se lembrar dos dias antigos e maus.
        Percy a estudou. Aqueles olhos verdes como o mar a fizeram ficar
inquieta.


                                                                         78
        -- Voc e Nico cresceram juntos? -- Ele perguntou.
        -- No -- Nico respondeu por ela. -- Eu descobri que Hazel era
minha irm s agora. Ela  de Nova Orleans.
        Aquilo era verdade, claro, mas no toda a verdade. Nico deixava as
pessoas pensarem que ele tropeou nela na Nova Orleans moderna e a trouxe
para o acampamento. Era mais fcil do que contar a verdadeira histria.
         Hazel tinha tentado se passar por uma garota moderna. No era fcil.
Ainda bem que as crianas no usavam muita tecnologia no acampamento.
Seus poderes tendiam a fazer aparelhos eletrnicos ficarem loucos. Mas na
primeira vez em que ela foi de licena para Berkeley, ela quase teve um
infarto. Televises, computadores, iPods, a internet... Tudo isso fez com que
ela ficasse feliz em voltar ao mundo dos fantasmas, unicrnios e deuses.
Aquilo parecia muito menos fantasia do que o sculo XXI.
         Nico ainda falava sobre os filhos de Pluto. -- No existem muitos
de ns -- ele disse, ento a gente tem que se juntar. Quando eu encontrei
Hazel...
       -- Voc tem outras irms? -- Percy perguntou, quase como se j
soubesse a resposta. Hazel se perguntou novamente quando ele e Nico se
encontraram, e o que seu irmo estava escondendo.
       -- Uma -- Nico admitiu. -- Mas ela morreu. Eu vi seu esprito
algumas vezes no Mundo Inferior, exceto que da ltima vez que fui l...
        Para traz-la de volta, Hazel pensou, embora Nico no tenha dito
isso.
        -- Ela tinha se ido -- a voz de Nico ficou rouca. -- Ela costumava
ficar nos Campos Elsios -- tipo o paraso do Mundo Inferior -- mas ela
escolheu nascer de novo numa nova vida. Agora, nunca mais a verei
novamente. Eu estava apenas com sorte quando encontrei Hazel... em Nova
Orleans, quero dizer.
       Dakota grunhiu. -- A no ser que voc acredite nos rumores. No
dizendo que eu acredite.
        -- Rumores? -- Percy perguntou.
        No refeitrio eles ouviram Don, o fauno, gritando: -- Hazel!
         Hazel nunca esteve to feliz por ver o fauno. Ele no tinha ordens
para poder estar no acampamento, mas,  claro, que sempre arranjava um
jeito de entrar. Ele estava caminhando em direo  mesa, sorrindo para todo
mundo, roubando comida dos pratos e apontando para os campistas: -- Ei!

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Me liga! Uma pizza voadora bateu na cabea dele e ele desapareceu atrs de
um div. Ento apareceu, ainda sorrindo, e caminhou novamente.
       -- Minha garota favorita! -- Ele cheirava a bode molhado
embrulhado em queijo velho. Ele se reclinou em seu div e checou a comida.
-- Diga, garoto novo, voc vai comer isso?
       Percy franziu as sobrancelhas. -- Faunos no so vegetarianos?
       -- No o cheeseburguer, cara! O prato! -- Ele cheirou o cabelo de
Percy. -- Ei... que cheiro  esse?
       -- Don! -- Hazel disse. -- No seja mal-educado.
       -- No, cara, eu s...
        O deus domstico Vitellius apareceu bruxuleando, meio enterrado no
div de Frank. -- Faunos no refeitrio! A que ponto chegamos? Centurio
Dakota, faa seu trabalho!
        -- Eu estou -- Dakota rosnou dentro de seu clice. -- Estou
jantando!
       Don ainda estava farejando Percy. -- Cara, voc tem uma ligao
emptica com um fauno!
       Percy escorregou para longe dele. -- Uma o qu?
       -- Uma ligao emptica!  bem fraca, como se algum estivesse
suprimindo a ligao, mas...
         -- Eu sei o que ! -- Nico se levantou repentinamente. -- Hazel,
que tal a gente dar a voc e a Frank um tempo para que Percy seja orientado?
Dakota e eu podemos visitar a mesa dos pretores. Don e Vitellius, vocs vm
tambm. A gente pode discutir estratgias para os jogos de guerra.
       -- Estratgias para perder? -- Dakota murmurou.
         -- O Garoto da Morte est certo! -- Vitellius disse. -- Essa legio
luta pior do que lutamos na Judia, e aquela foi a primeira vez que perdemos
nossa guia. Por que, se eu ainda estivesse no comando...
       -- Posso s comer a prataria primeiro? -- Don perguntou.
        -- Vamos! -- Nico se levantou e puxou as orelhas de Don e
Vitellius.
       Ningum a no ser Nico podia realmente tocar os Lares. Vitellius
reclamou com ultraje enquanto ele era levado para a mesa dos pretores.
       -- Ai! -- Don protestou. -- Cara, cuidado a!

                                                                         80
           -- Vamos, Dakota! -- Nico chamou sobre seu ombro.
        O centurio se levantou relutante. Ele limpou a boca -- inutilmente,
j que continuava manchada de vermelho.
           -- Voltaremos logo.
       Ele se sacudiu todo, como um cachorro tentando ficar seco. Ento
cambaleou, derramando seu clice.
       -- O que foi? -- Percy perguntou. -- E o que h de errado com
Dakota?
        Frank suspirou. -- Ele est bem. Ele  um filho de Baco, o deus do
vinho. Ele tem um problema com a bebida.
           Percy esbugalhou os olhos. -- Vocs o deixam beber vinho?
        -- Meus deuses, no! -- Hazel disse. -- Isso seria um desastre. Ele
 viciado em Kool-Aid24 vermelho. Bebe com trs vezes mais acar, e ele
ainda  um TDAH -- sabe, dficit de ateno/hiperatividade. Um dia desses,
sua cabea vai explodir.
        Percy olhou para a mesa dos pretores. As maiorias dos comandantes
sniores estavam conversando com Reyna. Nico e seus dois prisioneiros,
Don e Vitellius, ficaram mais afastados. Dakota estava correndo de um lado
para o outro ao longo de uma pilha de escudos, batendo neles com seu clice
como se tocasse um xilofone.
           -- TDAH -- disse Percy. -- No me diga.
         Hazel tentou no rir. -- Bem, as maiorias dos semideuses tm. Ou
dislexia. S de ser um semideus significa que nossos crebros tm os fios
plugados diferentes. Como voc -- voc disse que tinha problema com
leitura.
           -- Vocs so assim tambm? --Percy perguntou.
      -- No sei -- Hazel admitiu, -- Talvez. No meu tempo eles
chamavam crianas assim de preguiosas.
           Percy franziu as sobrancelhas. -- No seu tempo?
           Hazel se xingou.
           Por sorte, Frank falou:



24
     Kool-Aid  a marca de uma bebida de misturar de vrios sabores.

                                                                         81
           -- Eu queria ter TDAH ou dislexia. Tudo que tenho  intolerncia 
lactose.
           Percy sorriu. -- Srio?
        Frank deveria ser o semideus mais idiota de todos, mas Hazel achava
bonitinho quando ele fazia beio. Ele deixou os ombros carem. -- E eu amo
sorvete tambm...
        Percy riu. Hazel no pode deixar de fazer o mesmo. Era bom se
sentar para comer e realmente sentir que estava entre amigos.
       -- Ok, ento me diga --Percy disse, -- por que  ruim ficar na
Quinta Coorte? Vocs so legais.
         O elogio fez os dedos de Hazel formigar. -- ... complicado. Alm
de ser filha de Pluto, eu quero cavalgar.
           -- Ento  por isso que voc usa a espada de cavalaria?
        Ela balanou a cabea. --  idiotice, eu acho. Pensamento sonhador.
S tem um pgaso no campo -- de Reyna. Os unicrnios so mantidos
porque as raspas de seus chifres curam envenenamento e tal. De qualquer
forma, as guerras romanas so sempre feitas a p. Cavalaria... eles meio que
no gostam disso. Ento eles no gostam de mim.
           -- So eles quem perdem -- Percy disse. -- E voc, Frank?
       -- Arco e flecha -- ele murmurou. -- Eles no gostam disso
tambm, a no ser que voc seja filho de Apolo. Ento voc tem uma
desculpa. Espero que meu pai seja Apolo, mas no sei. No sei fazer poesia
muito bem. E no tenho certeza se quero ser parente de Octavian.
        -- No posso te culpar -- disse Percy. -- Mas voc  muito bom
com o arco -- o jeito em que voc acertou aquelas grgonas. Esquea o que
os outros falam.
       O rosto de Frank ficou vermelho como o Kool-Aid de Dakota. --
Queria que pudesse. Todos acham que eu deveria ser um espadachim,
porque eu sou grande e corpulento -- ele olhou para seu corpo como se no
pudesse acreditar que ele era aquilo. -- Eles dizem que eu sou muito gordo
para um arqueiro. Talvez se meu pai me reclamasse...
       Eles comeram em silncio por alguns minutos. Um pai que no o
reclamaria... Hazel j tinha sentido aquilo. Ela podia dizer o mesmo de
Percy.
       -- Voc perguntou sobre a Quinta -- ela disse finalmente. --
Porque  a pior Coorte. Isso comeou antes mesmo de ns chegarmos.

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       Ela apontou para a parede do fundo, onde os estandartes da legio
estavam  mostra. -- V o mastro vazio no meio?
       -- A guia -- disse Percy.
       Hazel estava atordoada. -- Como voc sabe?
        Percy encolheu os ombros. -- Vitellius estava falando sobre como a
legio perdeu sua guia h muito tempo atrs -- na primeira vez, ele disse.
Ele agiu como se fosse a maior desgraa. Suponho que  isso que est
faltando. E o jeito que voc e Reyna estavam falando mais cedo, suponho
que a guia foi perdida pela segunda vez, mais recentemente, e que tem
alguma coisa a ver com a Quinta Coorte.
        Hazel anotou mentalmente para no subestimar Percy de novo.
Quando ele chegou, ela pensou que ele fosse meio idiota por causa de suas
perguntas -- sobre a Festa da Fortuna e tudo o mais -- mas claramente ele
era mais esperto do que deixava perceber.
       -- Certo -- ela disse. -- Foi exatamente isso que aconteceu.
       -- Mas o que  a guia, afinal? Por que  to importante?
        Frank olhou ao redor para ter certeza que ningum estava espiando.
--  o smbolo do acampamento -- uma grande guia de ouro.
Supostamente  para nos proteger na batalha e amedrontar nossos inimigos.
A guia de cada legio d todos os tipos de poderes, e os nossos vm do
prprio Jpiter. Dizem que Jlio Csar apelidou nossa legio de "Fulminata"
-- armada com raios -- por causa do que a guia pode fazer.
       -- Eu no gosto de raios -- disse Percy.
       -- , bem --Hazel disse, -- no nos deixa invencveis. A
Duodcima perdeu sua guia pela primeira vez nos dias antigos, durante a
Rebelio Judia.
       -- Acho que vi um filme assim -- disse Percy.
        Hazel encolheu os ombros. -- Poderia ser. Existem vrios livros e
filmes sobre legies que perdem sua guia. Infelizmente isso aconteceu
algumas vezes. A guia era to importante... bem, arquelogos nunca
descobriram uma guia da Roma Antiga. Cada legio guardava a sua para o
ltimo homem, porque  carregada de poder dos deuses. Eles preferem
escond-la ou derret-la do que entregar a um inimigo. A Duodcima teve
sorte da primeira vez. Ns conseguimos a guia de volta. Mas da segunda
vez...
       -- Vocs estavam l? --Percy perguntou.

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       Os dois balanaram a cabea.
         -- Eu sou quase to novo quanto voc -- Frank tocou em sua placa
de probatio. -- S cheguei no ms passado. Mas todo mundo j ouviu a
histria. D azar at mesmo falar sobre isso. Houve essa expedio enorme
para o Alasca na dcada de oitenta...
        -- Aquela profecia que voc reparou no templo --Hazel continuou,
-- aquela sobre os sete semideuses e as Portas da Morte... Nosso pretor
snior naquele tempo era Michael Varus, da Quinta Coorte. Naquela poca a
Quinta Coorte era a melhor do acampamento. Ele achou que traria glria 
legio se ele descobrisse a profecia e a fizesse acontecer -- salvar o mundo
da tempestade e do fogo e tudo aquilo. Ele falou com o ugure, e o ugure
disse que a resposta estava no Alasca. Mas ele avisou a Michael que ainda
no tinha chegado o tempo. A profecia no era para ele.
       -- Mas ele foi de qualquer forma -- Percy adivinhou. -- O que
aconteceu?
        Frank abaixou a voz. -- Histria longa e repulsiva. Quase todo
mundo da Quinta Coorte foi varrido do mapa. A maioria das armas de ouro
Imperial da legio foi perdida, e tambm a guia. Os sobreviventes ficaram
loucos ou se recusaram a falar sobre o que os havia atacado.
       Eu sei, Hazel pensou, solenemente. Mas ficou quieta.
        -- Desde que a guia foi perdida -- Frank continuou, -- o
acampamento tem ficado cada vez mais fraco. As misses so mais
perigosas. Os monstros atacam nas fronteiras mais frequentemente. O nimo
das tropas est cada vez mais baixo. No ms passado, as coisas ficaram
muito piores, muito mais rpido.
       -- E a Quinta Coorte levou a culpa -- Percy adivinhou. -- Agora
todo mundo pensa que ns somos amaldioados.
        Hazel percebeu que sua sopa estava fria. Ela bebericou a colher
cheia, mas a comida de consolo no estava muito reconfortante. -- Ns
temos sido rejeitados pela legio desde ento... Bem, desde o desastre no
Alasca. Nossa reputao melhorou quando Jason se tornou pretor...
       -- O campista que est perdido? --Percy perguntou.
        --  -- disse Frank. -- Eu nunca o conheci. Foi antes de eu chegar.
Mas eu ouvi que ele foi um bom lder. Ele praticamente cresceu na Quinta
Coorte. Ele no ligava sobre o que as pessoas falavam de ns. Ele comeou a
reconstruir nossa reputao. A desapareceu.



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       -- O que nos colocou de volta  fase um -- Hazel disse
amargamente. -- Nos fez parecer amaldioados de novo. Sinto muito, Percy.
Agora voc sabe no que se meteu.
        Percy bebericou seu refrigerante azul e observou todo o refeitrio.
-- Eu nem sei de onde eu vim... mas eu acho que essa no foi a primeira vez
em que fui excludo -- ele focou os olhos em Hazel e sorriu. -- Alm do
mais, se juntar  legio  melhor do que ser caado na selva por monstros.
Eu fiz alguns amigos. Talvez, juntos, ns possamos mudar as coisas para a
Quinta Coorte, n?
        Uma corneta soprou no fim do salo. Os comandantes na mesa dos
pretores se levantaram -- at mesmo Dakota, sua boca manchada como a de
um vampiro pelo Kool-Aid.
       -- Os jogos comeam! --Reyna anunciou. Os campistas gritaram e
correram para coletar seus equipamentos nas estantes das paredes.
        -- Ns somos o time de ataque, no ? --Percy perguntou apesar do
barulho. -- Isso  bom?
        Hazel encolheu os ombros. -- Boa notcia: ns ficamos com o
elefante. M notcia...
       -- Ns sempre perdemos -- disse Percy
        Frank deu um tapa no ombro de Percy. -- Eu amo esse cara. Vamos
presenciar minha dcima terceira derrota consecutiva!




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                                    IX




ENQUANTO ELE MARCHAVA PARA OS JOGOS DE GUERRA,
Frank relembrava o dia em sua mente. Ele no podia acreditar no quo perto
ele chegou da morte.
        Naquela manh, de sentinela, antes de Percy aparecer, Frank quase
tinha dito seu segredo  Hazel. Os dois haviam ficado parados por horas na
neblina fria, observando o trfego suburbano na Auto-Estrada 24. Hazel
estava reclamando do frio.
       -- Eu daria tudo para estar quente -- disse ela, seus dentes
rangendo. -- Eu gostaria que tivssemos uma fogueira.
        Mesmo com sua armadura, ela parecia tima. Frank gostava da
forma como o seu cabelo cor de torrada-marrom claro se enrolava em torno
das bordas de seu capacete, e da forma como formavam covinhas no seu
queixo quando ela franzia a testa. Ela era pequena em comparao  Frank, o
que o fazia se sentir como um boi grande e desajeitado. Ele queria colocar
seus braos em volta dela para aquec-la, mas ele nunca faria isso. Ela
provavelmente lhe bateria, e ele perderia a nica amiga que ele tinha no
acampamento.
       Eu poderia fazer uma fogueira realmente impressionante, ele
pensou.  claro, iria apenas queimar por alguns minutos, e ento eu
morreria...
        Mesmo considerar isso era assustador. Hazel tinha esse efeito sobre
ele. Sempre que ela queria algo, ele tinha o desejo irracional de lhe fornecer.
Ele queria ser o cavaleiro  moda antiga cavalgando para resgat-la, o que
era estpido, j que ela era muito mais capaz em tudo do que ele.
        Ele imaginou o que sua av diria: Frank Zhang cavalgando para o
resgate? H! Ele iria cair de seu cavalo e quebrar o pescoo.
        Difcil de acreditar que tinham sido apenas seis semanas desde que
ele deixou a casa de sua av -- seis semanas desde o funeral de sua me.



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        Tudo tinha acontecido desde ento: lobos chegando na porta de sua
av, a viagem at o Acampamento Jpiter, as semanas que passara na Quinta
Coorte tentando no ser um completo fracasso. Por tudo isso, ele manteve a
pea de lenha meio-queimada envolta em um pano no bolso do casaco.
         Mantenha-a por perto, a sua av tinha avisado. Enquanto isso
estiver seguro, voc est seguro.
         O problema era que isso queimava to facilmente. Ele se lembrou da
viagem do sul de Vancouver. Quando a temperatura caiu abaixo de zero
perto do Monte Hood, Frank trouxe o pedao de estopa e segurou-o em suas
mos, imaginando como seria bom ter algum fogo. Imediatamente, o resto
de carvo brilhou com uma chama amarela ardente. Isso iluminou a noite e
aqueceu Frank at os ossos, mas ele podia sentir a sua vida indo embora,
como se ele estivesse sendo consumido ao invs da madeira. Ele empurrou a
chama em um banco de neve. Por um momento horrvel ela se manteve
acesa. Quando finalmente apagou, Frank controlou seu pnico. Ele enrolou o
pedao de madeira e colocou-o de volta no bolso do casaco, determinado a
no tir-lo novamente. Mas ele no pde esquecer isso.
        Era como se algum tivesse dito: "Faa o que fizer, no pense nesse
graveto explodindo em chamas!"
        Ento,  claro, nisso era tudo o que ele pensava.
          De sentinela com Hazel, ele iria tentar tirar isso de sua mente. Ele
adorava passar o tempo com ela. Ele lhe perguntou sobre seu crescimento
em Nova Orleans, mas ela ficou nervosa com suas perguntas, ento, ao invs
disso, eles ficaram de conversa fiada. Apenas por diverso, eles tentaram
falar francs um com o outro. Hazel tinha um pouco de sangue francs pelo
lado de sua me. Frank tinha tido francs na escola. Nenhum deles era muito
fluente, e o francs de Louisiana era to diferente do francs canadense que
era quase impossvel conversar. Quando Frank perguntou a Hazel como seu
bife estava hoje, e ela respondeu que seu sapato era verde, eles decidiram
desistir.
        Ento Percy Jackson chegou.
        Claro, Frank tinha visto monstros lutando com crianas antes. Ele
havia lutado com muitos deles em sua viagem de Vancouver. Mas ele nunca
tinha visto grgonas. Ele nunca tinha visto uma deusa em pessoa. E a
maneira como Percy havia controlado o Pequeno Tibre -- Nossa! Frank
desejava ter poderes assim.
        Ele ainda podia sentir as garras das grgonas pressionando seus
braos e o cheiro de sua respirao ofdia -- como ratos mortos e veneno. Se

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no fosse por Percy, aquelas megeras grotescas o teriam levado. Ele seria
uma pilha de ossos na parte de trs de um Bargain Mart agora.
        Depois do incidente no rio, Reyna mandou Frank para o arsenal, o
que lhe tinha dado tempo demais para pensar.
         Enquanto ele polia espadas, lembrou-se de Juno, alertando-os para
libertar a Morte.
        Infelizmente Frank tinha uma boa idia do que a deusa queria dizer.
Ele tentou esconder seu choque quando Juno apareceu, mas ela parecia
exatamente como sua av a havia descrito -- perfeitamente, at a capa de
pele de cabra.
         Ela escolheu o seu caminho anos atrs, a av tinha lhe dito. E no
vai ser fcil.
        Frank olhou para seu arco no canto do arsenal. Ele teria se sentido
melhor se Apolo o reclamasse como filho. Frank tinha certeza que seu pai
divino falaria at seu dcimo sexto aniversrio, o que tinha passado h duas
semanas.
        Dezesseis anos era um marco importante para os romanos. Tinha
sido o primeiro aniversrio de Frank no acampamento. Mas nada aconteceu.
Agora Frank esperava ser reivindicado na Festa da Fortuna, apesar do que
Juno tinha dito, eles estariam em uma batalha por suas vidas nesse dia.
        Seu pai tinha que ser Apolo. Tiro com arco era a nica coisa em que
Frank era bom. Anos atrs, sua me havia lhe dito que seu nome de famlia,
Zhang, significa "mestre de arcos" em chins. Isso deve ter sido uma dica
sobre seu pai.
        Frank derrubou seus panos de polimento. Ele olhou para o teto.
        -- Por favor, Apolo, se voc  meu pai, me diga. Eu quero ser um
arqueiro como voc.
        -- No, voc no , -- uma voz resmungou.
        Frank pulou da sua cadeira. Vitellius, o Lar da Quinta Coorte, estava
brilhando atrs dele. Seu nome completo era Gaius Vitellius Reticulus, mas
as outras Coortes o chamavam de Vitellius, o ridculo.
        -- Hazel Levesque me enviou para verificar voc, -- disse Vitellius,
caminhando at o cinto da sua espada. -- Boa coisa, tambm. Examinar o
estado desta armadura!




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        Vitellius no era algum para conversar. Sua toga era larga, sua
tnica mal cabia sobre sua barriga, e sua espada caia do seu cinto a cada trs
segundos, mas Frank no se incomodou em apontar isso.
       -- Quanto aos arqueiros -- o fantasma disse, -- eles so fracos! Na
minha poca, tiro com arco era um trabalho de brbaros. Um bom romano
deve estar na briga, eviscerar seu inimigo com lana e espada como um
homem civilizado!  assim que ns fizemos nas Guerras Pnicas. Se
aproxime dos romanos, garoto!
        Frank suspirou. -- Eu pensei que voc esteve no exrcito de Csar.
        -- Eu estive!
       -- Vitellius, Csar foi centenas de anos aps as Guerras Pnicas.
Voc no pode ter estado vivo por tanto tempo.
        -- Questionando a minha honra? -- Vitellius parecia to furioso, sua
aura roxa brilhava. Ele sacou seu Gldio fantasmagrico e gritou: -- Tome
isso!
        Ele passou a espada, o que foi quase to mortal quanto um laser,
atravs do peito de Frank algumas vezes.
        -- Ai! -- disse Frank, apenas para ser agradvel.
        Vitellius pareceu satisfeito e afastou sua espada.
        -- Talvez voc pense duas vezes antes de duvidar dos mais velhos
da prxima vez! Agora... foi o seu dcimo sexto aniversrio recentemente,
no foi?
        Frank assentiu. Ele no tinha certeza de como Vitellius sabia disso,
j que Frank no tinha contado a ningum, exceto a Hazel, mas fantasmas
tinham formas de descobrir segredos. Escutar enquanto invisvel
provavelmente era um delas.
        -- Ento  por isso que voc est como um gladiador rabugento -- o
Lar disse. -- Compreensvel. O dcimo sexto aniversrio  seu dia de
masculinidade! Seu pai divino deveria ter reivindicado voc, nenhuma
dvida sobre isso, mesmo com apenas um pequeno prenncio. Talvez ele
pensou que voc fosse mais jovem. Voc parece mais jovem, voc sabe, com
essa cara de beb rechonchudo.
        -- Obrigado por me lembrar -- Frank murmurou.
       -- Sim, eu lembro do meu dcimo sexto -- Vitellius disse
alegremente. --Pressgio Maravilhoso! Uma galinha na minha cueca.


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        -- Hein?
        Vitellius se encheu de orgulho. --  isso mesmo! Eu estava no rio
mudando de roupa para o meu Liberalia. Rito de passagem para a idade
adulta, voc sabe. Ns fazamos as coisas corretamente na poca. Eu tinha
levado a minha toga de infncia e fui lavar-me para vestir a de adulto. De
repente, uma galinha branca correu para fora do nada, furtou a minha tanga e
fugiu com ela. Eu no estava usando-a na hora.
       -- Isso  bom -- disse Frank. -- E eu posso apenas dizer: Muita
informao?
        -- Mmm. -- Vitellius no estava escutando. -- Esse foi o sinal que
eu descendia de Esculpio, o deus da medicina. Eu tomei meu cognome, meu
terceiro nome, Reticulus, porque significava roupa ntima, para me lembrar
do dia abenoado que uma galinha roubou minha tanga.
        -- Ento... o seu nome significa Sr. Roupa ntima?
         -- Louvados sejam os deuses! Tornei-me um cirurgio na legio, e o
resto  histria. -- Ele abriu os braos generosamente. -- No desista, rapaz.
Talvez seu pai esteja atrasado. A maioria dos augrios no so to
dramticos quanto uma galinha,  claro. Eu conheci um colega que, uma vez
teve um estrume de besouro...
         -- Obrigada, Vitellius -- disse Frank. -- Mas eu tenho que terminar
de polir esta armadura...
        -- E o sangue da Grgona?
        Frank congelou. Ele no tinha contado a ningum sobre isso. Tanto
quanto ele sabia, s Percy tinha visto ele colocar no bolso os frascos no rio, e
eles no tinham tido a oportunidade de falar sobre isso.
       -- Venha agora, -- Vitellius repreendeu. -- Eu sou um curandeiro.
Eu conheo as lendas sobre o sangue de grgona. Mostre-me os frascos.
        Relutantemente, Frank tirou os dois frascos de cermica que ele
tinha recuperado do Pequeno Tibre. Despojos de guerra eram muitas vezes
deixados para trs quando um monstro se dissolvia -- s vezes um dente, ou
uma arma, ou mesmo a cabea inteira do monstro. Frank soube o que os dois
frascos eram imediatamente. Por tradio eles pertenciam a Percy, que havia
matado as grgonas, mas Frank no podia deixar de pensar, se eu pudesse
us-los?
        -- Sim. -- Vitellius estudou os frascos com aprovao. -- Sangue
retirado do lado direito do corpo de uma grgona pode curar qualquer
doena, at mesmo trazer os mortos de volta  vida. A deusa Minerva deu

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uma vez um frasco disso para meu ancestral divino, Esculpio. Mas o sangue
retirado do lado esquerdo de uma grgona... instantaneamente fatal. Ento,
qual  qual?
        Frank olhou para os frascos. -- Eu no sei. Eles so idnticos.
        -- H! Mas voc est esperando que o frasco certo poderia resolver
seu problema com o pau queimado, hein? Talvez quebrar sua maldio?
        Frank estava to atordoado, no conseguia falar.
        -- Oh, no se preocupe, rapaz. -- O fantasma riu. -- Eu no vou
contar a ningum. Eu sou um Lar, um protetor da Coorte! Eu no faria
qualquer coisa para te pr em perigo.
        -- Voc me apunhalou no peito com sua espada.
       -- Confie em mim, rapaz! Eu tenho simpatia por voc, carregando a
maldio do Argonauta.
        -- O... o qu?
        Vitellius afastou a questo. -- No seja modesto. Voc tem razes
antigas. Gregas, assim como romanas. No  de admirar que Juno... -- Ele
inclinou a cabea, como se estivesse ouvindo uma voz de cima. Seu rosto
ficou frouxo. Sua aura toda tremulou verde. -- Mas eu j disse o suficiente!
De qualquer forma, eu vou deixar voc descobrir para quem  o sangue da
grgona. Suponho que o novato Percy poderia us-lo tambm, com o seu
problema de memria.
         Frank se perguntou o que Vitellius estava prestes a dizer e o que lhe
tinha deixado to assustado, mas ele teve a sensao que dessa vez Vitellius
ia ficar de boca fechada.
       Ele olhou para os dois frascos. Ele no tinha sequer pensado que
Percy precisava deles. Ele se sentiu culpado por ter tido a inteno de usar o
sangue em si mesmo. -- Sim.  claro. Ele deve ter isso.
       -- Ah, mas se voc quiser o meu conselho... -- Vitellius olhou
nervoso novamente. -- Voc deve guardar ambos os sangues de grgona. Se
minhas fontes estiverem corretas, voc vai precisar deles na sua busca.
        -- Busca?
        As portas do arsenal abriram.
        Reyna invadiu com seus galgos de metal. Vitellius desapareceu. Ele
poderia ter gostado de galinhas, mas ele no gostava dos ces da pretora.



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        -- Frank. -- Reyna parecia perturbada. -- Isso  o suficiente com a
armadura. V encontrar Hazel. Traga Percy Jackson aqui em baixo. Ele
esteve l em cima por muito tempo. Eu no quero que Octavian... -- Ela
hesitou. -- Basta trazer Percy aqui embaixo.


        Ento, Frank tinha corrido todo o caminho at o Templo da Colina.
       Caminhando de volta, Percy fez toneladas de perguntas sobre o
irmo de Hazel, Nico, mas Frank no sabia muito.
        -- Ele  ok, -- disse Frank. -- Ele no  como Hazel...
        -- O que voc quer dizer? -- Percy perguntou.
       -- Oh, hum... -- Frank tossiu. Ele queria dizer que Hazel era de
melhor aparncia e mais agradvel, mas ele decidiu no dizer isso.
        -- Nico  uma espcie de mistrio. Ele deixa todo mundo nervoso,
sendo filho de Pluto, e tudo.
        -- Mas voc no?
        Frank deu de ombros. -- Pluto  legal. No  sua culpa que ele
dirige o Submundo. Ele s teve m sorte quando os deuses estavam
dividindo o mundo, sabe? Jpiter tem o cu, Netuno tem o mar, e Pluto tem
o eixo.
        -- A morte no te assusta?
         Frank quase teve vontade de rir. Nem um pouco! Em vez disso, ele
disse, -- Volte aos velhos tempos, como os tempos gregos, quando Pluto
era chamado de Hades, ele no era mais que um deus da morte. Quando ele
se tornou romano, ele se tornou mais... eu no sei, respeitvel. Ele se tornou
o deus da riqueza, tambm. Tudo sob a terra pertence a ele. Ento eu no
penso nele como sendo realmente assustador.
        Percy coou a cabea. -- Como se torna um deus romano? Se ele era
grego, ele no deveria se manter grego?
        Frank caminhou alguns passos, pensando nisso. Vitellius teria dado a
Percy uma palestra de uma hora sobre o assunto, provavelmente com uma
apresentao do Power Point, mas Frank fez a sua melhor tentativa:
        -- A forma como os romanos viam isso, eles adotaram o material
grego e aperfeioaram.
        Percy fez uma cara azeda. -- Aperfeioaram? Como se houvesse
algo de errado com eles?

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        Frank se lembrou do que Vitellius tinha dito: Voc tem razes
antigas. Gregas, assim como Romanas. Sua av tinha dito algo semelhante.
        -- No sei -- ele admitiu. -- Roma era mais bem sucedida do que a
Grcia. Eles fizeram esse imprio imenso. Os deuses se tornaram um grande
negcio nos tempos romanos, mais poderosos e amplamente conhecidos. 
por isso que eles ainda esto por a hoje. Ento, muitas civilizaes se
baseiam em Roma. Os deuses se mudaram para romanos porque era onde o
centro do poder estava. Jpiter era... bem, mais responsvel como um deus
romano do que ele foi quando ele era Zeus. Marte tornou-se muito mais
importante e disciplinado.
       -- E Juno se tornou uma senhora com bolsa hippie -- Percy
observou.
      -- Ento voc est dizendo que os antigos deuses gregos s
mudaram permanentemente para romanos? No sobrou nada dos gregos?
        -- Uh... -- Frank olhou em volta para se certificar de que no
haviam campistas ou Lares nas proximidades, mas os portes principais
ainda estavam a cem metros de distncia. -- Esse  um tpico delicado.
Algumas pessoas dizem que a influncia grega ainda est ao redor, como se
ainda fosse uma parte da personalidade dos deuses. Eu j ouvi histrias de
semideuses, ocasionalmente, fora do Acampamento Jpiter. Eles rejeitam a
formao romana e tentam seguir o estilo mais antigo, como o grego, sendo
heris individuais em vez de trabalhar como uma equipe, da forma como a
legio faz. E de volta aos dias antigos, quando Roma caiu, a metade oriental
do imprio sobreviveu  a metade grega.
       Percy olhou para ele. -- Eu no sabia disso.
        -- Era chamado Bizncio. -- Frank gostava de dizer essa palavra.
Isso soava legal. -- O Imprio Oriental durou mais mil anos, mas foi sempre
mais grego do que romano. Para aqueles de ns que seguem o caminho
romano,  uma espcie de assunto delicado.  por isso que,
independentemente do pas em que se estabelea, o Acampamento Jpiter 
sempre no oeste, a parte Romana do territrio. O leste  considerado m
sorte.
       -- Huh. -- Percy franziu o cenho.
        Frank no podia culp-lo por sentir-se confuso. O negcio
grego/romano tambm lhe dava dor de cabea.
       Eles chegaram aos portes.



                                                                         93
       -- Vou lev-lo para as casas de banho para voc se limpar, -- disse
Frank. -- Mas primeiro... sobre aqueles frascos que eu encontrei no rio.
       -- Sangue de Grgona -- disse Percy. -- Um frasco cura. O outro 
veneno mortal.
        Os olhos de Frank se arregalaram. -- Voc sabe sobre isso? Oua,
eu no ia ficar com eles. Eu s...
       -- Eu sei por que voc fez isso, Frank.
       -- Voc sabe?
        -- Sim. -- Percy sorriu. -- Se eu entrasse no Acampamento
carregando um frasco de veneno, isso teria parecido ruim. Voc estava
tentando me proteger.
       -- Oh... certo. -- Frank limpou o suor da palma das mos. -- Mas
se pudssemos descobrir qual  qual frasco, poderia curar a sua memria.
        O sorriso de Percy desapareceu. Ele olhou atravs das colinas. --
Talvez... eu acho. Mas voc deve guardar os frascos agora. H uma batalha
vindo. Podemos precisar deles para salvar vidas.
        Frank olhou para ele, um pouco espantado. Percy teve a chance de
recuperar a sua memria, e ele estava disposto a esperar no caso de algum
mais precisar do frasco? Romanos deveriam ser generosos e ajudar os seus
companheiros, mas Frank no tinha certeza de ningum no acampamento
que teria feito essa escolha.
        -- Ento voc no se lembra de nada? -- Frank perguntou. --
Famlia, amigos?
        Percy dedilhou as contas de argila em volta de seu pescoo. -- S
vislumbres. Coisas obscuras. Uma namorada... Eu pensei que ela estaria no
acampamento. -- Ele olhou para Frank com cuidado, como se tomasse uma
deciso. -- O nome dela era Annabeth. Voc no a conhece, no ?
       Frank balanou a cabea. -- Eu conheo todos no acampamento,
mas no Annabeth. E a sua famlia? A sua me  mortal?
       -- Eu acho que sim... ela provavelmente est fora de si com
preocupao. Sua me consegue te ver bastante?
        Frank parou na entrada da casa de banho. Ele pegou algumas toalhas
no galpo de abastecimento. -- Ela morreu.
       Percy franziu a testa. -- Como?



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        Normalmente Frank mentiria. Ele diria um acidente e interromperia
a conversa. Caso contrrio, suas emoes ficavam fora de controle. Ele no
podia chorar no Acampamento Jpiter. Ele no podia mostrar fraqueza. Mas,
com Percy, Frank achava mais fcil falar.
        -- Ela morreu na guerra -- disse ele. -- Afeganisto.
        -- Ela estava no exrcito?
        -- Canadense. Sim.
        -- Canad? Eu no sabia.
        -- A maioria dos americanos no sabe. -- Frank suspirou. -- Mas
sim, o Canad tem tropas l. Minha me era capit. Ela foi uma das
primeiras mulheres a morrer em combate. Ela salvou alguns soldados que
foram derrubados por fogo inimigo. Ela... ela no fez isso. O funeral estava
certo antes de eu vir para c.
         Percy assentiu. Ele no pediu mais detalhes, o que Frank apreciou.
Ele no disse que estava arrependido, ou fez qualquer um dos comentrios
bem-intencionados que Frank sempre odiou: Oh, pobre garoto. Deve ser to
difcil para voc. Voc tem as minhas mais profundas condolncias.
        Era como se Percy tivesse enfrentado a morte antes, como se ele
soubesse sobre dor. O que importava era ouvir. Voc no precisa dizer que
est arrependido. A nica coisa que ajudava era prosseguir  prosseguir em
frente.
        -- Que tal voc me mostrar as casas de banho agora? -- Percy
sugeriu. -- Estou sujo.
        Frank conseguiu dar um sorriso. -- Sim. Voc meio que est.
        Enquanto caminhavam para a sala de vapor, Frank pensou em sua
av, sua me e sua maldita infncia, graas a Juno e seu pedao de lenha. Ele
quase desejou poder esquecer seu passado, da forma como Percy esqueceu.




                                                                          95
                                       X




FRANK NO LEMBRAVA MUITO SOBRE o funeral em si.
        Mas ele se lembrava das horas que o antecederam  sua av saindo
para o quintal, para encontr-lo atirando flechas em sua coleo de
porcelana.
       A casa de sua av era uma manso de pedras cinzentas desconexas
de 12 acres no North Vancouver25. Seu quintal corria em linha reta at o
Lynn Canyon Park26.
       A manh estava fria e chuvosa, porm Frank no sentia o frio. Ele
usava um terno de l preto e um sobretudo que haviam pertencido a seu av.
Frank se sentiu assustado e chateado ao descobrir que se encaixavam muito
bem nele. As roupas cheiravam a l molhada e jasmim. O tecido causava um
comicho, mas era quente. Com seu arco e flecha ele devia parecer um
mordomo muito perigoso.
        Ele havia carregado algumas das porcelanas de sua av em um
vago e levou-as para o quintal, onde as estabeleceu como alvos em placas
na cerca velha  beira da propriedade. Ele estava puxando seu arco  tanto
tempo que perdeu os sentidos dos dedos, com cada seta ele imaginava que
estava derrubando seus problemas.
        Atiradores no Afeganisto. Estrondo. Um Bule explodiu com uma
flecha no meio.
        A medalha de sacrifcio, um disco de prata em uma fita vermelha e
preta, dado pela morte no exerccio de suas funes, apresentada  Frank
como se fosse algo importante, algo que fazia tudo ficar bem. Pancada. Uma
xcara girou para dentro da floresta.
       -- Sua me foi uma herona -- disse-lhe o oficial. -- A capit Emily
Zhang morreu para salvar seus companheiros.
          Crack. O prato azul e branco dividido em pedaos.
25
     North Vancouver: Cidade do Canad.
26
     Lynn Canyon Park: Parque municipal no Canad.

                                                                        96
        Sua av as vezes lhe dava um sermo: Homens no choram,
especialmente os homens Zhang. Voc vai resistir, Fai.
        Ningum o chamava de Fai, exceto sua av.
        Que tipo de nome  Frank? Ela ralhava. Isso no  um nome chins.
        Eu no sou chins, Frank pensava, mas no ousava dizer isso. Sua
me lhe tinha dito anos atrs: No se pode discutir com a av. Isso s vai
fazer voc sofrer mais. Ela tinha razo. E agora Frank no tinha ningum,
exceto sua av.
       Baque. Uma quarta seta acertou a trave da cerca e ficou presa l,
tremendo.
        -- Fai, -- disse sua av.
        Frank se virou.
       Ela estava segurando uma caixa de sapatos de mogno que Frank
nunca tinha visto antes. Com o seu vestido de gola alta preta e um srio
coque de cabelos grisalhos, ela parecia uma professora da escola dos anos
1800.
        Ela analisou o massacre: a porcelana na carroa, os cacos de seu
jogo de ch favorito espalhados pelo gramado, as setas de Frank saindo do
cho, das rvores, dos postes, e uma na cabea de um sorridente gnomo de
jardim.
        Frank pensou que ela iria gritar ou bater nele com a caixa. Ele nunca
fez nada to ruim antes. Ele nunca se sentira com tanta raiva.
        O rosto de sua av estava cheio de amargura e desaprovao. Ela
no se parecia em nada com a me de Frank. Ele se perguntou como sua me
havia se tornado to legal  sempre rindo, sempre gentil. Frank no
conseguia imaginar sua me crescendo com a av mais do que ele conseguia
imagin-la no campo de batalha  embora as duas situaes, possivelmente
no eram assim to diferentes.
        Ele esperou sua av explodir. Talvez ele fosse triturado e no tivesse
que ir ao funeral. Ele queria machuc-la por ser to m o tempo todo, por
deixar sua me ir para a guerra, por repreend-lo para superar isso. Tudo
com o que ela se preocupava era com sua coleo estpida.
        -- Pare com esse comportamento ridculo -- disse a av. Ela no
parecia muito irritada. -- Voc no est nesse nvel.
        E para a surpresa de Frank ela chutou para o lado uma de suas
xcaras de ch favoritas.

                                                                           97
       -- O carro estar aqui em breve, -- disse ela. -- Precisamos
conversar.
         Frank ficou pasmo. Ele olhou mais de perto a caixa de mogno. Por
um momento horrvel, ele se perguntou se ela continha as cinzas de sua me,
mas isso era impossvel. Sua av tinha lhe dito que haveria um enterro
militar. Ento porque a av segurava a caixa to cautelosamente como se seu
contedo a entristecesse?
        -- Venha para dentro, -- disse ela. Sem esperar para ver se ele a
seguiria, ela virou-se e marchou em direo  casa, Frank a acompanhou.
        Na sala, Frank sentou em um sof de veludo, cercado por
reconhecidas fotos da famlia, vasos de porcelana que eram muito grandes
para sua carroa, e bandeiras vermelhas com caligrafia chinesa. Frank no
sabia o que estava escrito. Ele nunca teve muito interesse em aprender. Ele
tambm no sabia quem a maioria das pessoas nas fotografias eram.
        Sempre que a av comeava a lhe falar sobre seus antepassados,
como eles vieram da China e prosperaram no negcio de
importao/exportao, tornando-se, em Vancouver, uma das mais ricas
famlias chinesas, bem, isso era chato. Frank era da quarta gerao
canadense. E ele no se importava com a China e todas estas antiguidades
cheias de mofo. Os nicos caracteres chineses que ele poderia reconhecer
eram seu nome de famlia: Zhang. Mestre dos arcos. Isso era legal.
       Sua av sentou-se ao seu lado, sua postura rgida, com as mos
cruzadas sobre a caixa.
        -- Sua me queria que isso fosse seu -- ela disse com relutncia. --
Ela manteve-o desde que voc era um beb. Quando ela foi embora para a
guerra, ela confiou-o a mim. Mas agora ela se foi. E logo voc estar indo
tambm.
        -- Indo? Indo aonde? -- O estmago de Frank tremulava.
        -- Eu estou velha, -- disse a av, como se isso fosse um anncio
surpreendente. -- Eu tenho minha prpria consulta com a morte em breve.
Eu no posso lhe ensinar as habilidades que voc vai precisar, e eu no posso
manter esse fardo. Se algo acontecer a ele, eu nunca poderia me perdoar.
Voc iria morrer.
        Frank no tinha certeza se tinha ouvido direito. Parecia que ela tinha
dito que a sua vida dependia daquela caixa. Ele se perguntou por que ele
nunca tinha visto aquilo antes. Ela deve ter mantido-o trancado no sto, o
nico lugar que Frank era proibido de explorar.


                                                                           98
       Ela sempre disse que mantinha seus tesouros mais valiosos l em
cima. Ela entregou a caixa para ele. Ele abriu a tampa com os dedos
trmulos. No interior, com um revestimento almofadado em veludo, havia
um aterrorizante, capaz de alterar vidas, incrivelmente importante... pedao
de madeira.
       Parecia madeira flutuante  dura e lisa, esculpida em uma forma
ondulada. Era do tamanho de um controle remoto da TV. A ponta estava
carbonizada. Frank tocou no final queimado. Ainda estava quente. As cinzas
deixaram uma mancha negra em seu dedo.
       --  um pedao de pau, -- disse ele. Ele no conseguia descobrir o
porqu sua av estava agindo de modo to tenso e srio.
       Seus olhos brilhavam. -- Fai, voc conhece profecias? Voc
conhece os deuses?
        As perguntas o deixaram desconfortvel. Ele pensou nas bobas
esttuas de ouro dos imortais chineses que sua av tinha, suas supersties
sobre a colocao de mveis em determinados lugares e evitar nmeros de
azar. Profecias o faziam pensar em biscoitos da sorte, que nem sequer eram
chineses, no realmente, mas alguns garotos na escola zombavam dele sobre
coisas estpidas como esta: Confcio dizia... e todo esse lixo. Frank nunca
tinha ido para a China. Ele no queria nada com ela. Mas, claro, a av no
queria ouvir isso.
       -- Um pouco, v -- ele disse -- no muito.
        -- A maioria teria zombado do conto de sua me, -- ela disse, --
Mas eu no. Eu sei de profecias e deuses. Gregos, romanos, se entrelaam
com chineses em nossa famlia. Eu no tive dvida que o que ela me contou
sobre seu pai era verdade.
       -- Espere... o qu?
       -- Seu pai era um deus -- ela disse claramente.
         Se sua av tivesse um senso de humor, Frank teria pensado que era
uma brincadeira, mas sua av nunca tinha feito uma brincadeira antes,
estaria senil?
       -- Pare de me olhar assim, -- disse a av. -- Minha mente no est
confusa. Voc nunca se perguntou por que ele nunca voltou?
        -- Ele era... -- Frank vacilou. A perda de sua me foi dolorosa o
suficiente. Ele no queria pensar sobre seu pai, tambm. -- Ele estava no
exrcito, como a mame. Ele desapareceu em ao. No Iraque.


                                                                         99
       -- Bah. Ele era um deus. Ele se apaixonou por sua me, porque ela
era uma guerreira nata. Ela era como eu, forte, corajosa, boa, bela.
        Forte e corajosa, concordava. Agora retratar a av to boa e bonita
era mais difcil.
      Ele ainda suspeitava que ela podia estar perdendo sua sanidade,
porm perguntou:
       -- Que tipo de deus?
        -- Romano, -- disse ela. -- Alm disso, eu no sei. Sua me no
quis dizer, ou talvez ela no soubesse. No  nenhuma surpresa um deus se
apaixonar por ela, dada a nossa famlia. Ele deve ter sabido que ela era de
sangue antigo.
       -- Espere... somos chineses. Por que deuses romanos iriam querer
namorar uma canadense/chinesa?
        As narinas da av queimaram.
       -- Se voc se preocupasse em aprender a histria da famlia, Fai,
voc poderia saber isso. China e Roma no so to diferentes, nem to
separadas como voc parece acreditar. Nossa famlia  da provncia de
Gansu, uma cidade, uma vez chamado Li-Jien. E antes que... como eu disse
sangue antigo. O sangue dos prncipes e heris.
       Frank s encarava-a.
        Ela suspirou, exasperada. -- Minhas palavras so desperdiadas
neste bezerro! Voc vai aprender a verdade quando for para o acampamento.
Talvez o seu pai v reclamar voc. Mas por enquanto, devo explicar sobre a
lenha.
       Ela apontou para a grande lareira de pedra.
         -- Pouco depois que voc nasceu, uma visitante apareceu em nosso
lar. Sua me e eu estvamos sentadas aqui no sof, exatamente onde ns
estamos sentados. Voc era uma coisa minscula, enrolado em um cobertor
azul, e ela aninhava-o em seus braos.
       Soou como uma doce memria, mas a av disse num tom amargo,
como se ela soubesse, at ento, que Frank iria se transformar em uma
grande madeireira imbecil.
       -- A mulher apareceu no fogo, -- continuou ela. -- Ela era uma
mulher branca usando um vestido de seda azul, com uma capa estranha
como a pele de uma cabra.


                                                                       100
        -- Uma cabra, -- disse Frank entorpecido.
        A av fez uma careta.
         -- Sim, limpe os ouvidos, Fai Zhang! Estou velha demais para
contar todas as histrias duas vezes! A mulher com a pele de cabra era uma
deusa. Eu posso sempre dizer estas coisas. Ela sorriu para o beb que voc
era e disse para sua me, em mandarim perfeito, nada menos: `Ele ir fechar
o crculo. Ele ir fazer a sua famlia retornar para suas razes e trazer-lhe
grande honra.'
         A av bufou. -- Eu no discuto com deusas, mas talvez esta no
veja o futuro com muita clareza. Seja qual for o caso, ela disse, `Ele vai ir
para o acampamento e restaurar sua reputao l. Ele ir libertar Tnatos
de suas correntes de gelo.'
        -- Espere, quem?
        -- Tnatos, -- disse a av, impaciente. -- O nome grego para a
Morte. Agora posso continuar sem interrupes? Pois bem a deusa disse: `O
sangue de Pylos  forte nessa criana pelo lado de sua me. Ele ter o dom
da famlia Zhang, mas ele tambm ter os poderes de seu pai.'
        De repente, a histria da famlia Zhang no parecia to chata. Ele
queria desesperadamente perguntar o que aquilo significava  poderes, dom,
sangue de Pylos. O que era esse acampamento, e quem era seu pai? Mas ele
no queria interromper a av novamente. Ele queria que ela continuasse
falando.
        -- Nenhum poder vem sem um preo, Fai -- disse ela. -- Antes da
deusa desaparecer, ela apontou para o fogo e disse: `Ele vai ser o mais forte
de seu cl, o maior. Mas as Parcas decretaram que ele ser tambm o mais
vulnervel. Sua vida vai queimar brilhante e curta. Quando aquele pedao
de estopa for consumido na borda do fogo o seu filho estar destinado a
morrer.'
       Frank mal podia respirar. Ele olhou para a caixa em seu colo, e as
manchas de cinzas em seu dedo. A histria parecia ridcula, mas de repente o
pedao de madeira flutuante parecia mais sinistro, mais frio e mais pesado.
        -- Isso... isso.
       -- Sim, meu boi estpido -- disse a av. -- Esse  o graveto. A
deusa desapareceu, e eu tirei a madeira do fogo imediatamente. Temos
mantido-a desde ento.
        -- Se ele queimar, eu morrerei?


                                                                        101
        -- No  to estranho -- disse a av. -- Romanos, chineses os
destinos dos homens muitas vezes podem ser previstos, e s vezes adiados,
pelo menos por um tempo. A lenha est em sua posse agora. Mantenha-a por
perto. Enquanto ela estiver segura, voc estar seguro.
        Frank balanou a cabea. Ele queria protestar que isso era apenas
uma lenda estpida. Talvez a av estivesse tentando assust-lo como uma
espcie de vingana por quebrar sua porcelana.
        Mas os olhos de sua av eram desafiadores, era como se ela dissesse:
Se no acredita queime-a.
        Frank fechou a caixa
       -- Se  to perigoso porque no revesti-lo de uma substncia que
no queime como plstico ou ao? Porque no coloc-lo em um cofre?
         -- O que aconteceria, -- perguntou a av. -- Se tivssemos
revestido a vara em outra substncia? Ser que voc, tambm, sufocaria? Eu
no sei. Sua me no iria assumir o risco. Ela no podia carregar a parte com
ela, por medo de algo dar errado. Bancos podem ser roubados. Edifcios
podem queimar. Coisas estranhas conspiram quando se tenta enganar o
destino. Sua me achava que a vara estaria segura, deste que ficasse com ela,
at que ela foi para a guerra, e o deu para mim. -- Sua av exalava mau
humor. -- Foi besteira de sua me ir para guerra, embora eu suponho que
sempre soube que era seu destino, ela esperava reencontrar seu pai.
        -- Ela pensou... pensou que ele estaria no Afeganisto?
      A av estendeu suas mos, como se isso fosse alm de sua
compreenso.
        -- Ela foi. Ela morreu bravamente. Pensei que o dom da famlia iria
proteg-la. Nenhuma dvida que foi assim que ela salvou aqueles soldados.
Ela nunca quis o dom que nossa famlia carrega. No ajudou meu pai nem o
pai dela. No me ajudou. E agora voc se tornou um homem. Voc deve
seguir o caminho.
        -- Mas... Que caminho? O nosso dom ... arco e flecha?
        -- Voc e seu arco e flecha menino! Tolo. Logo voc vai descobrir.
Hoje  noite, depois do funeral, voc deve ir para o sul. Sua me disse que se
ela no voltasse do combate, Lupa iria enviar mensageiros. Eles o
acompanharo para um lugar onde os filhos dos deuses podem ser treinados
para o seu destino.
        Frank se sentiu como se estivesse sendo espetado com inmeras
flechas, seu corao dividido em cacos de porcelana. Ele no entendeu a

                                                                         102
maior parte do que a av disse, mas uma coisa era clara: ela estava chutando-
o para fora.
        -- Voc est me mandando embora? -- Perguntou. -- Sua famlia
restante?
        A boca de sua av tremia. Seus olhos pareciam midos. Frank ficou
chocado ao perceber que ela estava quase chorando. Ela havia perdido o
marido h anos, ento sua filha, e agora ela estava prestes a mandar embora
seu nico neto. Mas ela se levantou do sof e ficou ereta, sua postura rgida e
correta como sempre.
         -- Quando voc chegar ao acampamento -- ela instruiu. -- Voc
dever falar com o pretor em privado. Diga-lhe que o seu bisav era Shen
Lun. J tem muitos anos desde o incidente de So Francisco. Esperemos que
eles no iro mat-lo pelo que ele fez, mas voc pode querer pedir perdo
por suas aes.
        -- Isso est ficando cada vez melhor, -- Frank resmungou.
       -- A deusa disse que voc faria o crculo da famlia ficar completo.
-- A voz da av no tinha nenhum trao de simpatia. -- Ela escolheu o seu
caminho anos atrs, e no vai ser fcil. Mas agora  hora do funeral. Temos
obrigaes. Venha. O carro est esperando.
        A cerimnia foi um borro: faces solenes, o tamborilar da chuva no
toldo do enterro, o estalido dos fuzis da guarda de honra, o afundamento do
caixo dentro da terra.
         Naquela noite, os lobos chegaram. Eles uivaram na varanda da
frente. Frank saiu para encontr-los. Ele levou o seu pacote de viagem, sua
roupas mais quentes, seu arco e sua aljava. A medalha de sacrifcio da sua
me estava enrolado em sua mochila. O graveto carbonizado estava
embrulhado cuidadosamente em trs camadas de pano no bolso do casaco,
junto ao seu corao.
        Sua jornada para o sul comeou  para a Casa dos Lobos em
Sonoma, e, eventualmente, para o Acampamento Jpiter, onde falou com
Reyna privadamente como sua av lhe havia instrudo. Ele implorou perdo
para o bisav, embora ele no soubesse nada sobre aquilo. Reyna deixou ele
se juntar  legio. Ela nunca lhe disse o que seu bisav tinha feito, mas ela
obviamente sabia. Frank podia dizer que era ruim.
        -- Eu julgo as pessoas pelos seus prprios mritos. -- Reyna tinha
dito. -- Mas no mencione o nome de Shen Lun para qualquer outra pessoa.
Deve permanecer o nosso segredo, ou voc vai ser mal tratado.


                                                                          103
       Infelizmente, Frank no teve muitos mritos. Seu primeiro ms no
acampamento foi gasto derrubando linhas de armas, quebrando carros, e
derrubando Coortes inteiras enquanto marchavam. Seu trabalho favorito era
cuidar de Hannibal, o elefante, mas ele conseguiu cometer erros nisso
tambm  dando  Hannibal uma indigesto, alimentando-o com amendoim.
Quem sabia que os elefantes poderiam ser intolerantes a amendoim? Frank
imaginou se Reyna estava lamentando a sua deciso de deix-lo entrar.
        Todo dia, ele acordava perguntando se o graveto de alguma forma
pegaria fogo e queimaria, e ele morreria.


        Tudo isto correu pela cabea de Frank enquanto ele caminhava com
Hazel e Percy para os jogos de guerra. Ele pensou sobre o graveto
acondicionado dentro de seu bolso do casaco, e o que significava o fato de
Juno ter aparecido no acampamento. Ele estava prestes a morrer? Ele achava
que no. Ele com certeza no trouxe qualquer honra para sua famlia ainda.
Talvez Apolo o reclamasse hoje e explicaria seus poderes e dons.
        Uma vez que eles saram do acampamento, a Quinta Coorte formou-
se em duas linhas atrs de seus centuries, Dakota e Gwen. Eles marcharam
para o norte, contornando a orla da cidade, e seguiram para o Campo de
Marte  a maior e mais plana parte do vale. A grama era cortada bem curta
por todos os unicrnios, touros, e faunos sem-teto que pastavam aqui. A terra
estava repleta de crateras de exploso e marcada com trincheiras de jogos
anteriores. No extremo norte do campo estava o seu alvo. Os engenheiros
construram uma fortaleza de pedra com uma ponte levadia de ferro, torres
de guarda, balistas escorpio, canhes de gua, e sem dvida muitas outras
surpresas desagradveis para os defensores usarem.
       -- Eles fizeram um bom trabalho hoje, -- Hazel observou. -- Isso 
ruim para ns.
        -- Espere, -- disse Percy. -- Voc est me dizendo que fortaleza foi
construda hoje?
         -- Legionrios so treinados para construir. -- Hazel disse sorrindo.
-- Se quisssemos, poderamos quebrar todo o campo e reconstru-lo em
algum outro lugar. Tome talvez trs ou quatro dias, mas ns poderamos
faz-lo.
        -- Ento vocs atacam uma fortaleza diferente a cada noite?
       -- Nem todas as noites, -- disse Frank. -- Temos exerccios de
treinamento diferentes. s vezes, a bola da morte, que  como paint-ball,


                                                                         104
exceto que com... voc sabe, bolas de veneno, cido e fogo. s vezes
fazemos competies de bigas e de gladiadores, s vezes jogos de guerra.
        Hazel apontou para o forte.
        -- Em algum lugar l dentro, a Primeira e Segunda Coorte esto
mantendo seus estandartes. Nosso trabalho  entrar e captur-los sem sermos
abatidos. Se fizermos isso, ns ganhamos.
        Os olhos de Percy se iluminaram.
       -- Como captura a bandeira. Eu acho que eu gosto de captura a
bandeira.
        Frank riu.
        -- Sim, bem...  mais difcil do que parece. Temos que passar os
escorpies e os canhes de gua nas paredes, lutar pelo interior da fortaleza,
encontrar os estandartes, e derrotar os guardas, e ao mesmo tempo proteger
os nossos prprios estandartes e as tropas de captura. E a nossa Coorte est
em concorrncia com os outros dois grupos de ataque. Ns trabalhamos
juntos, mas no realmente. A Coorte que captura as bandeiras recebe toda a
glria.
       Percy tropeou, tentando manter o tempo com o ritmo de marcha
esquerda-direita. Frank simpatizou. Ele tinha passado suas primeiras duas
semanas caindo.
       -- Ento por que estamos praticando isso, afinal? -- Percy
perguntou. -- Vocs passam muito tempo assaltando cidades fortificadas?
        -- Trabalho em equipe, -- disse Hazel. -- Raciocnio rpido.
Tticas. Habilidades de batalha. Voc ficaria surpreso com o que voc pode
aprender nos jogos de guerra.
        -- Como quem vai apunhal-lo pelas costas -- disse Frank.
        --  uma das coisas principais -- Hazel concordou.
          Eles marcharam para o centro do Campo de Marte e formaram
fileiras. A Terceira e Quarta Coorte montadas na medida do possvel a partir
da Quinta. Os centuries do lado atacante se reuniram para uma conferncia.
No cu acima deles, Reyna circulou em seu pgaso, Scipio, pronta para
arbitrar.
       Meia dzia de guias gigantes voavam em formao atrs dela
preparadas para o servio de ambulncia de transporte areo, se necessrio.
A nica pessoa que no participava do jogo era Nico di Angelo,


                                                                         105
"Embaixador de Pluto", que havia subido para a torre de observao a cerca
de cem metros do forte e estaria assistindo com binculos.
       Frank apoiou o pilo contra o seu escudo e checou a armadura de
Percy. Cada tira estava correta. Cada pea de armadura estava
adequadamente ajustada.


        -- Voc fez certo, -- disse ele com espanto. -- Percy, voc deve ter
participado de jogos de guerra antes.
       -- Eu no sei. Talvez.
        A nica coisa que no estava normal era a brilhante espada de
bronze de Percy ao invs de Ouro Imperial, e no era um gladio. A lmina
estava em forma de folha, e a escrita no punho era grega.
       Olhando para ela Frank ficou desconfortvel. Percy franziu a testa.
       -- Ns podemos usar armas de verdade, certo?
       -- Sim, -- concordou Frank. -- Com certeza. Eu apenas nunca vi
uma espada como essa.
       -- E se eu machucar algum?
        -- Ns curamos o algum, -- disse Frank. -- Ou tentamos. Os
mdicos da legio so muito bons com ambrsia e nctar, e unicrnios de
trao.
       -- Ningum morre, -- disse Hazel. -- Bem, no, geralmente. E se
morrerem...
       Frank imitou a voz de Vitellius:
        -- Eles so covardes! Na minha poca, ns morramos o tempo todo,
e gostvamos disso!
        Hazel riu.
        -- Basta ficar com a gente, Percy. As chances so de que teremos os
piores deveres e seremos eliminados cedo. Eles nos lanam nas paredes
primeiro para suavizarmos as defesas. Em seguida, as Coortes Terceira e
Quarta marcharo para obter as honras, se eles puderem quebrar o forte.
         Cornetas soaram. Dakota e Gwen voltaram da conferncia dos
oficiais, parecendo tristes.




                                                                        106
        -- Tudo bem, aqui est o plano! -- Dakota tomou um gole rpido de
Kool-Aid de seu frasco de viagem. -- Eles iro nos jogar nas paredes
primeiro para suavizar as defesas.
        Toda a Coorte gemeu.
       -- Eu sei, eu sei, -- disse Gwen. -- Mas talvez desta vez ns
tenhamos alguma sorte!
         Gwen quis ser otimista. Todo mundo gostava dela porque ela tinha
o cuidado de tentar manter o nimo de seu povo. Ela poderia at mesmo
controlar Dakota durante seu bug hiperativo de suco de caixinha. Ainda
assim, os campistas resmungaram e se queixaram. Ningum acreditava em
sorte na Quinta Coorte.
        -- Dakota fica com a primeira linha, -- disse Gwen. -- Bloqueie
com escudos e avancem na formao de tartaruga para os portes principais.
Tentem ficar em uma s pea. Chame o seu fogo. Segunda linha... -- Gwen
voltou-se para Frank, sem muito entusiasmo. -- Voc dezessete assuma o
comando do elefante e as escadas de escalada. Tente um ataque de
acompanhamento na parede ocidental. Talvez possamos espalhar os
defensores deixando a linha deles muito fina. Frank, Hazel, Percy... bem,
basta fazer o de sempre. Mostrem a Percy as cordas. Tentem mant-lo vivo.
-- Voltou-se para toda a Coorte. -- Se algum passar pela primeira parede,
eu vou ter certeza de obter a Coroa Mural27. Vitria para a Quinta Coorte!
        A Coorte aplaudiu empenhadamente e rompeu-se.
        Percy franziu a testa.
        -- Fazer o de sempre?
        -- Sim, -- suspirou Hazel. -- Grande voto de confiana.
        -- O que  a Coroa Mural? -- Perguntou.
       -- Medalha militar, -- disse Frank. Ele tinha sido forado a
memorizar todos os prmios possveis. -- Grande honra para o primeiro
soldado a entrar em um forte inimigo. Voc vai notar que ningum na Quinta
Coorte est vestindo uma. Geralmente ns nem sequer entramos no forte
porque estamos queimando ou afogando ou...
        Ele vacilou, e olhou para Percy.
        -- Canhes de gua.


27
 Coroa Mural: A coroa mural foi uma antiga condecorao militar romana, que
mais tarde se tornou elemento herldico.

                                                                              107
        -- O qu? -- Percy perguntou.
        -- Os canhes nas paredes, -- Frank disse, -- eles tiraram gua do
aqueduto. H um sistema de bomba  eu no sei como isso funciona, mas
eles esto sob muita presso. Se voc pudesse control-los, como voc
controlou o rio...
        -- Frank! -- Hazel comemorou. -- Isso  brilhante!
        Percy no parecia to certo.
       -- Eu no sei como fiz isso no rio. Eu no tenho certeza de que
posso controlar os canhes desta distncia.
         -- Vamos chegar mais perto. -- Frank apontou para a parede
oriental da fortaleza, onde a Quinta Coorte no estaria atacando.
        --  a que a defesa ir ser mais fraca. Eles nunca vo levar trs
crianas a srio. Acho que podemos deslocar-nos muito perto antes de nos
verem.
        -- Deslocar-se como? -- Percy perguntou.
        Frank virou-se para Hazel. -- Voc pode fazer aquela coisa de
novo?
        Ela socou-o no peito.
        -- Voc disse que no iria dizer nada!
        Frank imediatamente sentiu-se pssimo. Ele tinha ficado to
excitado com a idia...
        Hazel murmurou baixinho.
         -- No se preocupe. Est tudo bem. Percy, ele est falando sobre as
trincheiras. O Campo de Marte est repleto de tneis ao longo de tantos
anos. Alguns esto desmoronados, ou enterrados, mas muitos deles ainda so
transitveis. Eu sou muito boa em encontr-los e us-los. Eu posso at
mesmo desmoron-los, se precisar.
        -- Como voc fez com as grgonas, -- Percy disse. -- Para atras-
las.
        Frank assentiu com aprovao.
        -- Eu disse que Pluto era legal. Ele  o deus de tudo debaixo da
terra. Hazel pode encontrar cavernas, tneis, alapes...
        -- E l se foi o nosso segredo, -- ela resmungou.
        Frank sentiu-se corar.
                                                                       108
        -- Sim, me desculpe. Mas, se pudermos chegar perto...
       -- E se eu puder tirar os canhes de gua da jogada... -- Percy
balanou a cabea, como se ela fosse aquecer com a ideia. -- O que faremos
ento?
       Frank checou sua aljava. Ela sempre estocava flechas especiais. Ele
nunca chegou a utiliz-las antes, mas talvez esta noite fosse a noite. Talvez
ele pudesse, finalmente, fazer algo bom o suficiente para chamar a ateno
de Apolo.
        -- O resto depende de mim, -- disse ele. -- Vamos.




                                                                        109
                                   XI




FRANK NUNCA HAVIA SE SENTIDO to certo de nada, o que o
deixava nervoso. Nada que ele planejava dava certo. Ele sempre conseguiu
quebrar, estragar, queimar, sentar ou derrubar algo importante, mas ele sabia
que a estratgia iria funcionar.
        Hazel encontrou um tnel sem nenhum problema. Na verdade, Frank
tinha uma suposio que ela no tinha simplesmente encontrado o tnel. Era
como se os prprios tneis se fabricassem para atender s necessidades dela.
Passagens que haviam sido preenchidas anos atrs, de repente no estavam
mais preenchidas, mudando direes para conduzir Hazel, onde quer que ela
queira ir. Eles rastejaram junto  luz da espada brilhante de Percy,
Contracorrente. Acima, eles ouviam os sons da batalha -- crianas berrando,
Hannibal o elefante gritando de alegria, flechas de escorpio explodindo e
canos de gua disparando. O tnel sacudiu. P choveu sobre eles.
        Frank escorregou sua mo dentro de sua armadura. O pedao de
madeira ainda estava seguro no bolso do casaco, embora um bom tiro de um
escorpio pudesse colocar a sua linha da vida em chamas...
   Ruim Frank, ele repreendeu a si mesmo. Fogo  a "palavra-F", no
pense nisso.
        -- H uma abertura l na frente -- Hazel anunciou. -- Vamos
chegar a 3 metros da parede leste.
        -- Como voc sabe? -- Percy perguntou.
        -- Eu no sei -- ela falou. -- Mas tenho certeza.
       -- Poderamos seguir o tnel em linha reta, sob a parede? -- Frank
perguntou.
        -- No -- Hazel disse -- Os engenheiros foram espertos. Eles
construram as paredes em fundaes antigas que vo at alicerce. E no
pergunte como eu sei. S sei.




                                                                        110
        Frank tropeou em alguma coisa e amaldioou. Percy usou espada
em volta para dar mais luz. A coisa que Frank tinha tropeado era prata
reluzente.
        Ele se agachou.
        -- No toque nisso! -- Hazel disse.
        A mo de Frank parou a poucos centmetros do pedao de metal.
Parecia um pedao gigante de Hershey's Kiss28, quase do tamanho de seu
punho.
        --  macio -- ele disse -- prata?
        -- Platina -- Hazel parecia assustada. -- Vai sumir em um segundo.
Por favor, no toque nisso.  perigoso.
       Frank no entendeu como um pedao de metal poderia ser perigoso,
mas ele levou Hazel a srio. Enquanto observavam, o pedao de platina
afundou no solo.
        Ele olhou para Hazel. -- Como voc sabia?
        A luz da espada de Percy fez Hazel parecer fantasmagrica como um
Lar.
        -- Vou explicar mais tarde -- ela prometeu.
        Outra exploso abalou o tnel, e eles seguiram em frente.
        Eles saltaram de um buraco exatamente onde Hazel havia previsto.
Em frente deles, a parede leste do forte se aproximava.  sua esquerda,
Frank podia ver a linha principal da Quinta Coorte avanando na formao
de tartaruga, formando escudos de concha sobre suas cabeas e lados.
Estavam tentando chegar aos portes principais, mas os defensores de cima
os prenderam com pedras e atingiram com flechas flamejantes de escorpio,
crateras explodiram em torno de seus ps. Um canho de gua descarregou
com um barulho de mandbula arranhada e um jato lquido atingiu a
trincheira no cho em frente  Coorte.
        Percy assobiou
        -- Isso  muita presso, cara.
        A terceira e quarta Coorte no estavam nem mesmo avanando. Elas
ficaram para trs e riram, assistindo seus `aliados' apanharem. Os defensores
agrupados na parede de cima dos portes, gritavam insultos para a formao
28
  Hershey's Kiss  uma marca de chocolate fabricado pela The Hershey Company.
A embalagem  prateada.

                                                                          111
de tartaruga, uma vez que cambaleava para trs e para frente. Jogos de
guerra tinham se deteriorado em "abater a Quinta".
       A viso de Frank ficou vermelha de raiva.
        -- Vamos agitar as coisas -- Ele pegou na sua alijava a flecha mais
pesada do que o resto. A ponta de ferro fino era formada como o nariz
cnico de um foguete. Uma corda de ouro ultrafina se arrastava desde as
penas. Atirava com preciso e exigia mais fora e habilidade que a maioria
dos arqueiros poderia conseguir, mas Frank tinha armas fortes e uma boa
pontaria.
       Talvez Apolo esteja assistindo, pensou esperanosamente.
       -- O que isso faz? -- Percy perguntou -- Engancha?
       -- Isso se chama seta da Hidra -- Frank disse -- Voc pode
derrubar os canhes de gua?
       Um defensor apareceu na parede acima deles:
       -- Ei! -- Ele gritou para seus amigos. -- Vejam isso! Mais vtimas!
       -- Percy -- Frank disse -- Agora seria bom.
       Mais crianas riram deles. Alguns correram para a gua mais
prxima e viraram o canho em direo a Frank.
       Percy fechou seus olhos. Ele levantou a mo.
       Na parede algum gritou:
       -- J era, perdedores!
       KA-BOOM
         O cano explodiu em azul, verde e branco. Os defensores gritavam
com uma onda de choque aquosa achatando-os contra as muralhas. As
crianas caram das paredes, mas foram capturadas pelas gigantes guias e
levadas para longe em segurana. Todo leste da parede explodiu por meio
dos dutos. Um depois do outro, os canhes de gua explodiram. Os disparos
dos escorpies ficaram encharcados. Os defensores se dispersaram na
confuso ou foram atirados para o ar, dando s guias de resgate um
exerccio completo. Nos portes principais, a Quinta Coorte esqueceu sua
formao. Mistificados, abaixaram o escudo e olharam para o caos.
       Frank atirou sua flecha. Ela subiu, levando sua corda brilhante.
Quando chegou ao topo, o ponto de metal se dividiu em dzia de linhas que
atacaram e acondicionaram em torno de qualquer coisa que poderiam
encontrar - partes da parede, um escorpio quebrado, um canho de gua e

                                                                      112
um par de campistas defensores, que ganiram e se encontraram batendo
contra o parapeito como ncoras. A corda principal, estendeu-se em dois
intervalos, fazendo uma escada.
       -- Vai! -- Frank disse.
       Percy sorriu
       -- Voc primeiro, Frank. Essa  sua festa.
        Frank hesitou. Ento pendurou seu arco nas costas e comeou a
subir. Ele estava a meio caminho antes de defensores recuperarem seus
sentidos o suficiente para tocar o alarme.
        Frank olhou atrs para o principal grupo da Quinta Coorte. Em
seguida eles o olharam, estupefatos.
       -- Bem... -- Frank gritou -- Atacar!
       Gwen foi a primeira a descongelar. Ela sorriu e repetiu a ordem.
        A alegria encheu o campo de batalha. Hannibal, o elefante, trombou
com felicidade, mas Frank no pode se dar o luxo de assistir. Ele subiu o
topo da parede, onde trs defensores estavam tentando cortar a sua escada de
corda.
        Uma coisa boa de ser grande, desajeitado e estar vestido de metal:
Frank era uma bola de boliche fortemente blindada. Ele se lanou nos
defensores, e os derrubou como alfinetes. Frank ficou de p. Ele assumiu o
comando das ameias, varrendo com seu pilo para frente e para trs,
derrubando os defensores. Algumas flechas foram disparadas. Alguns
tentaram ficar sob sua guarda com suas espadas, mas Frank se sentiu
invencvel. Ento Hazel apareceu perto dele, balanando sua grande espada
de cavalaria como se tivesse nascido para a batalha.
       Percy pulou o muro e levantou Contracorrente.
       -- Divertido -- ele disse.
        Juntos, eles limparam as muralhas. Abaixo deles, o porto foi
quebrado. Hannibal foi para o forte, flechas e pedras quicando
inofensivamente pela sua armadura Kevlar. A Quinta Coorte foi atrs do
elefante, e a batalha comeou corpo-a-corpo. Finalmente, da borda do
Campo de Marte um grito de guerra foi declarado. A Terceira e Quarta
Coorte correram para se juntar  luta.
       -- Um pouco tarde -- Hazel resmungou.
       -- No podemos deixar o estandarte -- Frank disse.

                                                                          113
       -- No -- Percy concordou. -- Eles so nossos.
        Mais nenhuma conversa foi necessria. Eles se moveram como uma
equipe. Como se os trs trabalhassem juntos h anos. Eles correram para a
base inimiga.




                                                                     114
                                   XII




DEPOIS DISSO, A BATALHA FICOU CONFUSA.
        Frank, Percy e Hazel uniram-se por causa do inimigo, levando
abaixo todos que estivessem em seu caminho. A Primeira e a Segunda
Coortes  orgulho do Acampamento Jpiter, uma bem lubrificada, mquina
de guerra altamente disciplinada  desmoronou sob o ataque e a novidade
absoluta de estar no lado perdedor.
         Parte do seu problema era Percy. Ele lutou como um demnio,
rodopiando atravs das fileiras dos defensores em um estilo pouco ortodoxo,
rolando sob seus ps, cortando com sua espada em vez de esfaquear como
um romano faria, golpeando campistas com a palma da sua lmina, e,
geralmente, causando pnico em massa. Octavian gritou com uma voz
estridente  talvez ordenando que a Primeira Coorte se mantivesse firme,
talvez tentando cantar como um soprano  mas Percy ps um fim a isso. Ele
saltou sobre uma linha de escudos e bateu a coronha da sua espada no
capacete de Octavian. O centurio desmoronou como um fantoche.
        Frank disparou flechas at sua aljava estar vazia, usando flechas com
ponta arredondada que no matariam, mas deixariam alguns hematomas
desagradveis. Ele quebrou o pilo sobre a cabea de um defensor, ento
relutantemente puxou o gldio.
        Enquanto isso, Hazel escalou sobre as costas de Hannibal. Ela foi
carregada na direo do centro da fortaleza, sorrindo para seus amigos. --
Vamos, molengas!
        Deuses do Olimpo, ela  linda, Frank pensou.
         Eles correram para o centro da base. A fortaleza interior estava
praticamente desprotegida. Obviamente nunca os defensores sonharam que
um ataque iria chegar to longe. Hannibal arrebentou as portas enormes. No
interior, os porta-estandartes das Coortes Primeira e Segunda estavam
assentados em torno de uma mesa de jogo Mitomagia com cartes e
figurinhas. Os estandartes das Coortes estavam apoiados descuidadamente
contra uma parede.

                                                                        115
        Hazel e Hannibal andaram direto para a sala, e os porta-estandartes
caram para trs de suas cadeiras. Hannibal pisou em cima da mesa, e peas
do jogo espalharam-se.
        No momento que o restante da Coorte os alcanou, Percy e Frank
haviam desarmado os inimigos, capturado os estandartes, e Hazel subiu nas
costas de Hannibal. Eles marcharam para fora do castelo triunfantemente
com as cores do inimigo.
        A Quinta Coorte formou fileiras em torno deles. Juntos, eles
desfilaram para fora do forte, passando por inimigos atordoados e linhas de
aliados igualmente mistificados.
       Reyna circulou baixo sobre as cabeas em seu pgaso.
         -- O jogo est ganho! -- Ela parecia como se ela estivesse tentando
no rir. -- Renam-se para as honras!
        Lentamente, os campistas se reagruparam no Campo de Marte.
Frank viu a abundncia de pequenas leses  algumas queimaduras, ossos
quebrados, olhos roxos, cortes e arranhes, alm de um monte
de penteados interessantes por causa do fogo e dos canhes de
gua explodindo  mas nada que no pudesse ser corrigido.
       Ele escorregou do elefante. Seus camaradas cercaram-no, batendo
em suas costas e elogiando-o. Frank perguntou se ele estava sonhando. Foi a
melhor noite de sua vida  at que viu Gwen.
        -- Ajudem! -- Algum gritou. Um par de campistas correu para
fora da fortaleza, carregando uma menina em uma maca. Eles colocaram-na
no cho, e outras crianas comearam a correr muito. Mesmo  distncia,
Frank poderia dizer que era Gwen. Ela estava em pssimo estado. Ela estava
deitada de lado na maca com um pilo saindo de sua armadura  quase como
se estivesse segurando-o entre o peito e o brao, mas no havia muito
sangue.
      Frank balanou a cabea em descrena. -- No, no, no... -- ele
murmurou enquanto corria para o lado dela.
        Os mdicos berraram para todos afastarem-se para dar-lhe ar. Toda a
legio calou-se enquanto os curandeiros trabalhavam, tentando colocar gaze
e chifre de unicrnio em p sob a armadura de Gwen para parar o
sangramento, tentando forar algum nctar em sua boca. Gwen no se
moveu. Seu rosto estava cinza plido.
       Finalmente, um dos mdicos olhou para Reyna e balanou a cabea.



                                                                       116
        Por um momento, no houve nenhum som, exceto a gua dos
canhes em runas escorrendo pelas paredes do forte. Hannibal aninhou o
cabelo de Gwen com sua tromba.
        Reyna encarou os campistas de seu pgaso. Sua expresso era to
dura e escura quanto o ferro. -- Haver uma investigao. Quem fez isso,
voc custou  legio um bom oficial. A morte honrosa  uma coisa, mas
isto...
       Frank no tinha certeza do que ela quis dizer. Ento ele percebeu a
marca gravada na haste de madeira do pilo: CHT I LEGIO XII F. A
arma pertencia  Primeira Coorte, e a ponta estava saindo na frente de sua
armadura. Gwen foi atingida por trs  possivelmente aps o jogo ter
terminado.
        Frank examinou a multido  procura de Octavian. O centurio
estava assistindo com mais interesse do que preocupao, como se ele
estivesse examinando um dos seus estpidos eviscerados ursos empalhados.
Ele no tinha um pilo.
       O sangue rugiu nos ouvidos de Frank. Ele queria estrangular
Octavian com as prprias mos, mas naquele momento, Gwen engasgou.
       Todo mundo recuou. Gwen abriu os olhos. A cor voltou ao seu rosto.
       -- O qu... o que foi? -- Ela piscou. -- O que todo mundo est
olhando? -- Ela no parecia notar o arpo de 2 metros saindo atravs de seu
peito.
       Atrs de Frank, um mdico sussurrou:
       -- No tem como. Ela estava morta. Ela tinha que estar morta.
        Gwen tentou sentar-se, mas no conseguiu. -- Havia um rio, e um
homem perguntando... por uma moeda? Virei-me e a porta de sada estava
aberta. Ento, eu s... Eu s entrei. No estou entendendo. O que aconteceu?
       Todo mundo olhou para ela com horror. Ningum tentou ajudar.
        -- Gwen. -- Frank se ajoelhou ao lado dela. -- No tente se
levantar. Basta fechar os olhos por um segundo, ok?
       -- Por qu? O que...
       -- Basta confiar em mim.
       Gwen fez o que ele pediu.
       Frank pegou o eixo do pilo abaixo de sua ponta, mas suas mos
tremiam. A madeira estava escorregadia. -- Percy, Hazel... ajudem-me.

                                                                       117
         Um dos mdicos percebeu o que ele estava planejando. -- No! ele
disse. -- Voc pode...
       -- O qu? -- Hazel agarrou. -- Piorar?
       Frank respirou fundo. -- Segurem-na firme. Um, dois, trs!
       Ele puxou o pilo pela frente. Gwen nem sequer estremeceu. O
sangramento parou rapidamente.
        Hazel se abaixou para examinar a ferida. -- Est fechando por si s
-- disse ela. -- Eu no sei como, mas...
       -- Eu me sinto bem -- Gwen protestou. -- Por que est todo mundo
preocupado?
       Com a ajuda de Frank e Percy, ela ficou de p. Frank olhou furioso
para Octavian, mas o rosto do centurio era uma mscara de
preocupao educada.
       Mais tarde, Frank pensou. Lidar com ele mais tarde.
         -- Gwen, -- Hazel disse gentilmente. -- No h nenhuma maneira
fcil de dizer isso. Voc estava morta. De alguma forma voc voltou.
        -- Eu... o qu? -- Ela tropeou em Frank. Sua mo pressionada
contra o furo irregular em sua armadura. -- Como... como?
       -- Boa pergunta. -- Reyna virou-se para Nico, que estava assistindo
severamente da borda da multido. -- Este  algum poder de Pluto?
       Nico sacudiu a cabea.
       -- Pluto nunca permite que as pessoas retornem dos mortos.
       Ele olhou para Hazel como aviso para ela ficar quieta. Frank se
perguntou o que era, mas ele no tinha tempo para pensar nisso.
       Uma voz de trovo rolou pelo campo: a Morte perde sua posse. Este
 apenas o comeo.
        Os campistas tiraram as armas. Hannibal alardeou nervosamente.
Scipio empinou-se, quase jogando Reyna.
       -- Eu conheo esta voz, -- disse Percy. Ele no soava satisfeito.
        No meio da legio, uma coluna de fogo explodiu no ar. O calor
queimou os clios de Frank. Os campistas que tinham sido encharcados pelos
canhes    encontraram      suas    roupas      instantaneamente secas   a
vapor. Todos foram forados para trs quando um soldado enorme saiu da
exploso.

                                                                           118
        Frank no tinha muito cabelo, mas o que ele tinha se eriou. O
soldado tinha trs metros de altura, vestido como um camuflado das Foras
Canadenses do deserto. Ele irradiava confiana e poder. Seu cabelo preto era
cortado em uma cunha no topo achatado como o de Frank. Seu rosto
era anguloso e brutal, marcado com cicatrizes antigas. Seus olhos
estavam cobertos com culos infravermelhos que brilhavam no interior. Ele
usava um cinto de utilidades com uma arma, uma faca na bainha e vrias
granadas. Em suas mos estava um enorme rifle M16.
        O pior era que Frank se sentiu atrado por ele. Quando todos os
outros recuaram, Frank deu um passo adiante. Ele percebeu que o soldado
estava silenciosamente querendo que ele se aproximasse.
        Frank desesperadamente queria fugir e se esconder, mas               no
podia. Ele deu mais trs passos. Ento ele caiu em um joelho.
      Os outros campistas seguiram seu exemplo e se ajoelharam. At
mesmo Reyna desmontou.
        -- Isso  bom, -- disse o soldado. -- Ajoelhar  bom. J tem um
longo tempo desde que eu visitei o Acampamento Jpiter.
       Frank percebeu que uma pessoa no estava ajoelhada. Percy
Jackson, sua espada ainda na mo, estava olhando para o soldado gigante.
           -- Voc  Ares, -- disse Percy. -- O que voc quer?
        Um suspiro coletivo subiu de 200 campistas e de um elefante. Frank
queria dizer alguma coisa para desculpar Percy e aplacar o deus, mas ele
no sabia o qu. Ele temia que o deus da guerra fosse explodir seu novo
amigo com esse M16 extragrande.
           Em vez disso, o deus mostrou os brilhantes dentes brancos.
       -- Voc tem coragem, semideus -- disse ele. -- Ares  a minha
forma grega. Mas, para esses seguidores, para as crianas de Roma, eu
sou Marte  patrono do imprio, pai divino de Rmulo e Remo.
           -- Ns nos encontramos, -- disse Percy. -- Ns... ns tivemos uma
briga...
       O deus coou o queixo, como se tentasse se lembrar. -- Eu lutei
contra um monte de gente. Mas garanto-vos  voc nunca lutou comigo
como Marte. Se voc tivesse, voc estaria morto. Agora, ajoelhe-se, como
convm a uma criana de Roma, antes de testar a minha pacincia.
           Ao redor dos ps de Marte, o cho fervia em um crculo de fogo.
           -- Percy, Frank disse. -- Por favor.

                                                                             119
          Percy claramente no gostou, mas ele se ajoelhou.
        Marte examinou a multido. -- Romanos, emprestem-me seus
ouvidos! -- Ele riu  um riso bom, baixo, saudvel e to contagiante
que quase fez Frank sorrir, embora ele ainda estivesse tremendo de medo. --
Eu sempre quis dizer isso. Eu venho do Olimpo com uma mensagem. Jpiter
no gosta que ns nos comuniquemos diretamente com os
mortais, especialmente hoje em dia, mas ele permitiu essa exceo, j que
vocs romanos sempre foram o meu povo especial. Eu s estou autorizado a
falar por alguns minutos, ento ouam.
        Ele apontou para Gwen. -- Ela devia estar morta, mas ela no est.
Os monstros com os quais vocs lutam no retornam mais para o Trtaro
quando eles so mortos. Alguns mortais que morreram h muito tempo esto
agora caminhando na terra novamente.
          Foi a imaginao de Frank, ou o deus fitou Nico di Angelo?
        -- Tnatos foi acorrentado, -- Marte anunciou. -- As Portas da
Morte foram arrombadas, e ningum est policiando-a  pelo menos, no de
forma imparcial. Gaia permite que nossos inimigos entrem no mundo dos
mortais. Seus filhos, os gigantes esto reunindo exrcitos contra vocs 
exrcitos que vocs no sero capazes de matar. A menos que a Morte seja
libertada para voltar aos seus deveres, vocs vo ser invadidos. Vocs devem
encontrar Tnatos e libert-lo dos gigantes. S ele pode reverter a mar.
        Marte olhou ao redor, e percebeu que todo mundo ainda estava em
silncio ajoelhado. -- Oh, vocs podem comear agora. Alguma pergunta?
        Reyna se levantou inquieta. Ela aproximou-se do deus, seguida por
Octavian, que estava se curvando e fazendo reverncias como um campeo
ordinrio.
          -- Lorde Marte, -- disse Reyna. -- Estamos honrados.
       -- Alm de honrados, -- disse Octavian. -- Muito alm de
honrados...
          -- Bem? -- Marte esperou.
          -- Bem, -- disse Reyna. -- Tnatos  o deus da morte, o tenente de
Pluto?
          -- Certo, -- disse o deus.
          -- E voc est dizendo que ele foi capturado pelos gigantes.
          -- Certo.


                                                                         120
       -- E, portanto, as pessoas vo parar de morrer?
        -- Nem todos ao mesmo tempo, -- disse Marte. -- Mas a barreira
entre a vida e a morte continuar a se enfraquecer. Aqueles que sabem como
tirar proveito disso vo explor-la. Monstros j so mais difceis de
despachar. Em breve eles sero completamente impossveis de matar.
Alguns semideuses tambm sero capazes de encontrar o seu caminho de
volta do Mundo Inferior como sua amiga Centurio Shish kebab.
       Gwen fez uma careta. -- Centurio Shish kebab?
       -- Se no for controlada, -- Marte continuou. -- At mesmo
mortais acabaro por achar que  impossvel morrer. Voc consegue
imaginar um mundo em que ningum morre... nunca?
      Octavian levantou a mo. -- Mas, ah, todo-poderoso Senhor Marte,
se ns no pudermos morrer, no ser uma coisa boa? Se pudermos
permanecer vivos indefinidamente...
       -- No seja tolo rapaz! -- Marte berrou. -- Matana sem fim, sem
uma concluso? Carnificina sem nenhuma razo? Inimigos que se
levantam de novo e de novo e nunca podem ser mortos?  isso que
voc quer?
         -- Voc  o deus da guerra, -- Percy falou. -- Voc no quer
carnificina sem fim?
        Os culos infravermelhos de Marte resplandeceram mais brilhantes.
-- Insolente, no ? Talvez eu tenha lutado com voc antes. Eu posso
entender porque eu quero te matar. Eu sou o deus de Roma, filho. Eu sou
o deus da fora militar usada para uma causa justa. Eu protejo as
legies. Fico feliz por esmagar os meus inimigos debaixo dos ps, mas eu
no luto sem motivo. Eu no quero uma guerra sem fim. Voc vai descobrir
isso. Voc ir me servir.
       -- No  provvel -- disse Percy.
        Mais uma vez, Frank esperou o deus assassin-lo, mas Marte apenas
sorriu como se fossem dois velhos amigos conversando baboseiras.
         -- Eu solicitei uma busca! -- O deus anunciou. -- Vocs iro para o
norte e encontraro Tnatos, na terra alm dos deuses. Vocs iro libert-lo
e frustrar os planos dos gigantes. Cuidado com Gaia! Cuidado com seu filho,
o mais velho gigante!
       Ao lado de Frank, Hazel emitiu um som guinchando. -- A terra para
alm dos deuses?


                                                                       121
         Marte olhou para ela, seu punho apertando sua M16. --  isso
mesmo, Hazel Levesque. Voc sabe o que eu quero dizer. Todo mundo
aqui se lembra da terra onde a legio perdeu sua honra! Talvez se a busca for
bem sucedida, e vocs retornarem para a Festa da Fortuna... Talvez ento a
sua honra seja       restaurada. Se      voc no       conseguir,       no
haver qualquer Acampamento de treinamento para voltar. Roma ser
superada, seu legado perdido para sempre. Portanto, meu conselho :
no falhem.
        Octavian de alguma forma conseguiu se curvar ainda mais. --
Hum, Lorde Marte, apenas uma coisa minscula. A busca exige uma
profecia, um poema mstico para nos guiar! Nos os obtemos a partir dos
livros Sibilinos, mas agora o ugure a usar para recolher o desejo dos
deuses. Ento, se eu pudesse correr e obter cerca de setenta animais
empalhados e possivelmente uma faca...
        -- Voc  o ugure?-- O deus interrompeu.
        --Si... sim, meu senhor.
      Marte retirou um pergaminho de seu cinto de utilidades. -- Algum
tem uma caneta?
        Os legionrios olharam para ele.
       Marte suspirou. -- Duzentos romanos, e ningum tem uma caneta?
No importa!
        Ele jogou a M16 em suas costas e tirou uma granada de mo. Houve
muitos romanos gritando. Ento a granada se transformou em uma caneta
esferogrfica, e Marte comeou a escrever.
      Frank olhou para Percy com os             olhos    arregalados.    Ele
murmurou: Sua espada pode virar granada?
        Percy murmurou de volta: No. Cale a boca.
        -- Aqui! -- Marte terminou de escrever no pergaminho e jogou
para Octavian. -- A profecia. Voc pode adicion-la  seus livros, grav-
la em seu piso, o que quiser.
       Octavian leu o pergaminho. -- Aqui diz, `V para o Alasca.
Encontre Tnatos e liberte-o. Volte no pr do sol de 24 de junho ou morra'.
        -- Sim -- disse Marte. -- No est claro?
        -- Bem, meu senhor... normalmente profecias no so claras. Elas
esto envolvidas em enigmas. Elas rimam e...


                                                                        122
           Marte casualmente estalou outra granada para fora de seu cinto. --
Sim?
           -- A profecia  clara! -- Octavian anunciou. -- A misso!
       --Boa resposta. -- Marte bateu a granada no queixo. -- Agora, o
que mais? Havia algo mais... Oh, sim.
           Ele virou-se para Frank. -- Vem c, garoto.
        No, Frank pensou. O basto queimado no bolso do casaco pareceu
mais pesado. Suas pernas ficaram bambas. A sensao de pavor caiu
sobre ele, pior do que o dia em que o oficial do exrcito havia chegado 
porta.
       Ele sabia o que estava por vir, mas no conseguiu parar. Ele
avanou contra a sua vontade.
        Marte sorriu. -- Bom trabalho tomando o forte, garoto. Quem  o
juiz para este jogo?
           Reyna levantou a mo.
       -- Voc v este jogador, juza? -- Marte exigia. -- Foi o meu filho.
O primeiro a ultrapassar a muralha, ganhou o jogo para sua equipe. A menos
que voc seja cega, ele foi um jogador MVP29. Voc no est cega, no ?
           Reyna parecia que estava tentando engolir um rato. -- No, Lorde
Marte.
        -- Ento, certifique-se que ele receba a Coroa Mural, -- Marte
exigia. -- Meu filho, aqui! -- Ele gritou para a legio, caso algum no
tivesse ouvido. Frank queria fundir-se com a terra.
        -- Emily filha de Zhang -- Marte continuou. -- Ela era uma boa
soldada. Boa mulher. Este garoto Frank provou do que  feito nesta
noite. Feliz aniversrio atrasado, garoto. Hoje voc se tornou um guerreiro
de verdade.
        Ele jogou para Frank sua M16. Por uma frao de segundo Frank
seria esmagado sob o peso do fuzil, mas a arma mudou em pleno ar,
tornando-se menor e mais fina. Quando Frank a pegou, a arma era uma
lana. Ela tinha uma haste de Ouro Imperial e um ponto estranho como um
osso branco, cintilando com uma luz fantasmagrica.
       -- A ponta  do dente de um drago -- disse Marte. -- Voc no
aprendeu a usar os talentos da sua me, no entanto, no ? Bem...

29
     MVP: Sigla em ingls que significa Jogador Mais Valioso.

                                                                         123
esta lana vai lhe dar algum espao para respirar at que voc aprenda. Voc
tem trs cargas nela, para us-las sabiamente.
        Frank no entendeu, mas Marte agiu como se o assunto estivesse
encerrado. -- Agora, meu filho Frank Zhang vai liderar a misso de libertar
Tnatos, a menos que haja alguma objeo, h?
       Claro, ningum disse uma palavra. Mas muitos           dos campistas
olharam para Frank com inveja, cime, raiva, amargura.
        -- Voc pode ter dois companheiros -- disse Marte. -- Essas so as
regras. Um deles tem de ser esse garoto.
       Ele apontou para Percy. -- Ele vai aprender um pouco de respeito
para com Marte nesta viagem, ou morrer tentando. Quanto ao segundo,
eu no me importo. Escolha quem voc quiser. Faam um dos seus debates
do Senado. Todos vocs so bons para isto.
       A imagem do deus tremulou. Relmpagos crepitaram no cu.
      -- Essa  a minha sugesto -- disse Marte. -- At a prxima vez,
Romanos. No me desapontem!
       O deus irrompeu em chamas, e ento ele se foi.
        Reyna se voltou para Frank. Sua expresso era parte espanto parte
nuseas, como se ela tivesse finalmente conseguido engolir aquele rato. Ela
levantou o brao em uma saudao romana. -- Ave, Frank Zhang, filho
de Marte.
        Toda a legio seguiu seu exemplo, mas Frank no queria mais a sua
ateno. Sua noite perfeita tinha sido arruinada.
        Marte era seu pai. O deus da guerra estava mandando-o para o
Alasca. Frank havia recebido mais do que uma lana em seu aniversrio. Ele
havia sido condenado a uma pena de morte.




                                                                       124
                                 XIII



PERCY DORMIU COMO UMA VTIMA DA MEDUSA  ou seja,
como uma pedra. Ele no havia deitado em uma cama segura e confortvel
desde... bem, ele nem conseguia se lembrar. Fora um dia insano e com
milhes de pensamentos correndo por sua cabea, seu corpo parou e disse:
Voc ir dormir, agora.
       Ele teve sonhos,  claro. Percy sempre tinha sonhos, mas eles
passavam como imagens borradas como uma janela de trem. Ento ele viu
um fauno com cabelo crespo em roupas esfarrapadas correndo para alcan-
lo.
       -- Eu no tenho nenhum troco sobrando. -- Disse Percy.
        -- O qu? --Disse o fauno -- No, Percy. Sou eu, Grover! Fique
onde est, ns estamos no caminho para te encontrar. Tyson est perto  pelo
menos ns pensamos que ele  o que est mais perto de te alcanar. Estamos
tentando triangular sua posio.
       -- Como assim? -- Percy perguntou, mas o fauno j havia
desaparecido no meio da nvoa.
        Ento Annabeth estava correndo ao seu lado estendendo sua mo. --
Graas aos Deuses! -- Ela falou. -- Durante meses ns no conseguamos
v-lo! Voc est bem?
        Percy lembrou o que Juno havia lhe dito. Durante meses ele havia
estado dormindo. Mas agora estava acordado. A Deusa intencionalmente o
manteve escondido, mas por qu?
       -- Voc  real? -- Ele perguntou  Annabeth.
        Ele queria muito acreditar nisso, mas ele sentia como se Hannibal, o
elefante estivesse de p sobre seu peito. Mas a face dela comeou a
dissolver. E ela choramingou:
        -- Fique parado! Ser mais fcil para Tyson te encontrar! Fique
onde est!



                                                                       125
       Ento ela se foi. As imagens aceleraram. Ele viu um navio enorme
em um porto seco, com trabalhadores lutando para finalizar o casco, e um
cara com um maarico soldando uma cabea de drago  proa. Ele viu o
Deus da guerra procurando por ele, com uma espada nas mos.
        A cena trocou repentinamente. Percy estava no Campo de Marte,
olhando para Berkeley Hills. Ento o capim dourado ondulou e uma imagem
formou-se na grama  uma mulher dormindo, suas caractersticas se
formando com sombras e dobras na terra. Ela permanecia com os olhos
ainda fechados, mas sua voz falava na mente de Percy:
        Ento este  o semideus que destruiu o meu filho Cronos. Voc no
parece muita coisa, Percy Jackson, mas voc me  valioso. Venha para o
norte. Procure por Alcioneu. Juno pode fazer seus joguinhos com gregos e
romanos, mas no final, voc ser o meu peo. Voc ser a chave para a
runa dos Deuses.
        Ento a viso de Percy escureceu. Ele estava em um teatro do
tamanho do quartel general do acampamento. Uma principia com paredes de
gelo e nvoa pairando no ar. O cho estava cheio de esqueletos em
armaduras romanas e armas de Ouro Imperial tomadas pelo gelo. No fundo
da sala havia uma enorme figura sombria. Sua pele brilhava a ouro e prata,
parecia um autmato, como os ces de Reyna.
        Atrs dele havia uma coleo de emblemas em runas, estandartes
esfarrapados e um cajado de ferro com uma grande guia dourada na ponta.
       A voz do gigante atravessou a vasta cmara:
        -- Isto ser divertido, filho de Netuno, tem muito tempo desde que
eu arruinei um semideus do seu calibre. Eu espero por voc em cima do
gelo.
        Percy se levantou, tremendo. Por um momento ele se esqueceu de
onde estava. Ento se lembrou: Acampamento Jpiter, o quartel da Quinta
Coorte. Ele estava deitado em sua cama, encarando o teto e tentando
controlar seu corao acelerado.
        Um gigante dourado estava esperando para esmag-lo. Maravilhoso!
Mas o que mais o assustou foi o rosto da mulher dormindo em Berkeley
Hills. Voc ser o meu peo. Percy no jogava xadrez, mas ele sabia muito
bem que ser um peo era muito ruim. Eles morriam demais.
        At mesmo as partes amigveis do sonho eram perturbadoras. Um
fauno chamado Grover estava  sua procura. Talvez seja isso que Don havia
detectado, um  como ele tinha chamado mesmo?  uma ligao emptica.


                                                                      126
Algum chamado Tyson estava procurando por ele tambm, e Annabeth
havia avisado Percy para ficar onde estava.
        Ele se sentou na cama. Seus colegas de quarto estavam por todos os
lados, se vestindo e escovando os dentes. Dakota estava enrolando-se em um
pedao de pano vermelho-manchado, - uma toga. Um dos veteranos estava
dando-lhe dicas de onde tinha que dobrar ou onde tinha que prender.
        -- Hora do caf? -- Percy perguntou esperanoso.
        A cabea de Frank apareceu no beliche abaixo. Ele tinha olheiras
abaixo dos olhos como se no tivesse dormido muito bem. -- Um rpido
caf da manh. Ento temos uma reunio no senado.
        Naquele momento Dakota passou cambaleando com a cabea presa
na toga, parecia um fantasma manchado de Kool-Aid.
        -- Hum, -- Percy falou. -- Eu deveria vestir o lenol da minha
cama?
        Frank bufou. -- Isso  apenas para os senadores. Eles so dez,
eleitos anualmente. Voc deve estar no acampamento no mnimo h cinco
anos para estar qualificado.
        -- Ento, como ns fomos convidados para a reunio?
        -- Porque... voc sabe, a misso. -- Frank soou preocupado, como
se estivesse com medo de que Percy voltasse atrs. -- Ns temos que estar
na discusso. Voc, eu, Hazel. Quero dizer, se voc estiver bem...
        Frank provavelmente no queria culp-lo, mas Percy se sentia
puxado como um camelo. Ele tinha simpatia por Frank. Sendo reivindicado
pelo deus da guerra na frente de todo o acampamento  que pesadelo. Alm
disso, como Percy poderia dizer no para aquele grande rosto de beb? Tinha
sido dada a Frank, uma tarefa que provavelmente o mataria. Ele estava
apavorado e precisava do apoio de Percy.
        E os trs fizeram uma bela equipe noite passada. Frank e Hazel eram
slidos, pessoas de confiana. Aceitaram Percy como se fosse da famlia.
Ainda assim, ele no havia gostado dessa idia de misso, especialmente
desde que tinha vindo de Marte, menos ainda depois de seus sonhos.
        -- Eu, hum...  melhor eu me arrumar... -- Ele saiu da cama e se
vestiu. Durante todo o tempo estava pensando em Annabeth. A ajuda estava
a caminho. Ele poderia ter sua antiga vida de volta. Tudo o que ele tinha que
fazer era ficar parado.



                                                                        127
       Durante todo o caf da manha, Percy notou que todos estavam
olhando para ele. Estavam sussurrando sobre a noite anterior:
       -- Dois Deuses em um nico dia...
       -- Um no-romano lutando...
       -- Um canho de gua no meu nariz...
        Ele estava com muita fome para se preocupar. Ele se encheu de
panquecas, ovos, bacon, waffles, mas, e vrios copos de suco de laranja.
Ele provavelmente teria comido mais, mas Reyna anunciou que o senado
deveria se reunir na cidade, e todas as pessoas em togas se levantaram para
sair.
       -- Aqui vamos ns. -- Hazel mexia em uma pedra que mais parecia
um rubi de dois quilates.
        O fantasma Vittelius apareceu perto deles em um tremeluzir roxo. --
Boa sorte, para vocs trs! Ah, reunio do senado. Eu lembro daquela em
que Csar foi assassinado. Aquela enorme quantidade de sangue em sua
toga...
        -- Obrigado Vittelius, -- Frank interrompeu. -- Ns devemos nos
apressar.
        Reyna e Octavian lideraram a procisso dos senadores atravs do
acampamento, com os autmatos dela correndo na frente e ao longo da
estrada. Hazel, Frank e Percy caminhavam logo atrs. Percy notou Nico di
Angelo no grupo, usando uma toga negra e conversando com Gwen, que
parecia um pouco plida, mas surpreendentemente bem considerando que
esteve morta na noite passada. Nico acenou para Percy, ento voltou para
sua conversa, deixando Percy com mais certeza que o irmo de Hazel estava
tentando evit-lo.
        Dakota tropeou em sua tnica vermelha manchada. Um monte de
outros senadores pareciam estar tendo problemas com suas togas tambm 
caminhando e levantando suas bainhas, tentando manter o pano sem escorrer
de seus ombros. Percy estava contente de estar usando apenas uma camiseta
roxa e uma cala jeans.
       -- Como os romanos podiam se mover dentro destas coisas? -- ele
perguntou.
       -- Elas eram apenas para ocasies formais. -- Falou Hazel. --Como
smokings. Aposto que os romanos antigos odiavam togas tanto quando ns
odiamos. Ento, voc no trouxe nenhuma arma, no ?


                                                                       128
       A mo de Percy foi at seu bolso, onde sua caneta sempre esteve. --
Por qu? No devemos?
         -- No so permitidas armas dentro da Linha Pomeriana. -- Ela
falou.
         -- Linha o qu?
       -- Pomeriana -- Frank disse. -- Os limites da cidade. O interior 
como uma sagrada `zona segura'. Legies no podem marchar por a. No
so permitidas armas. Isto  para as reunies do senado no serem
sangrentas.
         -- Como quando Julio Csar foi assassinado? -- Perguntou Percy.
       Frank acenou com a cabea. -- No se preocupe. Nada parecido
com isso acontece faz meses.
         Percy esperava que ele estivesse brincando.
        A medida que se aproximavam da cidade, Percy pode apreciar como
era bonita. Os telhados e cpulas brilhavam ao sol. Jardins floresciam com
madressilva e rosas. A praa principal era pavimentada com pedras brancas e
cinzas, decorada com esttuas de mrmore, fontes e colunas douradas. Nos
arredores dos bairros, as ruas estavam cheias de casas recm-pintadas, lojas,
cafs e parques.  distncia, estava o coliseu e a arena de corrida de cavalos.
        Percy no percebeu que tinham atingido os limites da cidade at que
os senadores  sua frente comearam a parar. Ao lado da estrada erguia-se
uma esttua de mrmore branco  um homem em tamanho real com cabelo
crespo, sem braos, e uma expresso muito irritada. Talvez ele parecesse
zangado por ter sido esculpido apenas da cintura para cima. Abaixo disso,
era apenas um grande bloco de mrmore.
       -- Fila nica, por favor! -- A esttua falou. -- Tenham os seus ID's
preparados.
        Percy olhou para a esquerda e para a direita. Ele no havia notado
antes, mas uma fila idntica de esttuas cercavam a cidade em intervalos de
cem metros cada. Os senadores passaram facilmente pela esttua, que
chamava cada senador pelo nome:
         -- Gwendolyn, senadora, Quinta Coorte, sim. Nico di Angelo,
embaixador de Pluto  muito bem. Reyna, pretora,  claro. Hank, senador,
Terceira Coorte  oh, belos sapatos, Hank! Ah, o que temos aqui?
         Frank, Hazel e Percy eram os ltimos.



                                                                          129
       -- Trminus, -- falou Reyna, --este  Percy Jackson. Percy, este 
Trminus, Deus dos limites.
       -- Novo, ? -- disse o Deus, -- Sim, placa de probatio. Certo. Ah,
uma arma em seu bolso? Tire isso! Tire isso!
        Percy no sabia como Trminus descobriu, mas ele levou embora
sua caneta.
        -- Muito perigoso, -- disse Trminus. -- Deixe-a na bandeja.
Espere, onde est minha assistente? Julia!
        Uma menina de cerca de seis anos de idade espiou por trs da base
da esttua. Ela tinha tranas, usava um vestido rosa e tinha um sorriso
travesso com dois dentes faltando.
        -- Julia? -- Trminus olhou para trs, mas Julia correu para a outra
direo. -- Para onde foi aquela garota?
        O deus olhou para a outra direo e pegou-a em seu campo de viso
antes que ela pudesse se esconder. A menina gritou em deleite.
       -- Ah, a esta voc, -- falou a esttua. -- Em frente, e traga a
bandeja.
        Julia se retirou e afastou o vestido. Ela pegou uma bandeja e a
apresentou para Percy. Nela haviam vrias facas, um saca rolhas, um enorme
pote de protetor solar e uma garrafa d'gua.
        -- Voc pode pegar sua arma no caminho de volta, -- falou
Trminus. -- Julia ir tomar conta muito bem disso. Ela  uma profissional
treinada.
      A menininha concordou -- Pro-fis-sio-nal. -- Ela falou cada slaba
com muito cuidado, como se estivesse praticando.
       Percy olhou para Hazel e Frank, que no pareciam ter achado isto
muito estranho. Ainda assim, ele no se sentia confortvel em entregar uma
arma mortal para uma criana.
        -- O problema  que, -- ele falou -- a caneta volta automaticamente
para o meu bolso, ento mesmo se eu a deixar aqui.
       -- No se preocupe -- Trminus assegurou. --Ns mesmos
cuidaremos para que isto no acontea. No  mesmo Julia?
       -- Sim, Senhor Trminus.
       Relutante, Percy colocou sua caneta na bandeja.


                                                                       130
        -- Agora, algumas regras, j que vocs so novatos, -- Falou
Trminus. -- Vocs esto entrando nos limites da cidade propriamente dita.
Mantenham a paz dentro da linha. Dem preferncia ao trfego de
carruagens enquanto estiverem em estradas pblicas. Quando chegarem na
casa do senado, sentem-se no lado esquerdo.  l em baixo, vem onde eu
estou apontando?
        -- Hum, -- falou Percy. -- Voc no possui nenhuma mo.
       Aparentemente este era um ponto sensvel para Trminus. Sua face
de mrmore se tornou em um tom escuro de cinza. -- Mais um espertinho,
? Muito bem, senhor quebrador de regras, l no frum, Julia aponte por
mim, por favor.
        Julia baixou obedientemente a bandeja de segurana e apontou para
a praa principal.
        -- A loja com o toldo azul -- continuou Trminus. -- Aquela  a
loja geral. Eles vendem fitas mtricas. Compre uma! Eu quero estas calas
exatamente um centmetro acima dos tornozelos e esse cabelo devidamente
cortado. E tambm coloque a camisa para dentro.
        Hazel o interrompeu -- Obrigada, Trminus. Ns precisamos nos
apressar.
        -- Certo, certo, vocs podem passar, -- o deus disse com irritao.
-- Mas fiquem no lado direito da estrada! E aquela rocha logo ali. No,
Hazel, olhe onde eu estou apontando. Aquela rocha est muito perto da
rvore. Mova-a duas polegadas para a esquerda...
         Hazel fez o que ele havia mandado, e eles continuaram o seu
caminho, Trminus continuava gritando ordens para eles enquanto Julia
fazia piruetas pela grama.
        -- Ele  sempre assim? -- Perguntou Percy.
      -- No, -- admitiu Hazel. -- Hoje ele est um pouco descontrado.
Normalmente ele  mais obsessivo-compulsivo.
       -- Ele habita cada pedra na fronteira ao redor da cidade, -- disse
Frank. --  a nossa ltima linha de defesa se a cidade for atacada.
        -- Trminus no  to ruim, -- Hazel concluiu. -- Apenas no o
faa ficar irritado, ou ele te forar a reverenciar a cada lmina de grama de
todo o vale.
        Percy arquivou a informao. -- E a criana? Julia?



                                                                         131
       Hazel sorriu. -- , ela  uma gracinha. Seus pais vivem na cidade.
Agora vamos. Vamos alcanar os senadores.
         Enquanto se aproximavam do frum, Percy ficou assustado com o
imenso nmero de pessoas. Em idade de estar na escola, crianas passavam
o tempo na fonte. Vrias delas acenaram para os senadores que passavam.
Um cara de uns 30 anos de idade sentou-se em um balco de padaria
enquanto flertava com uma jovem que comprava caf. Um casal de idosos
assistia um menino ainda nas fraldas com uma miniatura de Jpiter correndo
atrs de gaivotas. Comerciantes estavam abrindo seus estabelecimentos,
colocando para fora sinais em latim anunciando potes, jias e ingressos pela
metade do preo para o hipdromo.
        -- Todas essas pessoas so semideuses? -- perguntou Percy.
        -- Ou descendentes deles, -- falou Hazel. -- Como eu lhe falei, 
um bom lugar para ir  universidade ou construir uma famlia sem ter que se
preocupar com ataque de monstros todos os dias. Talvez duzentas ou
trezentas pessoas vivam aqui. Os veteranos agem como consultores, ou
foras de reserva conforme necessrio, mas na maioria so apenas cidados
vivendo suas vidas.
         Percy imaginou como seria conseguir um apartamento nesta
minscula rplica de Roma, protegido por legies e Trminus, o deus da
fronteira. Ele se imaginou segurando as mos de Annabeth em um caf.
Talvez quando fossem mais velhos, olhando suas prprias crianas correndo
atrs de gaivotas pelo frum...
        Ele enxotou a ideia de sua mente. Ele no podia se dar ao luxo de ter
este pensamento. A maioria de suas memrias havia desaparecido, mas ele
sabia que este lugar no era sua casa. Ele pertencia a outro lugar, com outros
amigos.
        Alm do mais, o Acampamento Jpiter estava em perigo. Se Juno
estivesse certa, um ataque estava chegando em menos de cinco dias. Percy
imaginou a face da mulher dormindo  a face de Gaia  se formando em
Berkeley Hill sobre o campo. Ele imaginou hordas de inimigos invadindo o
vale.
       Se voc no obtiver sucesso, Marte avisou, no haver
acampamento para o qual voltar. Roma ser invadida, e seu legado perdido
para sempre.
        Ele pensou na pequena Julia, as famlias com seus filhos, seus
companheiros da Quinta Coorte, mesmo aqueles faunos bobos. Ele no
queria nem imaginar o que aconteceria a eles se esse lugar fosse destrudo.

                                                                         132
        Os senadores fizeram seu caminho para um prdio com uma enorme
cpula branca no lado oeste do frum. Percy estacou na entrada, tentando
no pensar em Julio Csar sendo cortado at a morte em uma reunio do
senado. Ento tomou flego e seguiu Hazel e Frank para dentro.




                                                                    133
                                       XIV



O INTERIOR DA CASA DO SENADO parecia uma sala de aula do
colegial. Um semicrculo de assentos enfileirados diante de um trono com
um pdio e mais duas cadeiras. As cadeiras estavam vazias, mas em uma
havia um pequeno pacote de veludo no assento.
         Percy, Hazel e Frank sentaram no lado esquerdo do semicrculo. O
dez senadores e Nico di Angelo ocuparam o resto da fila da frente. As
fileiras superiores foram ocupadas por vrios convidados e alguns velhos
veteranos da cidade, todos em togas formais. Octavian ficou na frente com
uma faca e um Beanie Babylion30, apenas no caso de algum precisar
consultar o deus das fofuras colecionveis. Reyna andou at o pdio e
levantou a mo para chamar a ateno de todos.
       -- Certo, essa  uma reunio de emergncia, -- disse ela. -- Ns
no vamos ficar em formalidades.
           -- Eu amo formalidades! -- Um fantasma reclamou.
           Reyna lhe lanou um olhar cortante.
        -- Primeiro de tudo, -- disse ela. -- No estamos aqui para votar na
busca em si. A busca foi emitida por Marte Ultor, padroeiro de Roma.
Vamos obedecer a seus desejos. Tambm no estamos aqui para debater a
escolha dos companheiros de Frank Zhang.
        -- Todos os trs da Quinta Coorte? -- Perguntou Hank da Terceira.
-- Isso no  justo.
      -- E no muito inteligente. -- Disse o rapaz ao lado dele. --Ns
sabemos que a Quinta vai atrapalhar. Eles devem ter algum bom.
        Dakota levantou-se to rpido, que derramou Kool-Aid de seu
frasco. -- Fomos muito bem ontem  noite quando chicoteamos seu podex31,
Larry!


30
     Beanie Babylion: Pelcia em forma de leo.
31
     Podex: Em latim significa bumbum.

                                                                       134
        -- Basta, Dakota, -- disse Reyna. -- Vamos deixar o podex de
Larry fora disso. Como lder da busca, Frank tem o direito de escolher seus
companheiros. Ele escolheu Percy Jackson e Hazel Levesque.
           Um fantasma da segunda fileira gritou:
        -- Absurdus! Frank Zhang no  nem mesmo um membro pleno da
legio! Ele est em probatio. Deve ser liderado por algum do centurio ou
superior. Isto  completamente...
       -- Cato -- Reyna vociferou. --  preciso obedecer  vontade de
Marte Ultor. O que significa certos... ajustes.
           Reyna bateu palmas, e Octavian veio para frente.
           Ele abaixou sua faca e o Baby Beanie, e pegou o pacote de veludo da
cadeira.
           -- Frank Zhang, -- ele disse. -- Apresente-se.
       Frank olhou nervosamente para Percy. Ento ele se levantou e
aproximou-se do ugure.
        --  um... prazer meu, -- disse Octavian, forando para fora as
ltimas palavras. -- Conferir-lhe a Coroa Mural por ser o primeiro sobre as
muralhas na guerra de cerco. -- Octavian entregou-lhe uma placa de bronze
com a forma de uma coroa de louros. -- Alm disso, por ordem da Pretora
Reyna, voc esta promovido ao posto de centurio.
       Ele entregou a Frank outra placa, um crescente de bronze, e o senado
explodiu em protestos.
           -- Ele ainda  um novato! -- um gritou.
           -- Impossvel! -- disse outro.
           -- Canho d'gua no meu nariz! -- gritou um terceiro.
        -- Silncio! -- a voz de Octavian soou muito mais autoritria do
que na noite anterior no campo de batalha. -- Nossa Pretora reconhece que
ningum abaixo do posto de centurio pode conduzir uma busca. Para o bem
ou para o mal, Frank deve conduzir esta misso  ento nossa Pretora
decretou que Frank Zhang deve se tornar centurio.
        De repente, Percy entendeu o que um orador eficaz como Octavian
fazia. Ele parecia sensato e solidrio, mas sua expresso era de dor. Ele
elaborava cuidadosamente suas palavras para colocar toda a
responsabilidade sobre Reyna. Foi ideia dela, ele parecia dizer.



                                                                         135
        Se desse errado, Reyna seria a culpada. Se apenas Octavian fosse o
responsvel, as coisas seriam feitas com mais sensatez. Mas, infelizmente,
ele no tinha outra escolha a no ser apoiar Reyna, porque Octavian era um
soldado romano leal.
        Octavian conseguiu transmitir tudo isso dizendo aquilo,
simultaneamente acalmando o senado e simpatizando com eles. Pela
primeira vez, Percy percebeu que essa esqueltica criana de engraado
olhar de espantalho poderia ser um inimigo perigoso.
        Reyna deve ter percebido isso tambm. Um olhar de irritao passou
pelo seu rosto. -- H uma vaga para centurio, -- disse ela. -- Um dos
nossos diretores, tambm um senador, decidiu renunciar. Depois de dez anos
na legio, ela vai retirar-se para a cidade e frequentar a universidade. Gwen
da Quinta Coorte, obrigada por seu servio.
        Todos se viraram para Gwen, que conseguiu dar um sorriso valente.
Ela parecia cansada da prova da noite anterior, mas tambm aliviada. Percy
no podia culp-la. Comparado a ser espetada com um pilo, faculdade soava
muito bem.
        -- Como pretora, -- Reyna continuou. -- Tenho o direito de
substituir os ofcios. Admito que  incomum para um campista em probatio,
subir diretamente para o posto de centurio, mas acho que podemos
concordar que... ontem  noite foi incomum. Frank Zhang, seu ID, por favor.
       Frank retirou a placa que estava em torno do seu pescoo e entregou
a Octavian.
        --Seu brao, -- disse Octavian.
       Frank levantou o antebrao. Octavian levantou as mos para os cus.
-- Aceitamos Frank Zhang, Filho de Marte, para o XII Legio Fulminata por
seu primeiro ano de servio. Voc promete comprometer sua vida com o
senado e com povo de Roma?
       Frank murmurou algo como -- Ee-pomet. -- Ento ele limpou a
garganta e conseguiu dizer: -- Eu prometo.
        Os senadores gritaram -- Senatus Populusque Romanus!
       Fogo flamejou no brao de Frank. Por um momento seus olhos se
encheram de terror, e Percy ficou com medo de que seu amigo pudesse
desmaiar. Em seguida, a fumaa e as chamas morreram, e novas marcas
foram marcadas a ferro na pele de Frank: SPQR, uma imagem de lanas
cruzadas, e uma nica faixa, representando o primeiro ano de servio.



                                                                        136
        -- Voc j pode se sentar. -- Octavian olhou para o pblico como se
dissesse: Isto no foi idia minha, pessoal. -- Agora, -- disse Reyna. --
Devemos discutir a misso.
        Os senadores se viraram e comearam a murmurar quando Frank
voltou para seu lugar.
       -- Doeu? Percy sussurrou.
       Frank olhou para o antebrao, que ainda estava fumegando.
        -- Sim. Bastante. -- Ele parecia encantado pelos emblemas na sua
mo  a marca do centurio e a Coroa Mural  como se no soubesse o que
fazer com eles.
       -- Aqui. -- Os olhos de Hazel brilhavam de orgulho. -- Eu arrumo.
       Ela prendeu as medalhas na camisa de Frank.
        Percy sorriu. Ele s conhecia Frank h um dia, mas ele sentia
orgulho dele tambm. -- Voc merece isso, cara, -- disse ele. -- O que
voc fez na noite passada? Liderana nata.
       Frank fez uma careta. -- Mas centurio...
       -- Centurio Zhang, -- chamou Octavian. -- Voc ouviu a
pergunta?
       Frank piscou. -- Hmm... desculpe. O qu?
        Octavian se virou para o senado e sorriu tolamente, como O que eu
lhes disse?
        -- Eu estava perguntando, -- Octavian disse como se estivesse
falando com algum de trs anos de idade. -- Se voc tem um plano para a
misso. Voc sabe mesmo para onde est indo?
       -- Hum...
       Hazel colocou a mo no ombro de Frank e se levantou.
        -- Voc no estava ouvindo noite passada, Octavian? Marte foi
muito claro. Estamos indo para as terras alm dos deuses  Alasca.
        Os senadores se contorceram em suas togas. Alguns dos fantasmas
brilharam e desapareceram. At mesmo os ces de metal de Reyna rolaram
de costas e choramingaram.
         Finalmente o Senador Larry se levantou. -- Eu sei o que Marte
disse, mas isso  loucura. O Alasca  amaldioado! Eles o chamam de as
terras alm dos deuses por uma razo.  to distante no norte, que os deuses

                                                                       137
romanos no tm poder l. O lugar  cheio de monstros. Nenhum semideus
tem voltado de l vivo desde...
        -- Desde que voc perdeu sua guia, -- Percy disse.
        Larry ficou to assustado, que caiu para trs em seu podex.
       -- Olha, -- Percy continuou. -- Eu sei que eu sou novo aqui. Eu sei
que vocs no gostam de mencionar o massacre da dcada de oitenta...
        -- Ele mencionou aquilo! -- Um dos fantasmas choramingou.
         -- ...mas vocs no entenderam? -- Percy continuou. -- A Quinta
Coorte que conduziu a expedio. Ns falhamos, e ns temos que ser
responsveis para fazer as coisas certas.  por isso que Marte est nos
enviando. Esse gigante, filho de Gaia  ele foi aquele que derrotou suas
foras trinta anos atrs. Eu tenho certeza disso. Agora ele est sentado l no
Alasca com um deus da morte acorrentado, e com todos os seus
equipamentos antigos. Ele est reunindo seus exrcitos e enviando-os para o
sul para atacar este acampamento.
        -- Srio? -- Octavian disse. -- Voc parece saber bastante sobre
planos do nosso inimigo, Percy Jackson.
        Percy poderia se livrar da maioria dos insultos  como ser chamado
de fraco ou estpido ou de qualquer outra coisa. Mas ficou claro para ele que
Octavian estava o chamando de espio - um traidor. Essa foi uma idia to
estranha para Percy, to o que ele no era, que ele quase no pde processar
o insulto. Quando ele conseguiu, seus ombros ficaram tensos. Ele ficou
tentado a bater na cabea de Octavian de novo, mas ele percebeu que
Octavian estava atraindo ele, tentando faz-lo parecer instvel.
        Percy respirou fundo.
        -- Ns vamos enfrentar esse filho de Gaia, -- disse ele, conseguindo
manter a compostura. -- Ns vamos pegar de volta sua guia e libertar esse
deus... -- Ele olhou para Hazel. -- Tnatos, certo?
       Ela concordou. -- Letus, em Roma. Mas seu antigo nome grego 
Tnatos. Quando se trata da Morte... ficamos felizes em deix-lo em grego.
       Octavian suspirou, exasperado. -- Bem, tanto faz como voc o
chama... como voc espera fazer tudo isso e voltar para Festa da Fortuna?
Que  na tarde do dia 24.  dia 20 agora. Voc sabe por onde procurar?
Voc pelo menos sabe qual  filho de Gaia?




                                                                         138
        -- Sim. -- Hazel falou com tanta certeza que at mesmo Percy ficou
surpreso. -- Eu no sei exatamente onde procurar, mas eu tenho uma boa
idia. O nome do gigante  Alcioneu.
        O nome parecia ter abaixado a temperatura da sala em cinquenta
graus. Os senadores estremeceram.
       Reyna agarrou-se ao pdio. -- Como voc sabe? -- Disse  Hazel
-- Porque voc  filha de Pluto?
        Nico di Angelo estava to quieto, Percy tinha quase esquecido que
ele estava l. Agora ele se levantou em sua toga negra.
        -- Pretora, se eu puder, -- disse ele. -- Hazel e eu... ns
aprendemos um pouco sobre os gigantes com nosso pai. Cada gigante foi
criado especificamente para se opor a um dos doze deuses olimpianos  para
roubar o domnio dos deuses. O rei dos gigantes era Porfrion, o anti-Jpiter.
Mas o gigante mais velho era Alcioneu. Ele nasceu para se opor a Pluto. 
por isso que ns sabemos desse particularmente.
        Reyna franziu a testa. -- Verdade? Voc parece bastante
familiarizado com ele.
        Nico pegou na borda de sua toga. -- De qualquer forma... os
gigantes eram difceis de matar. De acordo com a profecia, eles s poderiam
ser derrotados por deuses e semideuses trabalhando juntos.
        Dakota arrotou. -- Desculpe, voc disse deuses e semideuses...
lutando lado a lado? Isso nunca poderia acontecer!
       -- Isso j aconteceu. -- Nico disse. -- Na primeira guerra contra
um gigante, os deuses chamaram os heris para se juntar a eles. Se isso vai
acontecer de novo, eu no sei. Mas com Alcioneu... ele era diferente. Ele era
completamente imortal, impossvel de ser morto por um deus ou semideus,
desde que ele permanecesse em sua terra natal  o lugar onde ele nasceu.
       Nico pausou para deixar o que disse afundar. -- E se Alcioneu
renasceu no Alasca...
         -- Ento ele no pode ser derrotado l, -- Hazel terminou. --Nunca.
Por qualquer meio que seja. Foi por isso que a nossa expedio da dcada de
oitenta foi um fracasso.
        Outra rodada de discusses e gritos estourou.
        -- A busca  impossvel! -- gritou um senador.
        -- Estamos condenados! -- choramingou um fantasma.


                                                                         139
         -- Mais Kool-Aid! -- gritou Dakota.
         -- Silncio! -- Reyna chamou. -- Senadores, devemos agir como
romanos. Marte nos deu esta misso, e ns temos que acreditar que 
possvel. Estes trs semideuses devem viajar para o Alasca. Eles devem
libertar Tnatos e voltar antes da Festa da Fortuna. Se eles conseguirem
recuperar a guia perdida no processo, ainda melhor. Tudo que podemos
fazer  aconselh-los e garantir que tenham um plano.
         Reyna olhou para Percy sem muita esperana. -- Voc tem um
plano?
         Percy queria dar um passo  frente bravamente e dizer, No, eu no
tenho.
       Essa era a verdade, mas olhando ao redor para todos os rostos
nervosos, Percy sabia que no podia dizer isso.
        -- Primeiro, eu preciso entender algumas coisas. -- Ele se virou
para Nico. -- Eu pensava que Pluto era o deus dos mortos. Agora eu ouo
sobre esse outro cara, Tnatos, e as Portas da Morte daquela profecia  a
Profecia dos Sete. O que tudo isso significa?
         Nico tomou flego. -- Okay, Pluto  o deus do Mundo Inferior,
mas o real deus da morte, aquele que  responsvel por garantir a ida das
almas para a vida aps a morte e ficarem l   o tenente de Pluto, Tnatos.
Ele  como... bem, imagine que a Vida e a Morte so dois pases diferentes.
Todo mundo gostaria de estar na Vida, certo? Ento, h uma fronteira
guardada para impedir as pessoas de atravessar para cima sem permisso.
Mas  uma grande fronteira, com vrios buracos na cerca que as divide.
Pluto tenta fechar essas brechas, mas novas se formam o tempo todo.  por
isso que ele depende de Tnatos, que  como a patrulha da fronteira, a
polcia.
      -- Tnatos captura as almas, -- Percy disse. -- E as deporta de volta
ao Mundo Inferior.
        -- Exato, -- Nico disse. -- Mas agora Tnatos foi capturado,
acorrentado.
         Frank levantou a mo. -- Hum...como voc captura a Morte?
       -- Isso j foi feito antes, -- Nico disse. -- Antigamente, um cara
chamado Ssifo enganou a Morte e o amarrou. Outra vez, Hrcules o
derrubou no cho.




                                                                        140
       -- E agora um gigante o capturou, -- Percy disse. --Ento, se ns
conseguirmos libertar Tnatos, os mortos vo continuar mortos? -- Ele
olhou para Gwen. -- Hum... sem ofensas.
        --  mais complicado que isso. -- Nico disse.
        Octavian revirou os olhos. -- Por que isso no me surpreende?
        -- Voc quer dizer que as Portas da Morte, -- disse Reyna,
ignorando Octavian. -- Elas so mencionadas na Profecia dos Sete, que
enviou a primeira expedio ao Alasca...
       Cato, o fantasma, bufou. -- Todos ns sabemos como isso acabou!
Ns Lares nos lembramos!
        Os outros fantasmas resmungaram em acordo.
         Nico colocou o dedo nos lbios. De repente, todos os Lares ficaram
em silncio. Alguns olharam alarmados, como se suas bocas tivessem sido
coladas. Percy desejava que ele tivesse esse poder sobre certas pessoas
vivas... como Octavian, por exemplo.
        -- Tnatos  apenas parte da soluo. -- Nico explicou. -- As
Portas da Morte... bem, isso  um conceito que nem mesmo eu entendo
completamente. Existem muitos caminhos para o Mundo Inferior - o rio
Estige, a Porta de Orfeu  alm de pequenas rotas de fuga que se abrem de
tempos em tempos. Com Tnatos preso, todas aquelas sadas sero mais
fceis de usar. s vezes, elas podem trabalhar ao nosso favor e deixar que
uma alma amiga volte - como Gwen aqui. Mas frequentemente ir beneficiar
as almas do mal e os monstros, os sorrateiros que esto  procura de escapar.
Agora, as Portas da Morte  estas so as portas pessoais de Tnatos, sua via
rpida entre a Vida e a Morte. Apenas Tnatos deveria saber onde elas esto,
e sua localizao que muda ao longo dos tempos. Se eu entendi
corretamente, as Portas da Morte tem sido foradas a se abrir. Os servos de
Gaia assumiram controle delas...
       -- O que significa que  Gaia que controla quem pode voltar ou no
dos mortos, -- Percy adivinhou.
         Nico concordou. -- Ela pode selecionar e escolher quem vai para
fora  os piores monstros, as almas mais malvadas. Se ns resgatarmos
Tnatos, significa que pelo menos ele pode pegar almas de novo e envi-las
para baixo. Monstros iro morrer quando ns os matarmos, como
antigamente, e ns vamos conseguir um pequeno espao para respirar. Mas
ao menos que sejamos capazes de retomar as Portas da Morte, nossos
inimigos no iro ficar l embaixo por muito tempo. Eles tm uma maneira
fcil de voltar ao mundo dos vivos.

                                                                        141
       -- Ento poderemos peg-los e deport-los, -- resumiu Percy. --
Mas eles simplesmente continuaro voltando.
       --Em poucas palavras, deprimente, sim. -- Disse Nico.
        Frank coou a cabea. -- Tnatos sabe onde as portas esto, certo?
Se ns o libertarmos, ele pode retom-las.
       -- Eu acho que no, -- Nico disse. -- No sozinho. Ele no  preo
para Gaia. Isso precisaria de uma misso enorme... um exrcito dos melhores
semideuses.
        -- Inimigos com armas s Portas da Morte afinal -- Reyna disse.
-- Essa  a Profecia dos Sete...-- Ela olhou para Percy, e por um momento
ele pde ver como ela estava com medo. Ela fez um bom trabalho em
esconder isso, mas Percy se perguntou se ela tinha tido pesadelos com Gaia
tambm - se ela tivesse tido vises do que aconteceria quando o
acampamento fosse invadido por monstros que no podiam ser mortos. --
Se isso inicia a antiga profecia, no temos recursos para enviar um exrcito
para essas Portas da Morte e proteger o acampamento. Eu no consigo nem
mesmo imaginar poupar sete semideuses...
         -- Coisas importantes primeiro. -- Percy tentou soar confiante,
embora ele pudesse sentir o nvel de pnico crescente na sala. -- Eu no sei
quem so os sete, ou o que significa a antiga profecia, exatamente. Mas
primeiro temos que libertar Tnatos. Marte nos disse que s precisaramos
de trs pessoas para a busca no Alasca. Vamos nos concentrar em ter sucesso
com isso e voltar antes da Festa da Fortuna. Ento poderemos nos preocupar
com as Portas da Morte.
        -- Sim, -- Frank disse em voz baixa. -- Isso provavelmente 
suficiente por uma semana.
       -- Ento voc tem um plano? -- Octavian perguntou ctico.
        Percy olhou para seus companheiros. -- Ns vamos para o Alasca o
mais rpido possvel...
       -- E ns improvisamos, -- disse Hazel.
       -- Bastante, -- acrescentou Frank.
       Reyna os estudou. Ela parecia como se estivesse escrevendo
mentalmente seu prprio obiturio.
        -- Muito bem, -- disse ela. -- Nada nos resta a no ser votar em
que tipo de apoio poderemos dar para a misso - transporte, dinheiro, magia,
armas.

                                                                       142
        -- Pretora, se eu puder, -- disse Octavian.
        -- Oh, timo, -- murmurou Percy. -- L vem ele.
        -- O acampamento est em grave perigo, -- disse Octavian. --Dois
deuses nos advertiram que seremos atacados em quatro dias a partir de
agora. Ns no devemos espalhar nossos recursos to escassos,
especialmente para financiar projetos que tm uma pequena chance de
sucesso.
       Octavian olhou para os trs com piedade, como se dissesse,
Coitadinhos.
        -- Marte escolheu claramente os candidatos menos provveis para
esta misso. Talvez seja porque ele os considere os mais dispensveis.
Talvez Marte esteja jogando com vantagem por muito tempo. Qualquer que
seja o caso, ele sabiamente no ordenou uma expedio macia, nem ele nos
pediu para financiar sua aventura. Eu digo para manter nossos recursos aqui
e defendermos o acampamento. Este  o lugar onde a batalha vai ser perdida
ou ganha. Se esses trs forem bem sucedidos, maravilhoso! Mas devem faz-
lo com suas prprias habilidades.
        Um murmrio inquieto passou no meio da multido. Frank pulou de
seu assento. Antes que ele pudesse comear uma briga, Percy disse:
        -- Tudo bem! Sem problemas. Mas pelo menos nos dem
transporte. Gaia  a deusa da terra, certo? Indo por terra, atravs da terra - eu
suponho que ns devemos evitar isso. Alm disso, assim vai ser muito lento.
        Octavian riu. -- Voc gostaria que ns fretssemos um avio?
       A idia provocou nuseas em Percy. --No. Viagens areas... Eu
tenho uma impresso de que no seria bom, tambm. Mas um barco. Voc
pode pelo menos pode nos dar um barco?
        Hazel fez um som de grunhido. Percy olhou para ela. Ela balanou a
cabea e murmurou, Bem. Eu estou bem.
        -- Um barco! -- Octavian virou-se para os senadores. -- O filho de
Netuno quer um barco. Viagens martimas nunca foram um jeito romano,
mas ele no  muito romano!
        -- Octavian, -- Reyna disse severamente. -- Um barco  pequeno o
suficiente para se pedir. E desde que no haja outro auxlio parece bastante...
       -- Tradicional, -- Octavian exclamou. --  muito tradicional.
Vamos ver se estes aventureiros tm a fora para sobreviver sem ajuda,
como romanos de verdade!

                                                                            143
        Mais murmrios encheram a cmara. Os olhos dos senadores se
mudavam de um lado para o outro entre Octavian e Reyna, assistindo o teste
de vontades.
        Reyna endireitou na cadeira. -- Muito bem, -- disse ela com
firmeza. -- Vamos coloc-lo em votao. Senadores, a proposta  a
seguinte: A misso deve ir para o Alasca. O Senado deve fornecer acesso
completo para a marinha romana ancorada na Alameda. Nenhum outro
auxlio futuro. Os trs aventureiros iro sobreviver ou no por seus prprios
mritos. Todos a favor?
        As mos de cada senador subiram.
        -- A proposta foi aceita. -- Reyna virou-se para Frank.
        -- Centurio, seu grupo est dispensado. O Senado tem outros
assuntos para discutir. E, Octavian, se eu puder conversar com voc por um
momento.


        Percy estava incrivelmente feliz em ver a luz do sol. Naquele
corredor escuro, com todos aqueles olhos sobre ele, ele sentia como se o
mundo estivesse sobre seus ombros, e ele tinha certeza que tivera essa
experincia antes.
        Ele encheu seus pulmes com ar fresco.
         Hazel pegou uma grande esmeralda do caminho e colocou-a no
bolso. -- Ento... que tal um brinde?
       Frank balanou a cabea miseravelmente. -- Se qualquer um de
vocs quiser voltar atrs, eu no os culparei.
        -- Voc est brincando? -- Hazel disse. -- E ficar no posto de
sentinela o resto da semana?
        Frank conseguiu dar um sorriso. Ele se virou para Percy.
        Percy olhou atravs do frum. Fique parado, Annabeth havia dito
em seu sonho. Mas se ele ficasse parado, este acampamento seria destrudo.
Ele olhou para as colinas, e imaginou o rosto de Gaia sorrindo nas sombras e
nas cristas. Voc no pode ganhar, pequeno semideus, ela parecia dizer. Me
servir ficando, ou me servir indo.
       Percy fez um voto silencioso: Depois da Festa da Fortuna, ele iria
encontrar Annabeth. Mas por agora, ele tinha que agir. Ele no podia deixar
Gaia ganhar.


                                                                        144
       -- Eu estou com voc, -- ele disse para Frank. -- Alm disso, eu
quero verificar a marinha romana.
       Eles estavam apenas do outro lado do frum quando algum
chamou, -- Jackson! -- Percy se virou e viu Octavian correndo na direo
deles.
        -- O que voc quer? -- Percy perguntou.
        Octavian sorriu. -- J decidiu que eu sou o seu inimigo? Isso  uma
escolha imprudente, Percy. Eu sou um romano leal.
        Frank rosnou. -- Seu traioeiro, viscoso... -- Ambos, Percy e Hazel,
tiveram que segur-lo.
        -- Oh, querido, -- disse Octavian. -- Dificilmente o
comportamento certo para um centurio novo. Jackson, eu s o segui porque
Reyna me confiou uma mensagem. Ela quer que voc se reporte na principia
sem seus  h  dois lacaios aqui. Reyna ir encontr-lo l aps o recesso do
Senado. Ela gostaria de ter uma conversa em particular com voc antes de
sair em sua busca.
        -- Sobre o qu? -- Percy disse.
        -- Tenho certeza de que no sei. -- Octavian sorriu maliciosamente.
-- A ltima pessoa com quem ela teve uma conversa privada foi com Jason
Grace. E essa foi a ultima vez que eu o vi. Boa sorte e adeus, Percy Jackson.




                                                                        145
                                        XV



PERCY FICOU CONTENTE POR CONTRACORRENTE ter retornado
ao seu bolso. A julgar pela expresso de Reyna, ele pensou que poderia
precisar defender-se.
         Ela invadiu a principia com seu manto prpura ondulante, e seus
galgos a seus ps. Percy estava sentado em uma das cadeiras de pretor, a
qual ele tinha puxado para o lado do visitante, o que talvez no fosse a coisa
certa a fazer. Ele comeou a se levantar.
      -- Fique sentado, -- rosnou Reyna. -- Voc sai depois do almoo.
Temos muito a discutir.
       Ela jogou sua adaga para baixo com tanta fora que a tigela de jelly-
bean32 chacoalhou. Aurum e Argentum tomaram seus lugares em sua
esquerda e direita e seus olhos de rubi se fixaram em Percy.
        -- O que eu fiz de errado? -- Percy perguntou. -- Se  sobre a
cadeira...
       -- No  voc. -- Reyna fez uma careta. -- Eu odeio reunies do
Senado. Quando Octavian fica falando...
       Percy assentiu. -- Voc  uma guerreira. Octavian  um locutor.
Coloque-o na frente do Senado, e de repente ele se torna o poderoso.
           Ela estreitou os olhos. -- Voc  mais esperto do que parece.
       -- Puxa, obrigado. Ouvi que Octavian pode ser eleito pretor,
assumindo que o acampamento sobreviva tempo suficiente.
        -- O que nos leva ao tema do dia do juzo final, -- Reyna disse, -- e
como voc pode ajudar a preveni-lo. Mas antes de eu colocar o destino do
Acampamento Jpiter em suas mos, precisamos deixar algumas coisas
claras.
      Ela se sentou e colocou um anel na mesa  um elo de prata gravado
com um desenho de espada-e-tocha, como a tatuagem de Reyna.

32
     Jelly-bean: Pequena bala oval, recheada com gelia.

                                                                           146
        -- Voc sabe o que  isto?
        -- O sinal da sua me, -- disse Percy. -- A... hum, a deusa da
guerra. -- Ele tentou lembrar o nome, mas ele no queria errar. -- Alguma
coisa como Bolonhesa. Ou salame?
       -- Belona, sim. -- Reyna examinou-o cuidadosamente. -- Voc no
se lembra onde voc viu este anel antes? Voc realmente no se lembra de
mim ou da minha irm, Hylla?
        Percy balanou a cabea. -- Sinto muito.
        -- Teria sido h quatro anos.
        -- Pouco antes que voc viesse para o acampamento.
        Reyna franziu a testa. -- Como voc...?
        -- Voc tem quatro listras em sua tatuagem. Quatro anos.
        Reyna olhou para seu antebrao.
        --  claro. Parece h muito tempo. Eu suponho que voc no se
lembraria de mim mesmo se voc tivesse sua memria. Eu era apenas uma
menina  e uma atendente entre tantas outras no spa. Mas voc falou com
minha irm, pouco antes de voc e aquela outra, Annabeth, destrurem a
nossa casa.
        Percy tentou se lembrar. Ele realmente fez isso. Por alguma razo,
Annabeth e ele tinham visitado um spa e decidido destru-lo. Ele no podia
imaginar por qu. Talvez eles no tivessem gostado da massagem? Talvez
eles tenham recebido manicures ruins?
       --  um espao em branco, -- disse ele. -- Desde que seus ces no
esto me atacando, eu espero que voc acredite em mim. Eu estou dizendo a
verdade.
       Aurum e Argentum rosnaram. Percy teve a sensao de que eles
estavam pensando, Por favor, minta. Por favor, minta.
        Reyna bateu de leve no anel de prata.
         -- Eu acredito que voc seja sincero, -- disse ela. -- Mas nem todos
no acampamento acreditam. Octavian acha que voc  um espio. Ele acha
que voc foi enviado aqui por Gaia para encontrar nossas fraquezas e nos
distrair. Ele acredita nas antigas lendas sobre os gregos.
        -- Antigas lendas?



                                                                        147
        A mo de Reyna descansava a meio caminho entre sua adaga e os
jelly beans. Percy teve a sensao de que se ela fizesse um movimento
repentino, no seria para pegar os doces.
        -- Alguns acreditam que semideuses gregos ainda existem, -- disse
ela. -- Heris que seguem as formas mais antigas dos deuses. H lendas de
batalhas entre heris romanos e gregos em tempos relativamente modernos 
a Guerra Civil Americana, por exemplo. Eu no tenho nenhuma prova disso,
e se os nossos Lares sabem qualquer coisa, eles se recusam a dizer. Mas
Octavian acredita que os Gregos ainda esto por a, traando nossa queda,
trabalhando com as foras de Gaia. Ele acha que voc  um deles.
       --  nisso que voc acredita?
         -- Eu acredito que voc veio de algum lugar, -- disse ela. -- Voc
 importante, e perigoso. Dois deuses tomaram um interesse especial em
voc desde que chegou, ento eu no posso acreditar que voc trabalha
contra o Olimpo... ou Roma. -- Ela deu de ombros. --  claro, eu poderia
estar errada. Talvez os deuses o enviaram aqui para testar o meu juzo. Mas
eu acho... Eu acho que voc foi mandado aqui para compensar a perda de
Jason.
        Jason... Percy no podia ir muito longe neste acampamento, sem
ouvir esse nome.
        -- A maneira como voc fala sobre ele... -- Percy disse. -- Vocs
dois eram um casal?
        Reyna olhou aborrecida para ele  com os olhos de um lobo
faminto. Percy tinha visto lobos famintos o suficiente para saber.
        -- Ns poderamos ter sido, -- Reyna disse, -- se tivesse dado
tempo. Pretores trabalham em conjunto.  comum que eles tornem-se
romanticamente envolvidos. Mas Jason foi pretor por apenas alguns meses
antes do seu desaparecimento. Desde ento Octavian tem insistido comigo,
agitando para novas eleies. Eu tenho resistido. Eu preciso de um parceiro
no poder  mas eu prefiro algum como Jason. Um guerreiro, no um
conspirador.
        Ela esperou. Percy percebeu que ela estava enviando-lhe um convite
silencioso.
       Sua garganta ficou seca. -- Oh... voc quer dizer... oh.
        -- Eu acredito que os deuses lhe enviaram para me ajudar, -- disse
Reyna. -- Eu no entendo de onde voc veio, mais do que eu entendi h
quatro anos. Mas eu acho que sua chegada  algum tipo de reembolso. Voc

                                                                      148
destruiu minha casa uma vez. Agora voc foi enviado para salvar a minha
casa. Eu no guardo rancor contra voc pelo passado, Percy. Minha irm te
odeia ainda,  verdade, mas o destino me trouxe aqui para o Acampamento
Jpiter. Eu fiz bem. Tudo que eu peo  que voc trabalhe comigo no futuro.
Tenho a inteno de salvar este acampamento.
         Os ces de metal olharam para ele, suas bocas congeladas no modo
de rosnado. Percy encontrou os olhos Reyna, ficou muito mais difcil de
aceitar.
        -- Olha, eu vou ajudar, -- prometeu. -- Mas eu sou novo aqui.
Voc tem um monte de gente boa que conhece sobre o Acampamento
melhor do que eu. Se tivermos sucesso nesta busca, Hazel e Frank sero
heris. Voc poderia pedir a um deles...
        -- Por favor, -- disse Reyna. -- Ningum vai seguir um filho de
Pluto. H algo sobre essa garota... rumores sobre de onde ela veio... No,
ela no. Quanto a Frank Zhang, ele tem um bom corao, mas ele 
irremediavelmente ingnuo e inexperiente. Alm disso, se os outros
descobrirem sobre a histria de sua famlia nesse acampamento...
        -- Histria da famlia?
        -- O ponto , Percy, que voc  o verdadeiro comando nessa misso.
Voc  um veterano. Eu vi o que voc pode fazer. Um filho de Netuno no
seria minha primeira escolha, mas se voc retornar com sucesso desta
misso, a legio pode ser salva. A pretoria ser sua por mrito. Juntos, voc
e eu podemos expandir o poder de Roma. Ns poderamos levantar um
exrcito e encontrar as Portas da Morte, esmagar as foras de Gaia de uma
vez por todas. Voc iria se tornar para mim um... amigo muito til.
       Ela disse essa palavra como se pudesse ter vrios significados, e ele
pudesse escolher qual deles.
        O p de Percy comeou a bater no cho, ansioso para correr.
      -- Reyna... Sinto-me honrado, e tudo mais. Srio. Mas eu tenho
uma namorada. E eu no quero poder, ou uma pretoria.
        Percy temeu que ele a deixasse furiosa. Ao contrrio, ela apenas
ergueu as sobrancelhas.
        -- Um homem que recusa o poder? -- Disse. -- Isso no  muito
romano. Basta pensar nisso. Em quatro dias, eu tenho que fazer uma escolha.
Se lutarmos contra uma invaso, ns precisamos ter dois pretores fortes. Eu
prefiro voc, mas se voc falhar em sua misso, ou no voltar, ou se recusar
a minha oferta... Bem, eu irei trabalhar com Octavian. Quero dizer para

                                                                        149
salvar este acampamento, Percy Jackson. As coisas esto piores do que voc
imagina.
       Percy se lembrou do que Frank disse sobre os ataques de monstros
cada vez mais frequentes. -- Quo ruins?
        As unhas de Reyna escavaram a mesa. -- Mesmo o Senado no sabe
toda a verdade. Eu pedi para Octavian no compartilhar seus pressgios, ou
teramos pnico em massa. Ele previu um grande exrcito marchando para o
sul, mais do que podemos possivelmente derrotar. Eles so liderados por um
gigante...
        -- Alcioneu?
        -- Eu acho que no. Se ele  verdadeiramente invulnervel no
Alasca, ele seria tolo de vir aqui. Deve ser um de seus irmos.
       -- timo, -- disse Percy. -- Ento, temos dois gigantes com que se
preocupar.
        A pretora assentiu. -- Lupa e seus lobos esto tentando atras-los,
mas isso  demais at para eles. O inimigo estar aqui em breve  na Festa
da Fortuna, ou antes.
        Percy estremeceu. Ele tinha visto Lupa em ao. Ele sabia tudo
sobre a deusa lobo e seu bando. Se esse inimigo era muito poderoso para
Lupa, o Acampamento Jpiter no tinha chance.
        Reyna leu sua expresso. -- Sim,  ruim, mas no sem esperana. Se
voc conseguir trazer de volta a nossa guia, se voc libertar a morte para
que possamos realmente matar nossos inimigos, ento ns temos uma
chance. E h mais uma possibilidade...
       Reyna deslizou o anel de prata sobre a mesa. -- Eu no posso te dar
muita ajuda, mas sua jornada vai lev-lo perto de Seattle. Eu estou lhe
pedindo um favor, que tambm pode ajud-lo. Encontre a minha irm Hylla.
        -- Sua irm... a que me odeia?
        -- Oh, sim, -- concordou Reyna. -- Ela adoraria te matar. Mas
mostre a ela o anel com o meu smbolo, e pode ser que ela te ajude.
        -- Pode ser?
        -- Eu no posso falar por ela. Na verdade... -- Reyna franziu a testa.
-- Na verdade eu no falo com ela por semanas. Ela est em silncio. Com
esse exrcito passando...



                                                                         150
       -- Voc quer que eu d uma olhada nela, -- disse Percy
adivinhando. -- Tipo ter certeza que ela est bem.
        -- Parcialmente, sim. Eu no posso imaginar que ela foi superada.
Minha irm tem uma fora poderosa. Seu territrio  bem defendido. Mas se
voc puder encontr-la, ela poderia oferecer-lhe uma valiosa ajuda. Isso
pode significar a diferena entre o sucesso e o fracasso em sua misso. E se
voc contar a ela o que est acontecendo aqui...
       -- Ela poderia enviar ajuda? -- Percy perguntou.
        Reyna no respondeu, mas Percy pde ver o desespero em seus
olhos. Ela estava aterrorizada, agarrando qualquer coisa que pudesse salvar
seu acampamento. No   toa que ela queria a ajuda de Percy. Ela era a
nica pretora. A defesa do acampamento repousava sobre os seus ombros
sozinha.
        Percy pegou o anel. -- Vou encontr-la. Onde ela est? Que tipo de
fora ela tem?
       -- No se preocupe. Basta ir a Seattle. Eles vo te encontrar.
       Isso no soou encorajador, mas Percy colocou o anel em seu colar de
couro com suas contas e sua placa de probatio. -- Deseje-me sorte.
       -- Lute bem, Percy Jackson, -- disse Reyna. -- E obrigado.
        Ele pde dizer que a audincia tinha acabado. Reyna estava tendo
problemas para manter-se firme, manter a imagem de comandante confiante.
Ela precisava de algum tempo para si mesma.
        Mas na porta da principia, Percy no pde resistir e voltou. -- Como
 que ns destrumos sua casa  aquele spa onde voc viveu?
       Os galgos de metal rosnaram. Reyna estalou os dedos para silenci-
los.
        -- Voc destruiu o poder da nossa soberana, -- disse ela. --Voc
libertou alguns presos, que se vingaram de todos ns que viviam na ilha.
Minha irm e eu... bem, ns sobrevivemos. Foi difcil. Mas  longo prazo,
acho que estamos em melhor situao longe daquele lugar.
       -- Ainda assim, sinto muito, -- disse Percy. -- Se eu te machuquei,
me desculpe.
       Reyna olhou para ele por um longo tempo, como se tentasse traduzir
suas palavras. -- Um pedido de desculpas? No muito romano, Percy
Jackson. Voc seria um pretor interessante. Espero que voc pense sobre a
minha oferta.

                                                                        151
                                       XVI



O ALMOO PARECIA UM FUNERAL. Todo mundo comeu. As pessoas
falaram em voz baixa. Ningum parecia particularmente feliz. Os outros
campistas continuavam olhando para Percy como se ele fosse o cadver de
honra.
        Reyna fez um breve discurso desejando-lhes sorte. Octavian rasgou
um Beanie Baby33 e pronunciou pressgios sombrios e tempos difceis pela
frente, mas previu que o acampamento seria salvo por um heri inesperado
(cujas iniciais eram provavelmente OCTAVIAN). Em seguida, os outros
campistas partiram para as suas aulas da tarde  luta de gladiador, aulas de
latim, paintball com fantasmas, a formao da guia, e uma dzia de outras
atividades que soavam melhor do que uma misso suicida. Percy seguiu
Hazel e Frank para o quartel para fazer as malas.
         Percy no tinha muito. Ele tinha limpado a mochila de sua viagem
ao sul e manteve a maioria de seus suprimentos do Bargain Mart.
        Ele pegou um novo par de calas jeans e uma camiseta roxa extra
com o Intendente34, alm de algum nctar, ambrsia, aperitivos, um pouco
de dinheiro dos mortais, e suprimentos de acampamento. No almoo, Reyna
lhe entregou um pergaminho de apresentao do pretor e do Senado do
acampamento. Supostamente, qualquer legionrio aposentado que eles
conhecessem na viagem iria ajud-los se eles mostrassem a carta. Ele
tambm manteve seu colar de couro com as contas, o anel de prata, e a placa
de probatio, e  claro que ele tinha Contracorrente no bolso.
           Ele dobrou a camisa laranja esfarrapada e deixou-a em seu beliche.
        -- Eu voltarei, -- disse ele. Ele se sentiu muito estpido por falar
com uma camiseta, mas ele estava realmente pensando em Annabeth, e em
sua velha vida. -- Eu no vou embora para sempre. Mas eu tenho que ajudar
esses caras. Eles me acolheram. Eles merecem sobreviver.
           A camiseta no respondeu, felizmente.

33
     Beanie baby: Marca de bicho de pelcia.
34
     Em ingls Quartermaster, oficial encarregado da diviso de suprimentos.

                                                                               152
         Um de seus companheiros de quarto, Bobby, deu-lhes uma carona
para a fronteira do vale em Hannibal, o elefante. Das colinas, Percy pde ver
tudo abaixo. O Pequeno Tibre serpenteava entre as pastagens douradas onde
os unicrnios estavam pastando. Os templos e fruns da Nova Roma
brilhavam com a luz do sol. No Campo de Marte, os engenheiros estavam
trabalhando duro, derrubando os restos do forte de ontem  noite e criando
barricadas para um jogo de bola da morte. Um dia normal para o
Acampamento Jpiter  mas ao norte no horizonte, nuvens de tempestade
estavam se reunindo. Sombras atravessavam as montanhas e Percy imaginou
o rosto de Gaia chegando mais e mais perto.
        Trabalhe comigo no futuro, disse Reyna. Tenho a inteno de salvar
este acampamento.
        Olhando para o vale, Percy entendeu por que ela se preocupava
tanto. Mesmo que ele fosse novo no Acampamento Jpiter, ele sentiu um
forte desejo de proteger este lugar. Um porto seguro onde semideuses
poderiam construir suas vidas  ele queria ser parte disso no futuro. Talvez
no da maneira que Reyna imaginou, mas se ele pudesse compartilhar este
lugar com Annabeth...
         Eles saram do elefante. Bobby desejou-lhes uma jornada segura.
Hannibal envolveu os trs aventureiros com sua tromba. Ento, o servio de
txi de elefante voltou para o vale.
        Percy suspirou. Virou-se para Hazel e Frank e tentou pensar em algo
otimista para dizer.
        Uma voz familiar disse:
        -- Identificaes, por favor.
        Uma esttua de Trminus apareceu no topo do morro. O rosto do
deus de mrmore franziu a testa, irritado. -- Bem? Venham!
       -- Voc de novo? -- Percy perguntou. -- Eu pensei que voc
apenas guardasse a cidade.
         Trminus bufou. -- Fico feliz em ver voc, tambm, Sr. Zombador
de Regras. Normalmente, sim, eu guardo a cidade, mas para partidas
internacionais eu gosto de oferecer segurana extra nas fronteiras do
Acampamento. Voc realmente deveria ter pedido autorizao duas horas
antes de seu horrio de partida planejado, voc sabe. Mas vamos ter que
fazer isso. Agora, venha at aqui para que eu possa te revistar.
        -- Mas voc no tem... -- Percy parou. -- Uh, certo.



                                                                        153
        Ele ficou ao lado da esttua sem braos. Trminus realizou uma
revista mental rigorosa.
        -- Voc parece estar limpo, -- Trminus decidiu. -- Voc tem algo
a declarar?
         -- Sim, -- disse Percy. -- Eu declaro que isto  estpido.
       -- Humpf! Placa de probatio: Percy Jackson, Quinta Coorte, filho
de Netuno. Tudo bem, v. Hazel Levesque, filha de Pluto. Certo. Qualquer
moeda estrangeira ou, hm, metais preciosos a declarar?
         -- No, -- ela murmurou.
         -- Voc tem certeza? -- Trminus perguntou. -- Porque da ltima
vez...
         -- No!
        -- Bem, este  um grupo mal-humorado, -- disse o deus. --
Viajantes em misso! Sempre com pressa. Agora, vamos ver  Frank Zhang.
Ah! Centurio? Muito bem, Frank. E esse corte de cabelo est perfeitamente
de acordo com o regulamento. Eu aprovo! J pode ir, ento, Centurio
Zhang. Voc precisa de direes hoje?
         -- No. No, eu acho que no.
        -- V at a estao BART35, -- disse Trminus assim mesmo. --
Troque de trem em Oakland na Twelfth Street. Voc quer a Estao de
Fruitvale. De l, voc pode passear ou tomar o nibus para Alameda36.
       -- Vocs no tm um trem BART mgico ou alguma coisa assim?
-- Percy perguntou.
        -- Trens mgicos! -- Trminus zombou. -- Voc vai querer sua
pista prpria de segurana e um passe para o prximo saguo executivo.
Basta viajar com segurana, e atento para Polybotes. Falando em
transgressores da lei  bah! Eu gostaria de poder estrangul-los com minhas
prprias mos.
         -- Espera... quem? -- Percy perguntou.
        Trminus fez uma expresso de esforo, como se ele fosse flexionar
seu bceps inexistente. -- Ah, bem. Basta ter cuidado com ele. Imagino que


35
   BART: Bay Area Rapid Transit,  um sistema pblico de transporte rpido que
serve parte da rea da baa de So Francisco, na Califrnia.
36
   Alameda: Estao perto do porto de Oakland.

                                                                             154
ele pode cheirar um filho de Netuno a um quilmetro de distncia. Saiam,
agora. Boa sorte!
       Uma fora invisvel os chutou para alm do limite. Quando Percy
olhou para trs, Trminus tinha ido embora. De fato, o vale inteiro tinha ido
embora. Berkeley Hills parecia estar livre de qualquer acampamento
romano.
       Percy olhou para seus amigos. -- Alguma idia sobre o que
Trminus estava falando? Cuidado com os... alguma coisa poltica ou outra
coisa?
       -- Poh-LIB-uh-aborrecimento? -- Hazel disse o nome com cuidado.
-- Nunca ouvi falar dele.
        -- Parece grego, -- disse Frank.
       -- Isso j limita. -- Percy suspirou. -- Bem, ns provavelmente j
aparecemos no radar de cheiro para cada monstro dentro de cinco milhas. 
melhor entrar em movimento.


        Levou duas horas para chegar nas docas em Alameda. Comparado
aos ltimos poucos meses de Percy, a viagem foi fcil. Nenhum monstro
atacou. Ningum olhou para Percy como se ele fosse uma criana selvagem
sem-teto.
         Frank tinha guardado sua lana, arco e aljava em uma longa bolsa
feita para esquis. A espada de cavalaria de Hazel estava envolta em um saco
de dormir e pendurada em suas costas. Juntos, os trs pareciam colegiais
normais em seu caminho para uma viagem durante a noite. Eles caminharam
at a Estao Rockridge, compraram seus bilhetes com dinheiro de mortais,
e pularam no trem BART.
        Eles desceram em Oakland. Eles tiveram que caminhar por alguns
bairros desagradveis, mas ningum os incomodou. Sempre que membros de
gangues locais vinham perto o suficiente para olhar nos olhos de Percy, eles
rapidamente desviavam. Ele aperfeioou seu olhar de lobo ao longo dos
ltimos meses  um olhar que dizia: Por pior que voc pense que , eu sou
pior. Depois de estrangular monstros marinhos e atropelar grgonas em um
carro de polcia, Percy no estava com medo de gangues. Praticamente mais
nada no mundo mortal o assustava.
       No final da tarde, eles conseguiram chegar nas docas de Alameda.
Percy olhou para a Baa de So Francisco e respirou o ar do mar salgado.



                                                                        155
Imediatamente ele se sentiu melhor. Este era o domnio de seu pai. Em tudo
o que enfrentassem, ele teria vantagem, enquanto eles estivessem no mar.
        Dezenas de barcos estavam atracados nas docas  desde iates de
quinze metros  barcos de pesca de trs metros. Ele examinou procurando
por algum tipo de barco mgico  um navio trirreme, talvez, ou um navio de
guerra com cabea de drago que ele tinha visto em seu sonho.
           -- Hum... vocs sabem o que estamos procurando?
           Hazel e Frank balanaram a cabea.
        -- Eu nem sabia que tnhamos uma marinha. -- Hazel soou como se
ela desejasse que no houvesse uma.
           -- Oh... -- Frank apontou. -- Voc no acha que...?
       No final da doca estava um barco pequeno, como um bote, coberto
por uma lona roxa. Bordado em ouro, desbotado ao longo da lona estava
S.P.Q.R.
           A confiana de Percy vacilou. -- De jeito nenhum.
         Ele descobriu o barco, com as mos trabalhando nos ns como se ele
tivesse feito isso a vida inteira. Sob a lona estava um velho barco de ao sem
remos. O barco tinha sido pintado de azul escuro em algum momento, mas o
casco estava to incrustado de alcatro e sal que parecia um enorme
hematoma nutico.
        Na proa, o nome Pax37 ainda era legvel, com letras em ouro. Olhos
pintados caam tristemente no nvel da gua, como se o barco estivesse
prestes a adormecer. A bordo estavam dois bancos, um pouco de l de ao,
um refrigerador velho, e um monte de corda desgastada com uma
extremidade ligada  amarrao. Na parte inferior do barco, uma sacola
plstica e duas latas de Coca-Cola vazias flutuavam em vrios centmetros
de gua espumosa.
           -- Veja, -- disse Frank. -- A poderosa marinha romana.
           -- Tem que ser um erro, -- disse Hazel. -- Isso  um pedao de
lixo.
        Percy imaginou Octavian rindo deles, mas ele decidiu no deixar-se
rebaixar. O Pax ainda era um barco. Ele pulou a bordo, e o casco zumbiu
debaixo de seus ps, respondendo  sua presena. Ele recolheu o lixo do
refrigerador e colocou-o na doca. Ele desejou que a gua espumosa flusse

37
     Pax significa Paz em latim.

                                                                         156
sobre os lados e para fora do barco. Ento ele apontou para a l de ao e ela
voou pelo cho, lavando e polindo to rpido que o ao comeou a fumegar.
Quando acabou, o barco estava limpo. Percy apontou para a corda, e a
desatou do cais.
        Sem remos, mas isso no importava. Percy podia dizer que o barco
estava pronto para se mover, apenas aguardando o seu comando.
           -- Vou fazer isso, -- disse ele. -- Pulem para dentro.
        Hazel e Frank pareciam um pouco atordoados, mas eles subiram a
bordo. Hazel parecia especialmente nervosa. Quando se estabeleceram nos
assentos, Percy se concentrou, e o barco deslizou para longe do cais.
        Juno estava certa, voc sabe. A voz sonolenta de Gaia sussurrou na
mente de Percy, assustando-o tanto que o barco balanou. Voc poderia ter
escolhido uma nova vida no mar. Voc estaria salvo de mim l. Agora 
tarde demais. Voc escolheu dor e misria. Voc faz parte do meu plano
agora  meu pequeno peo importante.
           -- Saia do meu navio, -- Percy rosnou.
           -- Uh, o qu? -- Frank perguntou.
           Percy esperou, mas a voz de Gaia estava em silncio.
           -- Nada, -- disse ele. -- Vamos ver o que este barco pode fazer.
       Ele virou o barco para o norte, e em nenhum momento eles foram
em excesso de velocidade avanando em quinze ns38, rumo  Ponte Golden
Gate.




38
     Ns: Padro de velocidade martimo. 15 ns so cerca de 27Km/h.

                                                                              157
                                   XVII



HAZEL ODIAVA BARCOS.
        Ela ficava enjoada to facilmente, que parecia mais como uma praga
do oceano. Ela no tinha mencionado isso para Percy. Ela no queria
atrapalhar a misso, mas ela se lembrou de quo horrvel sua vida tinha sido
quando ela e sua me tinham se mudado para o Alasca -- que no tinha uma
estrada sequer. Para onde quer que elas fossem tinham que pegar um trem
ou um barco.
        Ela esperava que sua condio tivesse melhorado desde que ela
voltou a viver. Obviamente no melhorou. E esse pequeno barco, o Pax,
parecia muito com um barco que elas tinham no Alasca. E isso lhe trazia ms
lembranas...
        Assim que eles deixaram as docas, o estmago de Hazel comeou a
se embrulhar. Pelo tempo que passaram no per de Embarcadero39 em So
Francisco, ela se sentiu to tonta que pensou que estava tendo alucinaes.
Eles passaram rapidamente por alguns lees-marinhos descansando no cais,
e ela jurou que viu um velho mendigo sentado entre eles. Do outro lado da
gua o homem apontou um dedo ossudo para Percy e movimentou a boca
como se dissesse algo como "Nem sequer pense nisso".
          -- Voc viu aquilo? -- Hazel perguntou.
          O rosto de Percy estava vermelho ao pr do sol.
       -- Sim... Eu estive aqui antes. Eu... Eu no sei. Eu acho que estava
procurando a minha namorada.
        -- Annabeth, -- Frank disse. -- Voc quer dizer, no seu caminho
at o Acampamento Jpiter?
          Percy franziu a testa.
          -- No. Antes disso.


39
     Embarcadero: Nome do local.

                                                                       158
       Ele verificou a cidade como se ele estivesse  procura de Annabeth
enquanto eles passavam pela ponte Golden Gate e viravam para o norte.
        Hazel tentou acalmar seu estmago pensando em coisas agradveis
-- a euforia que ela sentiu quando tinha ganhado os jogos de guerra na noite
passada, cavalgando Hannibal debaixo do nariz do inimigo, a transformao
repentina de Frank em um lder. Ele parecia uma pessoa diferente quando
escalava paredes, convocando a Quinta Coorte para atacar. O jeito que ele
varreu os defensores da muralha... Hazel nunca tinha visto ele assim antes.
Ela ficou to orgulhosa em colocar a insgnia de centurio em sua camisa.
        Ento seus pensamentos se voltaram para Nico. Antes de eles
partirem, o irmo dela tinha puxado-a para um canto para desejar-lhe sorte.
Hazel esperava que ele ficasse no Acampamento Jpiter para defend-lo,
mas ele disse que estaria partindo hoje -- de volta ao Mundo Inferior.
        -- Papai precisa de toda ajuda que ele puder conseguir -- ele disse.
Parece que ocorreu uma rebelio nos Campos Asfdelos. As Frias mal
conseguem manter a ordem. Alm do que... Eu vou tentar rastrear algumas
das almas que fugiram. Talvez eu possa encontrar as Portas da Morte do
outro lado.
            -- Tenha cuidado, -- disse Hazel. -- Se Gaia est guardando essas
portas...
        -- No se preocupe. -- Nico sorriu. -- Eu sei como ficar escondido.
Apenas se cuide. Quanto mais perto voc chegar do Alasca... Eu no tenho
certeza se isso vai tornar os apages melhores ou piores.
         Me cuidar, Hazel pensou amargamente. Como se tivesse algum jeito
de isso terminar bem para ela.
       -- Se ns libertarmos Tnatos, -- Hazel disse a Nico, -- Pode ser
que eu nunca veja voc novamente. Tnatos vai me mandar de volta para o
Mundo Inferior...
         Nico segurou a mo dela. Seus dedos eram to plidos, que era
difcil acreditar que Hazel e ele compartilhavam o mesmo pai divino.
       -- Eu queria lhe dar uma chance nos Elsios, -- disse ele. -- Era o
melhor que eu podia fazer por voc. Mas agora, eu gostaria que houvesse
outra maneira. Eu no quero perder a minha irm.
       Ele no disse a palavra novamente, mas Hazel sabia que ele estava
pensando nisso. Pela primeira vez, ela no sentia cimes de Bianca di
Angelo. Ela s queria ter mais tempo com Nico e seus amigos no
acampamento. Ela no queria morrer pela segunda vez.

                                                                         159
       -- Boa sorte, Hazel, -- disse ele. Ento ele se misturou s sombras,
exatamente como seu pai tinha feito 70 anos antes.
       O barco estremeceu, sacudindo Hazel de volta para o presente.
Entraram nas correntes do Pacfico e contornaram a costa rochosa do
Condado de Marin40.
        Frank colocou o saco de esqui em seu colo. O saco passou por cima
dos joelhos de Hazel como uma barra de segurana em um parque de
diverses, o que a fez pensar no tempo em que Sammy a tinha levado ao
carnaval durante o Mardi Gras41... Ela rapidamente deixou a memria de
lado. Ela no podia correr o risco de apagar.
       -- Voc est bem? -- Frank perguntou. -- Voc parece que est
enjoada.
        -- Fico enjoada no mar, -- confessou. -- Eu no achei que ficaria
to mal.
      Frank fez beicinho como se fosse de alguma forma sua culpa. Ele
comeou a cavar em sua mochila.
       -- Eu tenho algum nctar. E alguns biscoitos. Hum, minha av diz
que gengibre ajuda... Eu no tenho nada disso, mas...
        -- Est tudo bem. -- Hazel reuniu um sorriso. -- Que bom que voc
se preocupa comigo, no entanto.
        Frank tirou um saltine42. Ele agarrou com seus dedos grandes.
Biscoitos explodiram por toda parte.
        Hazel riu. -- Deuses, Frank... desculpe. Eu no deveria rir.
       -- Uh, no tem problema, -- disse ele timidamente. -- Acho que
voc no vai querer uma.
        Percy no estava prestando muita ateno. Ele manteve os olhos
fixos na costa. Ao passarem pela praia Stinson, ele apontou para o interior,
onde uma nica montanha subia acima das colinas verdes.
        -- Isso parece familiar --, disse ele.
        -- Monte Tam, -- disse Frank. -- As crianas no acampamento
esto sempre falando sobre isso. Uma grande batalha aconteceu no cume, a
base de um antigo Tit.

40
   Condado de Marin: Um dos 58 condados da Califrnia.
41
   Mardi Gras: Evento americano na poca do carnaval.
42
   Saltine  um tipo de bolacha, parecido com nossas bolachas de gua e sal.

                                                                               160
       Percy franziu a testa.
       -- Algum de vocs esteve por l?
        -- No, -- disse Hazel. -- Isso foi em agosto, antes de eu, hum,
antes de eu chegar ao acampamento. Jason me contou sobre ela. A legio
destruiu o palcio do inimigo e cerca de um milho de monstros. Jason teve
que batalhar com Crio -- um combate mano a mano com um tit, se voc
puder imaginar.
       -- Eu posso imaginar, -- murmurou Percy.
        Hazel no tinha certeza do que ele quis dizer, mas Percy a fez
lembrar-se de Jason, ainda que eles no fossem nada parecidos. Eles tinham
a mesma aura de poder tranquilo, alm de uma espcie de tristeza, como se
tivessem visto o seu destino e sabiam que era apenas uma questo de tempo
antes que encontrassem um monstro que no poderiam vencer.
         Hazel sabia como era se sentir assim. Ela assistiu o pr do sol no
oceano, e ela sabia que tinha menos de uma semana de vida. Tendo sucesso
ou no, sua jornada acabar na Festa da Fortuna.
       Ela pensou na sua primeira morte, e os meses que a antecederam --
sua casa em Seward, os seis meses que ela passou no Alasca, pegando o
pequeno barco at a Baa da Ressurreio  noite, para visitar a ilha
amaldioada.
       Ela percebeu seu erro tarde demais. Sua viso escureceu, e ela caiu
voltando no tempo.


        Sua casa de frias era uma caixa suspensa em estacas sobre a baa.
Quando o trem de Anchorage passava perto, os mveis tremiam e as fotos
sacudiam nas paredes.  noite, Hazel adormecia ao som da gua gelada
gotejando nas rochas sob o assoalho. O vento fazia a construo ranger e
gemer.
        Eles tinham uma sala, com um aquecedor e uma geladeira como
cozinha. Um canto estava preparado com cortinas para Hazel, onde ela
mantinha seu colcho. Ela fixou desenhos e fotos antigas de Nova Orleans
nas paredes, mas apenas fizeram piorar a saudade.
        Sua me raramente estava em casa. Ela no era mais a Rainha Marie.
Ela era apenas Marie, a ajudante contratada. Ela cozinhava e fazia a limpeza
todos os dias no restaurante da Terceira Avenida, para pescadores,
trabalhadores ferrovirios, e a tripulao ocasional de homens da Marinha.
Ela chegava em casa cheirando a pinho e peixe frito.

                                                                       161
         noite, Marie Levesque se transformava. A Voz assumia, dando
ordens a Hazel, colocando-a para trabalhar em seu projeto horrvel.
        No inverno ficou pior. A Voz ficou mais constante por causa da
escurido. O frio era to intenso, que Hazel pensou que nunca estaria quente
novamente.
        Quando chegou o vero, Hazel no pode tomar sol o bastante. Todos
os dias das frias de vero, ela ficou longe de casa o quanto pde, mas ela
no podia andar pela cidade. Era uma pequena comunidade. As outras
crianas espalhavam boatos sobre ela, a filha da bruxa que morava no velho
barraco nas docas. Se ela chegasse muito perto, as crianas zombavam dela
ou atiravam garrafas e pedras. Os adultos no eram muito melhores que isso.
       Hazel poderia ter tornado suas vidas miserveis. Ela poderia ter-lhes
dado diamantes, prolas ou ouro. Aqui no Alasca, o ouro era fcil. Havia
tanto nas colinas, Hazel poderia ter escavado a cidade em pouqussimo
tempo. Mas ela no os odiava tanto assim para tir-los do seu caminho. Ela
no podia culp-los.
        Ela passou o dia andando pelas colinas. Ela atraiu corvos. Eles
grasnavam das rvores e esperavam as coisas brilhantes que apareciam
embaixo de seus passos. A maldio nunca pareceu incomod-los. Ela viu
ursos marrons, tambm, mas eles mantiveram distncia. Quando Hazel ficou
com sede, ela encontrou uma cachoeira de neve derretida e bebeu gua
gelada e limpa at sua garganta doer. Ela subiu o mais alto que pde para
deixar o sol aquecer o seu rosto.
       No era uma maneira ruim de passar o tempo, mas ela sabia que
eventualmente, ela teria que ir para casa.
        s vezes, ela pensava em seu pai, o estranho homem plido no terno
prata-e-preto. Hazel desejava que ele voltasse e a protegesse de sua me,
talvez usar os seus poderes para se livrar da voz horrvel. Se ele era um deus,
ele devia ser capaz de fazer isso.
        Ela olhou para os corvos e imaginou que eram seus emissrios. Seus
olhos eram escuros e manacos, como os dele. Ela se perguntava se eles
relatavam seus movimentos para o seu pai.
        Mas Pluto tinha advertido sua me sobre o Alasca. Era uma terra
alm dos deuses. Ele no podia proteg-las aqui. Se ele estava observando
Hazel, ele no falava com ela. Muitas vezes ela se perguntava se ela no o
teria imaginado. Sua antiga vida parecia to distante como os programas de
rdio que ela ouvia, ou o Presidente Roosevelt falando sobre a guerra.
Ocasionalmente, os moradores iam discutir sobre os japoneses e alguns

                                                                          162
combates nas ilhas que compunham o Alasca, mas mesmo parecendo
distante, era quase to assustador quanto o problema de Hazel.
       Um dia em pleno vero, ela ficou mais tempo fora do que o comum,
perseguindo um cavalo.
         Ela tinha o visto primeiro quando ela ouviu um som de mastigao
atrs dela. Ela se virou e viu um maravilhoso garanho com uma juba negra
-- exatamente como o que ela tinha montado em seu ltimo dia em Nova
Orleans, quando Sammy a tinha levado aos estbulos. Poderia ter sido o
mesmo cavalo, no entanto, era impossvel. Ele estava comendo algo fora da
trilha, e por um segundo, Hazel teve a louca impresso de que ele estava
mastigando uma das jazidas de ouro que sempre apareciam em seu caminho.
           -- Ei, camarada -- ela chamou.
           O cavalo olhou para ela com cautela.
       Hazel imaginou que ele deveria pertencer a algum. Estava muito
bem tratado, o seu pelo muito elegante para um cavalo selvagem. Se ela
pudesse chegar perto o suficiente... O qu? Ela poderia encontrar seu dono?
Devolv-lo?
           No, ela pensou. Eu s quero cavalgar novamente.
        Ela deu dez passos, e o cavalo fugiu. Ela passou o resto da tarde
tentando peg-lo ficando irritantemente perto antes que ele fugisse
novamente.
         Ela perdeu a noo do tempo, o que era fcil de fazer com o sol de
vero constante durante tanto tempo. Finalmente, ela parou em um riacho
para tomar gua e olhou para o cu, pensando que devia ser por volta das
trs da tarde. Ento ela ouviu um apito de trem no vale abaixo. Ela percebeu
que tinha que estar anoitecendo em Anchorage43, o que significava que eram
dez da noite.
           Ela olhou para o cavalo pastando, de forma pacfica em volta do
riacho.
           -- Voc est tentando me deixar em apuros?
       O cavalo relinchou. Ento... Hazel devia ter imaginado isso. O
cavalo fugiu em um borro de preto e castanho, mais rpido do que um
relmpago -- quase rpido demais para seus olhos registrarem.



43
     Anchorage: Municpio do Alasca.

                                                                       163
       Hazel no entendia como, mas o cavalo tinha definitivamente
desaparecido.
        Ela olhou para o local onde o cavalo estava. Vapor saia do solo.
       O apito do trem ecoou atravs das montanhas de novo, e ela
percebeu o quo encrencada estava. Ela correu para casa.
        Sua me no estava l. Por um segundo Hazel se sentiu aliviada.
Talvez a me dela tivesse trabalhado at tarde. Talvez hoje elas no tivessem
de fazer a viagem.
        Ento ela viu os escombros. A cortina de Hazel estava puxada para
baixo. O guarda-roupa estava aberto e suas roupas espalhadas pelo cho. Seu
colcho havia sido picado como se um leo tivesse atacado ele. O pior de
tudo, seu bloco de desenho foi rasgado em pedaos. Seus lpis de cor foram
todos quebrados. O presente de aniversrio de Pluto, o nico luxo de Hazel,
tinha sido destrudo. Pregada na parede estava uma nota em vermelho no
ltimo pedao de papel de desenho, escrito algo que no era de sua me:
Menina Malvada. Estou te esperando na ilha. No me desaponte. Hazel
soluava em desespero. Ela queria ignorar a intimao. Ela queria fugir, mas
no havia para onde ir. Alm disso, sua me tinha sido aprisionada. A Voz
tinha prometido que elas estavam quase acabando com a sua tarefa. Se Hazel
se mantivesse ajudando, sua me seria libertada.
        Hazel no confiava na Voz, mas ela no via qualquer outra opo.
        Ela pegou o barco a remo -- um barquinho que a me dela tinha
comprado com alguns fragmentos de ouro de um pescador  que teve um
acidente trgico com suas redes no outro dia. Elas tinham apenas um barco,
mas a me de Hazel parecia capaz, de vez em quando, de chegar  ilha sem
qualquer transporte. Hazel aprendeu que no era bom perguntar sobre isso.
        Mesmo em pleno vero, pedaos de gelo giravam na Baa da
Ressurreio. Focas deslizavam pelo seu barco, olhando para Hazel
esperanosamente, farejando em busca de restos de peixe. No meio da baa,
as costas brilhantes de uma baleia apareceram na superfcie.
        Como sempre, o balano do barco fez seu estmago girar. Ela parou
uma vez para vomitar do outro lado. O sol estava finalmente se pondo,
transformando o cu em um vermelho-sangue.
        Ela remou em direo a boca da baa. Depois de alguns minutos, ela
se virou e olhou para a frente. Bem na frente dela, fora do nevoeiro, a ilha se
materializou -- um hectare de pinheiros, rochas e neve, com uma praia de
areia negra.


                                                                           164
       Se a ilha tinha um nome, ela no sabia. Uma vez Hazel tinha
cometido o erro de perguntar ao povo da cidade, mas eles a tinham olhado
como se ela estivesse louca.
       -- No existe nenhuma ilha aqui, -- disse o peixeiro, -- ou seno
meu barco teria passado por l muitas vezes.
       Hazel estava a cerca de cinquenta metros da costa quando um corvo
pousou na popa do barco. Era um pssaro preto oleoso quase to grande
quanto uma guia, com um bico irregular como uma faca de obsidiana.
       Seus olhos brilhavam com inteligncia, por isso Hazel no ficou
muito surpresa quando ele falou.
        -- Esta noite, -- ele resmungou. -- A ltima noite.
        Hazel deixou o remo cair. Ela tentou decidir se o corvo estava
tentando alert-la, ou aconselh-la, ou fazendo uma promessa.
        -- Voc  do meu pai? -- perguntou ela.
        O corvo inclinou sua cabea.
        -- A ltima noite. Hoje  noite.
        Ele bicou a proa do barco e voou em direo  ilha.
       A ltima noite, Hazel disse a si mesma. Ela decidiu tomar como uma
promessa. No importa o que ele me disse, vou fazer disso a ltima noite.
         O que lhe deu fora suficiente para remar adiante. O barco deslizou
na terra, rachando atravs de uma fina camada de gelo e lodo preto.
         Ao longo dos meses, Hazel e sua me haviam usado um caminho da
praia para a floresta. Ela caminhou para o interior, com o cuidado de ficar na
trilha. A ilha estava cheia de perigos, tanto naturais e mgicos.
       Os ursos farfalhavam na vegetao rasteira. Espritos incandescentes
brancos, vagamente humanos, deslizavam por entre as rvores. Hazel no
sabia o que eram, mas ela sabia que eles estavam olhando para ela,
esperando que ela se perdesse em suas garras.
         No centro da ilha, dois enormes pedregulhos negros formaram a
entrada de um tnel. Hazel entrou na caverna que ela chamava de o Corao
da Terra. Era o nico lugar realmente quente que Hazel tinha encontrado
desde que se mudou para o Alasca. O ar cheirava a terra recm molhada. O
calor, mido e doce fez Hazel se sentir sonolenta, mas ela lutou para ficar
acordada. Imaginava que, se ela dormisse aqui, seu corpo se afundaria na
terra do cho e ficaria coberto de folhas.

                                                                         165
         A gruta era to grande como um santurio de uma Igreja, como a
catedral de St. Louis em sua antiga casa na Jackson Square. As paredes
brilhavam com musgos luminescentes -- verdes, vermelhos e roxos. A
cmara toda zumbia com energia, ecoando um boom, boom, boom, que
lembrava a Hazel batidas de corao. Talvez fossem apenas ondas do mar
golpeando a ilha, mas Hazel no pensava assim. Este lugar estava vivo. A
terra estava dormindo, mas pulsava com o poder. Seus sonhos eram to mal-
intencionados, to intermitentes, que Hazel sentiu que estava perdendo a
noo da realidade.
       Gaia queria consumir a sua identidade, assim como ela tinha
dominado a me de Hazel. Ela queria consumir todo ser humano, deus e
semideuses que se atrevesse a andar pela sua superfcie.
        Vocs todos me pertencem, murmurou Gaia como uma cano de
ninar. Rendam-se. Voltem para a terra.
           No, Hazel pensou. Eu sou Hazel Levesque. Voc no pode me
possuir.
        Marie Levesque estava sobre o poo. Em seis meses, seu cabelo
tinha se tornado cinza como palha de ao. Ela tinha perdido peso. Suas mos
estavam nodosas pelo trabalho duro. Ela usava botas de neve impermeveis
e uma camisa branca manchada do restaurante. Ela nunca teria sido
confundida com uma rainha.
           --  tarde demais. -- A voz frgil de sua me ecoou pela caverna.
           Hazel percebeu com um choque que era a voz dela -- no de Gaia.
           -- Me?
       Marie se virou. Seus olhos estavam abertos. Ela estava acordada e
consciente. O que deveria ter deixado Hazel aliviada, a deixou nervosa. A
Voz nunca renunciou ao controle enquanto elas estavam na ilha.
        -- O que eu fiz? -- sua me perguntou desesperadamente. -- Ah,
Hazel, o que eu te fiz?
           Ela olhou com horror para a coisa no poo.
        Durante meses elas estavam vindo para c, quatro ou cinco noites
por semana assim como a Voz pedia. Hazel tinha chorado, ela entrou em
colapso com a exausto, ela implorou, ela tinha se dado ao desespero. Mas a
voz que controlava sua me exortou-a implacavelmente. Traga objetos de
valor da terra. Use seus poderes, criana. Traga meu bem mais precioso
para mim.


                                                                          166
         No comeo, seus esforos trouxeram apenas desprezo. A fissura na
terra tinha sido preenchida com ouro e pedras preciosas, borbulhando em
uma sopa espessa de petrleo. Parecia que o tesouro de um drago tinha sido
despejado em um poo de piche. Ento, lentamente, um cone de pedra
comeou a crescer como um bulbo enorme de uma tulipa. Ele surgiu de
forma gradual, noite aps noite, Hazel teve problemas para calcular o seu
progresso. Muitas vezes ela se concentrava toda a noite na elevao, at que
sua mente e alma ficavam esgotadas, mas ela no notava qualquer diferena.
No entanto, o cone cresceu. Hazel agora podia ver o quanto ela tinha feito. A
coisa tinha dois andares de altura, um redemoinho de gavinhas rochoso
saliente como uma ponta de lana do pntano de leos. No interior, algo
brilhava com o calor. Hazel no podia v-lo claramente, mas ela sabia o que
estava acontecendo. Um corpo estava se formando de prata e ouro, o
petrleo como sangue e o diamante puro como o corao. Hazel estava
ressuscitando o filho de Gaia. Ele estava quase pronto para despertar.
        A me dela caiu de joelhos e comeou a chorar.
        -- Sinto muito, Hazel. Sinto muito.
        Ela parecia desamparada e sozinha, terrivelmente triste.
        Hazel deveria ter ficado furiosa. Desculpe? Ela vivia com medo de
sua me h anos. Ela tinha sido repreendida e culpada por causa da vida
desafortunada de sua me. Ela havia sido tratada como uma aberrao,
arrastada de sua casa em Nova Orleans para este deserto glido e trabalhado
como uma escrava para uma deusa impiedosa do mal. Desculpe no
suprimia isso. Ela deveria ter desprezado sua me.
        Mas ela no conseguia fazer a si mesma ficar com raiva.
       Hazel se ajoelhou e colocou o brao em torno de sua me. No havia
quase nada sobrando dela -- s pele e ossos e roupas de trabalho
manchadas. Mesmo na caverna quente, ela estava tremendo.
        -- O que podemos fazer? -- Hazel disse. -- Diga-me como impedir.
        Sua me balanou a cabea.
      -- Ela me deixou ir. Ela sabe que  tarde demais. No h nada que
possamos fazer.
        -- Ela... A Voz? -- Hazel receava lhe dar esperanas, mas se sua
me estava realmente livre, ento nada mais importava. Elas poderiam sair
daqui. Elas poderiam fugir, de volta para Nova Orleans.
        -- Ela se foi?


                                                                        167
           Sua me olhou temerosamente ao redor da caverna.
       -- No, ela est aqui. H apenas mais uma coisa que ela precisa de
mim. Para isso, ela precisa do meu livre-arbtrio.
           Hazel no gostou de como isso soava.
           -- Vamos sair daqui -- ela insistiu. -- Essa coisa na pedra... Vai
eclodir.
           -- Em breve. -- A me concordou.
        Ela olhou para Hazel to ternamente... Hazel no conseguia se
lembrar da ltima vez que tinha visto esse tipo de afeto nos olhos de sua
me. Ela sentiu um soluo em seu peito.
        -- Pluto me avisou, -- disse sua me. -- Ele disse que o meu
desejo era muito perigoso.
           -- O seu... Seu desejo?
        -- De ter toda a riqueza debaixo da terra, -- disse ela. -- Ele
controlava isso. Eu queria. Eu estava to cansada de ser pobre, Hazel. To
cansada. Primeiro eu o convoquei... S para saber se eu poderia. Nunca
pensei que um velho feitio indgena iria funcionar com um deus. Mas ele
cortejou-me, me disse que eu era corajosa e bonita...
           Ela olhou para suas mos calejadas.
        -- Quando voc nasceu ele ficou to satisfeito e orgulhoso. Ele me
prometeu qualquer coisa. Ele jurou pelo rio Stige. Pedi todas as riquezas que
ele tinha. Ele me avisou que quanto mais grandiosos fossem os desejos,
causariam os maiores sofrimentos. Mas eu insisti. Eu imaginava viver como
uma rainha -- a esposa de um deus! E voc... Voc foi amaldioada.
        Hazel se sentiu como se estivesse quase a ponto de explodir, tal
como o cone no poo. Sua infelicidade logo se tornaria grande demais para
conter, e sua pele iria se partir.
           --  por isso que eu posso encontrar coisas debaixo da terra?
         -- E por que elas te trazem apenas tristeza. -- Sua me fez um gesto
com indiferena em torno da caverna. --  assim que ela me achou e como
ela foi capaz de me controlar. Eu estava com raiva de seu pai. Eu o culpava
por meus problemas. Eu culpei voc. Eu estava to amarga, eu ouvi a voz de
Gaia. Eu fui uma tola.
      -- Tem que ter algo que possamos fazer, -- disse Hazel. -- Diga-
me como par-la.

                                                                           168
        O cho tremeu. A voz desencarnada de Gaia ecoou pela caverna.
        Meu filho mais velho ascende, disse ela, a coisa mais preciosa na
terra -- e voc o trouxe das profundezas, Hazel Levesque. Voc fez-lhe um
novo ser. Seu despertar no pode ser interrompido. S uma coisa
permanece.
        Hazel cerrou os punhos. Ela estava apavorada, mas agora que sua
me estava livre, ela sentiu como se ela pudesse enfrentar seu inimigo afinal.
Esta criatura, esta deusa do mal, havia arruinado suas vidas. Hazel no ia
deix-la vencer.
        -- Eu no vou mais te ajudar! -- ela gritou.
        Mas eu terminei com a sua ajuda, menina. Eu a trouxe aqui por uma
nica razo. Sua me exigiu... De incentivo.
        A garganta de Hazel estava apertada.
        -- Me?
        -- Sinto muito, Hazel. Se voc puder me perdoar, por favor, --
saiba que foi s porque eu te amo. Ela prometeu deix-la viver se...
        -- Se voc se sacrificar, -- disse Hazel, percebendo a verdade. --
Ela precisa de voc para dar a sua vida de bom grado para erguer aquela...
Aquela coisa.
       Alcioneu, Gaia disse. O mais velho dos gigantes. Ele deve subir
primeiro, e esta ser sua nova ptria, longe dos deuses. Ele vai andar por
estas montanhas e florestas geladas. Ele vai erguer um exrcito de monstros.
Enquanto os deuses esto divididos, lutando uns contra os outros nesta
Guerra Mundial mortal, ele enviar os seus exrcitos para destruir o
Olimpo.
        Os sonhos da deusa da Terra eram to poderosos, que eles se
projetaram em sombras nas paredes da caverna -- medonhas imagens de
deslocamento de exrcitos nazistas em fria por toda a Europa, avies
japoneses destruindo cidades americanas. Hazel finalmente compreendeu.
Os deuses do Olimpo tomariam partido na batalha como sempre fizeram em
guerras humanas. Enquanto os deuses lutavam entre si a um impasse
sangrento, um exrcito de monstros se levantaria no norte. Alcioneu
reviveria seus irmos gigantes e iria envi-los para conquistar o mundo. Os
deuses enfraquecidos cairiam. O conflito mortal seria raivoso por dcadas
at que toda a civilizao fosse varrida, e a deusa da terra despertasse
totalmente. Gaia governaria para sempre.



                                                                         169
        Tudo isto, a deusa ronronou, porque sua me era gananciosa e
amaldioou-a com o dom de encontrar riquezas. No meu estado de sono, eu
precisaria de mais dcadas, talvez sculos, antes que eu encontrasse o poder
de ressuscitar Alcioneu sozinha. Mas agora ele vai acordar, e logo, eu serei
a prxima!
        Com uma certeza terrvel, Hazel soube o que iria acontecer a seguir.
A nica coisa que Gaia precisava era de um sacrifcio -- uma alma disposta
a ser consumida para Alcioneu despertar. Sua me iria entrar na fissura e
tocar no horrvel cone -- e ela seria absorvida.
        -- Hazel, v. -- A me dela se levantou cambaleando. -- Ela vai
deix-la viver, mas voc deve se apressar.
        Hazel acreditava. Essa era a coisa mais horrvel. Gaia honraria o
negcio e deixaria Hazel viva. Hazel sobreviveria para ver o fim do mundo,
sabendo que ela o causou.
        -- No. -- Hazel tomou sua deciso. -- Eu no vou viver. No por
isso.
        Ela alcanou as profundezas de sua alma. Ela chamou seu pai, o
Senhor do Mundo Inferior, e convocou todas as riquezas que dormiam em
seu vasto reino. A caverna tremeu. Ao redor da torre de Alcioneu, bolhas de
leo, ento se agitaram e explodiram como um caldeiro fervente.
         No seja tola, Gaia disse, mas Hazel detectou preocupao no seu
tom de voz, talvez at mesmo medo. Voc vai destruir a si mesma por nada!
Sua me ainda vai morrer! Hazel quase vacilou. Lembrou-se da promessa de
seu pai: um dia a sua maldio seria removida, um descendente de Netuno
traria a sua paz. Ele mesmo disse que ela poderia encontrar um cavalo por
conta prpria. Talvez esse garanho estranho nas montanhas fosse para ela.
Mas nada disso aconteceria se ela morresse agora. Ela nunca iria ver Sammy
novamente, ou retornar a Nova Orleans. Sua vida seria de treze curtos anos,
anos amargos com um final infeliz.
        Ela encontrou os olhos de sua me. Pela primeira vez, sua me no
parecia triste ou com raiva. Seus olhos brilhavam com orgulho.
        -- Voc foi meu presente Hazel, -- disse ela. -- Meu presente mais
precioso. Eu fui tola em pensar que eu precisava de mais alguma coisa.
       Ela beijou a testa de Hazel e abraou-a. Seu calor deu a Hazel a
coragem para continuar. Elas morreriam, mas no como sacrifcios para
Gaia. Hazel instintivamente sabia que seu ato final rejeitaria o poder de
Gaia. Suas almas iriam para o Mundo Inferior, e Alcioneu no se ergueria,
pelo menos no ainda.

                                                                       170
         Hazel convocou o ltimo de seus poderes. O ar tornou-se
lancinantemente quente. O cone comeou a afundar. Jias e os pedaos de
ouro dispararam da fissura com tal fora, que as paredes da caverna
racharam e estilhaos voaram, a pele de Hazel foi atingida atravs da
jaqueta.
        Pare com isso! Gaia exigia. Voc no pode impedir sua ascenso.
Na melhor das hipteses, voc vai atras-lo -- algumas dcadas. Meio
sculo. Vocs trocariam suas vidas por isso?
       Hazel deu-lhe uma resposta.
       A ltima noite, o corvo tinha dito.
       A fissura explodiu. O telhado ruiu. Hazel afundou nos braos de sua
me, na escurido, enquanto o leo enchia os seus pulmes e a ilha entrou
em colapso na baa.




                                                                      171
                                XVIII



-- HAZEL! -- FRANK AGITOU SEUS BRAOS, parecendo em pnico.
-- Vamos l, por favor! Acorde!
        Ela abriu os olhos. O cu noturno brilhou com as estrelas. O balano
do barco tinha ido embora. Ela encontrava-se deitada em terra firme, sua
espada e bolsa colocadas ao seu lado.
        Ela sentou-se tonta, a cabea girando. Eles estavam em um penhasco
com vista para uma praia. Cerca de cem metros de distncia, o oceano
brilhava ao luar. A rebentao banhava suavemente a popa do barco
encalhado.  sua direita, abraando a beira do precipcio, havia uma igreja
com uma luz de busca no campanrio. Um farol, Hazel sups. Atrs deles,
campos de grama alta farfalhavam ao vento.
       -- Onde estamos? -- Perguntou ela.
       Frank expirou. -- Graas aos deuses, voc est acordada! Ns
estamos em Mendocino, cerca de duzentos e oitenta quilmetros ao norte da
Golden Gate.
        -- Duzentos e oitenta quilmetros? -- Gemeu Hazel. -- Eu fiquei
fora por quanto tempo?
        Percy ajoelhou-se ao lado dela, o vento do mar varrendo seu cabelo.
Ele colocou a mo em sua testa, como se conferindo se havia uma febre.
        -- No pudemos acord-la. Finalmente ns decidimos traz-la em
terra. Ns pensamos que talvez o enjoo...
        -- No foi nenhum enjoo. -- Ela respirou fundo. No podia mais
esconder a verdade deles. Ela se lembrou do que Nico tinha dito: Se um
flashback assim acontecer enquanto voc estiver em combate...
       -- Eu... Eu no fui honesta com vocs, -- disse ela. -- O que
aconteceu foi um apago. Eu os tenho de vez em quando.
         -- Um apago? -- Frank pegou a mo de Hazel, ela se assustou...
embora tenha sido agradvel. --  um problema mdico? Por que eu no
notei isso antes?

                                                                       172
         -- Eu tento escond-lo, -- ela admitiu. -- Tive sorte at agora, mas
est ficando pior. No  problema mdico... no realmente. Nico disse que 
um efeito colateral do meu passado. De onde ele me encontrou.
        Os olhos verdes intensos de Percy eram difceis de ler. Ela no
saberia dizer se ele estava preocupado ou cauteloso.
        -- Onde exatamente Nico te encontrou? -- Perguntou.
        A lngua de Hazel parecia um algodo. Ela estava com medo que se
comeasse a falar, mergulharia de novo no passado, mas eles mereciam
saber. Se ela falhasse nessa misso, perdesse a conscincia quando mais
precisassem dela... ela no poderia suportar essa ideia.
       -- Eu explicarei, -- Prometeu. Ela tateou atravs de sua bolsa.
Tinha estupidamente esquecido de trazer uma garrafa de gua. -- ... h
qualquer coisa para eu beber?
         -- Sim, -- Percy murmurou uma maldio em grego. -- Isso foi
idiota. Deixei meus suprimentos l em baixo no barco.
        Hazel se sentiu mal, ao pedir para que eles cuidassem dela, mas ela
tinha acordado com muita sede e exausta, como se tivesse vivido as ltimas
horas tanto no passado como no presente.
       Ela colocou nos ombros sua mochila e espada. -- No se
preocupem. Eu posso andar...
       -- Nem pense nisso, -- disse Frank. -- No at que voc tenha um
pouco de comida e gua. Eu pegarei os suprimentos.
        -- No, eu irei, -- Percy olhou de relance para mos de Frank nas
de Hazel. Ento ele examinou o horizonte, como se sentisse que havia algum
problema, mas no havia nada para ver  apenas o farol e o campo de grama
que se estendia para o interior. -- Vocs dois podem ficar aqui. Volto daqui
a pouco.
       -- Voc tem certeza? -- Disse Hazel debilmente. -- Eu no quero
que voc...
        -- Est tudo bem, -- disse Percy. -- Frank, apenas mantenha seus
olhos bem abertos. H algo sobre esse lugar... eu no sei.
        -- Vou mant-la em segurana. -- Prometeu Frank.
        Percy saiu apressado.
        Uma vez que estavam sozinhos, Frank pareceu perceber que ainda
estava segurando a mo de Hazel. Ele limpou a garganta e soltou-a.

                                                                        173
       -- Eu, hum... Acho que entendo seus apages, -- ele disse. -- E de
onde voc vem.
         O corao dela acelerou. -- Voc entende?
        -- Voc parece to diferente das outras meninas que conheci. -- Ele
piscou e ento se apressou em dizer. -- No como... diferente para ruim.
Apenas a maneira que voc fala. As coisas que me surpreendem em voc 
como as msicas, ou programas de TV ou seu modo de falar. Voc fala de
sua vida como se ela tivesse acontecido h muito tempo atrs. Voc nasceu
em um tempo diferente, no ? Voc veio do Mundo Inferior.
        Hazel queria chorar. No por que ela estava triste. Mas por que era
um alvio para ela ouvir algum dizer a verdade. Frank no agiu transtornado
ou com medo. Ele no olhou para ela como se fosse um fantasma ou um
zumbi morto-vivo terrvel.
         -- Frank, eu...
        -- Ns entenderemos isso, -- Ele prometeu. -- O que importa  que
voc est viva agora. E ns a manteremos dessa maneira.
         A grama atrs deles farfalhava. Os olhos de Hazel piscaram no vento
frio.
        -- Eu no mereo um amigo como voc, -- Ela disse. -- Voc no
sabe o que sou... o que eu fiz.
       -- Pare com isso! -- Disse Frank carrancudo. -- Voc  formidvel!
Alm disso, voc no  a nica que possui segredos.
         Hazel olhou fixamente para ele. -- Eu no sou?
         Frank comeou a dizer algo. Ento enrijeceu.
         -- Que foi? -- Perguntou Hazel.
         -- O vento parou.
        Ela olhou ao seu redor e notou que ele estava certo. O ar tornou-se
perfeitamente imvel.
         -- Ento? -- Ela perguntou.
       Frank engoliu em seco. -- Ento por que  que a grama ainda
continua em movimento?
         Pelo canto do olho, Hazel viu formas escuras ondularem atravs do
campo.



                                                                        174
          -- Hazel! -- Frank tentou agarrar os braos dela, mas j era tarde
demais.
       Algo bateu nele por trs. Ento uma fora como um furaco de
gramas envolveu Hazel, arrastando-a para dentro dos campos.




                                                                        175
                                  XIX



HAZEL ERA EXPERT EM ESQUISITISES. Ela viu sua me possuda
pela deusa da terra. Ela tinha criado um gigante de ouro. Ela destruiu uma
ilha, morreu, e voltou do mundo inferior.
        Mas ser sequestrada por um campo de grama? Isso era novidade.
       Ela se sentiu presa como em um funil tempestuoso de plantas. Ela
tinha ouvido que cantores modernos se jogavam em um mar de fs e
passavam por cima de milhares de mos. Ela imaginou que isso era similar 
apenas que ela estava se movendo mil vezes mais rpido, e as lminas de
grama no eram fs apaixonados.
         Ela no podia se sentar. Ela no podia tocar o cho. Sua espada
ainda estava no seu saco de dormir, amarrado em suas costas, mas ela no
conseguia alcan-la. As plantas mantinham-na sem equilbrio, atirando-a
para todo o lado, cortando sua face e seus braos. Ela nem podia olhar as
estrelas atravs do turbilho verde, amarelo e preto.
        Os gritos de Frank desapareceram na distncia.
        Era difcil pensar com clareza, mas Hazel sabia de uma coisa: ela
estava se movendo rpido. Independente de onde fosse levada, em breve ela
estaria muito longe para que seus amigos a encontrassem.
       Ela fechou os olhos e tentou ignorar os solavancos e arremessos.
Enviou seus pensamentos para a terra abaixo. Ouro, prata  se concentrou
em qualquer coisa que pudesse atrapalhar seus sequestradores.
        Ela no conseguiu sentir nada. Riquezas abaixo da terra  zero.
        Ela estava prestes a se desesperar quando ela sentiu uma grande
massa fria passar por baixo dela. Trancou nela com todas as suas foras,
lanou uma ncora mental. De repente, a terra retumbou. O redemoinho de
plantas a libertou e ela foi lanada para cima como um projtil de catapulta.
        Momentaneamente sem peso, ela abriu os olhos. Ela virou seu corpo
no meio do ar e viu o cho a cerca de 6 metros de distncia. Ento ela estava
caindo. Com isso lembrou-se do seu treinamento de combate. Ela j havia

                                                                          176
praticado saltos de guias gigantes antes. Quando atingiu o cho, ela formou
um rolo, deu uma cambalhota e ficou em p.
        Ela desamarrou seu saco de dormir e sacou sua espada. Alguns
metros a sua esquerda um afloramento de rochas se projetava do mar de
grama. Hazel percebeu que era a sua ncora. Ela quem tinha feito aquela
rocha aparecer.
        A grama se mexeu ao redor dela. Vozes zangadas sibilaram com a
rocha macia que havia interrompido seu avano. Antes que eles pudessem
se reagrupar, Hazel correu para a rocha e escalou at o topo.
        A grama balanava e sussurrava ao seu redor como os tentculos de
uma gigantesca anmona do mar. Hazel podia sentir a frustrao de seus
sequestradores.
       -- No podem crescer nisso aqui, podem? -- Gritou ela. -- Vo
embora seus montes de ervas daninhas! Deixem-me em paz!
        -- Xisto44, -- disse uma voz irritada da grama.
        Hazel levantou uma sobrancelha. -- Como ?
        -- Xisto! Grande pilha de xisto!
        Uma freira na Academia St. Agnes tinha lavado a boca de Hazel
com sabo uma vez por dizer algo parecido, ela no sabia muito bem como
responder quilo. Ento todos os sequestradores que estavam ao redor de sua
ilha de pedra comearam a se materializar da grama.  primeira vista todos
pareciam querubins, uma dzia de cupidos beb gordinhos. Ento, ao
caminharem para mais perto, Hazel percebeu que no eram nem bonitos nem
angelicais.
         Eles eram do tamanho de crianas, como bebs gordos, mas suas
peles tinham uma estranha colorao esverdeada, como se clorofila corresse
por suas veias. Tinham asas secas e frgeis como palha de milho e um cabelo
branco como seda. Seus rostos eram salpicados com gros de cereais, seus
olhos eram de um verde slido e seus dentes saiam de suas bocas como
caninos.
        A maior criatura se aproximou. Ele usava uma tanga amarela e seu
cabelo estava espetado como as cerdas de um talo de trigo. Ele sibilou para
Hazel e bamboleou para trs muito rapidamente, ela ficou com medo de que
a tanga dele pudesse cair.
44
  Xisto: tipo de rocha. Em ingls Schist. Poucas frases  frente, Hazel confunde a
palavra com algum xingamento. Provavelmente Shit que significa merda em ingls.
Acredito que a pronncia das palavras deve ser parecida.

                                                                              177
       -- Odeio este xisto! -- A criatura se queixou. -- O trigo no
consegue crescer nele.
           -- O sorgo45 no pode crescer! -- Outra comeou a falar.
      -- Cevada! -- Gritou uma terceira, -- Cevada no pode crescer!
Amaldio este xisto!
        Os joelhos de Hazel tremeram. As pequenas criaturas at pareceriam
engraadas se elas no a tivessem cercando e a encarando com os famintos
olhos verdes e com dentes pontudos. Eles eram como cupidos-piranha.
        -- V-vocs querem dizer a rocha? -- Ela conseguiu falar. -- Esta
rocha  chamada de xisto?
           --Sim! Xisto! -- A primeira criatura gritou. -- Pedra desagradvel!
        Hazel comeou a entender como ela convocou a rocha. --  uma
pedra preciosa. Ela  valiosa?
       -- Bah! -- Falou o primeiro em uma tanga amarela -- Os nativos
fazem jias com essa pedra, sim. Valiosa? Talvez. No to boa quanto o
trigo!
           -- Ou sorgo!
           -- Ou cevada!
        Os outros fizeram um coro. Chamando os diferentes tipos de gros.
Eles circundaram a pedra, no fazendo nenhum esforo para escal-la, pelo
menos ainda no. Se eles decidissem escalar a rocha, ela no iria conseguir
se defender de todos.
        -- Vocs so servos de Gaia, -- ela adivinhou apenas para mant-
los falando. Talvez Percy e Frank no estivessem to longe. Talvez eles
pudessem v-la, em p to alto sobre o campo. Ela queria que sua espada
brilhasse como a de Percy.
           O cupido de tanga amarela rosnou:
        -- Nos somos os karpoi, espritos do gro. Filhos da Me Terra,
sim! Ns temos sido seus assistentes desde sempre. Antes que os humanos
nojentos tivessem nos cultivado ns ramos selvagens. E seremos
novamente! O trigo ir destruir tudo!
           -- No, o sorgo ir mandar!
           -- Cevada dever dominar!

45
     Sorgo: planta parecida com o milho, usada para preparar melado ou forragem.

                                                                                   178
        Os outros se juntaram aos gritos, cada karpoi falando por seu prprio
gro.
       -- Certo, -- Hazel engoliu sua repulsa. -- Ento voc  o trigo 
voc que est de, hum... calo amarelo.
      -- Hmmmm, -- falou Trigo. -- Desa do seu xisto, semideusa. Ns
devemos te carregar at o exrcito de nossa amada. Eles iro nos
recompensar! Eles iro mat-la lentamente.
        -- Tentador, -- disse Hazel. -- Mas no, obrigada.
        -- Eu irei lhe dar trigo! -- Falou o karpoi, como se essa fosse uma
oferta muito valiosa em troca de sua vida. -- Muito trigo!
       Hazel tentou pensar. O quo longe ela foi carregada? Quanto tempo
seus amigos iriam demorar a encontr-la. Os karpoi estavam ficando mais
ousados a cada minuto, aproximando-se da rocha em duplas ou trios,
arranhando o xisto para ver se isto os machucava.
         -- Antes que eu desa... -- Ela ergueu sua voz, esperando que ela
atravessasse o campo. -- Poderia me explicar uma coisa? Se vocs so os
espritos dos gros, no deveriam estar do lado dos deuses? A deusa da
agricultura no  Ceres...
        -- Nome ruim! -- Gemeu Cevada.
        -- Nos cultivou! -- Sorgo cuspiu. -- Nos fez crescer em linhas
nojentas. Deixou que os humanos nos colhessem. Bah! Quando Gaia for a
dama do mundo mais uma vez, ns iremos crescer selvagens, sim!
       -- Bom, naturalmente, -- disse Hazel. -- Ento esse exrcito dela, 
para onde vocs iro me levar em troca de trigo...
        -- Ou cevada, -- o karpoi da cevada ofereceu.
      -- Isso, -- Hazel concordou. -- Esse exrcito est aonde, neste
momento?
       -- Justamente sobre o cume! -- Sorgo bateu suas mos excitado. --
A Me Terra - Oh, sim! Ela nos disse: `Procure pela filha de Pluto que
voltou  vida. Encontre-a e traga-a viva! Eu tenho muitas torturas
planejadas para ela.' O gigante Polybotes ir nos recompensar por sua vida!
Ento, iremos marchar para o sul para destruir os romanos. Ns no
podemos ser mortos, voc sabe, mas voc pode, sim.
         -- Que incrvel. -- Hazel tentou soar entusiasmada. Isso no foi to
fcil, sabendo que Gaia tinha torturas planejadas para ela. -- Ento voc...
voc no pode ser morto porque Alcioneu capturou a morte,  isso?

                                                                        179
        -- Exatamente! -- Falou Cevada.
       -- E ele est mantendo-o preso no Alasca, -- Hazel falou. -- Bem...
vamos ver, qual o nome deste lugar?
        Sorgo estava quase respondendo, mas Trigo voou at ele e o
derrubou. Os karpoi comearam a lutar, se dissolvendo em nuvens de
cereais. Hazel considerou comear a correr. Ento Trigo se formou
novamente segurando Sorgo com uma chave de pescoo.
        --Parem! Ele gritou para os outros. Cereais lutando no  permitido!
        Os karpoi se solidificaram em gordos cupidos piranha mais uma vez.
        Trigo empurrou Sorgo para o lado.
        -- Oh, semideusa inteligente, -- ele falou. -- Tentando nos enganar
para lhe revelar segredos. Voc nunca encontrar o covil de Alcioneu.
        -- Eu j sei onde ele est, -- ela falou com uma falsa confiana. --
Ele est na ilha da baa da Ressurreio.
        -- H! -- Trigo zombou. -- Esse lugar afundou sob as ondas h
muito tempo. Voc deve saber disso. Gaia odeia voc por isso. Quando voc
frustrou seus planos ela foi forada a dormir novamente. Dcadas e dcadas!
Alcioneu no foi capaz de se reerguer at os tempos sombrios.
        -- Os anos oitenta, -- Cevada concordou. -- Horrvel! Horrvel!
       -- Sim, -- falou Trigo. -- E nossa mestra continua dormindo.
Alcioneu foi forado a esperar pelo momento certo, no norte, planejando.
Somente agora que Gaia comeou a se agitar. Mas ela ainda lembra de voc,
assim como seu filho!
       Sorgo gargalhou com alegria. -- Voc nunca ir encontrar a priso
de Tnatos. Todo o Alasca  a casa do gigante. Ele poderia estar mantendo a
Morte em qualquer lugar. Voc levaria anos para encontr-la, e o seu pobre
acampamento s tm dias.  melhor voc se render. Ns lhe daremos gros.
Muitos gros.
        Hazel sentiu a espada ficar pesada. Ela temia retornar ao Alasca, mas
pelo menos ela tinha uma ideia de onde poderia comear a procurar por
Tnatos. Ela assumiu que a ilha onde ela havia morrido no tinha sido
destruda completamente, ou possivelmente ela voltou  superfcie
novamente quando Alcioneu acordou, ela esperava que sua base estivesse l.
Mas se a ilha tivesse realmente ido embora, ela no tinha ideia de onde
comear a procurar pelo gigante. O Alasca era enorme. Eles poderiam
procurar por dcadas e nunca encontr-lo.

                                                                        180
           -- Sim! -- Trigo falou, sentindo sua angstia. -- Desista.
           Hazel agarrou sua Sphata.
        -- Nunca! -- Ela ergueu sua voz novamente, esperanosa de que de
alguma maneira a voz chegaria a seus amigos. -- Se eu tiver que destruir
vocs todos, eu irei. Eu sou a filha de Pluto!
         Os karpoi avanaram. Agarraram-se na rocha, e rosnaram como se
ela estivesse escaldante, mesmo assim comearam a subir.
       -- Agora voc ir morrer, -- prometeu Trigo, rangendo os dentes.
-- Voc ir sentir a ira dos Gros!
        De repente, houve um som sibilante. Trigo repentinamente congelou.
Olhando para baixo, para a flecha dourada que havia perfurado seu peito.
Ento ele dissolveu em pedaos de Chex Mix46.




46
     Chex Mix: Bolachas sortidas feitas de cereais, marca americana.

                                                                        181
                                         XX



POR UMA BATIDA DO CORAO, Hazel ficou to atordoada quanto
os karpoi. Ento Frank e Percy irromperam em campo aberto e comearam a
massacrar cada fonte de fibra que puderam encontrar. Frank atirou uma
flecha que atravessou Cevada que se despedaou em sementes. Percy cortou
Sorgo e investiu em direo a Milhete47 e Aveia. Hazel pulou para baixo e se
juntou  luta.
        Em minutos, os karpoi foram reduzidos a montanhas de sementes e
cereais para o caf da manh. Trigo comeou a se reformar, mas Percy
puxou um isqueiro da sua mochila e acendeu uma chama.
        -- Tente, -- ele avisou, -- e eu incendeio todo este campo. Fique
morto. Fique longe de ns, ou a grama queimar!
       Frank estremeceu como se a chama o aterrorizasse. Hazel no
entendeu porque, mas ela gritou para as pilhas de sementes mesmo assim:
           -- Ele vai fazer isso! Ele  maluco!
        Os restos dos kapoi se espalharam ao vento. Frank escalou a pedra e
os observou partirem.
           Percy extinguiu a chama e sorriu para Hazel.
      -- Obrigado por gritar, no teramos te encontrado de outra forma.
Como os deteve por tanto tempo?
           Ela apontou para a rocha. -- Uma grande pilha de xisto.
           -- Como?
        -- Pessoal, -- Frank chamou de cima da rocha. -- Vocs precisam
ver isso.
       Percy e Hazel escalaram e se juntaram a ele. No momento em que
Hazel viu o que ele estava olhando, ela inalou rispidamente. -- Percy, sem
luz! Guarde a sua espada!

47
     Milhete: outra espcie de cereal.

                                                                       182
        -- Xisto48! -- Ele tocou a ponta da espada, e Contracorrente voltou
a ser uma caneta.
        Embaixo deles, um exrcito estava em movimento.
        O campo caa em uma ribanceira rasa, onde uma estrada gasta ia de
norte a sul. Do lado oposto da estrada, colinas verdes se estendiam ao
horizonte, vazias de civilizao, com exceo de uma loja de convenincia
escurecida no topo mais prximo.
         Toda a ravina estava cheia de monstros  fileira atrs de fileira
marchando para o sul, tantos e to perto. Hazel estava surpreendida que eles
no a tivessem ouvido gritar.
        Ela, Percy e Frank se encolheram atrs da rocha. Eles assistiram
desacreditados enquanto dzias de humanides grandes e cabeludos
passavam, vestidos em pedaos maltrapilhos de armadura e peles de animais.
As criaturas tinham seis braos cada, trs saindo de cada lado, de forma que
pareciam homens das cavernas que evoluram de insetos.
        -- Gegenes, -- Sussurrou Hazel. -- Os Nascidos da Terra.
        -- Voc lutou com eles antes? -- Perguntou Percy.
        Ela negou com a cabea. -- S ouvi sobre eles nas aulas de
monstros no acampamento. -- Ela nunca gostou da aula de monstros, lendo
Plnio, o Velho e todos os outros autores mofados descrevendo monstros
lendrios dos arredores do Imprio Romano. Hazel acreditava em monstros,
mas algumas descries eram to selvagens que ela pensou que seriam
somente rumores ridculos.
       S que agora, todo um exrcito daqueles rumores estavam
marchando ao seu lado.
      -- Os Nascidos da Terra enfrentaram os Argonautas, -- ela
murmurou. -- E aquelas coisas atrs deles...
        -- Centauros, -- disse Percy. -- Mas isso no est certo... Centauros
so caras bons.
        Frank fez um barulho sufocado. -- Isso no  o que nos foi ensinado
no acampamento. Centauros so loucos, sempre ficam bbados e matam
heris.



48
  Lembrem-se que a palavra em ingls  parecida com merda, ento Percy talvez
quisesse disser: - Merda!

                                                                            183
         Hazel via enquanto os homens-cavalo passavam galopando. Eles
eram homens da cintura pra cima, cavalos da cintura pra baixo. Eles estavam
vestidos com uma armadura brbara de pele e bronze, armados com lanas e
estilingues. A princpio, Hazel pensou que eles estavam usando capacetes
Vikings. Ento percebeu que eles tinham verdadeiros chifres saindo dos seus
cabelos desgrenhados.
       -- Era esperado que eles tivessem chifres de touro? -- ela
perguntou.
      -- Talvez eles sejam de uma espcie especial, -- disse Frank. --
No vamos perguntar a eles, certo?
      Percy contemplou mais ao longe na estrada e sua face ficou frouxa.
-- Meus deuses... Ciclopes.
        Certamente, andando pesadamente atrs dos centauros havia um
batalho de ogros de um s olho, ambos machos e fmeas com cerca de trs
metros, vestindo armaduras feitas com metais de ferro-velho. Seis dos
monstros estavam atrelados como bois, puxando uma torre de assalto de dois
andares com uma balista escorpio gigante.
         Percy pressionou os lados de sua cabea. -- Ciclopes. Centauros.
Isto est errado. Tudo errado.
       O exrcito de monstros era o suficiente para fazer qualquer um se
desesperar, mas Hazel percebeu que algo a mais estava acontecendo com
Percy. Ele parecia plido e doente sob a luz da lua, como se as suas
memrias estivessem tentando voltar, embaralhando a sua mente no
processo.
        Ela olhou para Frank. -- Temos que lev-lo de volta ao barco. O
mar vai fazer com que se sinta melhor.
      -- Sem chance, -- Disse Frank. -- Tm muitos deles. O
acampamento... Temos que avisar o acampamento.
       -- Eles sabem, -- grunhiu Percy. -- Reyna sabe.
        Um n se formou na garganta de Hazel. No havia forma de a legio
enfrentar tantos. Se eles s estavam  algumas centenas de quilmetros ao
norte do Acampamento Jpiter, ento a misso j estava condenada. Eles
nunca chegariam ao Alasca a tempo.
       -- Venha. -- Ela pediu. -- Vamos...
       Ento ela viu o gigante.



                                                                      184
        Quando ele apareceu sobre o cume, Hazel no podia acreditar nos
seus olhos. Ele era mais alto que a torre de assalto  nove metros, no mnimo
 com pernas escamosas de rptil, como um Drago de Komodo da cintura
pra baixo, e uma armadura verde-azulada da cintura pra cima. Seu peitoral
tinha a forma de fileiras de monstros famintos, suas bocas abertas pareciam
demandar comida. Seu rosto era humano, mas seu cabelo era verde e
selvagem, como um esfrego de algas. Enquanto girava a sua cabea de um
lado ao outro, cobras caiam da sua cabea. Caspa de vboras  nojento.
        Ele estava armado com um tridente imenso e uma rede pesada.
        Somente a viso daquelas armas fez o estmago de Hazel encolher.
Ela enfrentou aquele tipo de lutador muitas vezes no treinamento de
gladiadores. Era o mais complicado, esguio e o pior combate que ela
conhecia. Este gigante era um retiarius49 extra grande.
        -- Quem  ele? -- A voz de Frank tremeu. -- Esse no ...
        -- No  Alcioneu, -- disse Hazel fracamente. -- Um dos seus
irmos, eu acho. Aquele que Trminus mencionou. Os espritos dos gros
tambm o mencionaram. Esse  Polybotes.
        Ela no estava certa de como sabia, mas ela podia sentir a aura de
poder do gigante mesmo dali. Ela se lembrava desse sentimento por causa do
Corao da Terra enquanto ela erguia Alcioneu  como se estivesse parada
perto de um im gigante, e todo o ferro do seu corpo estivesse sendo atrado
para ele. Esse gigante era outro filho de Gaia  uma criatura da terra to m e
poderosa, que tinha o seu prprio campo gravitacional.
         Hazel sabia que eles tinham que ir embora. O seu esconderijo no
topo da rocha estaria visvel se uma criatura to alta decidisse olhar na sua
direo. Mas ela sentiu que algo importante estava para acontecer. Ela e os
seus amigos rastejaram um pouco mais para baixo no xisto e continuaram
assistindo.
        Assim que o gigante se aproximou, uma mulher ciclope quebrou a
formao e correu para o fundo para falar com ele. Ela era enorme, gorda e
horrivelmente feia, vestindo um vestido de malha de corrente como um
vestido havaiano  mas perto de um gigante ela parecia uma criana.
      Ela apontou para a loja de convenincia fechada no topo da colina
mais prxima e murmurou algo sobre comida. O gigante respondeu



49
   Retiarius: Recirio em latim,  um gladiador romano que tinha como armas o
tridente e a rede, com a qual procurava envolver o adversrio.

                                                                                185
bruscamente, como se estivesse aborrecido. A ciclope fmea latiu uma
ordem para os da sua raa e trs deles a acompanharam colina acima.
        Quando estavam a meio caminho da loja, uma luz cegante
transformou a noite em dia. Hazel ficou cega. Abaixo dela o exrcito
inimigo se dissolveu em caos, monstros gritando de dor e raiva. Hazel
apertou os olhos. Ela sentiu como se acabasse de sair de um teatro escuro
para uma tarde de sol.
       -- Muito bonito!-- gritaram os ciclopes. -- Queimem nossos olhos!
        A loja na colina estava envolta em um arco-ris, mais perto e
brilhante que qualquer outro que Hazel j tinha visto. A luz estava ancorada
na loja, apontando para o cu, banhando o campo em um estranho brilho
caleidoscpico.
        A mulher Ciclope elevou a sua maa e avanou para a loja. Assim
que atingiu o arco-ris todo o seu corpo comeou a fumegar. Ela gemeu em
agonia, e deixou sua maa cair, recuando com bolhas multicolorias nos seus
braos e rosto.
        -- Deusas horrveis! -- Ela berrou para a loja. -- Nos dem
aperitivos!
       Os outros monstros enlouqueceram, avanando contra a loja de
convenincia, depois correndo quando o arco-ris os queimava. Alguns
jogaram pedras, lanas, espadas e ainda peas das suas armaduras, tudo
queimou em chamas de cores bonitas.
       Finalmente o lder gigante percebeu que suas tropas estavam
jogando fora equipamentos perfeitamente bons.
       -- Parem! -- ele rugiu.
        Com alguma dificuldade, ele conseguiu gritar, puxar e surrar as suas
tropas para submisso. Quando eles se calaram, ele se aproximou da loja
com escudo-de-arco-ris e caminhou em volta da luz. -- Deusa! -- ele
gritou. -- Saia e renda-se!
       Nenhuma resposta da loja. O arco-ris continuou com a luz trmula.
       O gigante elevou o seu tridente e rede. -- Eu sou Polybotes!
Ajoelhe-se a mim e assim poderei destruir-te rapidamente
       Aparentemente ningum na loja estava impressionado. Um pequeno
objeto escuro saiu navegando pela janela e pousou aos ps do gigante.
Polybotes gritou:
       -- Granada!

                                                                       186
           Ele cobriu seu rosto. As suas tropas atingiram o cho.
       Quando a coisa no explodiu, Polybotes se agachou e a agarrou
cuidadosamente.
      Ele rugiu em raiva. -- Um Ding Dong50? Voc ousa me insultar com
um Ding Dong? -- Ele atirou o bolo de volta para a loja e este evaporou na
luz.
           Os monstros ficaram de p. Vrios murmuraram:
           -- Ding Dongs? Onde Ding Dongs?
       -- Vamos atacar, -- disse a mulher Ciclope. -- Estou com fome. Os
meus garotos querem aperitivos!
        --No! -- disse Polybotes. -- Ns j estamos atrasados. Alcioneu
nos quer no acampamento em quatro dias. Vocs Ciclopes se movem
indesculpavelmente devagar. Ns no temos tempo para deusas menores.
           Ele mirou o seu ltimo comentrio  loja, mas no teve resposta.
        A mulher Ciclope grunhiu. -- O acampamento, sim. Vingana! Os
laranjas e roxos destruram a minha casa. Agora Ma Gasket vai destruir a
deles! Vocs me escutaram, Leo? Jason? Piper? Eu venho para aniquilar
vocs!
        Os outros Ciclopes berraram em aprovao. Os outros monstros se
juntaram.
           Todo o corpo de Hazel formigou. Ela olhou para os seus amigos.
         -- Jason, -- ela sussurrou. -- Ela lutou com Jason. Ele pode ainda
estar vivo.
           Frank assentiu. -- Os outros nomes significam algo para voc?
        Hazel negou. Ela no conheceu nenhum Leo ou Piper no
acampamento. Percy ainda parecia doente e atordoado. Se os nomes
significavam alguma coisa para ele, ele no demonstrou.
        Hazel ponderou o que a Ciclope havia dito: Laranjas e roxos. Roxo
 Obviamente a cor do Acampamento Jpiter. Mas laranja... Percy havia
aparecido com uma camisa laranja destruda. Isso no poderia ser uma
coincidncia.
       Abaixo deles, o exrcito voltou a marchar para sul, mas o gigante
Polybotes se afastou para um lado, franzindo a testa e farejando o ar.

50
     Ding Dong: Marca de um bolinho de chocolate.

                                                                              187
        -- Deus do mar, -- ele murmurou. Para o horror de Hazel ele se
virou em sua direo. -- Eu cheiro deus do mar.
        Percy estava tremendo. Hazel colocou a mo no seu ombro e tentou
pression-lo contra a rocha.
       A mulher Ciclope Ma Gasket rosnou. --  claro que voc cheira
deus do mar! O mar est bem al!
       -- Mais do que isso, -- Polybotes insistiu. -- Eu nasci para destruir
Netuno. Eu posso sentir... -- Ele franziu a testa, girando a sua cabea e
balanando-a algumas vezes mais.
       -- Marchamos ou farejamos o ar? -- repreendeu Ma Gasket. -- Eu
no ganho Ding Dongs, voc no ganha deus do mar!
        Polybotes grunhiu. -- Muito bem. Marchem! Marchem! -- Ele
olhou mais uma vez para a loja com o escudo de arco-ris, ento passou seus
dedos pelo seu cabelo. Ele tirou trs cobras que pareciam maiores que as
outras, com marcas brancas ao redor dos seus pescoos. -- Um presente,
deusa! O meu nome, Polybotes, significa `Muitos-para-Alimentar!' Aqui h
algumas bocas para ti. Veja se a sua loja ter muitos clientes com essas
sentinelas do lado de fora.
        Ele riu perversamente e atirou as cobras na grama ao lado da colina.
        Ento ele marchou ao sul, suas pesadas pernas de Komodo
balanando a terra. Gradativamente, a ltima fileira de monstros passou
pelas colinas e desapareceu na noite.
        Quando haviam ido embora, o arco-ris cegante se apagou como um
holofote.
        Hazel, Frank e Percy foram deixados sozinhos na noite olhando
atravs da estrada para uma loja de convenincia fechada.
        -- Isso foi diferente. -- Murmurou Frank.
        Percy se estremeceu violentamente. Hazel sabia que ele precisava de
ajuda, ou descanso, ou alguma coisa. Ver aquele exrcito deve ter
desencadeado algum tipo de memria, deixando-o em estado de choque.
Eles deveriam lev-lo de volta ao barco.
        Por outro lado, uma campina extensa se encontrava entre eles e a
praia. Hazel tinha a sensao de que os karpoi no ficariam longe para
sempre. Ela no gostava da idia deles trs fazendo o seu caminho de volta
ao barco no meio da noite. E ela no podia tirar a terrvel sensao de que se
no tivesse invocado o xisto, seria prisioneira de um gigante nessas horas.

                                                                         188
        -- Vamos para a loja, -- ela disse. -- Se h uma deusa l dentro,
talvez ela possa nos ajudar.
        -- Exceto que um monte de cobras est guardando a colina agora, --
disse Frank. -- E aquele arco-ris abrasador pode voltar...
       Ambos olharam para Percy que estava tremendo como se tivesse
hipotermia.
       -- Temos que tentar, -- disse Hazel.
      Frank assentiu sombriamente. -- Bem... qualquer deusa que atira um
Ding Dong a um gigante no pode ser to ruim. Vamos.




                                                                      189
                                 XXI




FRANK ODIAVA DING DONGS. Ele odiava cobras. E ele odiava a sua
vida. No necessariamente nessa ordem.
       Enquanto se arrastava colina acima, ele desejou que pudesse
desmaiar como Hazel  s entrar em transe e experimentar algum outro
tempo, como antes de ter sido arrastado para essa misso maluca, antes de
descobrir que o seu pai era um sargento de instruo divino com um
problema de ego.
       Seu arco e lana batiam em suas costas. Ele odiava a lana, tambm.
No momento em que ele a obteve, ele jurou silenciosamente nunca us-la. A
arma de um homem de verdade  Marte era um idiota.
        Talvez tivesse sido uma confuso. No havia algo como um teste de
DNA para filhos de deuses? Talvez a enfermaria divina tivesse trocado
acidentalmente Frank com um dos ilustres bebs valentes de Marte. No
tinha como a me de Frank ter se envolvido com aquele violento deus da
guerra.
        Ela era uma guerreira nata, argumentou a voz da sua Av. No  de
surpreender um deus se apaixonar por ela, dada a nossa famlia. Sangue
antigo. O sangue de prncipes e heris.
        Frank tirou o pensamento de sua cabea. Ele no era um prncipe ou
heri. Ele era um desajeitado intolerante  lactose, que nem podia proteger
sua amiga de ser sequestrada pelo trigo.
        As suas novas medalhas pareciam frias contra o seu peito: a lua
crescente do centurio, a Coroa Mural. Ele deveria estar orgulhoso delas,
mas ele sentia que s as havia recebido porque o seu pai havia intimidado
Reyna.
        Frank no podia entender como os seus amigos aguentavam estar ao
seu redor. Percy havia deixado claro que odiava Marte, e Frank no podia
culp-lo. Hazel ficava olhando Frank pelo canto dos olhos, como se estivesse
assustada de que ele fosse se transformar em uma aberrao musculosa.


                                                                       190
        Frank olhou para o seu corpo e suspirou. Correo: uma aberrao
ainda mais musculosa. Se o Alasca fosse realmente uma terra alm dos
deuses, Frank talvez ficasse l. Ele no tinha certeza se tinha algo pelo que
voltar.
        No se lastime, diria a sua av. Homens Zhang no ficam se
lastimando.
       Ela estava certa. Frank tinha um trabalho a fazer. Ele tinha que
completar esta misso impossvel, que no momento era chegar vivo  loja de
convenincia.
        Enquanto se aproximavam, Frank tinha medo de que a loja
explodisse em luz de arco-ris e os vaporizasse, mas o prdio continuou
escuro. As cobras que Polybotes havia deixado cair, pareciam haver
desaparecido.
         Eles estavam a uns vinte metros da varanda quando algo sibilou atrs
deles.
         -- Vo! -- Gritou Frank.
       Percy tropeou. Enquanto Hazel o ajudava, Frank se virou e colocou
uma flecha no arco.
       Ele atirou s cegas. Ele achou que havia pego uma flecha explosiva,
mas era s uma chama de sinalizao. Ela derrapou pela grama, explodindo
em uma chama laranja e assobiando: WOO!
         Ao menos iluminou o monstro. Sentada em um pedao de grama
amarela embranquecida havia uma cobra verde-lima, to curta e grossa
quanto o brao de Frank. Sua cabea estava envolta em uma juba de
barbatanas brancas e pontudas. A criatura encarou a flecha passando como
se estivesse pensando, Que diabos  aquilo?
       Ento ela fixou os seus grandes olhos amarelos em Frank. Avanou
como uma lagarta, curvando-se no meio. Onde quer que tocasse, a grama
esbranquiava e morria.
        Frank ouviu os seus amigos subindo os degraus da loja. Ele no se
atreveu a se virar e correr. Ele e a cobra se estudaram. A cobra sibilou,
chamas ondulando em sua boca.
        -- Bom rptil arrepiante, -- disse Frank, bem consciente da madeira
no bolso do seu casaco. -- Bom rptil venenoso e cuspidor de fogo.
         -- Frank! -- Gritou Hazel atrs dele. -- Vamos!



                                                                        191
       A cobra saltou nele. Ela navegou to rpido pelo ar que no houve
tempo de preparar uma flecha. Frank balanou seu arco e derrubou o
monstro colina abaixo. Ela girou fora de vista, lamentando, -- Screeeee!
        Frank se sentiu orgulhoso de si mesmo at que olhou para o arco,
que estava fumegando onde a cobra havia tocado. Ele olhou desacreditando
enquanto a madeira se desintegrava em poeira.
       Ele ouviu um sibilo furioso, acompanhado de mais dois mais
embaixo da colina.
        Frank deixou cair seu arco desintegrando e correu para a varanda.
Percy e Hazel o puxaram sobre os degraus. Quando Frank se virou, viu os
trs monstros circulando na grama, cuspindo fogo e deixando a colina
marrom sob o seu toque venenoso. Eles no aparentavam ser capazes ou ter
vontade de se aproximar da loja, mas aquilo no era muito conforto para
Frank. Ele havia perdido seu arco.
        -- Nunca sairemos daqui, -- disse miseravelmente.
       -- Ento  melhor entrarmos. -- Hazel apontou para o cartaz
pintado a mo sobre a porta: ARCO-RIS COMIDA ORGNICA &
ESTILO DE VIDA.
        Frank no fazia ideia do que aquilo significava, mas soava melhor
do que cobras venenosas de fogo. Ele seguiu os seus amigos para dentro.


        Assim que passaram pela porta, luzes se acenderam. Msica de
flauta comeou como se estivessem caminhando para um palco. Os amplos
corredores estavam alinhados com caixas de nozes e frutas secas, cestos de
mas e prateleiras de roupa com camisas tingidas e vestidos transparentes 
moda da Sininho. O teto estava coberto de carrilhes de vento. Ao longo das
paredes, caixas de vidro exibiam bolas de cristal, geodes51, filtros de sonhos
de macram, e um monte de outras coisas estranhas. Deveria haver incenso
queimando em algum lugar. Cheirava como se um buqu de flores estivesse
queimando.
        -- Loja de cartomante? -- Ponderou Frank.
        -- Espero que no, -- murmurou Hazel.




51
  Geode: Os geodes ou geodos (do grego, geoides, terroso) so formaes rochosas
que ocorrem em rochas vulcnicas e ocasionalmente em rochas sedimentares.

                                                                            192
         Percy inclinou-se sobre ela. Ele estava pior que nunca, como se
tivesse sido atingido com uma gripe repentina. Seu rosto brilhava de suor. --
Sentar... -- ele murmurou. -- Talvez gua.
       -- Sim, -- disse Frank. -- Vamos achar um lugar para voc
descansar.
       As tbuas de madeira rangeram sob seus ps, Frank navegou por
meio de duas fontes com esttuas de Netuno.
        Uma garota apareceu por detrs das caixas de granola.
        -- Posso ajudar?
        Frank cambaleou para trs, derrubando uma das fontes. Um Netuno
de pedra se esmagou no cho. A cabea do deus do mar rolou e vomitou
gua do seu pescoo. Borrifando uma prateleira de pastas masculinas
tingidas.
       -- Desculpe! -- Frank se agachou para limpar a baguna. Ele quase
empalou a garota com a sua lana.
        -- pa! -- ela disse. -- Espere! Est bem!
       Frank se endireitou lentamente, tentando no causar mais nenhum
dano. Hazel olhava mortificada. Percy ganhou uma cor verde doentia
enquanto olhava para a cabea decapitada do seu pai.
        A garota bateu palmas. A fonte se dissolveu em nvoa. A gua
evaporou. Ela se virou para Frank. -- Realmente, no h problema. Aquelas
esttuas de Netuno tm uma aparncia mal-humorada, elas me deprimem.
        Ela lembrava Frank das alpinistas em idade universitria que ele via
s vezes no Parque Lynn Canyon atrs da casa de sua av. Ela era baixa e
musculosa, com botas de lao, bermudas cargo, e uma camisa amarelo-
brilhante onde se lia A.C.O.E.V. Arco-ris Comida Orgnica & Estilo de
Vida. Ela parecia jovem, mas o seu cabelo enrolado era branco, enrolado dos
lados de sua cabea como a parte branca de um ovo frito gigante.
        Frank tentou lembrar de como falar. Os olhos da garota eram
realmente distrativos. As ris mudavam de cor de cinza para preto, e para
branco.
       -- Uh... Desculpe pela fonte, -- ele conseguiu dizer. -- Ns
estvamos apenas...
       -- Oh, eu sei! -- a garota disse. -- Vocs querem procurar. Est
tudo bem. Semideuses so bem-vindos. Tomem o seu tempo. Vocs no so


                                                                        193
como esses monstros terrveis. Eles s querem usar o banheiro e nunca
compram nada!
        Ela bufou. Seus olhos brilharam com um raio. Frank olhou para
Hazel para saber se ele havia imaginado aquilo, mas Hazel estava to
surpresa quanto ele.
          Do fundo da loja a voz de uma mulher chamou:
          -- Fleecy? No assuste os clientes, vamos. Traga-os aqui, pode ser?
          -- O seu nome  Fleecy? -- perguntou Hazel.
          Fleecy riu.
        -- Bem, na lingua dos nebulae na verdade ... -- Ela fez uma srie
de sons de estrondo e sopro que lembravam Frank de uma tempestade
abrindo caminho para uma frente fria. -- Mas podem me chamar de Fleecy.
          -- Nebulae... -- murmurou Percy em um torpor. -- Ninfas das
nuvens.
        Fleecy se encheu de luz. -- Oh, eu gosto deste aqui! Usualmente
ningum sabe das ninfas das nuvens. Mas, minha nossa, ele no parece to
bem. Venham para os fundos. Minha chefe quer conhec-los. Vamos
consertar o seu amigo.
        Fleecy os guiou pelos corredores de produtos, entre fileiras de
berinjelas, kiwis, frutos de ltus e roms. No fundo da loja, atrs do balco
com uma velha mquina registradora, estava parada uma mulher de meia
idade com a pele cor de oliva, longo cabelo preto, culos sem borda, e uma
camisa que lia: A Deusa Est Viva! Ela tinha um colar de mbar e anis de
turquesa. Ela cheirava a ptalas de rosas.
        Ela parecia bastante amigvel, mas algo nela fazia Frank se sentir
um pouco trmulo, como se quisesse chorar. Levou-lhe um segundo, ento
ele percebeu o que era  o jeito com que sorria s com um canto da boca, a
cor marrom dos seus olhos, a inclinao de sua cabea, como se estivesse
considerando uma pergunta. Ela lembrava Frank de sua me.
        -- Ol! -- Ela inclinou-se sobre o balco, no qual havia dzias de
pequenas esttuas  gatos chineses que acenavam, Budas meditando,
bonecos de So Francisco que balanavam a cabea, e a novidade, os
pssaros amalucados bebendo gua com cartola. -- Estou to feliz que
estejam aqui. Sou ris!
          Os olhos de Hazel se arregalaram. -- No a ris... a deusa do arco-
ris?

                                                                          194
        ris fez uma careta. -- Bem, esse  o meu trabalho oficial, sim. Mas
eu no me defino pela minha identidade corporativa. No meu tempo livre, eu
gerencio isso! -- Ela gesticulou ao seu redor orgulhosamente. -- A
cooperativa A.C.O.E.V.-- uma cooperativa gerenciada pelos funcionrios
promovendo saudveis estilos de vida alternativos e comida orgnica.
         Frank encarou-a. -- Mas voc jogou Ding Dongs aos monstros.
        ris olhou horrorizada. -- Oh, eles no so Ding Dongs. -- Ela
vasculhou sob o balco e levantou um pacote de bolos cobertos de chocolate
que pareciam exatamente iguais a Ding Dongs. -- Esses so livres de glten,
sem acar adicionado, enriquecidos com vitaminas, livres de soja, com leite
de cabra e  base de algas, simulaes de cupcakes.
         -- Tudo natural! -- Interrompeu Fleecy.
       -- Reconheo o meu erro. -- Frank de repente se sentiu to enjoado
quanto Percy.
        ris sorriu. -- Voc deveria experimentar um, Frank. Voc 
intolerante  lactose, no ?
         -- Como voc...
        -- Eu sei dessas coisas. Sendo a deusa mensageira... bem, eu
aprendo bastante, ouvindo todas as comunicaes dos deuses e assim por
diante. -- Ela jogou os bolinhos fora do balco. -- Alm do mais, aqueles
monstros deveriam ficar agradecidos por ter um lanche saudvel. Sempre
comendo comida vulgar e heris. Eles so to pouco iluminados. Eu no
podia t-los tropeando pela minha loja, destruindo coisas e perturbando o
nosso feng shui.
        Percy se inclinou sobre o balco. Ele parecia que ia vomitar sobre
todo o feng shui da deusa. -- Monstros marchando para o sul, -- ele disse
com dificuldade. -- Vo destruir o nosso acampamento. Voc no poderia
par-los?
       -- Oh, eu sou estritamente no-violenta, -- disse ris. -- Eu posso
agir em defesa pessoal, mas eu no vou ser arrastada para mais violncia
Olimpiana, muito obrigada. Eu estive lendo sobre Budismo. E Taosmo. No
me decidi entre eles.
         -- Mas... -- Hazel parecia mistificada. -- Voc no  uma deusa
grega?
       ris cruzou os seus braos. -- No me coloque em uma caixa,
semideusa! Eu no sou definida pelo meu passado.


                                                                       195
       -- Uhm, est bem, -- disse Hazel. -- Poderia ao menos ajudar o
nosso amigo aqui? Eu acho que ele est doente.
       Percy se aproximou do outro lado do balco. Por um segundo Frank
achou que ele queria os bolinhos. -- Mensagem de ris, -- ele disse. --
Voc pode mandar uma?
        Frank no estava certo de ter ouvido corretamente. -- Mensagem de
ris?
        -- ... -- Percy vacilou. -- No  algo que voc faz?
         ris estudou Percy mais de perto. -- Interessante. Voc  do
Acampamento Jpiter, e ainda assim... Oh, eu vejo. Juno est com os seus
truques.
        -- O qu? -- perguntou Hazel.
       ris olhou para a sua assistente Fleecy. Elas pareciam ter uma
conversa silenciosa. Ento a deusa puxou um frasco de trs do balco e
espalhou leo com cheiro de madressilva ao redor do rosto de Percy.
         -- A, isso deve balancear o seu chakra. E quanto s mensagens de
ris...  uma forma antiga de comunicao. Os Gregos a usavam. Os
Romanos nunca as tomaram para eles  sempre confiando nos seus sistemas
de estradas e guias gigantes e outras coisas. Mas sim... Fleecy, voc poderia
tentar?
        -- Claro, chefe!
        ris piscou para Frank. -- No conte aos outros deuses, mas Fleecy
gerencia a maioria das minhas mensagens hoje em dia. Ela  excelente nisso,
realmente, e eu no tenho tempo de atender todos os pedidos pessoalmente.
Isso baguna o meu wa.
        -- O seu wa?
        -- Humm. Fleecy, porque voc no leva Percy e Hazel para os
fundos? Voc pode dar algo para eles comerem enquanto arranja suas
mensagens. E para Percy... sim, doena da memria. Eu imagino que aquele
velho Polybotes... bem, encontr-lo em um estado de amnsia no pode ser
bom para uma criana de P... quero dizer, Netuno. Fleecy, d a ele um ch
verde com mel orgnico e grmen de trigo, e um pouco do meu p medicinal
nmero cinco. Isso deve consert-lo.
        Hazel franziu a testa. -- E para Frank?
       ris se virou para ele. Ela inclinou a sua cabea intrigada, da mesma
forma que sua me fazia  como se Frank fosse a maior pergunta na sala.

                                                                         196
         -- Oh, no se preocupe, -- disse ris. -- Frank e eu temos muito que
falar.




                                                                        197
                                 XXII




FRANK PREFERIA TER ido com seus amigos, mesmo que isso
significasse aguentar ch verde com grmen de trigo. Mas ris enlaou o seu
brao ao dele e o levou at uma mesa de caf em uma janela de sacada.
Frank deixou a sua lana no cho. Ele sentou do lado oposto  ris. Do lado
de fora na escurido, os monstros serpentes patrulhavam o lado da colina
sem descanso, cuspindo fogo e envenenando a grama.
       -- Frank, eu sei como se sente, -- disse ris. -- Imagino que a lenha
meio queimada no seu bolso fica mais pesada a cada dia.
          Frank no podia respirar. Sua mo foi instintivamente para o seu
casaco.
          -- Como voc...?
         -- Eu te disse, eu sei coisas. Eu fui mensageira de Juno por eras. Eu
sei por que ela te deu uma prorrogao.
        -- Uma prorrogao? -- Frank tirou o pedao de lenha e o
desembrulhou do seu pano. To invivel quanto era a lana de Marte, a pea
de lenha era pior. ris estava certa. Isso pesava.
        -- Juno te salvou por uma razo, -- disse a deusa. -- Ela quer que
voc sirva no seu plano. Se ela no tivesse aparecido naquele dia quando
voc era um beb e avisado sua me sobre a lenha, voc teria morrido. Voc
nasceu com muitos presentes. Esse tipo de poder tende a queimar uma vida
mortal.
       -- Muitos presentes? -- Frank sentiu as suas orelhas aquecerem
com a raiva. -- Eu no tenho nenhum presente.
       -- Isso no  verdade, Frank. -- ris passou a mo na sua frente
como se estivesse limpando um pra-brisa. Um arco-ris em miniatura
apareceu. -- Pense sobre isso.
        Uma imagem tremulou no arco-ris. Frank viu a si mesmo quando
ele tinha quatro anos, correndo pelo jardim da sua av. Sua mo se inclinou
na janela do sto, bem alto, acenando e chamando-o para chamar a sua

                                                                         198
ateno. No era para Frank estar no jardim por conta prpria. Ele no sabia
por que a sua me estava no sto, mas ela lhe disse para ficar na casa, para
no se afastar muito. Frank fez exatamente o oposto. Gritou com prazer e
correu para a orla da floresta, onde ficou cara a cara com um urso-pardo.
         At que ele viu essa imagem no arco-ris essa memria estava to
nebulosa que pensou haver sonhado aquilo. Agora ele podia apreciar quo
surreal a experincia havia sido. O urso considerou o garotinho, e era difcil
dizer qual dos dois estava mais assustado. Ento a me de Frank apareceu ao
seu lado. No tinha como ela ter descido do sto to rapidamente. Ela se
colocou entre o urso e Frank e lhe disse para correr at a casa. Dessa vez,
Frank obedeceu. Quando ele chegou  varanda traseira, ele viu a sua me
voltando da floresta. O urso havia desaparecido. Frank perguntou o que
havia acontecido. A sua me sorriu. Mame Urso s precisava de direes,
disse ela.
        A cena no arco-ris mudou. Frank viu a si mesmo com seis anos.
Encolhido no colo da sua me mesmo que j fosse muito grande para aquilo.
O longo cabelo preto da sua me estava puxado para trs. Seus braos ao
redor dele. Ela usava seus culos sem bordas que Frank sempre gostava de
roubar, e o seu suter cinza felpudo que cheirava a canela. Ela estava lhe
contando histrias sobre heris, querendo dizer que eles estavam
relacionados com Frank: Um era Xu Fu, que navegou em busca do elixir da
vida. A imagem no arco-ris no tinha som, mas Frank lembrava as palavras
de sua me: Ele foi o seu tatara-tatara-tatara... Ela cutucava o estmago de
Frank cada vez que dizia tatara-, dzias de vezes, at que ele estava rindo
incontrolavelmente.
        E tambm tinha Sung Guo, tambm chamado de Seneca Gracchus,
que lutou com doze drages Romanos e dezesseis drages Chineses nos
desertos ocidentais da China. Ele era o drago mais forte de todos, sua me
disse. Era assim que ele os vencia! Frank no entendia o que aquilo
significava, mas achava excitante.
        Ento ela cutucou o estmago dele com tantos tataras, que Frank
acabou rolando para o cho para fugir das ccegas. E o seu antepassado mais
antigo que conhecemos: Ele era o Prncipe de Pilos! Hrcules lutou com ele
uma vez. Foi uma luta difcil!
        Ns ganhamos? Perguntou Frank
       Sua me riu, mas havia tristeza em sua voz. No, o nosso
antepassado perdeu. Mas no foi fcil para Hrcules. Imagine tentar lutar
com um enxame de abelhas. Foi assim. At Hrcules teve problemas!


                                                                         199
        O comentrio no fez sentido para Frank naquele tempo ou agora. O
seu antepassado era um apicultor?
       Frank no havia pensado nessas histrias por anos, mas agora elas
vinham a ele to claramente quanto o rosto da sua me. Doa v-la outra vez.
Frank queria voltar para aquele tempo. Ele queria ser um garotinho e se
encolher no seu colo.
       Na imagem de arco-ris, o pequeno Frank perguntou de onde era a
sua famlia. Tantos heris! Eles eram de Pilos, ou Roma, ou China, ou
Canad?
       Sua me inclinou a cabea, considerando como responder.
        Li-Jien, ela disse afinal. Nossa famlia  de vrios lugares, mas
nosso lar  em Li-Jien. Sempre se lembre, Frank: voc tem um presente
especial. Voc pode ser qualquer coisa.
       O arco-ris dissolveu, deixando apenas ele e ris.
       -- Eu no entendo. -- A sua voz estava spera.
       -- Sua me explicou, -- disse ris. -- Voc pode ser qualquer coisa.
         Soava como uma dessas coisas que os teus pais dizem para levantar
a sua auto-estima - uma frase desgastada que poderia estar impressa nas
camisas de ris, bem ao lado de A Deusa Est Viva! e Meu Outro Carro 
Um Tapete Mgico! Mas da forma que ris havia dito, soava como um
desafio.
       Frank apertou sua mo contra o bolso das suas calas, onde ele tinha
a medalha de sacrifcio de sua me. O medalho prateado estava frio como
gelo.
        -- Eu no posso ser qualquer coisa, -- Insistiu Frank. -- Eu tenho
zero habilidades.
        -- O que voc tentou? -- Perguntou ris. -- Voc queria ser
arqueiro. Voc conseguiu isso bastante bem. Voc s arranhou a superfcie.
Seus amigos, Hazel e Percy  ambos se esticaram por ambos os mundos,
Grego e Romano, o passado e o presente. Mas voc est esticado por muito
mais que qualquer um dos dois. Sua famlia  antiga  o sangue de Pilos do
lado de sua me, e o seu pai  Marte. No  de estranhar que Juno quer que
voc seja um dos seus sete heris. Ela quer que voc enfrente os gigantes e
Gaia. Mas pense nisso: O que voc quer?
        -- Eu no tenho nenhuma escolha, -- disse Frank. -- Eu sou filho
do estpido deus da guerra. Eu tenho que ir nessa misso e...

                                                                       200
        -- Tem que ir, -- disse ris. -- No, quer ir. Eu costumava pensar
assim. Ento eu me cansei de ser a serva dos outros. Buscar taas de vinho
para Jpiter. Entregar cartas para Juno. Enviar mensagens de um lado ao
outro do arco-ris para qualquer um com um dracma de ouro...
       -- Um o qu de ouro?
        -- No  importante. Mas eu aprendi a deixar ir. Eu comecei o
A.C.O.E.V., e agora estou livre daquela bagagem. Voc tambm pode deixar
ir. Talvez voc no possa escapar do destino. Algum dia esse pedao de
madeira ir queimar. Eu prevejo que voc o estar segurando quando
acontecer, e a sua vida ir terminar...
       -- Obrigado. -- Murmurou Frank.
        -- ...mas isso s faz da sua vida mais preciosa! Voc no tem que
ser o que os seus pais e a sua av querem que seja. Voc no tem que seguir
as ordens do deus da guerra, ou as de Juno. Faa as suas prprias coisas,
Frank! Encontre um novo caminho!
        Frank pensou sobre aquilo, a ideia era emocionante: rejeitar os
deuses, seu destino, seu pai. Ele no queria ser filho de um deus. Sua me
havia morrido na guerra. Frank havia perdido tudo graas  guerra. Marte
certamente no sabia nada sobre ele. Frank no queria ser um heri.
       -- Por que est me dizendo isso? -- ele perguntou. -- Voc quer
que eu abandone a misso, deixe o Acampamento Jpiter ser destrudo?
Meus amigos esto contando comigo.
       ris estendeu as suas mos.
        -- Eu no posso te dizer o que fazer Frank. Mas faa o que voc
quiser, no o que te dizem para fazer. Onde foi que a conformidade me
pegou? Eu passei cinco milnios servindo todos os outros, e eu nunca
descobri minha verdadeira identidade. Qual  o meu animal sagrado?
Ningum se importou em me dar um. Onde esto os meus templos? Nunca
fizeram nenhum. Certo, est bem! Eu encontrei paz aqui na cooperativa.
Voc poderia ficar conosco se quisesse. Se tornar um ACOEVador.
       -- Um qu, agora?
       -- O ponto  que voc tem opes. Se voc continuar essa misso...
o que acontece quando liberar Tnatos? Ser bom para sua famlia? Seus
amigos?
        Frank se lembrou do que a sua av havia lhe dito: ela tinha um
encontro com a Morte. A sua Av o enfurecia s vezes; mas ainda assim, ela
era sua nica familiar viva, a nica pessoa viva que o amava. Se Tnatos

                                                                       201
continuasse acorrentado, Frank talvez no a perdesse. E Hazel  de alguma
forma ela havia voltado do Mundo Inferior. Se a Morte a levasse outra vez,
Frank no seria capaz de suportar. Sem mencionar o prprio problema de
Frank: de acordo com ris, ele deveria ter morrido quando era um beb. Tudo
que havia entre ele e a Morte era uma vareta meio queimada. Tnatos o
levaria tambm?
         Frank tentou imaginar ficar aqui com ris, colocar uma camisa da
A.C.O.E.V., vender cristais e filtros de sonhos para semideuses viajantes e
arremessar simulaes de bolinhos livres de glten aos monstros que
passavam. Enquanto isso, um exrcito imortal arrasaria o Acampamento
Jpiter.
         Voc pode ser qualquer coisa, sua me havia dito.
         No, ele pensou. Eu no posso ser to egosta.
         -- Eu tenho que ir, -- ele disse. --  o meu trabalho.
        ris suspirou. -- Eu j esperava isso, mas tinha que tentar. A tarefa 
sua frente, bem... Eu no desejaria isso a ningum, especialmente a um bom
garoto como voc. Se voc tem que ir, ao menos posso lhe oferecer uns
conselhos. Vocs precisaro de ajuda para encontrar Tnatos.
         -- Voc sabe onde os gigantes o esto escondendo? -- Perguntou
Frank.
        ris olhou pensativa para os carrilhes de vento balanando no teto.
-- No... o Alasca est alm da esfera de controle dos deuses. O lugar est
protegido da minha viso. Mas tem algum que sabe onde . Procure o
vidente Fineu. Ele  cego, mas ele pode ver o presente, passado e futuro. Ele
sabe muitas coisas, ele pode te dizer onde Tnatos esta sendo cativo.
         -- Fineu... -- Disse Frank. -- No havia uma histria sobre ele?
         ris assentiu relutantemente. -- Nos dias antigos, ele cometeu crimes
terrveis. Ele usou o poder da viso para o mal. Jpiter enviou as harpias
para atorment-lo. Os Argonautas - incluindo o seu ancestral pelo visto...
         -- O prncipe de Pilos?
        ris hesitou. -- Sim, Frank. Seu presente, sua histria... Voc deve
descobrir por conta prpria. Basta dizer, que os Argonautas expulsaram as
harpias em troca da ajuda de Fineu. Isso foi eras atrs, mas eu entendo que
Fineu retornou ao mundo mortal. Vocs o encontraro em Portland, Oregon,
que est no seu caminho para o norte. Mas voc deve me prometer uma
coisa. Se ele ainda for atormentado pelas harpias, no as matem, no importa


                                                                            202
o que Fineu oferea. Ganhem a sua ajuda de outra forma. As harpias no so
ms, elas so minhas irms.
         -- Suas irms?
        -- Eu sei. Eu no pareo to velha para ser irm das harpias, mas 
verdade. E Frank... H outro problema. Se voc est determinado a sair, voc
ter que limpar esses basiliscos da colina.
         -- Voc quer dizer as cobras?
        -- Sim, -- disse ris. -- Basilisco significa `pequena coroa', o que 
um nome bonito para algo no to bonito assim. Eu preferiria no mat-los.
Eles so criaturas vivas, apesar de tudo. Mas vocs no podero sair at que
eles tenham ido. Se os teus amigos tentarem batalhar com eles... Eu prevejo
coisas ruins acontecendo. S voc tem a habilidade para mat-los.
         -- Mas como?
         Ela olhou para o cho. Frank percebeu que ela estava olhando para a
lana.
        -- Desejaria que houvesse outra forma. -- Ela disse. -- Se voc
tivesse algumas doninhas, por exemplo. Doninhas so mortais para os
basiliscos.
         -- Acabaram as doninhas, -- admitiu Frank.
        -- Ento vai ter que usar o presente do seu pai. Voc tem certeza de
que no gostaria de viver aqui ao invs? Ns fazemos um excelente leite de
arroz sem lactose.
         Frank se levantou.
         -- Como eu uso a lana?
        -- Voc vai ter que tomar conta disso sozinho. Eu no posso
advogar violncia. Enquanto voc batalha, eu vou dar uma olhada nos teus
amigos. Espero que Fleecy tenha encontrado as ervas medicinais corretas. A
ltima vez houve uma confuso... bem, no acho que aqueles heris
quisessem ser margaridas.
        A deusa ficou de p. Seus culos brilharam, e Frank viu o seu
prprio reflexo nas lentes. Ele estava srio e sombrio, nada parecido com o
garotinho nas imagens de arco-ris.
       -- Um ltimo conselho, Frank, -- ela disse. -- Voc est destinado
a morrer segurando esse pedao de lenha, vendo-a queimar. Mas talvez se



                                                                         203
voc no a tivesse com voc. Talvez se voc confiasse em algum o
suficiente para guard-la...
        Os dedos de Frank apertaram ao redor da madeira. -- Voc est se
oferecendo?
        ris riu gentilmente. -- Oh, querido, no. Eu a perderia nessa
coleo. Se misturaria com os meus cristais, ou eu a venderia como peso
para papel de madeira por acidente. No, eu queria dizer, um amigo
semideus, algum prximo ao seu corao.
         Hazel, Frank pensou imediatamente. No havia ningum que ele
confiasse mais. Mas como ele poderia confessar o seu segredo? Se ele
admitisse quo fraco era, que toda a sua vida dependia de uma vareta meio
queimada... Hazel nunca o veria como um heri. Ele nunca seria o seu
cavaleiro em armadura. E como ele esperava que ela carregasse aquele fardo
por ele?
       Ele embrulhou o graveto e o guardou de volta no casaco.
       -- Obrigado... Obrigado, ris.
       Ela apertou sua mo. -- No perca a esperana, Frank. Arco-ris
sempre esto com a esperana.
       Ela fez o seu caminho para o fundo da loja, deixando Frank sozinho.
       -- Esperana, -- grunhiu Frank. -- Eu preferiria ter um par de boas
doninhas.
        Ele pegou a lana do seu pai e marchou para fora para enfrentar os
basiliscos.




                                                                      204
                                XXIII




FRANK PERDEU SEU ARCO.
        Ele queria ficar na varanda e atirar nas cobras  distncia. Algumas
bem colocadas flechas explosivas, algumas crateras na encosta - problemas
resolvidos.
       Infelizmente, uma aljava cheia de flechas no ajudava Frank se ele
no poderia atirar elas. Alm disso, ele no tinha ideia de onde os basiliscos
estavam. Eles haviam parado de soprar fogo assim que ele chegou l fora.
        Ele desceu da varanda e nivelou sua lana de ouro. Ele no gostava
de lutar de perto. Ele era muito lento e volumoso. Havia feito tudo bem
durante os jogos de guerra, mas isso era real. No existiam guias gigantes
prontas para arrebat-lo para cima e lev-lo para os mdicos, se ele
cometesse um erro.
         Voc pode ser qualquer coisa. A voz de sua me ecoou em sua
mente.
       timo, ele pensou. Eu quero ser bom com uma lana. E imune ao
veneno  e fogo.
       Alguma coisa disse a Frank que seus pedidos no tinham sido
concedidos. Sentia a lana muito desajeitada em suas mos.
       Trechos de chama ainda ardiam na encosta. A fumaa irritante
queimava o nariz de Frank. A grama seca rangia sob os seus ps.
        Ele pensou sobre as histrias que sua me costumava contar 
Geraes de heris que lutaram. Hrcules que lutou com drages, e navegou
por mares infestados de monstros. Frank no compreendia como ele poderia
ter evoludo a partir de uma linha como aquela, ou como sua famlia havia
migrado da Grcia atravs do imprio romano at a china, mas algumas
inquietantes ideias estavam comeando a se formar. Pela primeira vez, ele
comeou a se perguntar sobre esse Prncipe de Pilos, e a desonra de seu
bisav Shen Lun no Acampamento Jpiter, e sobre o que os poderes da
famlia deveriam ser.


                                                                         205
        O dom nunca manteve a nossa famlia segura, tinha avisado sua av.
      Um pensamento reconfortante enquanto Frank era caado por cobras
demnio venenosas com hlito de fogo.
       A noite estava tranquila, exceto pelo crepitar do fogo nos arbustos.
Toda vez que uma brisa fazia a grama farfalhar, Frank pensava nos espritos
de gros que haviam capturado Hazel. Esperava que eles tenham ido para o
sul com o gigante Polybotes. Frank no precisava de mais nenhum problema
naquele momento.
        Ele rastejou para baixo, com os olhos ardendo da fumaa. Ento,
cerca de seis metros  frente, ele viu uma rajada de fogo.
       Ele considerou atirar sua lana. Idia estpida. Ento ele estaria sem
uma arma. Ao invs disso, ele avanou na direo do fogo.
        Ele gostaria de ter os frascos do sangue de grgona, mas eles
estavam atrs, no barco. Ele se perguntou se o sangue de grgona poderia
curar veneno de basilisco... Mas mesmo se tivesse os frascos e conseguisse
escolher o certo, ele duvidava que tivesse tempo para tom-lo antes de virar
p como seu arco.
        Ele emergiu em uma clareira de grama queimada e encontrou-se cara
a cara com um basilisco.
        A cobra se levantou em sua calda. Ela sibilou, e expandiu o colar de
espinhos brancos ao redor de seu pescoo. Pequena coroa Frank lembrou. 
isso que "basilisco" significa. Ele tinha pensado que basiliscos eram enormes
drages como monstros que podem petrificar com seus olhos. De alguma
forma o basilisco real era ainda mais terrvel. Pequeno como era, este extra-
pequeno pacote de fogo, veneno e maldade, seria muito mais difcil de matar
do que um lagarto grande, corpulento. Frank tinha visto o quo rpido ele
conseguia se mover.
        O monstro fixou seus plidos olhos amarelos em Frank.
        Por que ele no tinha atacado?
       A lana de ouro de Frank estava fria e pesada. A ponta de dente-de-
drago mergulhou em direo ao cho totalmente por conta prpria, como
uma haste de radiestesia52 procurando gua.
         -- Pare com isso. -- Frank esforou-se para levantar a lana. Ele j
teria problemas suficientes para espetar o monstro sem sua lana contra ele.

52
  Haste de radiestesia: Aquelas varetas que as pessoas seguram e que podem,
supostamente, encontrar gua debaixo do solo com elas.

                                                                              206
Ento ele ouviu o farfalhar da grama em cada lado dele. Outros dois
basiliscos deslizaram at a clareira.
      Frank tinha andado em linha reta para uma emboscada.




                                                               207
                                 XXIV




FRANK GOLPEOU COM SUA LANA PARA TRS E PARA
FRENTE.
        -- Para trs! -- Sua voz soou estridente. -- Eu tenho... hm...
incrveis poderes... E essas coisas.
         Os basiliscos sibilaram, os trs em harmonia. Talvez eles estivessem
rindo.
         A ponta da lana era quase pesada demais para levantar agora, como
se o tringulo branco de osso estivesse tentando tocar a terra. Ento, alguma
coisa veio na cabea de Frank: Marte disse que a ponta da lana era um
dente de drago. No tinha alguma histria sobre dentes de drago plantados
na terra? Alguma coisa que ele leu na aula de monstros do acampamento...?
        Os basiliscos deram voltas nele, tomando seu tempo. Talvez eles
estivessem hesitantes por causa da lana. Talvez eles s no pudessem
acreditar como Frank era estpido.
         Parecia loucura, mas Frank deixou a ponta da lana cair. Ela afundou
na terra. Crack.
         Quando ele levantou a lana, a ponta se foi  quebrada dentro da
terra.
         Maravilhoso. Agora ele tinha um palito de ouro.
        Alguma parte louca dele queria liberar sua parte incendiria. Se ele
ia morrer de qualquer jeito, talvez ele pudesse comear um incndio enorme
 incinerar os basiliscos, ento pelo menos os amigos dele poderiam escapar.
        Antes que ele reunisse coragem, a terra tremeu sob os seus ps.
Poeira para todo lado, e a mo de um esqueleto agarrando o ar. Os basiliscos
sibilaram e recuaram.
        Frank no podia culp-los. Ele assistiu horrorizado enquanto um
esqueleto humano se arrastava para fora da terra. E foi ganhando carne como
se algum estivesse colocando gelatina nos seus ossos e cobrindo com pele
cinza transparente e brilhante. Ento, roupas fantasmagricas o envolveram

                                                                        208
 uma camisa regata, calas camufladas e botas de exrcito. Tudo na criatura
era cinza: Roupas cinza em carne cinza em ossos cinza.
        Ele virou-se para Frank. Seu crnio sorrindo sob um rosto cinzento
inexpressivo. Frank chorando como um cachorrinho. Suas pernas tremiam
tanto que ele tinha que se sustentar com o cabo da lana. O guerreiro
esqueleto estava esperando, Frank percebeu  esperando ordens.
        -- Mate os basiliscos! -- ele gritou. -- No eu!
        O guerreiro esqueleto entrou em ao. Ele agarrou a cobra mais
prxima, e embora sua carne cinzenta comeasse a queimar em contato com
ela, ele estrangulou o basilisco com a mo e largou seu corpo mole. Os
outros basiliscos sibilaram com raiva. Um saltou em Frank, mas ele o
acertou de lado com a coronha da lana.
        A outra cobra soltou fogo direto no rosto do esqueleto. O guerreiro
marchou e pisou na cabea do basilisco. Frank virou para o ltimo basilisco,
que estava enrolado na borda da clareira os estudando. A lana de ouro
imperial de Frank estava fumegando, mas ao contrrio do seu arco, no
parecia estar se desintegrando com o toque do basilisco. O p direito e a mo
do guerreiro esqueleto estavam lentamente se dissolvendo por causa do
veneno. E a sua cabea estava pegando fogo, fora isso ele parecia muito
bem.
        O basilisco fez a coisa mais esperta. Ele fugiu. Em um momento de
emoo, o esqueleto puxou algo da sua camisa e arremessou pela clareira,
empalando o basilisco. Frank pensou que era uma faca. Ento ele percebeu
que era uma das costelas do esqueleto.
        Frank estava muito feliz por seu estmago estar vazio.
        -- Aquilo... aquilo foi nojento.
         O esqueleto pulou em cima do basilisco. Pegou a sua costela e usou
para cortar a cabea da criatura. O basilisco se dissolveu em cinzas. Ento o
esqueleto decapitou a carcaa dos outros dois monstros e chutou as cinzas
para dispers-las. Frank se lembrou das duas grgonas no Tibre  o jeito que
o rio espalhou os restos delas para impedi-las de se refazerem.
       -- Voc est se certificando que elas no voltem, -- Frank percebeu.
-- Ou retardando-as, pelo menos.
       O guerreiro esqueleto ficou prestando ateno em Frank. Seu p e
mo envenenados estavam quase destrudos. Sua cabea continuava
queimando.



                                                                        209
       -- O que... O que  voc? -- Frank perguntou. Ele queria adicionar:
Por favor, no me machuque.
       O esqueleto o saudou com a mo. Ento comeou a desmoronar,
afundando de volta no cho.
        -- Espere! -- Frank disse. -- Eu nem sei como te chamar! Homem-
dente? Ossos? Cinza? -- Com o seu rosto desaparecendo na terra, o
guerreiro pareceu rir no ltimo nome  ou talvez fossem s os seus dentes do
crnio aparecendo. Ento ele se foi, deixando Frank sozinho com sua lana
sem ponta.
           -- Cinzento53, -- ele murmurou. -- Ok... mas...
      Ele examinou a ponta da lana. Um novo dente de drago estava
comeando a crescer na ponta dela.
        Voc tem trs cargas, Marte havia dito, ento use sabiamente. Frank
escutou passos atrs deles. Percy e Hazel correram para a clareira. Percy
parecia melhor, exceto que ele estava carregando uma bolsa colorida da
A.C.O.E.V., estilo anos 60, definitivamente, no o seu estilo. Contracorrente
estava em sua mo. Hazel tinha sacado sua spatha.
           -- Voc est bem? -- Ele perguntou.
           Percy deu uma volta, procurando por inimigos.
       -- ris nos disse que voc estava aqui lutando com os basiliscos
sozinho, e a gente ficou tipo, O qu? Ns viemos o mais rpido que
conseguimos. O que aconteceu?
           -- Eu no tenho certeza, -- admitiu Frank.
        Hazel agachou perto da poeira onde Cinzento desapareceu. -- Eu
sinto morte. Ou meu irmo esteve aqui ou... os basiliscos esto mortos?
           Percy o encarou com admirao. -- Voc matou-os todos?
        Frank engoliu em seco. Ele j se sentia bastante perturbado sem
tentar explicar seu ajudante morto-vivo.
        Trs cargas. Frank poderia chamar Cinzento mais duas vezes. Mas
ele sentiu maldade no esqueleto. Ele no era um mascote, era um vicio, a
fora assassina dos mortos-vivos, mal controlados pelo poder de Marte.
Frank teve a sensao de que ele faria o que ele dissesse - mas se os seus
amigos estivessem na linha de fogo. E se Frank demorasse um pouco lhe


53
     Gray: Cinza em ingls, ou Cinzento como eu optei.

                                                                        210
dando ordens, ele poderia comear a matar tudo no seu caminho, incluindo
seu mestre.
        Marte tinha dito a ele que a lana lhe daria tempo at ele aprender a
usar os poderes da me. O que significava que Frank precisava aprender a
usar esses talentos  rpido.
        -- Muito obrigado, pai. -- Ele resmungou.
        -- O qu? -- Hazel perguntou. -- Frank, voc est bem?
       -- Eu explico mais tarde, -- ele disse. -- Agora, tem um homem
cego em Portland que ns temos que ver.




                                                                        211
                                XXV




PERCY J SE SENTIA COMO o semideus mais esfarrapado da histria
dos farrapos. A bolsa foi o insulto final.
        Eles deixaram o A.C.O.E.V. com pressa, ento, talvez assim ris no
tivesse destinado a bolsa como uma crtica. Ela rapidamente a encheu com
doces enriquecidos de vitaminas, casca dos frutos secos, charques
macrobiticos e tambm alguns cristais para dar sorte, em seguida ela a
empurrou para Percy:
       Aqui, voc vai precisar disso. Oh, isso parece legal. A bolsa 
desculpe, a maleta de acessrios masculinos  tinha um arco-ris tingido,
com um smbolo da paz costurado em contas de madeira, com o slogan:
`Abrace o mundo inteiro'. Percy desejou que estivesse escrito: `abrace a
cmoda'. Ele sentia como se a bolsa estivesse comentando sobre o seu
tamanho, incrivelmente intil. Conforme eles navegavam para o norte, ele
colocava a maleta masculina o mais longe possvel, mas o barco era
pequeno.
        Ele no podia acreditar em como ele falhara quando seus amigos
precisavam dele. Primeiro ele foi burro o bastante para deix-los sozinhos
quando ele voltara correndo para o barco, e Hazel fora sequestrada. Ento
ele vira o exrcito marchando para o sul e teve algum tipo de colapso
nervoso.
        Embaraoso? Sim. Mas ele no podia ajud-los. Quando ele viu
aqueles centauros malignos e os Ciclopes, aquilo parecia to errado, to
retrgrado, que ele achou que a sua cabea iria explodir. E o gigante
Polybotes... aquele gigante que dava a ele o oposto do que sentia quando
estava no mar. A energia de Percy se drenara, deixando-o fraco e febril,
como se por dentro o estivesse corroendo.
        O ch medicinal de ris havia ajudado o seu corpo a melhorar, mas a
sua mente ainda doa. Ele ouvira histrias sobre amputados que tinham dores
fantasmas, onde suas pernas e braos perdidos costumavam estar. Era assim
que sua mente se sentia, como se a suas memrias desaparecidas estivessem
doendo.

                                                                      212
        O pior de tudo,  que, quanto mais ao norte Percy ia, mais essas
memrias desvaneciam. Ele tinha comeado a se sentir melhor no
Acampamento Jpiter, se lembrando de rostos e lugares aleatrios. Mas
agora o rosto de Annabeth estava ficando escuro. Quando ele tentou enviar
uma mensagem de ris para Annabeth, Fleecy apenas balanou a cabea
tristemente.
         como se voc estivesse tentando ligar para algum, ela disse, mas
voc esqueceu o nmero. Ou algum bloqueou o sinal. Desculpe querido. Eu
apenas no posso conect-lo.
       Ele estava com medo de esquecer completamente o rosto de
Annabeth quando ele chegasse ao Alasca. Talvez ele acordasse num dia e
no lembrasse mais o nome dela.
        Ele ainda tinha que se concentrar na sua misso. O vislumbre do
exrcito inimigo havia mostrado o que eles estavam enfrentando. Agora era
incio da manh de 21 de Junho. Eles teriam que chegar ao Alasca, encontrar
Tnatos, localizar o estandarte da legio romana e traz-lo de volta para o
Acampamento Jpiter na noite de 24 de junho. Quatro dias. Enquanto que o
inimigo estava a algumas centenas de quilmetros em marcha.
        Percy guiou o barco por correntes fortes, ao norte da costa da
Califrnia. O vento estava frio, mas a sensao era boa, clareando algumas
confuses da sua cabea. Ele forou o seu desejo de empurrar o barco o tanto
quanto podia. O casco sacudiu e assim o Pax sulcou seu caminho para o
norte.
        Enquanto isso Hazel e Frank trocavam histrias sobre os eventos
ocorridos no Arco-ris Comida Orgnica. Frank explicou sobre Fineu, o
cego vidente de Portland, e como ris dissera que ele poderia ser capaz de
dizer-lhes onde encontrar Tnatos. Frank no disse como ele conseguira
matar o basilisco, mas Percy teve a sensao de que tinha alguma coisa a ver
com a ponta quebrada da sua lana. Seja l o que tivesse acontecido, Frank
parecia mais assustado com a lana do que com o basilisco.
       Quando ele terminou Hazel contou para Frank sobre o seu tempo
com Fleecy.
       -- Ento essa mensagem de ris funcionou? -- perguntou Frank.
        Hazel deu a Percy um olhar solidrio. Ela no mencionou o seu
fracasso de contatar Annabeth.
        -- Voc tem que atirar uma moeda dentro de um arco-ris, -- ela
disse. -- E dizer esse encantamento, como `Oh ris, deusa do arco-ris
aceite a minha oferenda'. Exceto que Fleecy meio que mudou isso. Ela nos

                                                                       213
deu, como se chamava mesmo, seu nmero direto? Ento eu tive que dizer
`Fleecy faa-me slido. Mostre Reyna no Acampamento Jpiter'. Eu me
senti como uma idiota, mas deu certo. A imagem de Reyna apareceu no
arco-ris, como em uma vdeo chamada. Ela estava no banho. Com medo e
fora de si.
        -- Eu pagaria para ter visto isso, -- disse Frank. -- Quero dizer, a
expresso dela, no ela no banho.
        -- Frank! -- Ela abanou o rosto como se precisasse de ar, foi um
gesto  moda antiga, mas bonito, de qualquer forma. -- Certo, ento, ns
contamos a ela sobre o exrcito, mas como Percy disse, ela praticamente j
sabia disso. Isso no mudou em nada. Ela est fazendo o que pode para
sustentar as nossas defesas, a menos que libertemos a Morte e voltemos com
a guia...
        -- O acampamento no aguentaria contra esse exrcito. -- Frank
finalizou.
        -- No sem ajuda.
        E depois disso eles navegaram em silncio.
        Percy continuou pensando nos Centauros e nos Ciclopes. Ele
pensava em Annabeth, no stiro Grover e no seu sonho com um navio
gigante em construo.
        Voc veio de algum lugar, Reyna tinha dito.
        Percy queria se lembrar. Ele poderia pedir ajuda. O Acampamento
Jpiter no deveria lutar sozinho contra os gigantes. Deveriam ter aliados l
fora.
        Ele apertou as esferas do seu colar, a placa de probatio de chumbo e
o anel que Reyna lhe dera. Talvez em Seattle, ele fosse capaz de falar com
sua irm Hylla. Ela poderia enviar ajuda. Assumindo que ela no matasse
Percy assim que o visse.
        Depois de mais algumas horas de navegao, os olhos de Percy
comearam a se fechar. Ele estava com medo de desmaiar de exausto.
Ento ele fez uma pausa. Uma baleia assassina apareceu ao lado do barco e
Percy iniciou uma conversa mental com ela.
        No foi exatamente como falar, mas foi algo assim: Voc poderia
nos dar uma carona para o norte, Percy pediu, o mais prximo de Portland
possvel?
        Eu como focas, a baleia respondeu, vocs so focas?

                                                                        214
       No, admitiu Percy, embora eu tenha uma bolsa cheia de charques
macrobiticos.
         Ento a baleia estremeceu, prometa que no vai me alimentar com
isso e o levo para o norte.
       Negcio fechado.
        Logo Percy havia feito um chicote de fios de corda improvisada, e
amarrou na parte superior da baleia. Eles aceleraram para o norte sob o
poder dela, e por insistncia de Hazel e Frank, Percy se preparou para uma
soneca.


       Seus sonhos foram to desconexos e assustadores como sempre.
        Ele se imaginou no Monte Tamalpais, ao norte de So Francisco,
lutando na fortaleza de um velho tit, e isso no fazia nenhum sentido. No
tinha sido com os Romanos quando eles atacaram, mas ele via tudo
claramente, a armadura do tit, as mos de Annabeth, as outras duas meninas
lutando ao lado dele. Uma das meninas morrera na batalha. Percy se
ajoelhou sobre ela e vira como ela se dissolvia em estrelas.
        Ento ele viu o navio gigante em uma doca seca. A figura do drago
de bronze brilhava na luz da manh. Os equipamentos e armamentos
estavam completos, mas alguma coisa estava errada, a escotilha do convs
estava aberta, havia fumaa saindo de algum tipo de motor. E um menino de
cabelos pretos encaracolados, estava xingando e batendo no motor com uma
chave. Dois outros semideuses estavam abaixados ao lado dele, observando
com preocupao. Um deles era um adolescente de cabelos louros curto. E
outro era uma garota de longos cabelos negros.
       -- Voc percebe que  o solstcio, -- disse a menina. -- Ns
deveramos ir embora hoje.
        -- Eu sei disso! -- O mecnico de cabelos encaracolados bateu no
motor mais algumas vezes. -- Poderiam ser os fizzrockets. Poderia ser o
samophlange. Poderia ser Gaia brincando com a gente de novo. Eu no
tenho certeza!
       -- Quanto tempo? -- O cara loiro perguntou.
       -- Dois ou trs dias.
       -- Eles podem no ter tanto tempo. -- A menina avisou.
       Algo dizia a Percy, que ela falava do Acampamento Jpiter. Ento a
cena mudou novamente.

                                                                       215
        Ele viu um menino e seu co passeando sobre as colinas amarelas da
Califrnia. Mas conforme a imagem se tornava mais clara, Percy percebeu
que ele no era um menino. Era um Ciclope usando Jeans rasgados e uma
camiseta de flanela, o co era uma montanha cambaleante de pelos negros,
to grande quanto um rinoceronte. O ciclope estava carregando uma pesada
clava sob os ombros, mas Percy no sentia que ele era um inimigo. Ele
gritava o nome de Percy, chamando-o de... Irmo?
        -- O cheiro dele est mais longe... -- o Ciclope gemeu para o co.
-- Por que o cheiro dele est mais longe?
      -- AUAU! -- O cachorro latia, e o sonho de Percy mudou
novamente.
        Ele viu uma cadeia de montanhas nevadas, to altas que
ultrapassavam as nuvens. O rosto adormecido de Gaia apareceu nas sombras
das rochas.
       Como um peo valioso, ela disse suavemente. No tenha medo,
Percy Jackson. Venha para o norte! Sim, seus amigos iro morrer. Mas eu
vou preservar voc por hora. Eu tenho grandes planos para voc.
        Num vale entre as montanhas havia um campo de gelo, uma borda
mergulhava no mar a centenas de metros abaixo, com placas de gelo
constantemente se desintegrando na gua. Em cima do campo de gelo havia
um acampamento da legio, muralhas, fossos, torres, quartis, iguais ao do
Acampamento Jpiter exceto que trs vezes maior. Na encruzilhada fora da
principia, uma figura de vestes escuras estava acorrentada ao gelo. A viso
de Percy passou por ele, na sede l na escurido, sentado, um gigante ainda
maior do que Polybotes. Sua pele reluzia ouro. Exibida por de trs dele,
estavam as imagens esfarrapadas de estandartes de uma legio, incluindo
uma grande guia dourada de asas abertas.
        Aguardamos por voc, a voz do gigante cresceu. Enquanto voc se
atrapalha pelo caminho para o norte, tentando me encontrar, meus exrcitos
destruiro o seu precioso acampamento, primeiro o dos romanos, depois o
outro, voc no pode vencer pequeno semideus.


        Percy cambaleou e acordou durante um dia frio e cinzento. A chuva
caia sobre o seu rosto.
        -- Pensei que eu dormia pesadamente, -- Hazel disse. -- Bem
vindo a Portland.



                                                                      216
         Percy se sentou e piscou. A cena em torno dele era to diferente do
seu sonho, ele no tinha certeza do que era real. O Pax flutuava em um rio
negro no meio de uma cidade. Nuvens carregadas acima de sua cabea. A
chuva fria estava to leve que parecia suspensa no ar.  esquerda de Percy
estavam armazns industriais e trilhos de trem.  sua direita uma pequena
rea de centro, um aglomerado de torres de aparncia quase acolhedora,
entre as margens do rio uma linha enevoada de colinas arborizadas.
           Percy espantou o sono dos seus olhos. -- Como ns chegamos aqui?
           Frank deu-lhe um olhar do tipo, voc no vai acreditar nisso.
        -- A baleia assassina nos levou para o rio Columbia. Ento ela
passou os arreios para um par de esturjes de trs metros e meio.
        Percy pensou que Frank tivesse dito cirurgies. Ele tinha uma
estranha imagem de doutores gigantes com mascaras cirrgicas, puxando o
barco rio acima. Ento ele percebeu que Frank estava querendo dizer
esturjes, como o peixe. Ele estava feliz por no ter dito nada. Teria sido
embaraoso, por ele ser o filho do deus do mar e tal...
       -- De qualquer forma, -- Frank continuou. -- Os esturjes nos
puxaram por um bom tempo. Hazel e eu nos revezamos para dormir. Ento
ns chegamos a esse rio...
           -- O Willamette54, -- Hazel ofereceu.
         -- Certo, -- disse Frank. -- E depois disso o barco tomou o controle
e nos trouxe at aqui por conta prpria. Dormiu bem?
        Conforme o Pax deslizava para o sul, Percy contou para eles sobre
os seus sonhos. Ele tentou focar nos aspectos positivos. Um navio de guerra
poderia estar a caminho, para ajudar o Acampamento Jpiter. Um ciclope
amigvel e um co gigante estavam  procura dele. Porm ele no
mencionou o que Gaia havia dito. Seus amigos iro morrer.
        Quando Percy descreveu o forte romano no gelo, Hazel parecia
perturbada.
       -- Ento Alcioneu est sobre uma geleira, -- disse ela. -- Isso no
ajuda muito. O Alasca possui centenas delas.
           Percy assentiu. -- Talvez este vidente Fineu possa nos dizer em
qual.



54
     Willamette: Nome de um rio na regio de Columbia.

                                                                           217
        O barco ancorou num cais. Os trs semideuses olharam para os
edifcios do centro da chuvosa Portland.
       Frank secou a chuva de seus cabelos lisos.
        -- Ento, agora ns encontramos um homem cego na chuva, --
disse Frank.
       -- .




                                                                218
                                 XXVI




NO FOI TO DIFCIL QUANTO ELES PENSARAM. Os gritos e o
cortador de grama ajudaram.
        Eles haviam trazido jaquetas esportivas leves com seus suprimentos,
ento, eles se agasalharam contra a chuva fria e andaram por alguns
quarteires, a maioria por ruas desertas. Dessa vez Percy foi esperto e trouxe
a maioria dos seus suprimentos do barco. Ele at colocou a carne seca
macrobitica no bolso do casaco, caso ele tivesse que lidar com mais alguma
baleia assassina.
        Eles viram um pouco de trfego de bicicletas e alguns caras sem-teto
estremecendo nas portas, mas a maior parte dos moradores pareciam estar
nas suas casas.
        Enquanto eles desciam a Glisan Street, Percy olhava
melancolicamente para as pessoas nos cafs, saboreando caf e doces. Ele
estava prestes a sugerir que eles parassem para o caf da manh quando ele
ouviu uma voz descendo a rua que gritava:
        -- H! TOMEM ESSA, GALINHAS ESTPIDAS! -- Seguido
pela acelerao de um pequeno motor e vrios grasnados.
        Percy olhou para seus amigos, -- Vocs acham...?
        -- Provavelmente, -- Frank concordou.
        Eles correram em direo ao som.
         Passado o prximo quarteiro, eles encontraram um grande
estacionamento aberto, com caladas arborizadas e fileiras de caminhes de
alimentos de frente para a rua em todos os quatro lados. Percy j tinha visto
caminhes de alimentos antes, mas nunca tantos em um s lugar. Alguns
eram simplesmente caixas de metal sobre rodas, com toldos e balces de
servir. Outros eram pintados de azul, roxo ou bolinhas, com grandes banners
na frente e painis de menu coloridos e mesas do tipo `faa voc mesmo' de
cafs ao ar livre. Um anunciava um taco Coreano/Brasileiro, o que soou
como algum tipo de culinria radioativa ultra-secreta. Outra oferecia sushi
no espeto. Uma terceira estava vendendo um sanduche de sorvete de fritas.
                                                                         219
O cheiro era maravilhoso  dzias de diferentes cozinhas cozinhando ao
mesmo tempo.
        O estmago de Percy roncou. A maioria dos caminhes estavam
abertos, mas dificilmente havia algum por perto. Eles podiam comprar tudo
o que quisessem. Sanduche de sorvete de fritas? Ah, isso parecia bem
melhor que grmen de trigo.
        Infelizmente, havia mais coisas acontecendo do que apenas
culinria. No centro do lote, atrs de todos os caminhes de comida um
velho em um roupo, estava correndo por toda parte com um cortador de
grama, gritando para uma revoada de mulheres-pssaro que estavam
tentando roubar comida de uma mesa de piquenique.
        -- Harpias, -- Hazel disse -- O que significa...
        -- Que  o Fineu, -- Frank adivinhou.
        Eles correram pela rua e se espremeram entre o caminho
Brasileiro/Coreano e um chins vendedor de rolinho primavera e burrito.
         As traseiras dos caminhes no eram de longe to convidativas
quanto a frente. Elas estavam cheias de pilhas de baldes de plstico, latas de
lixo transbordando e varais improvisados com aventais e toalhas molhadas
penduradas. O estacionamento em si no era nada mais que um quadrado de
asfalto quebrado, salpicado de grama.
       O cara de roupo era velho e gordo. Ele era quase totalmente careca,
com cicatrizes na testa e um amontoado de viscosos cabelos brancos.
        Seu roupo estava sujo de ketchup e ele continuou a correr por todo
lado em seus distorcidos chinelos de coelhinho cor de rosa, balanando seu
cortador de grama a gs em direo  meia dzia de harpias que pairavam
sobre sua mesa de piquenique.
       Ele era claramente cego, seus olhos eram de um branco leitoso e
geralmente ele errava as harpias por muito, mas ele continuava fazendo um
bom trabalho rechaando-as.
        -- Afastem-se, galinhas sujas! -- Ele berrou.
        Percy no estava certo do porque, mas ele tinha a vaga sensao de
que harpias deveriam ser mais gordas. Essas pareciam esfomeadas. Seus
rostos humanos tinham olhos encovados e bochechas ocas. Seus corpos
estavam cobertos de penas e de suas asas despontavam minsculas mos
enrugadas. Elas usavam sacos de tecido esfarrapado como vestidos. 
medida que mergulhavam para a comida, elas pareciam mais desesperadas
do que zangadas. Percy sentiu pena delas.

                                                                         220
        WHIRRRR! O velho balanou seu cortador de grama. Ele raspou nas
asas de uma das harpias. A harpia gritou de dor e voou para longe, deixando
uma trilha de penas amarelas pelo caminho.
        Outra harpia circulava mais alto que as demais. Ela parecia menor e
mais jovem, com penas vermelho-vivo.
        Ela olhava cuidadosamente, procurando uma abertura e quando o
velho lhe deu as costas ela fez um mergulho selvagem em direo a mesa.
Ela agarrou um burrito com suas garras, mas antes que ela pudesse escapar o
velho cego balanou seu cortador de grama e atingiu-a nas costas muito
fortemente, Percy estremeceu. A harpia gritou, derrubou o burrito e voou
para longe.
       -- Ei, pare com isso! -- Percy gritou.
        As harpias entenderam isso da maneira errada. Elas olharam para os
trs semideuses e imediatamente fugiram. A maioria delas voou para longe e
se empoleiraram nas rvores ao redor do estacionamento, olhando
desanimadamente para a mesa de piquenique. A harpia de penas vermelhas
que fora atingida nas costas voou vacilantemente pela Glisan Street e
desapareceu de vista.
       -- H! -- O Cego gritou em triunfo e desligou seu cortador de
grama. Ele sorriu vagamente na direo de Percy. -- Obrigado estranhos!
Sua ajuda  muito apreciada.
       Percy controlou sua raiva. Ele no pretendia ajudar o velho, mas ele
lembrou-se de que precisavam de informaes.
        -- Hum, tanto faz, -- Percy se aproximou do velho, mantendo um
olho no cortador de grama. -- Eu sou Percy Jackson, esse ...
        -- Semideuses, -- disse o velho. -- Eu sempre consigo sentir o
cheiro de semideuses.
       Hazel franziu a testa. -- Cheiramos to mal assim?
        O velho riu. -- Claro que no minha querida. Mas voc ficaria
surpresa em descobrir quo afiados ficaram os meus sentidos desde que
fiquei cego. Eu sou Fineu, e vocs  esperem, no me digam...
       Ele alcanou o rosto de Percy e cutucou-o nos olhos.
       -- Ow! -- Percy queixou-se.
       -- Filho de Netuno, -- Fineu exclamou. -- Eu pensei ter sentido o
cheiro do oceano em voc Percy Jackson. Eu tambm sou um filho de
Netuno sabia?

                                                                       221
        -- , ok. -- Percy esfregou os olhos. Apenas sorte que ele fosse
parente desse velhinho. Ele esperava que nem todos os filhos de Netuno
compartilhassem do mesmo destino. Primeiro voc sai por ai carregando
uma bolsa de couro. Antes que perceba voc est correndo por ai em um
roupo, chinelos de coelhinho rosa, perseguindo galinhas com um cortador
de grama.
            Fineu se virou para Hazel.
         -- E aqui... Cheiro de ouro e terra profunda. Hazel Levesque, filha
de Pluto. E ao seu lado, o filho de Marte. Entretanto h muito mais em sua
histria Frank Zhang...
            -- Sangue Antigo, -- Frank murmurou. -- Prncipe de Pilos. Bl,
bl, bl.
       -- Poriclimeno, exatamente! -- Ah, ele era um cara legal, eu
adorava os argonautas!
            O queixo de Frank caiu, -- Espera, Pori quem?
         Fineu sorriu. -- No se preocupe, eu conheo a sua famlia. Aquela
histria sobre seu bisav? Ele no destruiu realmente o acampamento. Mas
que grupo interessante. Esto com fome?
         Frank parecia ter sido atropelado por um caminho, mas Fineu j
havia mudado de assunto. Ele acenou em direo  mesa de piquenique. Nas
arvores prximas, as harpias guinchavam miseravelmente. Mesmo faminto
como Percy estava, ele no podia pensar em comer com essas pobres harpias
o assistindo.
       -- Olha, eu estou confuso, -- Percy disse. -- Ns precisamos de
algumas informaes. Nos disseram...
       -- ...Que as harpias estavam afastando a comida de mim. -- Fineu
terminou. -- E que se vocs me ajudassem, eu ajudaria vocs...
            -- Algo assim, -- Percy admitiu.
            Fineu riu. -- Essas so notcias velhas. Parece que eu estou passando
fome?
       Ele acariciou sua barriga, a qual era do tamanho de uma bola de
basquete super-inflada.
            -- Hum... no, -- Percy disse.
        Fineu agitou seu cortador de grama em um amplo gesto. Os trs se
abaixaram.

                                                                            222
        -- As coisas mudaram, amigos! -- Ele disse. -- Quando eu recebi o
dom da profecia, eras atrs,  verdade que Jpiter me amaldioou. Ele
mandou as harpias para roubar minha comida. Vejam vocs, eu tinha uma
boca um pouco grande. Eu revelava muitos segredos que os deuses tentavam
guardar. -- Ele se virou para Hazel. -- Por exemplo, voc devia estar morta.
E voc... -- Ele se virou para Frank. -- Sua vida depende de um pedao de
madeira queimado.
        Percy franziu a testa. -- O que voc esta dizendo?
       Hazel piscou como se tivesse sido esbofeteada. J Frank, parecia que
o caminho tinha engatado a r e atropelado ele outra vez.
        -- E voc, -- Fineu se virou para Percy. -- Bem, voc nem mesmo
sabe quem voc . Eu poderia te contar  claro, mas que graa isso teria? E
que Brigid O'Shaughnessy atira em Miles Archer55 em O Falco Malts. E
Darth Vader  o pai do Luke56. E o Vencedor do prximo Super Bowl57
ser...
        -- J entendemos. -- Frank murmurou.
        Hazel apertou sua espada como se ela estivesse tentada a esquartejar
o velho.
       -- Ento, voc falou demais e os deuses te amaldioaram. Por que
pararam?
        -- Ah, eles no pararam. -- Ele arqueou suas sobrancelhas numa
expresso que dizia d pra acreditar? -- Eu tive que fazer um acordo com
os argonautas. Eles tambm queriam informaes vejam s. Eu disse que se
matassem as harpias eu cooperaria. Bem, eles afugentaram essas criaturas
nojentas, mas ris no os deixaria matar as harpias. Um ultraje! Ento, dessa
vez quando minha patrona me trouxe de volta  vida...
        -- Sua patrona? -- Frank perguntou.
        Fineu lhe dirigiu um sorriso perverso.
       -- Gaia  claro. Quem vocs acham que abriu os portes da morte?
Sua namoradinha aqui entende bem o que  isso. Gaia no  tambm sua
patrona?



55
   Brigid O'Shaughnessy e Miles Archer: Personagens do romance policial O Falco
Malts de Dashiell Hammett.
56
   Darth Vader e Luke: Personagens de Star Wars
57
   Super Bowl: Jogo do campeonato de futebol americano.

                                                                            223
       Hazel desembainhou sua espada. -- Eu no sou sua... Eu no... Gaia
no  minha patrona.
       Fineu parecia estar se divertindo. Se ele ouviu a espada sendo
puxada no pareceu se importar.
         -- timo, se voc que ser nobre e ficar do lado perdedor  problema
seu. Mas Gaia est acordando, ela j reescreveu as regras da vida e da morte.
Eu estou vivo de novo! E em troca de minha ajuda, uma profecia aqui, outra
ali, eu ganho meu mais caro desejo. A mesa foi virada, por assim dizer. Eu
posso comer o que eu quiser o dia inteiro, e as harpias tem que assistir e
passar fome.
           Ele acelerou seu cortador de grama e as harpias gemeram em suas
rvores.
        -- Elas so amaldioadas, -- O velho homem disse. -- Elas s
podem comer da minha mesa, e elas no podem deixar Portland, e como as
portas da morte esto abertas elas no podem nem morrer.  lindo.
        -- Lindo? -- Frank protestou. -- Elas so criaturas vivas. Por que
voc  to malvado com elas?
       -- Elas so monstros, -- Fineu disse -- E malvado? Esses crebros
de penas me atormentaram por anos!
         -- Mas era seu dever, -- Percy disse, tentando se controlar --
Jpiter lhes ordenou que fizessem isso.
       -- Oh, mas eu estou irado com Jpiter tambm, -- Fineu concordou.
-- No tempo certo Gaia cuidar para que os deuses sejam apropriadamente
punidos. Eles fizeram um horrvel trabalho em governar o mundo. Mas por
hora eu estou gostando de Portland. Os mortais no me do nenhuma
importncia. Eles pensam que eu sou apenas um velho louco espantando os
pombos.
        Hazel avanou em direo ao vidente. -- Voc  terrvel! -- Ela
disse a Fineu. -- Seu lugar  nos campos de punio.
       Fineu zombou. -- De um morto para outro, mocinha? No seu lugar
eu no estaria falando. Voc comeou a coisa toda! Se no fosse por voc
Alcioneu no estaria vivo!
           Hazel cambaleou para trs
       -- Hazel, -- os olhos de Frank se arregalaram. -- Do que ele est
falando?



                                                                        224
       -- H! -- Fineu disse. -- Voc vai descobrir logo, logo, Frank
Zhang. E ento veremos se voc continua to carinhoso com a sua
namorada.
       -- Mas vocs no esto aqui pra isso, certo? Vocs querem
encontrar Tnatos. Ele est sendo mantido no covil de Alcioneu. Claro que
eu posso lhes dizer onde fica. Claro que posso. Mas primeiro vocs tero que
me fazer um favor.
        -- Esquece, -- Hazel disse asperamente. -- Voc est trabalhando
para o inimigo. Ns devamos te mandar de volta para o Mundo Inferior ns
mesmos.
         -- Vocs podem tentar, -- Fineu sorriu. -- Mas eu duvido que fique
morto por muito tempo. Vejam vocs, Gaia me mostrou o caminho mais
fcil para voltar para c. E com Tnatos nas correntes, no tem ningum pra
me manter l em baixo. Alm disso, se me matarem nunca descobriro meus
segredos.
        Percy estava tentado a deixar Hazel usar sua espada. Na verdade, ele
queria estrangular aquele velho ele mesmo.
        Acampamento Jpiter. Ele disse a si mesmo. Salvar o acampamento
 mais importante. Ele se lembrou de Alcioneu provocando-o em seus
sonhos. Se eles perdessem tempo vagando pelo Alasca  procura do covil do
gigante, os exrcitos de Gaia iriam destruir os Romanos... e os outros amigos
de Percy, quem quer que eles fossem.
        Ele cerrou os dentes. -- Qual  o favor?
        Fineu lambeu os lbios com avidez. -- Tem uma harpia que  mais
rpida que as outras...
        -- A vermelha, -- Percy sups.
       -- Eu sou cego! Eu no sei a cor! -- O velho resmungou. -- De
qualquer forma, ela  a nica que me d trabalho. Ela  astuta, essa a. Ela
sempre faz o que quer, e no se junta s outras. Ela me deu essas.
        Ele apontou para as cicatrizes em sua testa.
        -- Capture essa harpia, -- ele disse. -- Tragam-na at mim. Eu a
quero amarrada onde eu possa ficar de olho nela, por assim dizer. Harpias
odeiam ficar amarradas. Isso lhes causa dor extrema. Ah, eu vou gostar
disso. Talvez eu at a alimente para que ela dure mais.




                                                                        225
        Percy olhou para seus amigos. Eles entraram num acordo silencioso:
Eles nunca iriam ajudar esse velho repugnante. Por outro lado eles
precisavam da informao. Eles precisavam de um plano B.
        -- Oh, podem ir conversar. -- Fineu disse despreocupadamente. --
Eu no ligo. -- S lembrem-se de que sem minha ajuda sua misso ir falhar
e todos que vocs amam nesse mundo iro morrer. Agora saiam! Tragam-me
aquela harpia!




                                                                      226
                                  XXVII




-- VAMOS PRECISAR DE UM POUCO DO SEU ALIMENTO. --
Percy abriu caminho com os ombros em torno do velho e arrancou coisas da
mesa de piquenique  uma tijela coberta de macarro tailndes com molho
mac-and-cheese58 e uma massar tubular que parecia uma combino de
burrito e po de canela.
       Antes que ele pudesse perder o controle e esmagar a burrito na cara
de Fineu, Percy disse:
        -- Vamos, pessoal. -- Ele levou seus amigos para fora do
estacionamento.
        Eles pararam na rua. Percy respirou fundo, tentando se acalmar. A
chuva tinha abrandado para uma garoa indiferente. A nvoa fria dava uma
sensao boa no seu rosto.
        -- Aquele homem... -- Hazel bateu ao lado de um banco de uma
parada de nibus. -- Ele precisa morrer. Novamente.
        Era difcil dizer na chuva, mas ela parecia estar piscando as
lgrimas. Seus longos cabelos encaracolados estavam emplastrados dos
lados de seu rosto. Na luz cinzenta, com seus olhos dourados, parecia mais
como estanho.
         Percy se lembrava de como ela agiu confiante quando se
conheceram, assumindo o controle da situao com as grgonas e
conduzindo-o para a segurana. Ela o confortou no santurio de Netuno e o
fez se sentir bem-vindo ao acampamento.
        Agora ele queria retribuir o favor, mas no sabia como. Ela parecia
perdida, suja, e completamente deprimida.
        Percy no estava surpreso que ela tinha voltado do Mundo Inferior.
Ele tinha suspeitado disso por um tempo  a maneira como ela evitava falar
sobre seu passado, a forma como Nico di Angelo tinha sido to reservado e
cauteloso.
58
     Mac-and-cheese: Molho de macarro com queijo.

                                                                       227
        Mas isso no mudava a forma como Percy a via. Ela parecia... bem,
viva, como uma criana normal com um corao bom, que merecia crescer e
ter um futuro. Ela no era uma carniceira como Fineu.
       -- Ns vamos ganh-lo, -- Percy prometeu. -- Ele no  nada como
voc, Hazel. Eu no me importo com o que ele diz.
        Ela balanou a cabea. -- Voc no conhece a histria toda. Eu
deveria ter sido enviada para os Campos de Punio. Eu... eu sou to ruim...
        -- No, voc no ! -- Frank cerrou os punhos. Ele olhou ao redor
como se estivesse procurando algum que pudesse discordar dele  inimigos
em quem ele pudesse bater por causa de Hazel. -- Ela  uma boa pessoa! --
Ele gritou para o outro lado da rua. As poucas harpias gritaram nas rvores,
mas ningum mais deu-lhe qualquer ateno.
        Hazel olhou para Frank. Ela estendeu a mo timidamente, como se
ela quissesse pegar a mo dele, mas tivesse medo que ele evaporasse.
        -- Frank ... -- ela gaguejou. -- Eu...eu no...
        Infelizmente, Frank parecia envolto em seus prprios pensamentos.
        Ele tirou sua lana de suas costas e agarrou-a inquieto.
        -- Eu poderia intimidar aquele velho, -- ele ofereceu, -- talvez
assust-lo.
       -- Frank, est tudo bem, -- disse Percy. -- Vamos manter isso
como um plano B, mas eu no acho que Fineu pode ser assustado para
cooperar. Alm disso, voc s tem mais dois usos da lana, certo?
        Frank fez uma careta para a ponta de dente de drago, que tinha
crescido para fora completamente durante a noite. -- Sim. Eu acho...
        Percy no estava certo sobre o que o velho vidente tinha querido
dizer sobre a histria da famlia de Frank  sobre seu bisav ter destrudo o
acampamento, seu antepassado Argonauta, e o pouco sobre um pedao de
pau queimado controlando a vida de Frank. Mas isso tinha claramente
abalado Frank. Percy decidiu no pedir explicaes. Ele no queria o
grandalho reduzido s lgrimas, especialmente na frente de Hazel.
       -- Eu tenho uma idia. -- Percy apontou para a rua. -- A harpia de
penas vermelhas foi por esse caminho. Vamos ver se podemos faz-la falar
com a gente.
       Hazel olhou para o alimento em suas mos. -- Voc vai usar isso
como isca?


                                                                        228
       -- Mais como uma oferta de paz, -- disse Percy. -- Vamos l.
Apenas tentem evitar que as outras harpias roubem essas coisas, ok?
        Percy descobriu o macarro tailands e desembrulhou o burrito de
canela. Vapor perfumado flutuava no ar. Desceram a rua, Hazel e Frank com
suas armas para fora. As harpias voaram atrs deles, empoleirando nas
rvores, caixas de correio e mastros de bandeiras, seguindo o cheiro da
comida.
        Percy quis saber o que os mortais viam, atravs da Nvoa. Talvez
eles pensassem que as harpias eram pombos e as armas fossem bastes de
hquei ou algo assim. Talvez eles apenas pensassem que o macarro com
queijo tailands fosse to bom que precisasse de uma escolta armada.
        Percy segurou firme os alimentos. Ele tinha visto a rapidez com que
as harpias poderiam roubar as coisas. Ele no queria perder a sua oferta de
paz antes que ele encontrasse a harpia de penas vermelhas.
        Finalmente, ele a viu, circulando acima de um trecho do parque que
corria por vrios quarteires entre as fileiras de edifcios de pedra antiga. O
caminho era esticado atravs do parque sob rvores enormes, bordos e
olmos, esculturas antigas, playgrounds e bancos na sombra. O lugar
lembrava Percy de... algum outro parque. Talvez em sua cidade natal? Ele
no conseguia se lembrar, mas o fez sentir saudades de casa.
       Atravessaram a rua e encontaram um banco para sentar, ao lado de
uma grande escultura de bronze de um elefante.
        -- Parece Hannibal, -- disse Hazel.
        -- Exceto que chins, -- disse Frank. -- Minha av tem um desses.
-- Ele se encolheu. -- Quero dizer, o dela no tinha trs metros e meio de
altura. Mas ela importava coisas... da China. Somos chineses. -- Ele olhou
para Hazel e Percy, que estavam se esforando para no rir. -- Eu poderia
simplesmente morrer de vergonha agora? -- Perguntou ele.
      -- No se preocupe com isso, cara, -- disse Percy. -- Vamos ver se
podemos fazer amizade com a harpia.
       Ele levantou o macarro tailands e espalhou para cima o cheiro 
pimenta picante e queijo excelente. A harpia vermelha circulou mais baixo.
       -- Ns no vamos machuc-la, -- Percy chamou em voz normal. --
Ns s queremos conversar. Macarro tailands por uma chance de
conversar, ok?
        A harpia raiou para baixo em um lampejo de vermelho e caiu sobre a
esttua de elefante.

                                                                          229
        Ela estava extremamente magra. Suas pernas eram como varas de
penas. Seu rosto teria sido bonito, exceto pelas bochechas afundadas. Ela se
moveu em uma bruca contrao de pssaro, seus olhos marrons-caf
correndo sem descanso, os dedos agarrando sua plumagem, seu lbulos das
orelhas, o cabelo desgrenhado vermelho.
        -- Queijo, -- ela murmurou, olhando para os lados. -- Ella no
gosta de queijo.
        Percy hesitou. -- Seu nome  Ella?
        -- Ella. Aella. `Harpia'. Em portugus. Em latim. Ella no gosta de
queijo. -- Ela disse tudo isso sem tomar flego ou fazer contato visual. Suas
mos arrancaram seu cabelo, seu vestido de aniagem, as gotas de chuva, o
que quer que se movesse.
        Mais rpido do que Percy pudesse piscar, ela pulou, agarrou o
burrito de canela, e apareceu em cima do elefante novamente.
        -- Deuses, ela  rpida! -- Hazel disse.
        -- E muito cafenada, -- Frank adivinhou.
        Ella cheirou o burrito. Ela mordiscou a borda e estremeceu da
cabea aos ps, grasnando como se estivesse morrendo.
        -- Canela  bom, -- ela pronunciou. -- Bom para harpias. Humm.
         Ela comeou a comer, mas a maior das harpias desceu. Antes que
Percy pudesse reagir, comearam esmurrar Ella com suas asas, pegando o
burrito.
        -- Nnnnnnooo. -- Ella tentou esconder debaixo das suas asas
quando suas irms a encurralaram, arranhando com suas garras. -- NNO,
-- ela gaguejou. -- N-n-no!
        -- Parem com isso! -- Percy gritou. Ele e seus amigos correram
para ajudar, mas j era tarde demais. A grande harpia amarela agarrou o
burrito e todo o rebanho dispersou, deixando Ella encolhida e tremendo em
cima do elefante.
        Hazel tocou o p da harpia. -- Eu sinto muito. Voc est bem?
        Ella enfiou a cabea para fora de suas asas. Ela ainda estava
tremendo. Com os ombros curvados, Percy podia ver a ferida sangrando nas
costas, onde Fineu tinha batido com o cortador de grama. Ela bicou suas
penas, arrancando tufos de plumagem.



                                                                        230
       -- P-pequena Ella, -- ela gaguejou, irritada. -- P-pequena Ella.
No canela para Ella. S queijo.
        Frank olhou para o outro lado da rua, onde as outras harpias estavam
sentadas em uma rvore de bordo, rasgando o burrito em pedaos.
           -- Ns vamos pegar para voc mais alguma coisa, -- prometeu.
        Percy colocou o macarro tailands de lado. Ele percebeu que Ella
era diferente, mesmo para uma harpia. Mas depois de v-la convalescer, ele
tinha certeza de uma coisa: qualquer coisa que acontecesse, ele estaria indo
para ajud-la.
      -- Ella, -- disse ele, -- ns queremos ser seus amigos. Ns
podemos te dar mais alimentos, mas...
           -- `Friends59', -- disse Ella. -- `Dez temporadas. 1994 a 2004.'
         Ela olhou de soslaio para Percy, depois olhou para o ar e comeou a
recitar para as nuvens. -- `Um meio-sangue dos deuses mais velhos, deve
atingir dezesseis anos contra todas as chances.' Dezesseis. Voc tem
dezesseis anos. Pgina dezesseis de Mastering, a Arte da Culinria
Francesa. `Ingredientes: Bacon, Manteiga...'
        Os ouvidos de Percy estavam retumbando. Sentiu-se tonto, como se
tivesse acabado de mergulhar de uma centena de metros de profundidade e
voltado novamente. -- Ella... o que foi que voc disse?
           -- Bacon. -- Ela pegou uma gota de chuva no ar. -- Manteiga.
           -- No, antes disso. Essas linhas... Eu conheo essas linhas.
      Ao lado dele, Hazel estremeceu. -- Soa familiar, como... eu no sei,
como uma profecia. Talvez seja algo que ela ouviu Fineu dizer?
           Ao nome Fineu, Ella gritou em terror e voou para longe.
        -- Espere! -- Hazel chamou. -- Eu no quis dizer... Oh, deuses, eu
sou estpida.
           -- Est tudo bem. -- Frank apontou. -- Olha.
        Ella no estava se movendo to rapidamente agora. Ela fez seu
caminho at o topo de um edifcio de tijolos vermelhos de trs andares e
correu fora de vista sobre o telhado. Uma nica pena vermelha voou para a
rua.



59
     Friends: Amigos em ingls e tambm nome de um conhecido seriado.

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        -- Voc acha que  seu ninho? -- Frank olhou de soslaio para a
placa do edifcio. -- Biblioteca Multnomah County?
        Percy assentiu. -- Vamos ver se est aberta.
        Eles correram para o outro lado da rua e no saguo.
         A biblioteca no teria sido a primeira escolha de Percy para algum
lugar para se visitar. Com sua dislexia, ele teve bastante dificuldade em ler
as placas. Um edifcio cheio de livros? Isso soava to divertido quanto
tortura chinesa da gua ou extrao de dentes.
         medida que corriam pelo saguo, Percy imaginou que Annabeth
gostaria deste lugar. Era espaoso e bem iluminado, com grandes janelas
abobadadas. Livros e arquitetura, que era definitivamente o que ela...
        Ele congelou no meio do caminho.
        -- Percy? -- Frank perguntou. -- O que h de errado?
        Percy tentou desesperadamente se concentrar. De onde esses
pensamentos vieram? Arquitetura, livros... Annabeth tinha levado-o para a
biblioteca uma vez, de volta para casa na... na... memria desbotada. Percy
bateu com o punho do lado de uma estante.
        -- Percy? -- Hazel perguntou gentilmente.
        Ele estava to irritado, to frustrado com suas memrias em falta que
ele queria dar um soco em uma outra estante, mas seus amigos com faces
preocupadas o trouxeram de volta para o presente.
       -- Estou, estou bem, -- ele mentiu. -- S tive tonturas por um
segundo. Vamos encontrar um caminho para o telhado.
        Levou um tempo, mas eles finalmente encontraram uma escada com
acesso ao telhado. No topo estava uma porta com um alarme manual, mas
algum tinha o apoiado aberto com uma cpia de Guerra e Paz.
       L fora, Ella, a harpia, estava encolhida em um ninho de livros
debaixo de um abrigo improvisado de papelo.
        Percy e seus amigos avanaram lentamente, tentando no assust-la.
Ella no deu-lhes qualquer ateno. Ela limpava suas penas e murmurava
baixinho, como se estivesse praticando linhas para uma pea.
       Percy se aproximou um metro e meio e ajoelhou-se. -- Oi. Nos
desculpe por te assustar. Olha, eu no tenho muita comida, mas...
        Ele pegou um pouco do charque macrobitico do bolso. Ella deu um
bote e arrebatou-o imediatamente. Ela se encolheu de volta em seu ninho,

                                                                        232
farejando o charque, mas suspirou e jogou fora. -- N-no de sua mesa. Ella
no pode comer. Triste. Charque seria bom para harpias.
       -- No de sua... Oh, certo, -- Percy disse. -- Isso  parte da
maldio. Voc s pode comer o alimento dele.
           -- Tem que haver uma maneira, -- disse Hazel.
        -- `Fotossntese', -- Ella murmurou. -- `Substantivo. Biologia. A
sntese de materiais orgnicos complexos, foi o melhor dos tempos, foi o
pior dos tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da insensatez'...
           -- O que ela est dizendo? -- Frank sussurrou.
       Percy olhou para o monte de livros ao seu redor. Todos pareciam
velhos e mofados. Alguns tinham preos escritos no marcador nas capas,
como se a biblioteca tivesse se livrado deles em uma liquidao.
           -- Ela est citando livros, -- Percy adivinhou.
       -- `Almanaque do Fazendeiro de 1965,' -- Ella disse. -- `Comece
com animais reprodutores, janeiro vigsimo sexto.'
           -- Ella, -- disse ele, -- voc j leu tudo isso?
      Ela piscou. -- Mais. Mais no andar inferior. Palavras. Palavras
acalmam Ella. Palavras, palavras, palavras.
        Percy pegou um livro ao acaso, uma cpia esfarrapada de A Histria
da Corrida de Cavalos. -- Ella, voc se lembra do, hum, terceiro pargrafo
na pgina 62...
        -- `Secretariat'60, -- disse Ella instantaneamente, -- `favorecido em
trs para um no Derby61 de 1973 em Kentucky, terminou no histrico
permanente de um 59 e dois quintos.'
           Percy fechou o livro. Suas mos tremiam. -- Palavra por palavra.
           -- Isso  incrvel, -- disse Hazel.
           -- Essa  uma galinha gnio, -- Frank concordou.
         Percy se sentia desconfortvel. Ele estava comeando a formar uma
idia terrvel sobre o porqu de Fineu querer capturar Ella, e no era porque
ela tinha arranhado ele. Percy lembrou da linha que ela recitou, Um meio-
sangue dos mais velhos deuses. Ele tinha certeza que era sobre ele.


60
     Secretariat: Famoso cavalo Norte Americano, bastante premiado.
61
     Derby: Nome de um tipo de corrida de cavalos.

                                                                          233
       -- Ella, -- disse ele, -- vamos encontrar uma maneira de quebrar a
maldio. Gostaria disso?
       -- ` impossvel', -- disse ela. -- `Gravado em Ingls por Perry
Como62, de 1970'.
       -- Nada  impossvel, -- disse Percy. -- Agora, olha, eu vou dizer o
nome dele. Voc no tem que fugir. Vamos salv-la da maldio. S
precisamos descobrir uma maneira de vencer... Fineu.
       Ele esperou que ela fugisse, mas ela apenas balanou a cabea
vigorosamente.
         -- N-n-no! No Fineu. Ella  rpida. Muito rpida para ele. M-mas
ele quer p-prender Ella. Ele machuca Ella.
           Ela tentou chegar ao corte em suas costas.
        -- Frank, -- disse Percy, -- voc tem suprimentos de primeiros
socorros?
        -- Aqui. -- Frank trouxe uma garrafa trmica cheia de nctar e
explicou suas propriedades curativas para Ella. Quando ele chegou mais
perto, ela recuou e comeou a gritar. Em seguida, Hazel tentou, e Ella
deixou-a deitar um pouco de nctar nas costas. A ferida comeou a fechar.
           Hazel sorriu. -- V? Assim  melhor.
           -- Fineu  ruim, -- Ella insistiu. -- E cortadores de grama. E queijo.
        -- Absolutamente, -- Percy concordou. -- Ns no vamos deix-lo
ferir voc novamente. Precisamos descobrir como engan-lo, no entanto.
Vocs harpias devem conhec-lo melhor do que ningum. Existe alguma
maneira de podermos engan-lo?
       -- N-no, -- disse Ella. -- `Os truques so para crianas. 50 truques
para ensinar seu co, por Sophie Collins, ligue para o nmero 6-3-6...'
        -- Ok, Ella. -- Hazel falou com uma voz suave, como se ela
estivesse tentando acalmar um cavalo. -- Mas ser que Fineu tem pontos
fracos?
           -- Cego. Ele  cego.
           Frank revirou os olhos, mas Hazel continuou pacientemente:
           -- Certo. Alm disso?


62
     Perry Como: Cantor e apresentador de televiso norte-americano.

                                                                            234
       -- `Probabilidade,' -- disse ela. -- `Jogos de azar. Dois para um.
Probabilidades ruins. Pagar ou desistir.'
       O entusiasmo de Percy aumentou. -- Voc quer dizer que ele  um
jogador?
       -- Fineu v-v coisas grandes. Profecias. Fatos. Coisas de deuses.
No pequenas coisas. Aleatrias. Emocionantes. E ele  cego.
       Frank coou o queixo. -- Qualquer idia do que isso significa?
       Percy assistiu a harpia bicar seu vestido de aniagem. Ele sentiu pena
dela, mas ele tambm estava comeando a perceber o quo inteligente ela
era.
         -- Eu acho que eu entendi, -- disse ele. -- Fineu v o futuro. Ele
sabe de toneladas de eventos importantes. Mas ele no pode ver as coisas,
como pequenas ocorrncias aleatrias, jogos espontneos do acaso. O que
torna o jogo emocionante para ele. Se ns pudermos tent-lo a fazer uma
aposta...
        Hazel balanou a cabea lentamente. -- Voc quer dizer que se ele
perder, ele tem que nos dizer onde est Tnatos. Mas o que temos para
apostar? Que tipo de jogo que ns jogamos?
        -- Algo simples, com altos riscos, -- disse Percy. -- Como duas
escolhas. Uma voc vive, outra voc morre. E o prmio tem que ser algo
que Fineu quer... Quer dizer, alm de Ella. Isso est fora do jogo.
        -- Viso, -- Ella murmurou. -- A viso  boa para os homens
cegos. Cura... no, no. Gaia no vai fazer isso por Fineu. Gaia mantm
Fineu c-cego, dependente de Gaia. Sim.
       Frank e Percy trocaram um olhar significativo.
       -- Sangue de Grgona, -- disseram eles ao mesmo tempo.
       -- O qu? -- Hazel perguntou.
       Frank mostrou os dois frascos de cermica que ele tinha recuperado
do Pequeno Tibre.
       -- Ella  um gnio, -- disse ele. -- A no ser que a gente morra.
       -- No se preocupe com isso, -- disse Percy. -- Eu tenho um plano.




                                                                           235
                              XXVIII




O VELHO ESTAVA BEM ONDE eles o haviam deixado, no meio do
estacionamento de caminhes-lanchonete. Ele estava sentado no banco de
piquenique com suas pantufas de coelho, comendo um prato de espetinho de
churrasco gorduroso. Seu cigarro estava de um lado. Seu roupo estava
manchado com molho de churrasco.
       -- Bem vindos de volta! -- ele gritou alegremente. -- Ouvi asinhas
nervosas batendo. Trouxeram minha harpia?
       -- Ela est aqui, -- Percy disse. -- Mas no  sua.
        Fineu chupou a gordura dos dedos. Seus olhos leitosos pareciam se
fixar em um ponto bem acima da cabea de Percy.
        -- Deixe-me ver... bem, na verdade, sou cego, ento no posso ver.
Vocs vieram para me matar, ento? Se for, boa sorte para terminar sua
jornada.
       -- Vim para fazer uma aposta.
        A boca do velho se contraiu. Ele abaixou o espetinho e se inclinou
na direo de Percy.
        -- Uma aposta... que interessante. Uma informao em troca da
harpia? O vencedor leva tudo?
       -- No, -- Percy disse. -- A harpia no faz parte do acordo.
       Fineu riu.
       -- Srio? Talvez voc no entenda o valor que ela tem.
       -- Ela  uma pessoa, -- Percy disse. -- No est  venda.
         -- Ah, faa-me o favor! Voc  do acampamento romano, no ?
Roma foi construda pela escravido. No tente ser grande e poderoso
comigo. Alm disso, ela nem mesmo  humana. Ela  um monstro. Um
esprito do vento. Uma escrava de Jpiter.



                                                                      236
       Ella grasnou. S para traz-la para o estacionamento tinha sido um
enorme desafio, mas agora ela comeava a recuar, murmurando:
       -- `Jpiter. Hidrognio e hlio. Sessenta e trs satlites.' Sem
escravos. No.
        Hazel colocou o brao em volta das asas de Ella. Ela parecia ser a
nica que podia tocar na harpia sem causar um monte de gritos e contores.
       Frank ficou do lado de Percy. Ele tinha sua lana pronta, como se o
velho pudesse atac-los.
       Percy mostrou os frascos de cermica.
         -- Tenho uma aposta diferente. Conseguimos duas garrafas de
sangue de grgona, uma cura e a outra mata. Elas parecem exatamente
iguais, e nem mesmo ns sabemos qual  qual. Se voc escolher a certa ela
pode curar sua cegueira.
       Fineu ergueu a mo ansioso.
       -- Deixe-me senti-las, deixe-me cheir-las!
       -- No to rpido, -- Percy disse. -- Primeiro tem que concordar
com nossos termos.
        -- Termos -- Fineu respirava superficialmente. Percy percebia que
ele estava morrendo de vontade de aceitar a oferta. -- Profecia e viso, eu
seria invencvel! Eu podia ser dono dessa cidade. Construiria meu palcio
aqui, com caminhes de comida por todos os lugares. Eu mesmo poderia
capturar essa harpia!
       -- N-no -- Ella disse nervosa. -- No, no, no.
         difcil rir como um vilo quando se est vestindo chinelos de
coelhinhos cor-de-rosa, mas Fineu fez o melhor que pode.
       -- Muito bem, semideus, quais so seus termos?
       -- Pode escolher o frasco, -- Percy disse. -- Sem tirar a rolha, sem
dar uma cheirada antes de decidir.
       -- Isso  injusto, sou cego! -- Fineu disse.
       -- E eu no tenho sua sensibilidade de cheiro. -- Percy disse. --
Pode segurar os frascos, e eu juro pelo Rio Estige que so idnticos. So
exatamente como te disse: sangue de grgona, um frasco do lado esquerdo
do monstro, um do direito. E juro que nenhum de ns sabe qual  qual.
       Percy olhou para Hazel.


                                                                       237
        -- H, voc  nossa expert do Mundo Inferior. Com todas essas
coisas estranhas saindo da morte, o juramento no Rio Estige ainda funciona?
-- Percy disse.
       -- Sim -- ela disse, sem hesitar. -- Para quebrar esse voto... Bem,
melhor no fazer isso. Coisas piores que a morte acontecem.
          Fineu coou sua barba.
       -- Ento devo escolher qual frasco tomar e voc deve beber o outro.
Juramos beber ao mesmo tempo?
          -- Tudo bem. -- disse Percy.
        -- O perdedor obviamente morre, -- Fineu disse. -- Esse tipo de
veneno me impediria de voltar  vida, por uma vez pelo menos. Minha
essncia seria dispersa e degradada. Ento estou me arriscando muito.
         -- Mas se vencer, pode conseguir tudo, -- Percy disse. -- Se eu
morrer, meus amigos juram te deixar em paz e no se vingarem. Algo que
nem mesmo Gaia te daria. -- A expresso do velho azedou. Percy achou que
acertou em cheio. Fineu queria ver. Por mais que Gaia o tivesse dado coisas,
ele se ressentia por ainda ser cego.
       -- Se eu perder, estarei morto -- disse o velho -- incapaz de te dar a
informao. Como isso vai ajud-lo?
        Percy ficou aliviado de ter falado sobre isso com seus amigos antes.
Frank tinha sugerido a soluo.
        -- Voc vai escrever a localizao da toca de Alcioneu antes da
hora, -- Percy disse. -- Deixe com voc, mas jure pelo Rio Estige que ser
especfico e preciso. Voc tambm tem que jurar que, se morrer, as harpias
vo estar livres da maldio.
        -- Esses so altos riscos, -- Fineu grunhiu. -- Est diante da morte,
Percy Jackson. No seria mais fcil voc simplesmente me passar a harpia?
          -- No  uma opo.
          Fineu sorriu lentamente.
         -- Ento est comeando a entender seu valor. Assim que tiver
minha viso, vou captur-la eu mesmo, sabe. Seja l quem controla essa
harpia... bem, j fui um rei. Esse acordo pode me fazer rei novamente.
          -- Est sendo confiante demais -- Percy disse. -- Temos um
acordo?
          Fineu tocou seu nariz pensativo.

                                                                        238
         -- No posso prever o desfecho,  irritante como isso funciona. Um
risco completamente inesperado. Faz o futuro ficar nebuloso. Mas posso te
dizer isso, Percy Jackson: se sobreviver hoje, no vai gostar do seu futuro.
Um grande sacrifcio est por vir e voc no ter coragem para enfrent-lo.
Isso vai te custar caro, vai custar caro ao mundo todo. Ser bem mais fcil se
voc escolher o veneno. -- A boca de Percy azedou como o gosto de ch
verde. Ele queria pensar que o velho s estava brincando com a mente dele,
mas algo na predio era verdade. Ele se lembrou do aviso de Juno quando
tinha escolhido ir para o Acampamento Jpiter: Voc vai sentir dor, misria,
e perder tudo o que j conheceu. Mas ter uma chance de salvar seus velhos
amigos e sua famlia.
         Nas rvores ao redor do estacionamento, as harpias se reuniram para
assistir como se sentissem o que estava em jogo.
        Frank e Hazel estudaram o rosto de Percy com preocupao. Ele
assegurou-os que a probabilidade no era pior que 50 em 50. Ele tinha um
plano. Mas  claro que o plano podia sair pela culatra. Sua chance de
sobrevivncia podia ser de cem por cento - ou zero. Ele no havia
mencionado isso.
        -- Temos um acordo? -- Percy disse novamente. Fineu sorriu.
        -- Juro pelo Rio Estige que concordo com seus termos. Bem como
os descreveu. Encontre algo em que eu possa escrever. Frank Zhang, voc 
descendente de um Argonauta. Acredito na sua palavra. Se eu vencer, voc e
sua amiga Hazel juram me deixar em paz, e no tentar a vingana?
        As mos de Frank estavam to cerradas que Percy achou que ele
quebraria sua lana de ouro, mas murmurou mesmo assim:
        -- Juro pelo Rio Estige.
        -- Tambm juro -- disse Hazel.
        -- Juro -- Ella murmurou. -- Juro no pela lua, mas pela lua
inconstante.
        Fineu riu.
      -- Nesse caso, encontre algo no qual eu possa escrever. Vamos
comear.


       Frank emprestou um guardanapo e uma caneta de um vendedor do
caminho de comida. Fineu rabiscou alguma coisa no guardanapo e o
colocou no bolso do roupo.

                                                                         239
        -- Juro que essa  a localizao da toca de Alcioneu. No que v
viver o bastante para ler isso. -- Percy tirou sua espada e toda a comida da
mesa. Fineu sentou de um lado e Percy do outro. Fineu levantou as mos.
       -- Deixe-me sentir os frascos.
       Percy olhou para as colinas distantes. Ele imaginou um rosto
sombrio de uma mulher dorminhoca. Jogou os pensamentos para longe e
esperou que a deusa estivesse ouvindo.
        -- Certo, Gaia, estou provando seu blefe. Voc disse que sou um
peo valioso. Disse que vai me poupar at chegar ao norte. Quem  mais
valioso para voc, eu ou esse velho? Porque um de ns est prestes a morrer.
       Fineu ergueu as mos em um movimento apreensivo.
       -- Perdendo sua coragem, Percy Jackson? D-me os frascos.
       Percy passou os frascos ao velho.
        O velho comparou o peso. Ele correu os dedos pela superfcie de
cermica. Ento as colocou gentilmente na mesa com uma mo em cada. Um
terremoto suave sacudiu o cho. Uma sacudida suficiente para fazer os
dentes de Percy baterem. O frasco da esquerda pareceu tremer mais
levemente que o da direita. Fineu sorriu maliciosamente e passou a mo ao
redor do frasco da esquerda.
       -- Voc  um tolo, Percy Jackson. Eu escolho este aqui. Agora
vamos tomar.
        Percy pegou o frasco da direita, seus dentes batendo. O velho
levantou seu frasco.
        -- Um brinde aos filhos de Netuno. -- Os dois destamparam e
esvaziaram os frascos. Imediatamente Percy sentiu um gosto parecido com
gasolina.
       -- Oh, deuses! -- Hazel disse atrs dele.
       -- No! -- Ella disse. -- No, no, no!
       A viso de Percy ficou turva, pde ver Fineu sorrindo de triunfo.
Sentou-se reto piscando os olhos de expectativa.
        -- Sim! -- ele gritou. -- A qualquer segundo minha viso voltar.
-- Percy tinha escolhido errado. Ele se sentiu idiota de ter tomado tanto
risco. Sentiu como se cacos de vidro tivessem ido parar no seu estmago e
estavam passando pelo intestino.



                                                                       240
          -- Percy! -- Frank segurou seus ombros. -- Percy, voc no pode
morrer!
        Ele recuperou o flego... e de repente sua viso clareou. Na mesma
hora Fineu se encurvou como se tivesse sido socado.
        -- Voc... voc no pode! -- o velho gemeu. -- Gaia, voc...
voc... -- Ele cambaleou e tropeou para longe da mesa segurando o
estmago. -- Sou muito valioso! -- Vapor saiu de sua boca. Um fraco vapor
amarelado saiu das orelhas. -- Injustia! -- ele gritou. -- Voc trapaceou!
-- Ele tentou pegar o papel do bolso de seu manto. Seus dedos viraram
areia.
        Percy se levantou cambaleando. Ele no se sentia curado ou algo do
tipo. Sua memria no tinha voltado, mas a dor tinha parado.
       -- Ningum trapaceou, -- Percy disse. -- Voc fez sua escolha por
si mesmo. E mantenho seu juramento.
         O rei cego gemeu de agonia. Ele lentamente se desfez em um
crculo, at que tudo o que havia sobrado era seu roupo de banho manchado
e um par de pantufas de coelho.
        -- Esses -- Frank disse -- so os despojos de guerra mais nojentos
que j vi.
       Uma voz de mulher falou na mente de Percy. Uma troca, Percy
Jackson. Era um sussurro sonolento, com uma pitada de admirao. Voc me
forou a escolher, e voc  mais importante para meus planos do que o
velho vidente. Mas no pressione sua sorte. Quando sua morte chegar,
prometo que vai ser bem mais dolorosa do que sangue de grgona.
       Hazel cutucou o roupo com sua espada. No havia nada l --
nenhum sinal de que Fineu estivesse tentando se regenerar. Ela olhou para
Percy com admirao.
          -- Essa foi a coisa mais corajosa que j vi, ou a mais estpida.
          Frank balanou a cabea em descrena.
        -- Percy, como voc soube? Tinha quase certeza que voc tinha
escolhido o veneno.
        -- Gaia, -- Percy disse. -- Ela me quer vivo para fazer isso no
Alasca. Ela acha... no tenho certeza. Ela acha que pode me usar como parte
de seu plano. Ela influenciou Fineu a escolher o frasco errado.
          Frank encarou com horror os restos do velho.


                                                                             241
        -- Gaia preferiu matar seu prprio criado a voc?  isso o que voc
est dizendo?
       -- Planos -- Ella murmurou. -- Planos e tramas. A dama no cho.
Grandes planos para Percy. Carne em conserva macrobitica para Ella.
           Percy entregou o saco de carne em conserva para ela, que grasnou de
alegria.
      -- No, no, no, -- ela murmurou, meio cantando. -- Fineu, no.
Comida e palavras para Ella, sim.
        Percy se agachou sobre o roupo e puxou a anotao do bolso do
velho. Lia-se: GELEIRA HUBBARD.
           Todo aquele risco por duas palavras. Ele passou a anotao para
Hazel.
       -- Sei onde  -- ela disse. --  bem famoso. Mas temos um longo
caminho pela frente.
        Nas rvores ao redor do estacionamento, as outras harpias
finalmente superaram o choque. Elas grasnaram com animao e voaram a
noroeste dos caminhes de comida, mergulharam pelas janelas de servio e
invadiram as cozinhas. Os cozinheiros gritaram em vrias lnguas. Os
caminhes balanaram para frente e para trs. Penas e caixas de comida
voaram para todo lugar.
       --  melhor voltarmos para o barco, -- Percy disse. -- Estamos
correndo contra o tempo.




                                                                          242
                                XXIX




ANTES MESMO DE ENTRAR NO BARCO, Hazel se sentiu enjoada.
        Ela no parava de pensar em Fineu com aquele vapor saindo de seus
olhos, e suas mos se desintegrando em p. Percy tinha lhe assegurado de
que ela no era como Fineu. Mas ela era. Ela havia feito algo ainda pior do
que amaldioar as harpias.
       Voc comeou tudo isso! Fineu havia-lhe dito. Se no fosse por voc,
Alcioneu no estaria vivo!
         Conforme o barco acelerava para descer o Rio Columbia, Hazel
tentava esquecer. Ela ajudou Ella a fazer um ninho com os velhos livros e
revistas que haviam pego da caixa de reciclagem na biblioteca.
         Eles no tinham realmente planejado levar a harpia com eles, mas
foi Ella quem decidiu.
        -- Friends, -- ela murmurou. -- `Dez temporadas. 1994  2004'.
Amigos que derreteram Fineu e deram charque para Ella. Ella ir com seus
amigos.
       Agora ela estava empoleirada confortavelmente na proa,
mordiscando pedaos de carne seca e recitando linhas aleatrias de Charles
Dickens e 50 Truques Para Ensinar ao Seu Co.
       Percy ajoelhou-se sobre a proa, orientando-os em direo ao oceano
com seus esquisitos poderes da mente sobre a gua. Hazel se sentou ao lado
de Frank no banco central, com seus ombros se tocando, o que a fez se sentir
confusa como uma harpia.
       Ela se lembrou como Frank a defendeu em Portland, gritando -- Ela
 uma boa pessoa! -- como se ele estivesse pronto para bater em qualquer
um que negasse isso.
        Ela lembrou da maneira como ele havia parecido na encosta em
Mendocino, sozinho em uma clareira de grama envenenada com sua lana na
mo, incndios queimando tudo ao seu redor e as cinzas de trs basiliscos a
seus ps.

                                                                       243
        H uma semana, se algum tivesse sugerido que Frank era uma
criana de Marte, Hazel teria rido. Frank era muito doce e gentil para isso.
Ela sempre se sentiu como a protetora dele por causa de sua falta de jeito e
seu talento para se meter em encrenca.
        Desde que deixaram o acampamento, ela o via de uma forma
diferente. Ele tinha mais coragem do que ela havia percebido. Ele era o
nico que a vigiava. Ela teve que admitir que a mudana foi bem legal.
        O rio estendeu-se para o oceano. O Pax virou-se para o norte.
Enquanto navegavam, Frank manteve seu nimo para cima fazendo piadas
tolas  Por que o Minotauro atravessou a rua? Quantos faunos so precisos
para trocar uma lmpada? Ele indicou edifcios ao longo da costa que o
lembrava de lugares em Vancouver.
       O cu comeou a escurecer, e o mar ficou da mesma cor enferrujada
das asas de Ella. 21 de junho estava se aproximando do fim. A Festa da
Fortuna, que aconteceria  noite, exatamente 72 horas a partir de agora.
 Finalmente Frank tirou um pouco de comida de sua bolsa  refrigerantes e
muffins que ele havia pegado da mesa de Fineu. Ele passou para todos eles.
       -- Est tudo bem, Hazel, -- ele disse calmamente. -- Minha me
costumava dizer que voc no deve tentar cuidar de um problema sozinho.
Mas se voc no quiser falar sobre isso, tudo bem.
        Hazel respirou instvel. Ela tinha medo de falar, no s porque
estava envergonhada. Ela no queria desmaiar e voltar a deslizar pelo seu
passado.
       -- Voc estava certo, -- Ela disse. -- Quando voc sups que eu
vim do Mundo Inferior. Eu sou... Eu sou uma fugitiva. Eu no deveria estar
viva.
         Ela se sentia como se uma represa tivesse se rompido. Inundando a
histria. Ela explicou como sua me havia convocado Pluto e se
apaixonado pelo deus. Ela explicou o desejo de sua me por todas as
riquezas da terra, e como isso havia se tornado a maldio de Hazel. Ela
descreveu sua vida em Nova Orleans  tudo, exceto seu namorado Sammy.
Olhando para Frank, ela no teve coragem de falar sobre isso.
       Ela descreveu a Voz, e como Gaia tinha assumido lentamente a
mente de sua me. Ela explicou como elas haviam se mudado para o Alasca,
como Hazel havia ajudado a levantar o gigante Alcioneu, e como ela tinha
morrido, afundando a ilha na Baa da Ressurreio.



                                                                       244
        Ela sabia que Percy e Ella estavam ouvindo, mas ela falou
principalmente para Frank. Quando ela tinha terminado, estava com medo de
olhar para ele. Ela esperou que ele se afastasse dela, talvez dizendo que ela
era um monstro depois de tudo isso.
       Em vez disso, ele pegou em sua mo. -- Voc se sacrificou para
impedir o gigante de acordar. Eu nunca seria to corajoso assim.
        Hazel sentiu sua pulsao no pescoo. -- No foi coragem. Eu
deixei minha me morrer. Eu cooperei com Gaia por um tempo muito longo.
Eu quase a deixei ganhar.
        -- Hazel, -- disse Percy. -- Voc se levantou contra uma deusa
sozinha. Voc fez o certo... -- Sua voz sumiu, como se tivesse tido um
pensamento desagradvel. -- O que aconteceu no Mundo Inferior... Quero
dizer, depois que voc morreu? Voc deveria ter ido para o Elsio. Mas se
Nico trouxe voc de volta...
        -- Eu no fui para o Elsio. -- Sua boca estava seca como areia. --
Por favor, no pergunte...
        Mas era tarde demais. Ela se lembrou de sua decida nas trevas, sua
chegada s margens do Rio Estige, e sua conscincia comeou a escorregar.
           -- Hazel? -- Frank perguntou.
       -- `Slip Sliding Away63,' -- Ella murmurou. -- Nmero cinco EUA
Paul Simon. Frank, v com ela. Paul Simon disse: Frank, v com ela.
        Hazel no fazia idia do que Ella estava falando, mas sua viso
escurecia enquanto se agarrava na mo de Frank.
        Ela se viu de volta ao Mundo Inferior, e dessa vez Frank estava ao
seu lado.
       Eles estavam no barco de Caronte, atravessando o Estige. Coisas
rodavam nas guas escuras  um balo de aniversrio desinflado, a chupeta
de uma criana, os noivinhos de plstico de um bolo de casamento  tudo
remanescente de curtas vidas humanas.
       -- O-onde ns estamos? -- Frank estava ao seu lado, brilhando com
uma fantasmagrica luz roxa como se tivesse se tornado um Lar.
       --  o meu passado, -- Hazel se sentia estranhamente calma. -- 
apenas um eco. No se preocupe.



63
     Slip Sliding Away: Msica do cantor Paul Simon.

                                                                        245
        O barqueiro se virou e sorriu. Em um momento ele era um bonito
homem africano em um terno de seda cara. No outro, ele era um esqueleto
em um manto negro. -- Claro que voc no deve se preocupar. -- Ele disse
com um sotaque britnico. Ele abordou Hazel, como se no pudesse ver
Frank ao seu lado. -- Eu disse que iria atravess-la, no disse? Tudo bem se
voc no tem nenhuma moeda... No seria apropriado, deixar uma filha de
Pluto no lado errado do rio.
         O barco deslizou para uma praia escura. Hazel levou Frank para os
portes negros do rebo. Os espritos se dividiram para eles, sentindo que
ela era uma filha de Pluto. Crbero, o gigante co de trs cabeas, rosnou na
escurido, mas os deixou passar. Dentro dos portes, eles andaram atravs
de um largo pavilho e pararam na frente de uma arquibancada de jurados.
Trs figuras de tnica preta com mscaras de ouro olharam para Hazel.
        Frank choramingou. -- Quem...?
        -- Eles vo decidir meu destino. -- ela disse. -- Veja.
        Assim como antes, os juzes no lhe perguntaram nada. Eles
simplesmente olharam em sua mente, puxando os pensamentos de sua
cabea e examinando-os como uma coleo de fotos antigas.
        -- Frustrou Gaia, -- o primeiro juiz disse. -- Impediu Alcioneu de
acordar.
        -- Mas ela levantou o gigante primeiramente. -- O segundo juiz
tentou argumentar. -- Culpa da fraqueza, da covardia.
       -- Ela  jovem, -- disse o terceiro juiz. -- A vida da me dela est
pendurada na balana.
       -- Minha me. -- Hazel tomou coragem para falar. -- Onde ela
est? Qual o  o seu destino?
       Os juzes consideraram-na, suas mscaras de ouro congeladas em
um sorriso assustador. -- Sua me...
       A imagem de Marie Levesque brilhou acima dos juzes. Ela estava
congelada no tempo, abraando Hazel enquanto a caverna desmoronava,
com seus olhos fechados.
        -- Uma questo interessante, -- o segundo juiz disse. -- A diviso
da culpa.
        -- Sim, -- disse o primeiro juiz. -- A criana morreu por uma causa
nobre. Ela impediu muitas mortes por atrasar a ascenso do gigante. Ela teve
coragem de ficar contra o poder de Gaia.

                                                                         246
        -- Mas ela agiu tarde demais, -- o terceiro juiz disse com tristeza.
-- Ela  culpada por auxiliar um inimigo dos deuses.
         -- A me a influenciou, -- disse o primeiro juiz. -- A criana pode
ir para o Elsio. Punio eterna para Marie Levesque.
       -- No! -- Hazel gritou. -- No, por favor! Isso no  justo!
        Os juzes inclinaram a cabea em unssono. Mscaras de ouro,
Hazel pensou. Ouro sempre foi amaldioado para mim. Ela perguntou-se se
o ouro estava envenenando o pensamento deles de alguma forma, de modo
que eles nunca dessem um julgamento justo.
        -- Tenha cuidado, Hazel Levesque, -- o primeiro juiz advertiu. --
Voc pode assumir a total responsabilidade? Voc pode colocar essa culpa
na alma da sua me. O que seria razovel. Voc foi destinada a grandes
coisas. Sua me lhe desviou do caminho. Veja o que voc poderia ter sido...
         Outra imagem apareceu sobre os juzes. E Hazel se viu como uma
menininha, sorrindo, com as mos cobertas de tinta. A imagem envelheceu.
Hazel viu-se crescer  o cabelo dela ficando mais longo, com os olhos
tristes. Ela se viu em seu dcimo terceiro aniversrio, passeando atravs de
campos em seu cavalo emprestado. Sammy ria enquanto corria atrs dela:
Do que voc est correndo? Eu no sou to feio, sou? Ela se viu no Alasca,
caminhando pela Third Street na neve e na escurido em seu caminho de
volta para casa.
        Ento a imagem envelheceu ainda mais. Hazel se viu com vinte
anos. Ela se parecia muito com sua me, seus cabelos tranados em volta da
cabea, seus olhos dourados piscavam com divertimento. Ela usava um
vestido branco  um vestido de noiva? Ela estava sorrindo to
calorosamente, Hazel sabia instintivamente que ela devia estar olhando para
algum especial  algum que ela amava.
       A viso no a fez se sentir amarga. Ela nem mesmo queria saber
com quem ela teria se casado. Em vez disso, ela pensou: Talvez minha me
pudesse ter se parecido com isso se tivesse deixado sua raiva ir embora, se
Gaia no tivesse enrolado ela.
       -- Voc perdeu a vida, -- disse o primeiro juiz simplesmente. --
Circunstncias especiais. Elsio para voc. Punio para sua me.
       -- No, -- disse Hazel. -- No, no foi tudo culpa dela. Ela foi
enganada. Ela me amava. E no final, ela tentou me proteger.
       -- Hazel, -- Frank cochichou -- O que voc est fazendo?



                                                                       247
        Ela apertou sua mo, incentivando-o a ficar em silncio. Os juzes
no lhe deram ateno.
        Finalmente, o segundo juiz suspirou. -- Sem resoluo. Nada
suficientemente bom. Nada suficientemente mau.
       -- A culpa deve ser dividida, -- o primeiro juiz concordou. --
Ambas as almas sero mandadas para o Campo de Asfdelos. Sinto muito,
Hazel Levesque. Voc poderia ter sido uma herona.
       Ela passou pelo pavilho, para os campos amarelos sem fim. Ela
levou Frank atravs de uma multido de espritos para um bosque de
choupos negros.
       -- Voc desistiu do Elsio, -- Frank disse espantado. -- Para que
sua me no sofresse?
       -- Ela no merecia a Punio. -- Hazel disse.
       -- Mas... o que acontece agora?
       -- Nada, -- Hazel disse. -- Nada... por toda a eternidade.
       Eles vagaram sem rumo. Espritos ao seu redor faziam barulhos
como morcegos  perdidos e confusos, eles no se lembravam de seu
passado, nem mesmo seus prprios nomes.
        Hazel se lembrava de tudo. Talvez tenha sido porque ela era filha de
Pluto, mas ela nunca se esqueceu de quem ela era, ou o porqu dela estar
ali.
        -- Lembrar da minha vida aps a morte foi difcil, -- ela disse a
Frank, que ainda flutuava ao lado dela como um Lar roxo e brilhante. --
Muitas vezes eu tentei ir at o palcio de meu pai... -- Ela apontou para um
grande castelo negro  distncia. -- Eu nunca pude alcan-lo. No posso
deixar o Campo de Asfdelos.
       -- Alguma vez voc j viu a sua me novamente?
        Hazel balanou a cabea. -- Ela no me reconheceria, mesmo se eu
pudesse encontr-la. Esses espritos...  como um sonho eterno para eles, um
transe sem fim. Isso  o melhor que pude fazer por ela.
       O tempo no significava nada, mas depois de uma eternidade, ela e
Frank sentaram-se debaixo de um choupo negro, ouvindo os gritos dos
Campos de Punio.
        distncia, sob a luz do sol artificial do Elsio, a Ilha dos Bem-
Aventurados brilhava como cintilantes esmeraldas em um lago azul. Velas

                                                                       248
brancas atravessavam a gua e as almas dos grandes heris se aqueciam nas
praias em uma felicidade perptua.
        -- Voc no merecia o Asfdelos, -- Frank protestou. -- Voc
deveria estar com os heris.
        -- Isso  apenas um eco, -- disse Hazel. -- Vamos acordar, Frank.
Isso s parece para sempre.
       -- No  esse o ponto! -- ele protestou. -- Sua vida foi tirada de
voc. Voc ia crescer e ser uma mulher linda. Voc...
        Seu rosto ficou em um tom mais escuro de roxo. -- Voc iria se
casar com algum. -- Ele disse calmamente. -- Voc poderia ter tido uma
boa vida. Voc perdeu tudo isso.
         Hazel engoliu um soluo. No tinha sido to difcil nos Asfdelos na
primeira vez, quando estava sozinha. Ter Frank com ela, a fez se sentir
muito triste. Mas ela estava determinada a no ficar com raiva sobre o seu
destino.
        Hazel pensou em sua imagem quando adulta, sorrindo e apaixonada.
Ela sabia que no seria necessria muita amargura para azedar sua expresso
e fazer dela exatamente como a "Rainha Marie". Eu mereo o melhor, sua
me dizia. Hazel no podia permitir se sentir assim.
        -- Me desculpe, Frank, -- ela disse. -- Eu acho que sua me estava
errada. Compartilhar segredos no os torna mais fceis de carregar.
         -- Comigo torna. -- Frank enfiou a mo no bolso do casaco. -- Na
verdade... j que temos a eternidade para conversar, tem algo que eu queria
te dizer.
       Ele trouxe para fora um objeto enrolado em um pano, do mesmo
tamanho de um par de culos. Quando ele o desdobrou, Hazel viu um
pedao de madeira meio queimado, brilhando com uma luz roxa.
        Ela franziu o cenho. -- O que ... -- Ento a verdade bateu, to fria
e spera como uma rajada de vento de inverno. -- Fineu disse que sua vida
depende de um pedao de madeira queimada...
        --  verdade, -- disse Frank. -- Esta  a minha vida, literalmente.
       Ele disse para ela como a deusa Juno tinha aparecido quando ele era
um beb, como sua av tinha arrancado um pedao de madeira da lareira.
       -- Vov disse que eu tinha talentos, alguns talentos que recebemos
do nosso ancestral, o Argonauta. Isso, e meu pai sendo Marte... -- Ele deu
de ombros. -- Eu tenho que ser muito forte.  por isso que minha vida pode

                                                                         249
queimar to facilmente. ris disse que eu iria morrer segurando isso,
assistindo-o queimar.
        Frank virou o pedao de madeira em seus dedos. Mesmo em sua
fantasmagrica forma roxa, ele parecia to grande e robusto. Hazel imaginou
que ele seria enorme quando fosse adulto  to forte e saudvel como um
touro. Ela no podia acreditar que sua vida dependia de algo to pequeno
como um pedao de madeira.
        -- Frank, como voc pode carregar isso com voc? -- perguntou
ela. -- Voc no tem medo que alguma coisa acontea com isso?
        --  por isso que estou lhe dizendo. -- Ele estendeu a madeira. --
Eu sei que  pedir demais, mas voc poderia guardar isso para mim?
       A cabea de Hazel girava. At agora, ela aceitou a presena de Frank
em seu desmaio. Ela o levou junto, revivendo entorpecida o seu passado,
porque parecia justo lhe mostrar a verdade.
       Mas agora ela se perguntava se Frank estava realmente
experimentando isso com ela, ou se ela estava apenas imaginando sua
presena. Por que ele confiara sua vida  ela?
        -- Frank, -- ela disse, -- voc sabe quem eu sou. Eu sou filha de
Pluto. Tudo em que eu toco d errado. Por que voc confia em mim?
       -- Voc  a minha melhor amiga. -- Ele colocou a madeira nas
mos dela. -- Eu confio em voc mais do que em ningum.
       Ela queria dizer que ele estava cometendo um erro. Ela queria
devolver a madeira para ele. Mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa,
uma sombra caiu sobre eles.
       -- Nosso passeio termina aqui, -- Frank adivinhou.
        Hazel tinha quase esquecido que ela estava revivendo seu passado.
Nico di Angelo estava sobre ela com o seu sobretudo preto, sua espada de
ao Estgio, ao seu lado. Ele no notou Frank, mas fechou seus olhos em
Hazel, ele parecia poder ler toda a sua vida.
       -- Voc  diferente, -- disse ele. -- Uma criana de Pluto. Voc se
lembra de seu passado.
       --Sim, -- disse Hazel. -- E voc est vivo.
        Nico estudou-a como se estivesse lendo um cardpio, decidindo ou
no fazer seu pedido.



                                                                       250
        -- Eu sou Nico di Angelo, -- disse ele. -- Eu vim  procura de
minha irm. Morta, tenho sentido sua falta, ento eu pensei... eu pensei que
poderia trazer ela de volta e ningum notaria.
       -- De volta  vida? -- Hazel perguntou. -- Isso  possvel?
        -- Deveria ser. -- Nico suspirou. -- Mas ela se foi. Ela escolheu
renascer para uma nova vida. Estou muito atrasado.
       -- Sinto muito.
        Ele estendeu a mo. -- Voc  minha irm tambm. Voc merece
outra chance. Venha comigo.




                                                                       251
                                  XXX




-- HAZEL, -- PERCY ESTAVA BALANANDO SEU OMBRO. --
Acorde. Ns chegamos a Seattle.
         Ela sentou-se tonta, com os olhos semicerrados no sol da manh. --
Frank?
         Frank gemeu, esfregando os olhos. -- Ns acabamos de... eu acabei
de...?
       -- Vocs dois desmaiaram, -- Percy disse. -- Eu no sei por que,
mas Ella me disse para no me preocupar. Ela disse que vocs estavam...
compartilhando?
        -- Compartilhando, -- Ella concordou. Ela se agachou na popa,
alisando suas penas com seu dente, o que no parecia uma forma muito
eficiente de higiene pessoal. Ela cuspiu algumas penas vermelhas. --
Compartilhar  bom. Sem mais apages. Maior apago americano, 14 de
agosto de 2003. Hazel compartilhou. Sem mais apages.
        Percy coou a cabea. -- ... ns estamos tendo conversas assim 
noite toda. Eu ainda no sei sobre o que ela esta falando.
       Hazel pressionou sua mo contra o bolso do casaco. Ela pode sentir
o pedao de lenha, enrolado em um pano.
         Ela olhou para Frank. -- Voc estava l.
        Ele balanou a cabea. Ele no disse nada, mas sua expresso era
clara: Ele queria dizer o que ele disse. Ele queria que ela mantivesse o
pedao de estopa seguro. Ela no tinha certeza se ela se sentia honrada ou
com medo. Ningum jamais tinha confiado a ela algo to importante.
       -- Espera, -- Percy disse. -- Voc quer dizer que vocs
compartilharam um desmaio? Vocs dois vo desmaiar de agora em diante?
        -- No, -- Ella disse. -- No, no e no. Sem mais desmaios. Mais
livros para Ella. Livros em Seattle.


                                                                       252
        Hazel olhava por cima da gua. Eles estavam navegando atravs de
uma grande baia, fazendo o seu caminho em direo a um aglomerado de
edifcios no centro da cidade. Bairros atravs das colinas. Da mais alta, subia
uma torre branca estranha com um disco no topo, como uma nave espacial
dos antigos filmes de Flash Gordon que Sammy costumava amar.
        Sem mais desmaios? Hazel pensou. Depois de sofrer com eles por
tanto tempo, a ideia parecia boa demais para ser verdade.
         Como Ella podia ter certeza que eles acabaram? Agora Hazel se
sentia diferente... Mais presa ao cho, como se ela no estivesse mais
tentando viver em dois perodos. Todo msculo no seu corpo comeou a
relaxar. Ela sentiu como se ela finalmente tirasse um casaco de chumbo que
ela estivera usando por meses. De algum modo, ter Frank com ela durante o
apago ajudou.
        Ela reviveu seu passado inteiro, at chegar direto no presente.
Nenhum obstculo que ela tivesse que se preocupar no futuro  assumindo
que ela tivesse um.
       Percy dirigiu o barco para o cais do centro da cidade. Conforme eles
chegavam mais perto, Ella arranhava nervosamente no seu ninho de livros.
       Hazel comeou a se sentir nervosa tambm. Ela no tinha certeza do
por qu. Era um dia ensolarado, e Seattle parecia um lugar bonito, com
enseadas e pontes, ilhas arborizadas pontilhando a baia, montanhas cobertas
de neve crescendo na distncia. Ainda assim, ela sentia como se estivesse
sendo vigiada.
        -- Hum... porque estamos parando aqui? -- ela perguntou.
       Percy lhes mostrou o anel de prata em seu colar. -- Reyna tem uma
irm aqui. Ela me pediu para encontr-la e mostrar isso.
        -- Reyna tem uma irm? -- Frank perguntou, como se a ideia o
assustasse.
       Percy assentiu. -- Aparentemente, Reyna pensa que a irm dela
pode mandar ajuda para o acampamento.
        -- Amazonas, -- Ella murmurou. -- Pas das Amazonas. Hmm. Ella
vai procurar bibliotecas ao invs. No gosto de Amazonas. Cerca. Escudos.
Espadas. Pontudo. Ai.
        Frank pegou sua lana. -- Amazonas? Como... mulheres guerreiras?




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        --      Isso faria sentido, -- Disse Hazel. -- Se a irm de Reyna
tambm  filha de Belona, eu posso ver porque ela se juntou as Amazonas.
Mas...  seguro para ns estarmos aqui?
      -- No, no, no, -- Ella disse. -- Pegue livros ao invs disso. Sem
Amazonas.
       -- Ns temos que tentar, -- Percy disse. -- Eu prometi a Reyna.
Alm disso, Pax no esta indo muito bem. Eu tenho forado-o bastante.
       Hazel olhou para seu ps. gua estava vazando entre o assoalho. --
Oh.
       -- Sim, -- Percy concordou. -- Ns vamos precisar concertar isso
ou encontrar um barco novo. Ella, voc faz ideia de onde podemos encontrar
as Amazonas?
      -- E, hum, -- Frank disse nervosamente, -- elas no, tipo, matam os
homens que aparecem, no ?
         Ella olhou para o cais, s algumas centenas de metros adiante. --
Ella vai encontrar amigos mais tarde. Ella vai voar agora.
       E ela voou.
        -- Bem... -- Frank pegou uma nica pena vermelha no ar. -- Isso 
encorajador.
         Eles ancoraram no cais. Eles mal tiveram tempo para descarregar
suas coisas antes do Pax estremecer e quebrar em pedaos. A maior parte
dele afundou, deixando apenas uma borda com um olho pintado e outro com
a letra P balanando nas ondas.
       --Acho que no vamos concert-lo, -- Hazel disse. -- E agora?
        Percy olhou para as colinas do centro de Seattle. -- Torcemos para
que as Amazonas nos ajudem.
       Eles exploraram por horas. Eles encontraram alguns chocolates em
uma loja de doces. Eles compraram um pouco de caf to forte que a cabea
de Hazel parecia com um gongo vibrando. Eles param em um caf e
comeram uns sanduches de salmo grelhado excelentes.
        Uma vez eles viram Ella voando entre os arranha-cus, um livro em
cada pata. Mas eles no encontraram as Amazonas. Durante todo o tempo,
Hazel estava preocupada com o tempo passando. 22 de Junho agora, e o
Alasca ainda estava muito longe.



                                                                       254
       Finalmente eles foram para o sul do centro da cidade, em uma praa
cercada de pequenos prdios de vidro e tijolos. Os nervos de Hazel
comearam a formigar. Ela olhou ao redor, certa de que estava sendo
observada.
       -- Ali, -- ela disse.
        O prdio na sua esquerda tinha uma nica palavra gravada nas portas
de vidro: AMAZON.
        -- Oh, -- Frank disse. -- Uh, no, Hazel. Isso  uma coisa moderna.
Isso  uma empresa, certo? Eles vendem coisas na Internet. Eles no so
Amazonas de verdade.
       -- A no ser... -- Percy andou atravs das portas. Hazel tinha um
sentimento ruim sobre esse lugar, mas ela e Frank o seguiram.
        O saguo era como um aqurio vazio  paredes de vidro, um piso
preto brilhante, algumas plantas e mais nada. Contra a parede de trs, uma
escada de pedra negra subia e descia. No meio da sala estava uma mulher
jovem em um terninho preto, com longos cabelos ruivos e um fone de
ouvido da segurana. Seu crach dizia Kinzie. Seu sorriso era
suficientemente amigvel, mas seus olhos lembravam Hazel dos policiais de
Nova Orleans que costumavam patrulhar o Bairro Francs durante a noite.
Eles sempre pareciam olhar por dentro de voc, como se estivessem
pensando quem poderiam atacar em seguida.
       Kinzie acenou para Hazel, ignorando os rapazes. -- Posso ajud-los?
       --Hum... Espero que sim, -- Disse Hazel. -- Ns estamos
procurando por Amazonas.
        Kinzie olhou para a espada de Hazel, e para a lana de Frank, apesar
de no deverem ser visveis atravs da nvoa.
       -- Essa  a base principal das Amazonas, -- ela disse,
cuidadosamente. -- Vocs tem um compromisso com alguma, ou...
       -- Hylla, -- Percy interrompeu. -- Ns estamos procurando por
uma garota chamada...
        Kinzie se mexeu to rpido, que os olhos de Hazel quase no
conseguiram acompanhar. Ela chutou Frank no peito e o mandou voando
pelo saguo. Ela puxou uma espada, e derrubou Percy com a parte chata da
lmina, e pressionou o ponto em baixo do queixo.
       Tarde demais, Hazel sacou sua espada. Mais uma dzia de meninas
em preto inundaram a escadaria, espadas em mo e renderam ela.

                                                                       255
         Kinzie olhou para Percy. -- Primeira regra: Homens no falam sem
permisso. Segunda regra, invadir o nosso territrio  punvel com a morte.
Vocs vo encontrar a Rainha Hylla, tudo bem. Ela ser a que decidir o seu
destino.
         As amazonas confiscaram as armas deles e marcharam para baixo
tantos lances de escada que Hazel perdeu a conta.
        Finalmente eles surgiram em uma caverna to grande que poderia ter
acomodado dez colgios, quadras esportivas e tudo. Luzes fluorescentes
brilhavam no teto de pedra. Correias percorriam a sala toda, como tobogs,
carregando caixas para todo lado. Prateleiras de metal se estendendo
indefinidamente, repleta de caixas de mercadoria. Guindastes e braos
robticos, dobrando caixas de papelo, embalando encomendas. Algumas
das prateleiras eram to altas que elas eram acessveis somente atravs de
escadas e passarelas, que corriam pelo teto como arquibancadas de teatro.
       Hazel se lembrou de noticirios que ela viu quando criana. Ela
sempre ficara impressionada pelas cenas de fbricas construindo avies e
armas para a guerra  centenas e centenas de armas saindo da fbrica todo
dia. Mas isso no era nada comparado a isto, e quase todo o trabalho feito
por computadores e robs. Os nicos humanos que Hazel conseguia ver
eram algumas mulheres da segurana patrulhando as passarelas, e alguns
homens de laranja, como uniformes de priso, dirigindo empilhadeiras pelos
corredores, entregando mais caixas. Os homens usavam colares de ferro no
pescoo.
        -- Vocs tm escravos? -- Hazel sabia que devia ser perigoso falar,
mas ela estava to ultrajada que ela no conseguiu evitar.
       -- O homem? -- Kinzie disse. -- Eles no so escravos. Apenas
conhecem seu lugar. Agora, ande.
        Eles andaram tanto que o p de Hazel comeou a doer. Ela pensou
que eles deviam estar chegando ao final do armazm quando Kinzie abriu
um grande conjunto de portas duplas e os deixou entrar em outra caverna,
to grande quando a primeira.
       -- O Mundo Inferior no  to grande, -- Hazel se queixou, o que
provavelmente no era verdade, mas parecia para os seus ps.
       Kinzie sorriu, pretensiosa. -- Voc admira nossa base de operaes?
Sim, nosso sistema de distribuio  mundial. Levou muitos anos e boa parte
de nossa fortuna para construir. Agora, finalmente, estamos tendo algum
lucro. Os mortais no percebem que esto financiando o reino das
Amazonas. Logo, ns seremos mais ricas que qualquer nao mortal. Ento

                                                                       256
 Quando os fracos mortais dependerem de ns em tudo  a revoluo
comear.
          -- O que vocs vo fazer? -- Frank disse. -- Cancelar o frete
grtis?
        Um guarda bateu o punho da espada no seu intestino. Percy tentou
ajudar, mas dois outros guardas o empurraram de volta.
       -- Voc vai aprender a ter respeito, -- Kinzie disse. -- So machos
como voc que arruinaram o mundo mortal. A nica sociedade harmoniosa 
uma governada pelas mulheres. Ns somos mais fortes, mais espertas...
        -- Mais humildes, -- Percy disse. Os guardas tentaram atingi-lo,
mas ele se esquivou.
         -- Parem com isso! -- Hazel disse. Surpreendentemente, os guardas
ouviram. -- Hylla vai nos julgar, certo? -- Hazel perguntou. -- Ento nos
leve at ela. Ns estamos perdendo tempo.
       Kinzie assentiu. -- Talvez voc esteja certa. Ns temos problemas
mais importantes. E tempo... tempo  definitivamente um problema.
          -- O que voc quer dizer? -- Hazel perguntou. Um guarda grunhiu.
        -- Ns poderamos lev-los direto para Otrera. Talvez ganhar o
apoio dela desse jeito.
      -- No! -- Kinzie disse. -- Eu usaria um colar de ferro e dirigiria
uma empilhadeira antes de fazer isso. Hylla  a rainha.
          -- At hoje  noite, -- Outro guarda grunhiu.
        Kinzie sacou sua espada. Por um segundo Hazel pensou que as
Amazonas comeariam a lutar umas contra as outras, mas Kinzie pareceu
controlar a raiva.
          -- J chega, -- ela disse. -- Vamos.
         Eles atravessaram um trnsito de empilhadeiras, atravessaram um
labirinto de correias e engatinharam em baixo de uma fileira de braos
robticos que estavam empilhando caixas.
        A maior parte da mercadoria parecia completamente comum: Livros,
eletrnicos, fraldas. Mas em uma parede estava uma carruagem com um
grande cdigo de barras do lado. Pendurado nela estava uma placa escrita:
SOMENTE UMA SOBRANDO NO ESTOQUE. ENCOMENDE LOGO!
(MAIS A CAMINHO)



                                                                       257
         Finalmente eles entraram em uma caverna menor que parecia uma
combinao de sala do trono com zoolgico. As paredes estavam revestidas
com prateleiras de metal de seis andares, decoradas com estandartes de
guerra, escudos pintados e cabeas empalhadas de drages, hidras, lees
gigantes e javalis selvagens. De guarda de cada lado, estavam dzias de
empilhadeiras modificadas para guerra. Um homem com um colar de ferro
dirigia cada maquina, mas uma Amazona estava em uma plataforma atrs de
cada uma, manejando uma besta gigante. As pontas de cada empilhadeira
foram afiadas como espadas.
        As prateleiras nessa sala estavam cheias com caixas de animais
vivos. Hazel no pode acreditar no que ela via  guias gigantes, uma
mistura de guia com leo que deveria ser um grifo e um tamandu vermelho
do tamanho de um carro.
        Ela assistia horrorizada enquanto uma empilhadeira entrava na sala,
pegava uma gaiola com um belo pgaso branco e saia enquanto o cavalo
grunhia em protesto.
       -- O que vocs esto fazendo com aquele pobre animal? -- Hazel
perguntou.
      Kinzie franziu a testa. -- O pgaso? Ele ficar bem. Algum o
encomendou. Os custos de manuseio e transporte so altos, mas...
       -- Voc pode comprar um pgaso online? -- Percy perguntou.
       Kinzie olhou para ele. -- Obviamente voc no pode, homem. Mas
Amazonas podem. Ns temos seguidores pelo mundo todo. Elas precisam de
suprimentos. Desse jeito.
        No fundo do armazm estava um estrado feito de capas de livros:
Capas de histrias de vampiros, psteres de filmes de James Patterson, e um
trono feito de aproximadamente mil cpias de algo chamado Os cinco
Hbitos da mulher altamente agressiva.
        Na base estavam vrias Amazonas em camuflagem, elas estavam
tendo uma discusso enquanto uma jovem mulher  rainha Hylla, Hazel
sups  assistia e escutava do trono.
        Hylla tinha por volta dos 20 anos, magra e rpida como um tigre. Ela
usava uma capa preta e botas pretas. Ela no tinha nenhuma coroa, mas em
volta dela tinha um estranho cinto feito juntando vrios elos de ouro, como
um labirinto. Hazel no podia acreditar como ela parecia com Reyna  um
pouco mais velha, talvez, mas com o mesmo longo cabelo preto, os mesmos
olhos negros, e a mesma expresso, como se estivesse tentando decidir qual
das Amazonas em sua frente mais mereciam morrer.

                                                                       258
        Kinzie ouviu os argumentos e grunhiu com desgosto. -- Agentes da
Otrera, espalhando suas mentiras.
         -- O que? -- Frank perguntou.
        Ento Hazel parou to abruptamente, que os guardas atrs dela
tropearam. Alguns passos do trono, duas Amazonas guardavam uma gaiola.
Dentro estava um cavalo lindo  no alado, mas um majestoso e poderoso
alazo com um casaco cor de mel e uma crina preta. Seus ferozes olhos
castanhos analisaram Hazel, e ela podia jurar que ele parecia impaciente,
como se estivesse pensando: Finalmente voc chegou aqui.
         --  ele, -- Hazel murmurou.
         -- Ele quem? -- Percy perguntou.
        Kinzie fez uma careta de aborrecimento, ento ela viu o que Hazel
estava olhando, sua expresso suavizou. -- Ah, sim. Bonito, no?
       Hazel piscou para ter certeza que ela no estava alucinando. Era o
mesmo cavalo que ela perseguiu no Alasca. Ela tinha certeza disso... Mas era
impossvel. Nenhum cavalo poderia viver tanto.
         -- Ele est... -- Hazel mal podia controlar sua voz. -- Ele est 
venda?
         As guardas todas riram.
        -- Aquele  Arion, -- Kinzie disse pacientemente, como se ela
entendesse a fascinao de Hazel. -- Ele  um tesouro real das Amazonas, a
ser herdado pela nossa mais corajosa guerreira, se acredita na profecia.
         -- Profecia? -- Hazel perguntou.
       A expresso de Kinzie mudou, quase embaraada. -- Deixa para l.
Mas no, ele no esta  venda.
         -- Ento porque ele est em uma gaiola?
         Kinzie fez uma careta. -- Porque... ele  difcil de lidar.
       Bem na hora, o cavalo bateu com a cabea contra a porta da gaiola.
O metal estremeceu e as guardas recuaram nervosas.
       Hazel queria libertar o cavalo. Ela queria isso mais que qualquer
coisa que ela j quis antes. Mas Percy, Frank e uma dzia de Amazonas
estavam encarando-a, ento ela tentou mascarar as suas emoes. -- S
perguntando, -- ela disse. -- Vamos ver a rainha.



                                                                       259
        A discusso na sala foi ficando mais barulhenta. Finalmente a rainha
notou o grupo de Hazel se aproximando e falou:
        -- J chega!
        As Amazonas ficaram quietas imediatamente. A rainha as deixou de
lado e chamou Kinzie.
        Kinzie levou Hazel e seus amigos at o trono. -- Minha rainha,
esses semideuses...
        A rainha saltou para a base do trono. -- Voc!
        Ela encarou Percy Jackson com muita raiva.
       Percy amaldioou algo em Grego Antigo que Hazel estava certa que
Santa Agnes no gostaria.
        -- Prancheta, -- ele disse. -- SPA. Piratas.
        Isso no fez sentido para Hazel, mas a rainha assentiu.
        Ela desceu do estrado de Best Sellers e sacou uma adaga.
        -- Voc foi incrivelmente tolo ao vir aqui, -- ela disse. -- Voc
destruiu minha casa. Voc fez com que minha irm e eu fossemos presas e
exiladas.
       -- Percy, -- Frank disse. -- O que a mulher assustadora com a
adaga esta dizendo?
        -- Ilha da Circe, -- Percy disse. -- Acabei de lembrar. O sangue de
grgona provavelmente est comeando a curar minha memria. O mar de
monstros. Hylla... ela nos recebeu nas docas, nos levou at sua mestra. Hylla
trabalhava para as feiticeiras.
         Hylla arreganhou seus perfeitos dentes brancos. -- Voc est me
dizendo que teve amnsia? Voc sabe, eu poderia acreditar em voc. Como
seria to estpido a ponto de vir aqui?
        -- Ns viemos em paz, -- Hazel insistiu. -- O que Percy fez?
       -- Paz? -- A rainha levantou suas sobrancelhas. -- O que ele fez?
Esse homem destruiu a escola de magia da Circe!
        -- Circe me transformou em um porquinho da ndia!         --   Percy
protestou.
       -- Sem desculpas! -- Hylla disse. -- Circe era uma sabia e generosa
empregadora. Eu tinha um quarto, um bom plano dentrio e de sade,
mascotes, poes grtis  tudo! E esse semideus com seus amigos, a loira...

                                                                        260
        -- Annabeth. -- Percy deu um tapa em sua testa como se ele
quisesse que suas memrias voltassem mais rpido. -- Est certo. Eu estava
l com Annabeth.
         -- Voc libertou os prisioneiros, Barba Negra e seus piratas. -- Ela
virou para Hazel. -- Voc j foi sequestrada por piratas? No  legal. Eles
queimaram o spa. Minha irm e eu fomos prisioneiras por meses. Felizmente
ns ramos filhas de Bellona. Ns aprendemos a lutar rapidamente. Se ns
no tivssemos... -- Ela estremeceu. -- Bem, os piratas aprenderam a nos
respeitar. Eventualmente ns achamos nosso caminho at Califrnia, onde
ns... -- Ela hesitou como se a memria fosse dolorosa. -- Onde minha irm
e eu nos separamos.
       Ela andou at Percy at que estivesse nariz com nariz. Ela apontou
sua adaga para seu queixo. -- Claro, eu sobrevivi e prosperei. Eu consegui
me tornar a rainha das Amazonas. Ento eu talvez devesse agradecer voc.
        -- De nada, -- Percy disse.
       A rainha enfiou a adaga um pouco mais fundo. -- Deixa para l.
Acho que vou te matar.
        -- Espere! -- Hazel disse. -- Reyna nos mandou! Sua irm! Olhe o
anel no colar dele.
        Hylla franziu a testa. Ela abaixou a adaga at o colar de Percy at
que a ponta ficasse sobre o anel de prata. A cor deixou seu rosto.
        -- Explique isso. -- Ela olhou para Hazel. -- Rpido.
       Hazel tentou. Ela descreveu Acampamento Jpiter. Ela contou para
as amazonas sobre Reyna ser sua pretora, e o exrcito de monstros que
estavam indo para sul. Ela contou sobre sua misso para libertar Tnatos.
        Enquanto Hazel falava, outro grupo de Amazonas entraram na sala.
Uma era mais alta e mais velha que o resto, com cabelo prateados e um fino
robe de seda como uma Romana. As outras Amazonas foram at ela,
tratando-a com tanto respeito que Hazel imaginou se era a me de Hylla 
at que ela notou como Hylla e as mulheres mais velhas apontaram as adagas
umas contras as outras.
         -- Ento ns precisamos de sua ajuda, -- Hazel terminou sua
histria. -- Reyna precisa de sua ajuda.
         Hylla agarrou o colar de Percy e arrancou do seu pescoo  contas,
anel, placa de probatio e tudo. -- Reyna... aquela tola garota...



                                                                        261
       -- Bem! -- A mulher mais velha interrompeu. -- Romanos
precisam de nossa ajuda? -- Ela riu, e as Amazonas a sua volta se juntaram
a ela.
        -- Quantas vezes ns lutamos com os Romanos em meu tempo? --
A mulher perguntou. -- Quantas vezes eles mataram nossas irms em
batalhas? Quando eu era uma rainha...
       -- Otrera, -- Hylla interrompeu, -- voc est aqui como uma
convidada. Voc no  mais rainha.
        A mulher mais velha fez um gesto de zombaria. -- Como voc dizia,
ao menos, at hoje  noite. Mas eu disse a verdade, Rainha Hylla. -- Ela
disse a palavra como um insulto. -- Eu fui trazida de volta pela Me Terra!
Eu trouxe notcias de uma nova guerra. Porque as Amazonas deveriam
seguir Jpiter, aquele tolo rei do Olimpo, quando ns podemos seguir uma
rainha? Quando eu assumir o controle...
        -- Se voc assumir o controle, -- Hylla disse. -- Mas por enquanto,
eu sou a rainha. Minha palavra  lei.
       -- Eu entendo. -- Otrera olhou para as Amazonas, que estavam
muito paradas, como se elas se encontrassem entre dois tigres selvagens. --
Ns ficamos to fracas que temos que ouvir a homens semideuses? Vocs
vo poupar a vida desse filho de Netuno, mesmo quando ele destruiu sua
casa? Talvez vocs o deixem destruir sua nova casa tambm!
        Hazel prendeu a respirao. As Amazonas olhavam entre Hylla e
Otrera, procurando qualquer sinal de fraqueza.
         -- Eu vou julgar, -- Hylla disse em um tom frio, -- Quando eu tiver
todos os fatos.  assim que eu governo  por razo, no medo. Primeiro, eu
vou falar com essa aqui. -- Ela apontou para Hazel. --  meu dever escutar
primeiro uma mulher guerreira antes de sentenciar seus aliados  morte. Esse
 o jeito das Amazonas. Ou seus anos no Mundo Inferior prejudicaram sua
memria, Otrera?
       A mulher mais velha suspirou, mas ela no tentou argumentar.
        Hylla virou para Kinzie. -- Leve esses guerreiros para suas celas. O
resto de vocs, saiam.
        Otrera levantou sua mo para a multido. -- Como nossa rainha
deseja. Mas qualquer um de vocs que gostariam de ouvir mais sobre Gaia e
nosso glorioso futuro com ela, venham comigo!
        Aproximadamente metade das Amazonas a seguiram para fora da
sala. Kinzie suspirou com desgosto, ento ela levou Percy e Frank.

                                                                       262
        Logo Hylla e Hazel estavam sozinhas, exceto pela guarda pessoal da
rainha. Ao sinal de Hylla, at eles saram da sala.
        A rainha virou para Hazel. Sua raiva dissolvida e Hazel viu
desespero em seus olhos. A rainha parecia um de seus animais engaiolados
sendo retirados por uma correia.
       -- Ns devemos conversar, -- Hylla disse. -- Ns no temos muito
tempo.  meia noite, eu provavelmente estarei morta.




                                                                      263
                                 XXXI




HAZEL PENSOU EM CORRER DALI.
        Ela no confiava na rainha Hylla, e certamente ela no confiaria na
outra senhora, Otrera. Somente trs guardas foram deixadas na sala. Todas
elas mantiveram distncia.
        Hylla estava armada somente com uma adaga. No subterrneo
profundo, Hazel poderia causar um terremoto na sala do trono, ou convocar
uma pilha de xisto ou ouro. Se ela pudesse causar uma distrao, poderia
escapar e encontrar seus amigos.
        Infelizmente ela tinha visto como as Amazonas lutavam. Mesmo a
rainha tendo somente uma adaga, Hazel suspeitava que ela pudesse us-la
muito bem. E Hazel estava desarmada. Eles no a tinham revistado, o que
significava que felizmente eles no tinham lhe tomado a lenha de Frank no
bolso do seu casaco, mas sua espada se fora.
       A rainha pareceu ler seus pensamentos.
       -- Esquea sobre a fuga. Claro, te respeitaramos por tentar. Mas
teramos que mat-la.
       -- Obrigada pelo aviso.
       Hylla encolheu os ombros.
       --  o mnimo que eu posso fazer. Acredito que voc veio em paz.
Creio que Reyna lhe enviou.
       -- Mas voc no ir ajudar?
       A rainha estudou o colar que ela tinha tirado de Percy.
         --  complicado -- disse. -- As amazonas sempre tiveram uma
relao complicada com outros semideuses, especialmente semideuses
masculinos. Lutamos pelo rei Pramo na guerra de Tria, mas Aquiles matou
nossa rainha, Penthesilea. Alguns anos antes disso, Hrcules roubou o cinto
da rainha Hiplita  este cinto que estou usando. Levou sculos para


                                                                       264
recuper-lo. Bem antes disso, no incio da nao Amazona, um heri
chamado Belerofonte matou a nossa primeira rainha, Otrera.
        -- Isso significa que a senhora...
        -- ...Que acabou de sair, sim. Otrera, nossa primeira rainha, filha de
Ares.
        -- Marte?
        Hylla fez uma careta azeda.
        -- No. Definitivamente Ares. Otrera viveu muito antes de Roma,
numa poca em que todos os semideuses eram gregos. Infelizmente, alguns
de nossos guerreiros preferem os velhos modos. Filhos de Ares... sempre so
os piores.
        -- Os velhos modos... -- Hazel tinha ouvido boatos sobre os
semideuses gregos. Octavian acreditava que eles existiam, e que
conspiravam secretamente contra Roma. Mas ela nunca realmente tinha
acreditado, mesmo quando Percy veio para o acampamento. Ele
simplesmente no iria golpe-la por causa das conspiraes gregas.
      -- Voc quer dizer que as Amazonas so uma mistura... Greco-
Romanas?
        Hylla continuou a examinar o colar  as contas de argila, a placa de
probatio. Ela deslizou o anel de prata de Reyna pelo cordo e colocou-o em
seu prprio dedo.
         -- Suponho que eles no ensinem sobre isso no Acampamento
Jpiter. Os deuses possuem muitos aspectos. Marte, Ares. Pluto, Hades.
Sendo imortais, tendem a acumular personalidades. So Greco-Romanos,
americanos... uma combinao de todas as culturas que os influenciaram
durante a eternidade. Est me entendendo?
        -- Eu... eu no tenho certeza. Todas as Amazonas so semideusas?
        A rainha estendeu as mos.
         -- Todas ns temos algum sangue imortal, mas muitas de minhas
guerreiras so descendentes de semideuses. Algumas foram Amazonas por
incontveis geraes. Outras so filhas de deuses menores. Kinzie, aquela
que te trouxe aqui,  filha de uma ninfa. Ah... ela est aqui agora.
        A menina de cabelo ruivo se aproximou da rainha e se curvou.
       -- Os prisioneiros esto presos em segurana, -- Kinzie informou.
-- Mas...

                                                                         265
        -- Sim? -- A rainha perguntou.
        Kinzie engoliu como se tivesse um gosto ruim em sua boca.
        -- Otrera certificou-se que suas seguidoras vigiassem as celas. Sinto
muito, minha rainha.
        Hylla franziu os lbios.
        -- No importa. Fique conosco, Kinzie. Estvamos falando sobre a
nossa, h, situao.
      -- Otrera -- Hazel sups. -- Gaia a trouxe dos mortos para lanar
as Amazonas em uma guerra civil.
        A rainha expirou.
        -- Se esse era o plano dela, est funcionando. Otrera  uma lenda
entre nosso povo. Ela planeja voltar ao trono e conduzir-nos a uma guerra
contra os romanos. Muitas de minhas irms iro segui-la.
        -- Nem todas -- Kinzie resmungou.
        -- Mas Otrera  um esprito! -- Hazel disse. -- Ela nem mesmo ...
       -- Real? -- A rainha estudou Hazel cuidadosamente. -- Trabalhei
com a feiticeira Circe durante muito tempo. Conheo uma alma devolvida
quando vejo uma. Quando voc morreu, Hazel... mil novecentos e vinte? Mil
novecentos e trinta?
        -- Mil novecentos e quarenta e dois -- disse Hazel. -- Mas... mas
eu no fui mandada por Gaia. Voltei para det-la. Esta  minha segunda
chance.
       -- Sua segunda chance... -- Hylla olhou para as fileiras de
empilhadeiras de batalha, agora vazias. -- Eu sei sobre segundas chances.
Aquele menino, Percy Jackson, ele destruiu minha antiga vida. Se voc me
visse antigamente, voc no me reconheceria. Eu usava vestidos e
maquiagem. Era uma secretria glorificada. Uma maldita boneca Barbie.
        Kinzie fechou a mo sobre o peito, apontando trs dedos para o
corao, como o gesto vodu que a me de Hazel usava para afastar mal
olhado.
        -- A ilha de Circe era um lugar seguro para Reyna e para mim -- A
rainha continuou. -- ramos as filhas da deusa da guerra, Belona. Eu queria
proteger Reyna de toda essa violncia. Ento Percy Jackson soltou os piratas.
Eles nos sequestraram, e Reyna e eu aprendemos a ser duras. Descobrimos



                                                                        266
que ramos boas com armas. Nos ltimos quatro anos eu quis matar Percy
Jackson, pelo que ele nos fez passar.
         -- Mas Reyna tornou-se pretora do Acampamento Jpiter. -- Hazel
disse. -- Voc se tornou a rainha das Amazonas. Talvez esse fosse seu
destino.
           Hylla tocou o colar em sua mo.
           -- Eu no posso ser rainha por muito tempo...
           -- Voc prevalecer! -- Kinzie insistiu.
         -- Como o decreto dos Destinos, -- disse Hylla sem entusiasmo. --
Voc v Hazel, Otrera desafiou-me para um duelo. Cada Amazona tem esse
direito. Hoje  meia-noite, iremos batalhar pelo trono.
           -- Mas... voc  boa, certo? -- Hazel perguntou.
           Hylla conseguiu dar um sorriso seco.
           -- Boa, sim, mas Otrera  a fundadora das Amazonas.
       -- Ela  muito mais velha. Talvez ela esteja sem prtica, estando
morta por tanto tempo.
           -- Eu espero que tenha razo, Hazel. Voc v,  uma luta at a
morte...
        Ela pareceu se afundar por dentro. Hazel lembrou o que Fineu tinha
dito em Portland -- como ele tinha conseguido um atalho para voltar da
morte, graas a Gaia. Ela se lembrou das grgonas tentando se reformar no
Tibre.
       -- Mesmo que voc a mate, -- disse Hazel -- Ela voltar. Enquanto
Tnatos estiver acorrentado, ela no morrer.
        -- Exatamente -- Hylla disse. -- Otrera j nos falou que no pode
morrer. Assim, mesmo que eu consiga derrot-la hoje  noite, amanh
simplesmente ela ir voltar, e me desafiar novamente. No h nenhuma lei
contra desafiar a rainha vrias vezes. Ela pode insistir em lutar comigo todas
as noites, at que ela finalmente me derrote. Eu no posso vencer.
        Hazel olhou para o trono. Imaginou Otrera l, sentada com suas
vestes finas e seu cabelo prateado, ordenando suas guerreiras para atacar
Roma. Ela imaginou a voz de Gaia enchendo a caverna.
       -- Tem que haver um jeito. -- Disse. -- As Amazonas no tm
poderes especiais... ou algo parecido?


                                                                         267
        -- No mais do que outros semideuses. -- Hylla disse. -- Ns
podemos morrer, como qualquer mortal. H um grupo de arqueiras que
seguem a deusa rtemis. Elas so confundidas muitas vezes com as
Amazonas, mas as caadoras abandonaram a companhia dos homens em
troca de uma vida quase eterna. Ns, Amazonas -- preferimos viver a vida
ao mximo. Amamos, lutamos, morremos.
          -- Eu achava que vocs odiavam os homens -- Hylla e Kinzie riram
juntas.
        -- Odiar os homens? -- disse a rainha. -- No, no, gostamos de
homens. Ns apenas queremos mostrar quem est no comando. Mas isso no
vem ao caso. Se eu pudesse, reuniria minhas tropas, e as colocaria para
ajudar minha irm. Infelizmente meu poder  frgil. Quando eu morrer em
combate  e isso  apenas uma questo de tempo  Otrera ser a rainha. Ela
ir marchar para o Acampamento Jpiter com nossas foras, mas no para
ajudar minha irm. Ela ir se juntar ao gigantesco exrcito.
        -- Temos que impedi-la, -- disse Hazel. -- Eu e meus amigos
matamos Fineu, um dos servos de Gaia em Portland. Talvez possamos
ajudar.
          A rainha sacudiu a cabea.
        -- Voc no pode interferir. Como rainha eu devo lutar minhas
prprias batalhas. Alm disso, seus amigos esto presos. Se eu deix-los ir,
parecerei fraca. Ou executo os trs como invasores, ou Otrera o far, quando
se tornar rainha.
          O corao de Hazel gelou.
          -- Ento eu acho que ambas estamos mortas. Pela segunda vez.
      Na jaula de canto, o garanho Arion relinchou furiosamente.
Empinou e bateu seus cascos de encontro s grades.
        -- O cavalo parece sentir seu desespero -- disse a rainha. --
Interessante. Ele  imortal, sabe... filho de Netuno e de Ceres.
          Hazel piscou.
          -- Dois deuses tiveram um cavalo como filho?
          --  uma longa histria.
          -- Ah.-- O rosto de Hazel ficou quente de vergonha.
       -- Ele  o cavalo mais rpido do mundo, -- Hylla disse. -- Pgaso 
famoso por suas asas, mas Arion corre como o vento, sobre a terra ou sobre

                                                                         268
o mar. Nenhuma criatura  mais rpida. Levamos anos para captur-lo -- um
dos nossos maiores prmios. Mas ele no nos fez nenhum bem. O cavalo no
permite que ningum o monte. Eu acho que ele odeia Amazonas. E ele 
dispendioso para se manter. Ele come qualquer coisa, mas prefere ouro.
       A parte de trs do pescoo de Hazel formigava.
       -- Ele come ouro?
        Lembrou-se do cavalo que a seguiu h muito tempo atrs no Alasca.
Ela tinha pensado que ele estava comendo as pepitas de ouro que ficavam
por onde ela passava.
       Ela ajoelhou-se e apertou sua mo de encontro ao cho.
Imediatamente a pedra rachou. Um pedao de ouro do tamanho de uma
ameixa brotou da terra. Hazel ficou de p, examinando seu prmio.
       Hylla e Kinzie a encararam.
       -- Como voc...? -- Engasgou a rainha. -- Hazel, tenha cuidado!
        Hazel aproximou-se da jaula do garanho. Ela colocou a mo entre
as barras e Arion comeu vagarosamente o grosso pedao de ouro na palma
de sua mo.
       -- Incrvel! -- Kinzie disse. -- A ltima garota que tentou isso...
       -- Agora tem um brao de metal -- Terminou a rainha. Ela estudou
Hazel com um novo interesse, como se decidisse se deveria dizer mais ou
no.
        -- Hazel... ns passamos anos caando esse cavalo. Foi predito que
a mulher guerreira mais corajosa domaria Arion algum dia, e o montaria para
a vitria, conduzindo-nos para uma nova era de prosperidade para as
Amazonas. Contudo, nenhuma Amazona pode tocar nele, muito menos
control-lo. Mesmo Otrera, tentou e falhou. Outras duas morreram tentando
mont-lo.
        Isso provavelmente deveria ter preocupado Hazel, mas ela no
poderia imaginar esse lindo cavalo lhe ferindo. Passou sua mo atravs das
barras outra vez, e afagou o nariz de Arion. Ele aninhou o brao dela,
murmurando alegremente, como se perguntasse: Mais ouro? Humm.
        -- Gostaria de aliment-lo mais, Arion.-- Hazel olhou de relance
para a rainha. -- Mas acho que estou prestes a ser executada.
      A rainha Hylla olhou da Hazel para o cavalo, e para Hazel
novamente.


                                                                         269
         -- Inacreditvel.
         -- A profecia -- Kinzie disse. --  possvel...?
        Hazel quase podia ver as engrenagens girando dentro da cabea da
rainha e formulando um plano.
       -- Voc tem coragem, Hazel Levesque. E parece que Arion te
escolheu. Kinzie?
         -- Sim, minha rainha?
         -- Voc disse que as seguidoras de Otrera esto protegendo as
celas?
         Kinzie assentiu com a cabea.
         -- Eu deveria ter previsto isso. Sinto muito.
        -- No, est tudo bem, -- Os olhos da rainha brilharam. -- 
maneira que o elefante Hannibal faz, quando est prestes a destruir uma
fortaleza. -- Seria constrangedor para Otrera, se suas seguidoras falhassem
em seus deveres, por exemplo, sendo superadas por um estrangeiro, e uma
fuga da priso ocorresse.
         Kinzie comeou a sorrir.
         -- Sim, minha rainha. Muito vergonhoso.
       -- Naturalmente -- Hylla continuou. -- Nenhuma das minhas
guardas saberiam nada sobre isso. Kinzie nunca permitiria uma fuga.
         -- Certamente no -- concordou Kinzie.
        -- E ns no poderamos ajud-las. -- A rainha levantou as
sobrancelhas para Hazel. -- Mas se de alguma forma voc dominar as
guardas e libertar os seus amigos... e se, por exemplo, voc tomar um dos
cartes de proteo das Amazonas...
        -- Com um clique de adeso habilitado -- disse Kinzie -- Abrir as
celas da priso com um clique.
       -- Se...os deuses impedissem ou algo como isso acontecesse, --
continuou a rainha. -- Voc encontrasse as armas de seus amigos no posto
de guarda, ao lado das celas... E quem sabe? Se voc de alguma forma
conseguir voltar a essa sala do trono, quando eu estivesse fora me
preparando para o duelo... bem, como eu mencionei, Arion  um cavalo
muito rpido. Seria uma vergonha se ele fosse roubado e usado para uma
fuga.


                                                                       270
         Hazel sentiu como se tivesse sido ligada a uma tomada na parede.
Eletricidade percorria por todo seu corpo. Arion... Arion poderia ser dela.
Tudo que ela teria que fazer era salvar seus amigos e lutar contra uma nao
inteira de guerreiras altamente treinadas.
        -- Rainha Hylla -- ela disse -- Eu... eu no sou muito boa lutadora.
         -- Oh, h muitos tipos de luta, Hazel. Tenho a sensao que voc 
muito engenhosa. E se a profecia estiver correta, voc vai ajudar a nao
Amazona a alcanar a prosperidade. Se tiver sucesso em sua procura para
libertar Tnatos, por exemplo...
        -- ...Ento Otrera no voltaria, se fosse morta -- disse Hazel --
Voc s teria que derrot-la... hum, todas as noites at que tenhamos
sucesso.
        A rainha assentiu com seriedade.
        -- Parece que ambas temos tarefas impossveis  nossa frente.
       -- Mas voc est confiando em mim, -- disse Hazel. -- E eu confio
em voc. Ir ganhar quantas vezes for preciso.
        Hylla estendeu o colar de Percy e colocou nas mos de Hazel.
       -- Eu espero que tenha razo, -- disse a rainha. -- Mas quanto mais
cedo voc conseguir melhor, certo?
        Hazel colocou o colar no bolso. Sacudiu a mo da rainha, querendo
saber se era possvel fazer uma amiga to rpido, especialmente uma que
estava prestes a lhe enviar para a priso.
        -- Essa conversa nunca aconteceu, -- disse Hylla para Kinzie. --
Leve nossa prisioneira para as celas, e entregue-a s guardas de Otrera. E,
Kinzie, certifique-se que voc saia antes que qualquer coisa infeliz acontea.
No quero que minha leal seguidora seja responsabilizada por uma fuga da
priso.
       A rainha sorriu maliciosamente e pela primeira vez Hazel sentiu
cimes de Reyna. Desejou ter uma irm como esta.
       -- Adeus, Hazel Levesque, -- disse a rainha. -- Se ambas
morrermos hoje  noite... bem, estou feliz de ter te conhecido.




                                                                         271
                                   XXXII




A CADEIA DAS AMAZONAS ERA NO TOPO DE um corredor de
armazenamento,  dezoito metros no ar.
          Kinzie subiu trs escadas diferentes at uma passarela de metal,
ento amarrou as mos de Hazel folgadamente atrs das costas e a empurrou
ao longo das caixas de jias.
          Uns trinta metros na frente, sob o duro brilho das luzes
fluorescentes, tinha uma linha de gaiolas penduradas por cabos. Percy e
Frank estavam em duas das gaiolas, conversando um com o outro em tons
silenciosos. Perto deles na passarela, trs guardas Amazonas que pareciam
chateadas inclinavam-se contra as suas lanas e contemplavam um pouco
uns tablets64 pretos como se estivessem lendo.
          Hazel pensou que os tablets pareciam muito finos para livros.
Ento lhe ocorreu que eles podiam ser um certo tipo de pequenos  como
mesmo que as pessoas modernas os chamam?  computadores laptop.
Tecnologia Amazona Secreta, talvez. Hazel achou a idia quase to
inquietante quanto a batalha de empilhadeiras l embaixo.
          -- Mexa-se, garota, -- Kinzie ordenou, alto o bastante para os
guardas ouvirem. Ela cutucou Hazel nas costas com a sua espada.
           Hazel andou to devagar quanto podia, mas a mente dela estava a
mil. Ela precisava surgir com um plano brilhante de resgate. At ali ela no
tinha nada. Kinzie tinha certeza que ela podia desamarrar o n facilmente,
mas ela ainda estaria de mos vazias contra trs guerreiras bem treinadas, e
ela tinha que agir antes que elas a pusessem na jaula.
       Ela passou por uma pilha de caixas marcadas ANIS DE
TOPZIO AZUIS 24-QUILATES, e outra etiquetada com BRACELETES DE
PRATA DA AMIZADE. Lia-se em um display eletrnico prximo dos

64
  Tablets: Pode ser traduzido como tabletes, mas acredito que se trate dos
computadores.

                                                                             272
braceletes: Pessoas que compram esse item tambm compram GNOMOS DE
JARDIM PARA PTIOS e LANAS ARDENTES DA MORTE. Compre todos
os trs itens e economize 12%!
          Hazel congelou. Deuses do Olimpo, ela era estpida.
           Prata. Topzio. Ela estendeu os seus sentidos, procurando por
metais preciosos, e o crebro dela quase explodiu com a resposta. Ela estava
parada perto de uma montanha de seis metros de jias. Mas na frente dela,
dali at as guardas, no havia nada a no ser jaulas de prisioneiros.
           -- O que  isso? -- Kinzie sibilou. -- Continue se mexendo! Elas
vo ficar desconfiadas.
          -- Faa-as virem aqui, -- Hazel murmurou por cima do seu
ombro.
          -- Por que...
          -- Por favor.
          As guardas franziram a testa na direo delas.
           -- O que vocs esto olhando? -- Kinzie gritou para elas. -- Aqui
est a terceira prisioneira. Venham peg-la.
          A guarda mais prxima parou a leitura do seu tablet. -- Por que
voc no pode andar trinta passos, Kinzie?
          -- Hum, porque...
        -- Ooof! -- Hazel caiu de joelhos e tentou fazer a sua melhor cara
de mareada. -- Eu estou me sentindo nauseada! No consigo... andar.
Amazonas... muito... assustadoras.
          -- A est, -- Kinzie disse para as guardas. -- Agora, vocs vo
vir pegar a prisioneira, ou eu deveria contar a rainha Hylla que vocs no
esto fazendo o seu trabalho?
          A guarda mais prxima rolou os olhos e marchou at l. Hazel
tinha esperanas que as outras duas guardas iriam vir tambm, mas ela teria
que se preocupar com isso mais tarde.
         A primeira guarda agarrou o brao de Hazel. -- timo. Eu pegarei
a custdia da prisioneira. Mas se eu fosse voc, Kinzie, eu no me
preocuparia com Hylla. Ela no ser rainha por muito tempo.
          -- Veremos, Dris. -- Kinzie virou-se para sair. Hazel esperou at
seus passos desaparecerem passarela abaixo.


                                                                       273
          A guarda Dris puxou o brao de Hazel. -- Bem? Vamos.
          Hazel concentrou-se na parede de jias perto dela: quarenta caixas
longas de braceletes de prata. -- No estou... me sentindo muito bem.
          -- Voc no vai vomitar em mim, -- Dris grunhiu. Ela tentou
arrancar Hazel do cho, mas Hazel ficou mole, como uma criana fazendo
pirraa em uma loja. Perto dela, as caixas comearam a tremer.
         -- Lulu! -- Dris gritou para uma de suas companheiras. --Me
ajude com essa menininha aleijada.
          Amazonas chamadas Dris e Lulu? Hazel pensou. Ok...
         A segunda guarda caminhou at l. Hazel deduziu que esta era a
sua melhor chance. Antes que elas pudessem reboc-la para os seus ps, ela
gritou:
          -- Ooooh !-- e se jogou contra a passarela.
          Dris comeou a dizer, -- Oh, me d uma...
          A pilha inteira de jias explodiu com um som que parecia de mil
de mquinas caa-nqueis acertando a bolada. Uma onda de braceletes
prateados da amizade foram derramados pela passarela, levando Dris e
Lulu para os trilhos.
          Elas teriam cado at a morte, mas Hazel no era m a esse ponto.
Ela convocou algumas centenas de braceletes, os quais saltaram at as
guardas e amarraram-se em volta dos seus tornozelos, deixando-as suspensas
de cabea para baixo na margem da passarela, gritando como menininhas.
           Hazel virou em direo da terceira guarda. Ela desamarrou o n, o
qual estava to apertado quanto um papel toalha. Ela pegou uma lana das
guardas que tinham cado. Ela era terrvel com lanas, mas ela esperava que
a terceira Amazona no soubesse disso.
          -- Eu deveria matar voc daqui? -- Hazel rosnou. -- Ou voc vai
me fazer ir at a?
          A guarda virou-se e correu.
          Hazel gritou para o lado de Dris e Lulu. -- Os cartes das
Amazonas! Passe-os, a menos que vocs queiram que eu desfaa esses
braceletes da amizade e deixe vocs carem!
        Quatro segundos e meio depois, Hazel tinha dois cartes das
Amazonas. Ela correu at as jaulas e passou o carto. As portas abriram.
          Frank a olhava com admirao. -- Hazel, aquilo foi... incrvel.

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          Percy concordou. -- Eu nunca mais vou usar jias.
          -- Exceto essa. -- Hazel apontou para o seu colar. -- Nossas
armas e suprimentos esto no final da passarela. Ns deveramos nos
apressar. Daqui a pouco...
          Alarmes comearam a soar pela caverna.
          -- Sim, -- ela disse, -- isso ir acontecer. Vamos!


          A primeira parte da sada fora fcil. Eles recuperaram as suas
coisas sem problemas, ento comearam a escalar escada a baixo. Toda hora
um enxame de Amazonas aparecia abaixo deles, demandando a sua
rendio, Hazel fez com que jias encaixotadas explodissem, enterrando os
seus inimigos em Cataratas do Nigara de ouro e prata. Quando eles j
estavam no final da escada, eles acharam uma cena que parecia como um
Mardi Gras do Armageddon  Amazonas amarradas at o pescoo em
colares de conta, mais vrias outras de cabea para baixo em uma montanha
de brincos de ametistas, e uma pilha de charmosos braceletes de prata.
          -- Voc, Hazel Levesque, -- Frank disse, --  inteiramente muito
inacreditvel.
         Ela queria beij-lo l mesmo, mas eles no tinham tempo. Eles
correram de volta at a sala de tronos.
         Eles tropearam em uma Amazona que devia ser leal a Hylla.
Assim que ela viu os fugitivos, ela virou-se como se eles fossem invisveis.
          Percy comeou a perguntar, -- Que diab...
           -- Alguns deles querem que ns escapemos, -- Hazel disse. -- Eu
explicarei depois.
          A segunda Amazona que eles encontraram no fora to amigvel.
Ela estava vestida com a armadura completa, bloqueando a entrada da sala
do trono. Ela girou a sua lana na velocidade da luz, mas desta vez Percy
estava preparado. Ele puxou Contracorrente e entrou na batalha. Assim que a
Amazona o golpeou, ele foi para o lado, cortou a haste da lana ao meio, e
bateu o punho da sua espada contra o seu capacete.
          A guarda ficou amarrotada.
         -- Santo Marte, -- Frank disse. -- Como voc... aquilo no foi
nenhuma tcnica romana!



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         Percy sorriu. -- Os gregos tem alguns movimentos, meu amigo.
Depois de voc.
          Eles correram para dentro da sala do trono. Como prometido,
Hylla e suas guardas tinham esvaziado o local. Hazel correu at a jaula de
Arion e passou o carto das Amazonas na fechadura. Instantaneamente o
garanho irrompeu para fora, relinchando em triunfo.
          Percy e Frank cambalearam para trs.
          -- Hum... essa coisa  mansa? -- Frank disse.
          O cavalo relinchou com raiva.
          -- Acho que no, -- Percy presumiu. -- Ele acabou de dizer, `Eu
vou pisar em voc at a morte, bebezinho chins canadense.'
          -- Voc fala cavals?-- Hazel perguntou.
          -- `Bebezinhos?' -- Frank balbuciou.
        -- Falar com cavalos  uma coisa de Poseidon, -- Percy disse. --
Hum, quero dizer uma coisa de Netuno.
          -- Ento voc e Arion vo se dar bem, -- Hazel disse. -- Ele 
um filho de Netuno tambm.
          Percy ficou plido. -- Como ?
          Se eles no estivessem em uma situao m, a expresso de Percy
poderia t-la feito rir. -- A questo , ele  rpido. Ele pode nos tirar daqui.
         Frank no parecia assustado. -- Trs de ns no podem caber em
um cavalo, podemos? Ns iremos cair dele, ou atras-lo, ou...
          Arion relinchou de novo.
          -- Ai, -- Percy disse. -- Frank, o cavalo disse que voc  um...
voc sabe, na verdade, eu no vou traduzir aquilo. De qualquer forma, ele
disse que h uma biga no depsito, e ele est disposto a puxar isso.
          -- Ali! -- algum gritou dos fundos da sala do trono. Uma dzia
de Amazonas entraram, seguidas por homens em macaces laranja. Quando
eles viram Arion, eles recuaram rapidamente e foram para a pilha de
braceletes.
          Hazel pulou nas costas de Arion.
          Ela sorriu para os seus amigos. -- Eu lembro de ter visto essa
biga. Me sigam, garotos!


                                                                           276
          Ela galopou para dentro da longa caverna e espalhou uma
multido de homens. Percy bateu em uma Amazona. Frank varreu mais duas
com a sua espada fazendo-as ficarem aos seus ps. Hazel podia sentir o
esforo de Arion para correr. Eles tinham que conseguir sair.
          Hazel foi at a patrulha das Amazonas, que dispersaram em terror
ao sinal de um cavalo. Por um segundo, a spatha de Hazel parecia do
comprimento certo. Ela balanou isso em todos que vinham ao seu alcance.
Nenhuma Amazona ousou desafi-la.
          Percy e Frank correram atrs dela. Finalmente eles alcanaram a
biga. Arion parou para colocar o lao, e Percy comeou a trabalhar com as
rdeas e arreios.
          -- Voc j fez isso antes? -- Frank perguntou.
          Percy no precisou responder. As suas mos voaram. Em pouco
tempo a biga estava pronta. Ele pulou a bordo e gritou:
          -- Frank, vamos! Hazel, v!
         Um barulho de batalha ficou para trs deles. Uma armada inteira
de Amazonas entrou no depsito. Otrera levantou-se montando em uma
pilha de coisas empilhadas, o seu cabelo prateado flutuava enquanto ela
balanava a sua besta montada at a biga. -- Parem eles! -- Ela gritou.
         Hazel esporeou Arion. Eles correram atravs da caverna, tecendo
em volta de pilhas e pilhas de coisas. Uma flecha passou zunindo pela
cabea de Hazel. Alguma coisa explodiu atrs dela, mas ela no olhou para
trs.
         -- As escadas! -- Frank gritou. -- Sem chance que esse cavalo
possa puxar uma biga... AI MEUS DEUSES!
           Agradecidamente as escadas eram grandes o bastante para a biga,
porqu Arion nem sequer diminuiu. Ele subiu os degraus com a biga batendo
e gemendo. Hazel olhou para trs algumas vezes para ter certeza que Frank e
Percy no tinham cado. Os ns dos dedos deles estavam brancos ao segurar
a biga, seus dentes rangendo como crnios de Halloween.
          Finalmente eles alcanaram a portaria. Arion atravessou atravs
das portas principais para dentro do centro comercial e botou para correr um
monte de caras de ternos.
          Hazel sentiu a tenso na caixa torcica de Arion. O ar fresco
estava deixando ele louco para correr, mas Hazel puxou as suas rdeas.



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         -- Ella! -- Hazel gritou para o cu. -- Onde est voc? Ns
precisamos partir!
          Por um segundo horrvel, ela ficou aterrorizada que a harpia
pudesse ter ido muito longe para ouvi-la. Ela podia ter se perdido, ou ter sido
capturada pelas Amazonas.
           Atrs deles uma empilhadeira moveu-se pelas escadas e rugiu pela
portaria, uma multido de Amazonas atrs dela.
          -- Rendam-se! -- Otrera gritou.
          A empilhadeira ergueu seus dentes afiados.
          -- Ella! -- Hazel chorou desesperadamente.
         Em um flash de asas vermelhas, Ella pousou na biga. -- Ella est
aqui. Amazonas so significativas. Vo agora.
          -- Segurem-se! -- Hazel avisou. Ela inclinou-se para frente e
disse, -- Arion, corra!
          O mundo parecia se arrastar. A luz do sol se curvava em volta
deles. Arion disparou para longe das Amazonas e correu pelo centro de
Seattle. Hazel olhou para trs e viu uma linha de fumaa na calada onde os
cascos de Arion tinham tocado o cho. Ele trovejou em direo o cais,
saltando sobre carros, passando atravs de cruzamentos.
          Hazel gritou  plenos pulmes, mas isso no foi um grito de
prazer. Pela primeira vez na sua vida  nas suas duas vidas  ela se sentiu
absolutamente incontrolvel. Arion alcanou a gua e saltou direto do cais.
           Os ouvidos de Hazel estouraram. Ela ouviu um rugido que ela
depois percebeu que era um rudo snico, e Arion arrancou, as guas do mar
transformaram-se em vapor no seu caminho enquanto a linha do cu de
Seattle recuava atrs deles.




                                                                          278
                              XXXIII




FRANK FICOU ALIVIADO QUANDO AS RODAS CARAM.
        Ele j havia sido lanado duas vezes da parte de trs da biga, o que
no foi divertido na velocidade do som. O cavalo parecia dobrar o tempo e o
espao enquanto corria, borrando a paisagem e fazendo Frank se sentir como
se tivesse acabado de beber um galo de leite integral sem seu remdio de
intolerncia  lactose. Ella no estava ajudando muito. Ela continuava a
resmungar:
       -- Setecentos e cinquenta quilmetros por hora. Oitocentos.
Oitocentos e trs. Rpido. Muito rpido.
       O cavalo correu para o norte atravs do estreito de Puget, ilhas
passavam rpido, barcos de pesca e frutos do mar e um muito surpreso grupo
de baleias. A paisagem  frente comeou a parecer familiar  Crescent
Beach, Baa Boundary. Frank tinha ido velejar ali uma vez durante uma
viagem da escola. Eles cruzaram a fronteira com o Canad.
        O cavalo disparou em terra seca. Ele seguiu correndo pela estrada 99
norte, correndo to rpido que os carros pareciam estar parados.
      Por fim, assim que entraram em Vancouver, as rodas da biga
comearam a soltar fumaa.
       -- Hazel! -- Frank gritou. -- Estamos quebrando!
       Ela entendeu o recado e puxou as rdeas. O cavalo no pareceu feliz
com isso, mas ele desacelerou para subsnico enquanto andavam pelas ruas
da cidade. Atravessaram a ponte Ironworkers no norte de Vancouver, e a
biga comeou a chacoalhar perigosamente. Finalmente Arion parou no topo
de uma colina arborizada. Ele bufou, com satisfao, como se dissesse: 
assim que se corre, idiotas. A biga desmoronou em meio  fumaa,
derrubando Percy, Frank e Ella no cho molhado, coberto de musgo.
       Frank tropeou em seus ps. Ele tentava piscar para tirar pontos
amarelos da frente de seus olhos. Percy gemeu e comeou a desengatar



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Arion da biga arruinada. Ella esvoaou em crculos tontos, em cima das
rvores resmungando, -- rvore. rvore. rvore.
       Apenas Hazel no parecia afetada por causa da viagem. Sorrindo
com satisfao, ela deslizou das costas do cavalo. -- Isso foi divertido!
       -- Sim.-- Frank engoliu sua nusea. -- To divertido.
       Arion relinchou.
       -- Ele disse que precisa comer, -- Percy traduziu. -- No  de
admirar. Ele provavelmente queimou cerca de seis milhes de calorias.
        Hazel estudou o solo aos seus ps e franziu a testa. -- Eu no estou
sentindo nenhum ouro por aqui... No se preocupe, Arion. Eu vou encontrar
daqui a pouco. Nesse meio tempo, por que voc no vai pastar? Ns vamos
chamar voc...
       O cavalo correu, deixando um rastro de vapor por seu caminho.
       Hazel uniu as sobrancelhas. -- Voc acha que ele vai voltar?
       -- Eu no sei, -- disse Percy.-- Ele  como um....esprito.
        Frank quase esperava que o cavalo permanecesse longe. Ele no
disse isso,  claro. Ele podia dizer que Hazel ficaria aflita com a ideia de
perder sue novo amigo. Mas Arion o assustava, e Frank estava certo de que o
cavalo sabia disso. Hazel e Percy comearam a salvar os suprimentos dos
destroos da biga. Tinha algumas caixas aleatrias de mercadoria da
Amazon na frente, e Ella gritou de alegria quando ela descobriu um
carregamento de livros. Ela pegou uma cpia de Os Pssaros do Norte da
Amrica, escorregou para o galho mais prximo e comeou a passar as
pginas to rpido, que Frank no tinha certeza se ela estava lendo ou
retalhando o livro.
        Frank apoiou-se contra uma rvore, tentando controlar sua vertigem.
Ele ainda no tinha se recuperado de sua priso com as Amazonas  chutado
por toda a entrada, desarmado, enjaulado e insultado de bebezinho por um
cavalo egocntrico. Isso no tinha exatamente ajudado a sua auto-estima.
         Mesmo antes disso, a viso que ele tinha compartilhado com Hazel
havia deixado-o abalado. Ele se sentia mais prximo dela agora. Sabia que
havia feito a coisa certa dando a ela o pedao de lenha. Um grande peso
tinha sido retirado de seus ombros. Por outro lado, ele tinha visto o Mundo
Inferior em primeira mo. Ele sentia como se fosse se sentar para sempre e
no fazer nada, apenas se lamentando pelos seus erros. Ele olhou para as
mscaras de ouro assustadoras sobre as bancas dos mortos e percebeu que
ele estaria diante delas um dia, talvez muito em breve.

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         Frank sempre sonhava em ver sua me de novo quando ele morresse.
Mas talvez isso fosse impossvel para semideuses. Hazel tinha estado no
campo algo como setenta anos e nunca encontrou sua me. Frank esperava
que ele e sua me acabassem no Elsio juntos. Mas se Hazel no chegou l 
sacrificar sua vida e parar Gaia, assumindo a responsabilidade por suas aes
de forma que sua me no acabasse na punio  quais chances Frank teria?
Ele nunca tinha feito nada herico.
        Ele se endireitou e olhou ao redor, tentando se orientar. Ao sul, no
porto de Vancouver o horizonte brilhava em um pr-do-sol vermelho. Ao
norte, as colinas e florestas tropicais do Lynn Canyon Park serpenteavam
entre as subdivises do Norte de Vancouver, at que davam lugar 
imensido. Frank tinha explorado este parque h anos. Ele viu uma curva no
rio que parecia familiar. Reconheceu um pinheiro morto que havia sido
divido por um raio em uma clareira prxima. Frank sabia onde estavam.
        -- Eu estou praticamente em casa, -- ele disse. -- A casa da minha
av  bem ali.
        Hazel apertou os olhos. -- Quo longe?
        -- Basta subir o rio atravs do bosque.
        Percy levantou uma sobrancelha. -- Srio? Ns vamos para a casa
da sua av?
        Frank limpou a garganta. -- Sim, de qualquer maneira.
         Hazel juntou as mos em orao. -- Frank, por favor, me diga que
ela vai nos deixar passar a noite. Eu sei que temos um prazo, mas temos que
descansar, certo? Arion nos deu algum tempo. Talvez pudssemos ter uma
refeio realmente cozida?
        -- E um banho quente? -- Percy suplicou. -- E uma cama com
lenis e um travesseiro?
        Frank tentava imaginar o rosto de sua av se ele aparecesse com dois
amigos fortemente armados e uma harpia. Tudo tinha mudado desde o
funeral de sua me, desde a manh em que os lobos o levaram para o sul. Ele
estava to irritado em ter que ir. Agora, ele no podia se imaginar voltando.
        Ainda assim, ele e seus amigos estavam esgotados. Eles no
conseguiriam viajar mais dois dias sem dormir e uma comida descente. Sua
av poderia dar suprimentos. E talvez ela pudesse responder algumas
perguntas que estavam se formando na mente de Frank  uma suspeita
crescente sobre seu dom de famlia.



                                                                        281
       -- Vale a pena tentar, -- Frank decidiu. -- Vamos para a casa da
minha av.


        Frank estava to distrado que ele teria caminhado diretamente para
os ogros no campo. Felizmente Percy o puxou de volta.
        Eles se agacharam ao lado de Hazel e Ella que estavam atrs de um
tronco cado e olharam para a clareira.
       -- Ruim, -- Ella murmurou. -- Isso  muito ruim para as harpias.
        Estava totalmente escuro agora. Em torno de uma fogueira ardente,
estavam meia dzia de humanides cabeludos. De p, eles provavelmente
tinham dois metros e meio. Pequenos em comparao ao gigante Polybotes
ou at mesmo aos ciclopes que tinham visto na Califrnia, mais isso no os
tornava menos assustadores. Eles usavam apenas bermudas de surfistas. A
pele era vermelha como insolao  coberta por tatuagens de drages,
coraes e mulheres de biquni. Pendurado num espeto sobre o fogo havia
um animal de pele clara, talvez um javali, e os ogros estavam arrancando
pedaos de carne com as unhas em forma de garra, rindo e conversando
enquanto comiam, expondo os dentes pontudos. Ao lado dos ogros sentados,
haviam bolsas de malha com varias esferas de bronze como balas de canho.
As esferas deviam estar quentes, porque soltavam vapor no ar frio da noite.
        Cento e oitenta metros alm da clareira, as luzes da manso Zhang
brilhavam atravs das rvores. To perto, Frank pensou. Ele se perguntou se
poderiam se esgueirar em torno dos monstros, mas quando olhou para os
lados, ele viu mais fogueiras em todas as direes, como se os ogros
tivessem cercado a propriedade. Frank cravou os dedos no tronco da rvore.
Sua av poderia estar sozinha dentro da casa, presa.
       -- O que so esses caras? -- ele sussurrou.
       -- Canadenses, -- Percy disse.
       Frank inclinou-se para longe dele -- O que?
       -- Uh, sem ofensa, -- Percy disse. --  isso que Annabeth disse
quando lutamos com eles antes. Ela disse que eles viviam no norte, no
Canad.
       -- Hum... -- Frank murmurou, -- Estamos no Canad. Eu sou
canadense. Mas eu nunca vi essas coisas antes.
        Ella arrancou uma pena de suas asas e virou em seus dedos. --
Lestriges, -- ela disse. -- Gigantes canibais do norte. A lenda do p-

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grande. Sim, Sim. Eles no so pssaros. No pssaros da Amrica do
Norte.
        --  assim que eles so chamados, -- Percy concordou. -- Lestri-
h, que seja, isso a que a Ella disse.
        Frank fez uma careta para os caras na clareira. -- Eles podem ser
confundidos com o p grande. Talvez seja onde a lenda comeou. Ella, voc
 muito inteligente.
       -- Ella  inteligente, -- ela concordou. Ela timidamente ofereceu 
Frank sua pena.
       -- Oh...Obrigado. -- Ele guardou a pena em seu bolso, ento notou
Hazel olhando para ele. -- O qu? -- Perguntou.
       -- Nada. -- Ela virou para Percy. -- Sua memria est voltando?
Voc lembra como vencer esses caras?
        -- Um pouco, -- Percy disse. -- Ainda  confuso. Eu acho que tive
ajuda. Ns os matamos com bronze celestial, mas isso foi antes... voc sabe.
        -- Antes da morte ser sequestrada, -- Disse Hazel. -- Portanto,
agora eles no poderiam morrer de verdade.
        Percy assentiu. -- Essas balas de canho de bronze so as ms
noticias. Eu acho que ns usamos algumas delas contra os gigantes, eles
pegaram fogo e explodiram.
        A mo de Frank foi para o bolso de seu casaco. Ento ele se lembrou
de que Hazel estava com o seu pedao de lenha. -- Se ns causarmos uma
exploso, -- ele disse, -- todos os ogros ao redor do acampamento vo
correr pra c. Eu acho que eles cercaram a casa, o que significa que podem
haver 50 ou 60 desses caras na floresta.
       -- Ento isso  uma armadilha. -- Hazel olhou para Frank com
preocupao. -- E o que acontece com sua av? Ns temos que salv-la.
        Frank sentiu um n na garganta. Nunca em um milho de anos ele
tinha pensado que fosse preciso resgatar sua av, mas agora ele comeou a
pensar em cenrios de combate sua mente tinha voltado para o
acampamento durante os jogos de guerra.
         -- Ns precisamos de uma distrao, -- ele decidiu. -- Se pudermos
trazer esse grupo para a campina, ns nos esgueiramos sem alertar os outros.
        -- Eu gostaria que Arion estivesse aqui, -- disse Hazel. -- Eu
poderia fazer os ogros me perseguirem.


                                                                       283
       Frank escorregou sua lana de suas costas. -- Eu tenho outra ideia.
       Frank no queria fazer isso. A ideia de trazer Cinzento o assustava
ainda mais que o cavalo de Hazel. Mas ele no viu outra alternativa.
       -- Frank, voc no pode ir l pra fora! -- Hazel disse. --  suicdio!
       -- No sou eu quem atacarei, -- Frank disse. -- Eu tenho um
amigo. S que ningum grite... Ok?
       Ele espetou a lana no cho e uma lasca se rompeu.
       -- Oops, -- Ella disse. -- No, sem ponta de lana. No, no.
        O cho tremeu. Uma mo cinzenta quebrou a superfcie. Percy se
atrapalhou com sua espada. E Hazel gritou como um gato com uma bola de
pelo. Ella desapareceu e se reapareceu no topo de uma rvore prxima.
       -- Est tudo bem, -- Frank prometeu. -- Ele est sob controle!
        Cinzento se arrastou para fora da terra. Ele no tinha nenhum sinal
de dano do seu encontro com o basilisco. Ele estava bem, com uma nova
camuflagem e botas de combate, a carne estava cinza translcida, cobrindo
os ossos brilhantes como gelatina. Ele virou seus olhos fantasmagricos para
Frank  espera de uma ordem.
        -- Frank ele  um Spartus, -- disse Percy. -- Um guerreiro
esqueleto. Eles so o mal. So assassinos. Eles so...
       -- Eu sei. -- Frank disse amargamente. -- Mas  um dom de Marte.
Agora isso  tudo que tenho. Ok, Cinzento. Suas ordens: atacar aquele grupo
de ogros, lev-los para o oeste, causando um desvio para que possamos...
       Infelizmente, Cinzento tinha perdido o interesse depois da palavra
"ogros". Talvez ele apenas tivesse entendido essa simples palavra. Ele
marchou para a direo da fogueira dos ogros.
         -- Espera! -- Frank disse, mas era tarde de mais. Cinzento puxou
duas de suas costelas e correu ao redor do fogo, esfaqueando-os na parte de
trs em uma velocidade to incrvel que eles nem sequer tiveram tempo para
gritar. Seis Lestriges extremamente surpresos caram de lado como peas
de domin se desfazendo em p. Cinzento pisou ao redor, chutando as cinzas
quando eles tentavam se refazer. Quando ele ficou satisfeito, voltou sua
ateno para Frank, saudando-o elegantemente e se afundando no cho da
floresta.
       Percy olhou para Frank. -- Como...



                                                                         284
       -- No Lestriges. -- Ella voou e pousou ao lado deles. -- Seis
menos seis  zero. As lanas so boas para subtrao. So sim.
        Hazel olhou para Frank como se ele tivesse se transformado em um
esqueleto zumbi. Frank pensou que seu corao estivesse pulverizado, mas
ele no poderia culp-la. As crianas de Marte eram violentas. O smbolo de
Marte era uma lana sangrenta. Porque Hazel no deveria estar chocada?
       Ele olhou para baixo, para a ponta quebrada de sua lana. Ele
desejava ter um pai qualquer, mas ele tinha Marte.
       -- Vamos l, -- ele disse. -- Minha av pode estar com problemas.




                                                                       285
                               XXXIV




ELES PARARAM EM FRENTE DA VARANDA. Como Frank temia,
pequenas fogueiras estavam espalhadas pelo jardim, mas a casa permanecia
intocada.
        Os sinos de vento de sua av badalavam com a brisa noturna. A
cadeira de balano permanecia vazia, de frente para a estrada. Luzes
brilhavam atravs das janelas dos andares de baixo, mas Frank decidiu tocar
a campainha. Ele no sabia se era tarde, se sua av estava dormindo ou se at
mesmo estava em casa. Instantaneamente, ele verificou a esttua de elefante
no canto  uma cpia da que estava em Portland. A chave reserva estava
escondida em baixo da escultura.
        Frank hesitou em abrir a porta
        -- O que houve? -- Perguntou Percy.
        Frank se lembrou da vez em que abriu a porta para o militar que
contou o acontecido com sua me. Ele se lembrou de ter andado por esses
mesmos degraus para o funeral dela, segurando um pedao de lenha sobre
seu o casaco pela primeira vez. Ele se lembrou de ter ficado parado naquele
mesmo lugar observando os lobos sarem da mata  os servos de Lupa, que o
levaram ao Acampamento Jpiter. Aquilo parecia ter acontecido h tanto
tempo, mas havia apenas seis semanas.
        Agora ele estava de volta. Ser que a vov o abraaria? Ser que ela
diria "Frank graas aos deuses voc est de volta, eu estou cercada de
monstros!"
       Era mais provvel ela repreend-lo, ou confundi-los com intrusos e
persegui-los com uma frigideira.
        -- Frank? -- Hazel perguntou.
        -- Ella est nervosa -- murmurou a harpia de seu poleiro nas
grades. -- O elefante, o elefante est encarando Ella.
        -- Vai ficar tudo bem -- a mo de Frank estava tremendo tanto que
ele mal conseguia encaixar a chave na fechadura. -- Apenas fiquem juntos.

                                                                        286
        No lado de dentro, a casa fedia  lugar fechado e mofo. Geralmente,
o ar cheirava a incenso de jasmim, mas todos os defumadores estavam
vazios.
        Eles examinaram a sala de estar, a sala de jantar, a cozinha. Havia
loua suja na pia, o que no estava certo. A empregada de sua av vinha
todos os dias  a no ser que ela tenha sido afugentada pelos gigantes.
        Ou tenha virado almoo, Frank pensou. Ella tinha dito que os
Lestriges eram canibais.
       Ele afastou esses pensamentos. Monstros ignoravam os mortais, pelo
menos at agora.
         Na sala de estar, esttuas de Buda e deuses Taostas sorriam para
eles igual a palhaos psicopatas. Frank lembrou tambm que ris, a deusa do
arco ris, era interessada por budismo e taosmo. Ele imaginou que uma
visita a essa casa velha e assustadora tiraria isso da cabea dela.
        Os vasos de porcelana estavam cobertos de teias de aranha.
Novamente  aquilo no estava certo. Sua av insistia que sua coleo de
vasos fosse espanada regularmente. Vendo as porcelanas Frank sentiu uma
pontada de culpa por ter destrudo tantas peas no dia do funeral. Isso
parecia estpido para ele agora  zangar-se com sua av quando havia tantas
outras pessoas para ficar com raiva: Juno, Gaia, os gigantes, seu pai Marte.
Especialmente Marte.
        A lareira estava fria e escura.
        Hazel abraou o peito como se fosse impedir o pedao de lenha de
pular na lareira. -- Aquilo ...
        -- Sim -- Frank disse. --  isso mesmo.
        -- Aquilo o que? -- Percy perguntou.
        A expresso de Hazel era simptica, mas aquilo s fez com que
Frank se sentisse pior. Ele se lembrou do quo horrorizada ela havia ficado,
a repulsa que ela havia sentido quando ele invocou Cinzento.
       --  a lareira -- ele falou para Percy, o que soou estupidamente
bvio. -- Vamos checar o andar de cima.
         Os degraus rangiam debaixo de seus ps. O antigo quarto de Frank
permanecia o mesmo. Nenhuma de suas coisas havia sido tocada  seu arco
e aljava extras (ele tinha que peg-los mais tarde), seus prmios de concursos
de soletrar da escola (sim, ele provavelmente era o nico semideus no-
dislxico campeo de soletrar no mundo, como se ele j no fosse estranho o

                                                                         287
suficiente), e as fotos de sua me  em sua jaqueta camuflada e capacete,
sentada em um jipe na provncia de Kandahar; na sua roupa de treinadora de
futebol, no vero em que ela treinou o time de Frank; em seu uniforme
militar, suas mos nos ombros de Frank, quando ela foi a sua escola no dia
das profisses.
        -- Sua me? -- Hazel perguntou gentilmente. -- Ela  linda.
       Frank no conseguiu responder. Ele se sentiu um pouco embaraado
 um cara de dezesseis anos de idade cheio de fotos de sua me.
         O quo desesperado soava aquilo? Mas, principalmente, ele se sentiu
triste. Seis semanas desde que ele esteve aqui. De alguma forma, parecia
como sempre. Mas quando ele olhou para o sorriso de sua me nas fotos, a
dor de perd-la ficou mais forte que nunca.
       Eles checaram os outros quartos. Os dois do meio estavam vazios.
Uma fraca luz escapava pela ltima porta  o quarto de sua av.
        Frank bateu de leve na porta. Ningum respondeu. Ele puxou a
maaneta e abriu a porta. Sua av estava deitada na cama, magra e frgil, seu
cabelo branco estava espalhado pelo seu rosto como uma coroa de basilisco.
Uma nica vela queimava sobre o criado mudo. Sentado ao lado da cama
estava um homem grande em uma farda bege canadense. Apesar do escuro
ele usava culos de sol pretos com uma luz vermelho-sangue por trs das
lentes.
        -- Marte -- Frank disse.
       O deus o olhou impassivo. -- Hey, garoto, venha aqui. Diga aos
seus amigos para darem um passeio.
        -- Frank -- Hazel sussurrou. -- O que voc quis dizer com Marte?
 a sua av... Ela est bem?
        Frank olhou para os amigos. -- Vocs no o vem?
        -- Ver quem? -- Percy sacou sua espada. -- Marte? Onde ele est?
       O deus da guerra sorriu. -- Nah, eles no podem me ver. Dessa vez
 melhor assim. S uma conversa entre pai e filho, certo?
      Frank cerrou os punhos. Ele contou at dez antes de confiar em si
mesmo para falar.
        -- Galera, no... no  nada. Por que vocs no verificam os outros
quartos?
        -- Telhado. -- Ella disse. -- Telhados so bons para harpias.

                                                                        288
       -- Claro. -- Disse Frank ainda atordoado. -- Provavelmente h
comida na cozinha. Vocs me dariam alguns minutos sozinho com a minha
av? Eu acho que ela est...
       Sua voz falhou. Ele no tinha certeza se queria chorar ou gritar ou
socar Marte no meio dos olhos. Talvez os trs.
        Hazel colocou sua mo gentilmente nos ombros de Frank. -- Claro,
Frank. Ella, Percy, vamos.
        Frank esperou at no poder escutar mais os passos dos amigos.
Ento ele entrou no quarto e fechou a porta.
        --  realmente voc? -- Ele perguntou a Marte. -- Isso no  um
truque ou uma iluso nem nada do tipo, certo?
        O deus sacudiu a cabea. -- Voc preferia que no fosse eu?
        -- Sim. -- Frank confessou.
        Marte deu de ombros. -- No posso te culpar. Ningum recebe bem
a guerra  pelo menos os espertos. Mas a guerra sempre acha as pessoas,
cedo ou tarde.  inevitvel.
        -- Isso  estupidez -- Frank disse. -- A guerra no  inevitvel. Ela
mata as pessoas. Ela...
        -- ...levou sua me. -- Marte finalizou.
        Frank queria arrancar esse olhar calmo da cara do deus, mas isso
talvez s fosse a aura de Marte o fazendo ficar agressivo. Ele olhou para sua
av, que dormia calmamente. O garoto imaginou se ela iria acordar. Se
algum podia enfrentar o deus da guerra, esse algum era sua av.
       -- Ela est pronta para morrer. -- O deus disse. -- Ela est pronta
h semanas, mas estava esperando voc.
       -- Eu? -- Frank ficou to chocado que quase esqueceu sua raiva. --
Por qu? Como ela poderia saber que eu estava voltando?
        -- Os Lestriges l de fora sabiam. -- Marte disse. -- Eu imaginei
que alguma divindade os havia informado.
        Frank piscou. -- Juno?
        O deus da guerra gargalhou to alto que a as janelas sacudiram, mas
a av nem se agitou.




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        -- Juno? Pelos bigodes do javali, criana. Juno no! Eu estou
falando de Gaia. Obviamente ela est vigiando voc. Eu acho que voc a
preocupa mais do que Percy, ou Jason ou qualquer outro dos sete.
        Frank se sentiu como se o quarto tremesse. Ele queria que houvesse
outra cadeira para se sentar.
       -- Os sete... Voc quer dizer os da antiga profecia, dos Portes da
Morte? Eu sou um dos sete? E o Jason, e o...
        -- Sim, sim. -- Marte sacudiu a mo impacientemente. -- Vamos l
garoto. Era pra voc ser um bom estrategista. Pense direito! Obviamente
seus amigos esto se preparando para essa misso tambm, presumindo que
voc volte vivo do Alasca. Juno pretende unir os Gregos e os Romanos e
envi-los para batalhar contra os gigantes. Ela acredita que esse seja o nico
modo de deter Gaia.
        Marte deu de ombros, claramente insatisfeito com o plano.
        -- De qualquer forma, Gaia no quer que voc seja um dos sete.
Percy Jackson... Ela acredita que pode control-lo. Todos os outros possuem
fraquezas que ela pode explorar. Mas voc, voc a preocupa. Ela preferiu
mat-lo imediatamente. Esse  o motivo dela ter ressuscitado os Lestriges.
Eles esto esperando voc aqui h dias.
        Frank balanou a cabea. Marte estava planejando algum tipo de
armadilha? De jeito nenhum uma divindade iria se preocupar com Frank,
especialmente quando h caras iguais ao Percy Jackson para se preocupar.
       -- Sem fraquezas? Eu no sou nada seno fraquezas. Minha vida
depende de um pedao de madeira!
       Marte sorriu. -- Voc est se julgando muito cedo. De qualquer
maneira, Gaia convenceu esses Lestriges de que se eles comessem o ltimo
membro da sua famlia  e isso quer dizer voc  eles herdariam o seu dom
de famlia. Se  verdade ou no, eu no sei. Mas esses Lestriges esto
famintos o suficiente para tentar.
        Um n se formou no estmago de Frank. Cinzento havia matado seis
desses ogros, mas julgando pelos crculos de fogueiras ao redor da casa,
existiam mais dezenas  e todos esperando para ter Frank como caf da
manh.
        -- Eu vou vomitar, -- O garoto disse.
       -- No, voc no vai. -- Marte estalou os dedos e o enjo de Frank
desapareceu. -- Nervosismo pr-batalha. Acontece com todo mundo.


                                                                         290
       -- Mas a minha av...
         -- Sim, ela est esperando para falar com voc. Os ogros a deixaram
em paz, por hora. Ela  a isca, v? Agora que voc est aqui, eles j devem
ter sentido a sua presena. Eles iro atacar pela manh.
        -- Ento nos tire daqui! -- Frank exigiu. -- Estale seus dedos e
destrua os canibais.
        -- H! Isso seria engraado. Mas eu no luto as batalhas de meus
filhos. As Parcas possuem ideias claras sobre os trabalhos pertencentes aos
deuses, e os que devem ser feitos por mortais. Essa misso  sua, garoto. E,
uh, caso voc ainda no tenha percebido, a sua lana s poder ser usada
novamente daqui 24h, ento eu espero que voc tenha aprendido a usar os
dons da sua famlia. Caso contrrio, voc vai virar caf da manh de
canibais.
        Os Dons da Famlia. Frank estava esperando falar com sua av
sobre isso, mas agora a nica pessoa com quem poderia falar era Marte. Ele
encarou o deus da guerra, que estava sorrindo sem absolutamente simpatia
alguma.
      -- Poriclimeno. -- Frank falou o nome cautelosamente, como em
uma competio de soletrar. -- Ele  meu ancestral, um prncipe grego, um
Argonauta. Ele morreu lutando contra Hrcules.
       Marte fez um gesto "continue!" com as mos.
         -- Ele possua uma habilidade que o ajudava em batalha. -- Frank
disse. -- Alguma espcie de `presente dos deuses'. Minha me disse que ele
lutava como um enxame de abelhas.
       Marte riu. --  verdade. O que mais?
         -- De algum modo a famlia foi para a China. Eu acho, como no
Imprio Romano, um descendente de Poriclimeno serviu a uma legio.
Minha me costumava falar de um cara chamado Seneca Gracchus, mas ele
tambm tinha um nome japons, Sung Guo. Eu acho  bem, essa  a parte
que eu no sei muito bem, mas Reyna sempre disse que havia vrias legies
perdidas. A Duodcima fundou o Acampamento Jpiter. Talvez haja outra
legio, perdida no leste.
       Marte aplaudiu em silncio. -- Nada mau garoto. J ouviu falar na
Batalha de Carrhae? Grande desastre para os romanos. Eles lutaram contra
esses caras chamados Parthians nas fronteiras do imprio. Quinze mil
romanos morreram. Mais de dez mil viraram prisioneiros.
       -- E um desses prisioneiros era o meu ancestral Seneca Gracchus?

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        -- Exatamente. -- Marte concordou. -- Os Parthians fizeram os
legionrios capturados de escravos, j que eram to bons lutadores. At que
a Parthia foi invadida novamente, pelos...
       -- Pelos chineses. -- Frank adivinhou. -- E os prisioneiros romanos
foram capturados novamente.
        -- Sim. Meio que embaraoso. De qualquer forma, foi assim que a
legio romana foi para a China. Eventualmente os romanos criaram razes e
construram uma nova cidade chamada...
        -- Li-Jien. -- Frank disse. -- Minha me disse que esse era o nosso
antigo nome. Li-Jien. Legio.
       Marte parecia satisfeito. -- Agora voc est entendendo. E o velho
Seneca Gracchus possua o seu dom de famlia.
        -- Minha me disse que ele derrotou drages, -- Frank relembrou.
-- Ela disse que ele era... que ele era o drago mais poderoso de todos.
        -- Ele era bom, -- Marte admitiu. -- No bom o suficiente para
tirar a m reputao de sua legio, mas bom. Ele se estabeleceu na China,
passou os dons da famlia para seus filhos, e assim por diante.
Eventualmente sua famlia imigrou para a Amrica do Norte e se envolveu
com o Acampamento Jpiter...
       -- Completando o crculo. -- Terminou Frank. -- Juno disse que eu
completaria o crculo da famlia.
        -- Vamos ver. -- Marte acenou para a av de Frank. -- Ela mesma
quer contar tudo a voc, mas eu decidi falar um pouco j que a velha no
possui muita fora. Ento, voc compreende o seu dom?
         Frank hesitou. Ele tinha uma idia, mas soava maluca  mais louco
do que sua famlia mudando da Grcia para Roma para China e depois para
o Canad. Ele no queria dizer em voz alta. Ele no queria estar errado e ver
Marte rindo de sua cara. -- E-eu acho que sim. Mas contra um exrcito de
ogros...
        -- Sim, vai ser difcil. -- Marte se levantou e espreguiou. --
Quando sua av acordar ela ir lhe oferecer ajuda. Depois imagino que ela
ir morrer.
          -- O QU? Mas eu preciso salv-la! Ela no pode simplesmente me
deixar!
        -- Ela teve uma vida longa. -- Marte disse. -- Ela est pronta para
seguir em frente. No seja egosta.

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        -- Egosta!
       -- Essa velha s ficou por aqui tanto tempo por causa de um senso
de dever. Com a sua me foi a mesma coisa. Esse foi o motivo de eu t-la
amado. Ela sempre colocava o dever na frente de tudo, at da prpria vida.
        -- At de mim.
       Marte tirou os culos de sol. Aonde deveriam estar seus olhos,
haviam mini esferas de fogo como exploses nucleares.
        -- Auto-piedade no  til, garoto. No  digno de voc. Mesmo
sem os dons da famlia, sua me lhe deu os melhores traos  bravura,
lealdade, inteligncia. Agora voc tem que decidir como vai us-los. Ao
amanhecer, escute a sua av. Tome seu conselho. Voc ainda pode libertar
Tnatos e salvar o acampamento.
        -- E deixar a minha av para trs para morrer.
       -- A vida s  preciosa porque acaba, garoto. Veja pelos deuses.
Vocs mortais no sabem o quo sortudos so.
        -- Sim. -- Frank murmurou. -- Realmente sortudos.
       Marte gargalhou  um som metlico cortante. -- Sua me costumava
me contar esse provrbio chins. Comer amargo...
        -- Prove amargo, para saborear doce, -- Frank completou. -- eu
odeio esse provrbio.
        -- Mas  verdade. Como eles dizem esses dias  sem dor, sem
valor? Mesmo conceito. Voc tem o caminho fcil, o caminho apelativo, e o
caminho pacfico, todos do na mesma no final. Mas quando voc toma o
caminho difcil  ah,  a que voc colhe os doces frutos. Dever. Sacrifcio.
Eles querem dizer algo.
        Frank estava to revoltado que mal conseguia falar. Esse era seu pai?
        Claro, Frank entendeu sobre sua me virando uma herona. Ele
entendeu que ela havia salvado vidas e havia sido muito corajosa. Mas ela o
deixou sozinho. Isso no era justo. Isso no era certo.
        -- Eu vou indo, -- Marte falou. -- Mas primeiro, voc tinha dito
que era fraco. Isso no  verdade. Voc quer saber por que Juno poupou
voc, Frank? Por que esse pedao de lenha ainda no queimou?  porque
voc tem uma funo a cumprir. Voc acha que no  to bom quanto os
outros romanos. Voc acha que Percy Jackson  melhor que voc.
        -- E ele . -- Frank grunhiu. -- Ele lutou contra voc e ganhou.

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         Marte deu de ombros. -- Talvez. S talvez. Mas todo heri possui
um ponto fraco. Percy Jackson? Ele  muito leal aos amigos. Ele no desiste
deles. Ele disse isso, h alguns anos. E algum dia ele vai encarar um
sacrifcio que no poder fazer. Sem voc, Frank  sem o seu senso de dever
 ele ir falhar. Iremos perder a guerra, e Gaia destruir o nosso mundo.
        Frank balanou a cabea. Ele no podia escutar isso.
         -- A guerra  um dever. -- Marte continuou. -- A nica escolha 
voc aceitar isso e aquilo pelo que voc luta. O legado de Roma est em jogo
 cinco mil anos de lei, ordem, civilizao. Os deuses, as tradies, as
culturas que formam o mundo em que voc vive: esto ao ponto de ruir,
Frank, a no ser que voc vena isso. Acho que esse  um motivo para se
lutar. Pense a respeito.
        -- Qual  o meu? -- Frank perguntou.
        Marte levantou a sobrancelha. -- O seu o qu?
        -- O meu ponto fraco. Voc disse que todos os heris possuem um.
        O deus sorriu secamente. -- Voc mesmo precisa responder isso,
Frank. Mas voc finalmente est fazendo as perguntas certas. Agora v
dormir. Voc precisa descansar.
      O deus acenou com a mo. Os olhos de Frank ficaram pesados. Ele
comeou a cair e tudo ficou preto.


        -- Fai. -- Disse uma voz familiar, spera e impaciente.
        Frank piscou. Alguns raios de sol entravam no quarto.
        -- Fai, levante-se. Por mais que eu queira tirar essa cara ridcula do
seu rosto, eu no estou em condies de levantar da cama.
        -- Vov?
        Ela entrou em foco, olhando para Frank da cama. Ele estava
esparramado no cho. Algum o havia coberto com uma manta e posto um
travesseiro sobre sua cabea, mas ele no fazia a mnima idia de como isso
havia acontecido.
        -- Sim, meu queridinho. -- Sua av ainda parecia tremendamente
fraca e plida, mas a sua voz estava forte como sempre. -- Agora levante.
Aqueles ogros esto cercando a casa. Ns temos muito que discutir se voc e
seus amigos querem escapar daqui vivos.



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                               XXXV




BASTOU UMA OLHADELA PELA JANELA, e Frank soube que estava
em apuros.
       Na beira do gramado, os Lestriges estavam empilhando balas de
canho de bronze. A pele deles brilhava em vermelho. Os cabelos
desgrenhados, as tatuagens e as garras no pareciam mais bonitas na luz da
manh.
        Alguns carregavam clavas ou lanas. Ogros confusos carregavam
pranchas de surf, como se tivessem aparecido na festa errada. Todos eles
estavam em clima de festa  batendo dando toquinhos com as mos uns com
os outros, amarrando aventais de plstico em volta de seus pescoos,
quebrando as facas e os garfos. Um ogro havia colocado fogo em uma
churrasqueira porttil e estava danando com um avental que dizia BEIJE O
COZINHEIRO.
        A cena seria at engraada, se Frank no soubesse que ele era o prato
principal.
        -- Eu mandei seus amigos para o sto, -- disse Vov. -- Voc
pode se juntar a eles quando terminarmos.
        -- O sto? -- Frank se virou. -- Voc me disse que eu nunca
poderia entrar l.
       -- Isso  porque ns mantemos armas no sto, garoto bobo. Voc
acha que essa  a primeira vez que monstros atacam nossa famlia?
       -- Armas. -- resmungou Frank. -- Certo. Eu nunca manipulei
armas antes.
        As narinas de Vov inflaram.
        -- Isso foi sarcasmo, Fai Zhang?
        -- Sim, vov.
        -- timo. Ento ainda pode haver esperana para voc. Agora,
sente-se. Voc tem que comer.

                                                                        295
        Ela acenou com a mo para a escrivaninha, onde algum havia
colocado um copo de suco de laranja e um prato de ovos cozidos e bacon
torrados  o caf da manh preferido de Frank.
       Apesar de seus problemas, Frank subitamente se sentiu faminto. Ele
olhou para Vov atnito.
        -- Foi voc que...
        -- Se eu fiz seu caf da manh? Pelo macaco de Buda,  claro que
no! E tambm no foram os empregados da casa. Aqui  muito perigoso
para eles. No, a sua namorada Hazel fez isso pra voc. E lhe trouxe um
cobertor e um travesseiro noite passada. E pegou algumas roupas limpas
para voc em seu quarto. A propsito, voc deveria tomar banho. Est
cheirando  crina de cavalo queimada.
        Frank abriu e fechou a boca como um peixe. Ele no conseguia fazer
os sons sarem. Hazel havia feito tudo aquilo por ele? Frank tinha certeza de
que destrura qualquer chance com ela na noite passada, quando chamou
Cinzento.
        -- Ela no ... hm... ela no ...
         -- No  sua namorada? -- Vov perguntou. -- Bem, ela deveria
ser, seu pateta! No a deixe escapar. Voc precisa de mulheres fortes em sua
vida, se ainda no notou. Agora, ao trabalho.
         Frank comia enquanto Vov lhe dava um tipo de sesso de instruo
militar. Na luz do dia, sua pele era to translcida que suas veias pareciam
brilhar. Sua respirao soava como um frgil saco de papel inflando e
desinflando, mas ela falava com firmeza e clareza.
        Ela explicou que os ogros estavam vigiando a casa por trs dias,
apenas esperando Frank aparecer.
       -- Eles querem cozinhar voc e com-lo, -- disse ela, amargamente.
-- O que  ridculo. Voc tem um gosto horrvel.
        -- Obrigado, Vov.
        Ela balanou a cabea.
        -- Eu admito, fiquei um pouco contente quando me disseram que
vocs estavam voltando. E estou encantada em v-lo uma ltima vez, mesmo
que as suas roupas estejam sujas e voc precise de um corte de cabelo. 
assim que voc representa sua famlia?
        -- Eu estive um pouco ocupado, Vov.


                                                                        296
        -- No h desculpa para o relaxo. De qualquer forma, seus amigos
dormiram e comeram. Eles esto fazendo um balano das armas estocadas
no sto. Eu disse que voc se juntaria a eles logo, mas h ogros demais para
se defender por muito tempo. Devemos bolar um plano de fuga. Olhe na
escrivaninha.
        Frank abriu a gaveta e puxou para fora um envelope selado.
       -- Sabe o aerdromo no fim do parque? -- perguntou Vov. --
Voc consegue encontr-lo de novo?
        Frank assentiu, mudo. Eram cerca de cinco quilmetros ao norte,
pela estrada principal que atravessava o cnion. Vov o havia levado l
algumas vezes quando ela alugava avies para trazer carregamentos
especiais da China.
       -- H um piloto  disposio para sair a qualquer momento, -- disse
Vov. -- Ele  um velho amigo da famlia. Tenho uma carta para ele nesse
envelope, pedindo-lhe para lev-lo para o norte.
        -- Mas...
        -- No argumente garoto -- murmurou ela. -- Marte veio me visitar
esses dias, pra me fazer companhia. Ele me falou da sua jornada. Ache a
Morte no Alasca e liberte-o. Faa o que deve fazer.
       -- Mas se eu fizer isso, voc ir morrer. E eu nunca mais vou te ver
de novo.
         --  verdade -- Vov concordou. -- Mas eu irei morrer de qualquer
jeito mesmo. Estou velha. E acho que deixei isso bem claro. Agora, o seu
pretor lhe deu as cartas de recomendao?
        -- Uh, sim, mas...
        -- timo. Mostre isso para o piloto tambm. Ele  um veterano da
legio. Se ele tiver qualquer dvida ou no tiver muita sorte, essas
credenciais faro com que as obrigaes de honra dele faam-no ajudar voc
da maneira que for possvel. Tudo o que voc tem que fazer  chegar ao
aerdromo.
       A casa retumbou. L fora, uma bola de fogo explodiu no ar e
iluminou todo o cmodo.
       -- Os ogros esto ficando impacientes -- disse a av. -- Temos de
nos apressar. Agora, sobre os seus poderes, eu espero que voc os tenha
descoberto.
        -- Hm...

                                                                        297
       Vov murmurou algumas maldies em um mandarim muito rpido.
       -- Deuses de seus antepassados, garoto! Voc no aprendeu nada?
        -- Sim! -- Ele gaguejou os detalhes de sua discusso com Marte na
noite anterior, mas sentia como se a sua lngua estivesse presa perto de
Vov.
       -- O dom de Poriclimeno... eu acho, eu acho que ele era o filho de
Poseidon, quero dizer, Netuno, quero dizer... -- Frank abriu as mos. -- O
deus do mar.
       Vov concordou a contragosto.
        -- Ele era neto de Poseidon, mas j est bom. Como o seu crebro
brilhante chegou a esse fato?
        -- Um vidente em Portland... ele disse alguma coisa sobre meu
bisav, Shen Lun. O vidente disse que ele era culpado pelo terremoto de
1906, que destruiu So Francisco e o lugar onde anteriormente era o
Acampamento Jpiter.
       -- Continue.
        -- No acampamento, eles disseram que um descendente de Netuno
havia causado o desastre. Netuno  o deus dos terremotos. Mas... mas eu
no acho que meu bisav tenha feito isso, na verdade. Causar terremotos no
fazia parte de seus dons.
        -- No mesmo -- concordou Vov. -- Mas sim, ele era culpado.
Ele era um descendente anormal de Netuno. Ele era anormal porque seu dom
de verdade era muito mais estranho do que causar terremotos. E tambm era
anormal porque ele era chins. Um garoto chins nunca havia sido
reivindicado por sangue romano antes. Uma verdade feia  mas no tem
como negar isso. Ele foi falsamente acusado, forado a deixar o
acampamento em vergonha.
        -- Ento... se ele no fez nada de errado, por que voc me disse
para pedir perdo por ele?
       As bochechas de Vov ficaram vermelhas.
       -- Porque se desculpar por alguma coisa que voc no fez  melhor
do que morrer por isso! Eu no tinha certeza se o acampamento iria te
prender como culpado. Eu no sabia se o preconceito dos romanos havia
diminudo.
        Frank engoliu seu caf da manh. Ele havia sido provocado na
escola e nas ruas algumas vezes, mas no muitas, e nunca havia acontecido

                                                                      298
isso no Acampamento Jpiter. Ningum no acampamento, nem uma nica
vez, havia rido dele por ele ser asitico. Ningum ligava pra isso. Eles s
zoavam dele porque ele era desajeitado e lento. Ele no conseguia imaginar
como havia sido para seu bisav, acusado de destruir todo o acampamento e
ser expulso da Legio por algo que no fizera.
       -- E o nosso dom real? -- perguntou Vov. -- Voc pelo menos
descobriu o que ?
        As velhas histrias de sua me rodaram pela mente de Frank.
Lutando como um enxame de abelhas. Ele era o maior drago de todos. Ele
lembrou que sua me aparecia perto dele no jardim, como se tivesse voado
de dentro do sto. Ele lembrou-se dela saindo da floresta, dizendo que
havia dado direes  Mame Urso.
       -- Voc pode ser qualquer coisa, -- disse Frank. -- Isso  o que ela
sempre me dizia.
          Vov bufou.
       -- Finalmente uma luz fraca acendeu na sua cabea. Sim, Fai Zhang.
Sua me no estava simplesmente promovendo a sua auto-estima. Ela estava
dizendo pra voc a verdade no sentido literal.
       -- Mas... -- Outra exploso abalou a casa. O gesso do teto caiu
como neve. Frank estava to confuso que mal notara.
          -- Qualquer coisa?
       -- Que tenha sentido, -- disse Vov. -- Seres vivos. Ajuda se voc
conhecer bem a criatura. Tambm ajuda se voc estiver em uma situao de
vida ou morte, como um combate. Porque voc parece to surpreso, Fai?
Voc sempre disse que no estava confortvel com seu corpo. Todos ns nos
sentimos desse jeito  todos ns que temos sangue de Pilos. Este dom foi
dado apenas uma vez para uma famlia mortal. Somos nicos entre os
semideuses. Poseidon deve ter se sentido especialmente generoso quando
abenoou nossos ancestrais  ou especialmente rancoroso. O dom tem se
mostrado uma maldio. Ele no salvou sua me...
          L fora, uma torcida vinha dos ogros. Algum gritava: -- Zhang!
Zhang!
          -- Voc tem que ir, garoto bobo -- disse Vov. -- Nosso tempo
acabou.
       -- Mas... eu no sei como usar meu poder. Eu nunca... eu no
consigo...


                                                                       299
         -- Voc consegue -- disse Vov. -- Ou no ir sobreviver para
realizar seu destino. Eu no gostei dessa Profecia dos Sete que Marte me
falou. Sete  um nmero de azar em chins  um nmero fantasma. Mas no
h nada que possamos fazer sobre isso. Agora, v! Amanh  noite  a Festa
da Fortuna. Voc no tem tempo a perder. No se preocupe comigo. Eu vou
morrer no meu prprio tempo, da minha maneira. No tenho inteno de ser
devorada por aqueles ogros ridculos. V!
       Frank se virou para a porta. Sentia como se seu corao estivesse
sendo espremido por um espremedor de suco, mas se curvou formalmente.
       -- Obrigado, Vov. -- Disse ele. -- Eu vou fazer voc se sentir
orgulhosa.
        Ela murmurou algo em voz baixa. Frank chegou a pensar que ela
havia dito: Voc precisa.
       Ele olhou para ela estupefato, mas sua expresso azedou
imediatamente.
        -- Pare de ficar surpreso, menino! V tomar banho e se vestir!
Arrume seu cabelo! Ser minha ltima imagem de voc, e voc ir ficar com
o cabelo desarrumado?
        Ele passou as mos nos cabelos para abaix-los e se inclinou
novamente. Sua ltima imagem de Vov era dela olhando pela janela, como
se pensando na bronca terrvel que daria nos ogros quando eles invadissem
sua casa.




                                                                      300
                               XXXVI




FRANK TOMOU BANHO O MAIS RPIDO POSSVEL, colocou as
roupas que Hazel tinha separado  uma camisa verde oliva com cala bege,
srio?  ento pegou seu arco e aljava reserva e subiu as escadas do sto.
        O sto estava cheio de armas. Sua famlia tinha colecionado
armamento o suficiente para abastecer um exrcito. Escudos, lanas e aljavas
de flechas estavam pendurados ao longo da parede  quase tanto quanto no
arsenal do Acampamento Jpiter. No canto da janela, um arco escorpio
estava montado e carregado, pronto para agir. Na frente da janela estava algo
parecido com uma metralhadora com um grupo de barris.
        -- Fogos de artifcio? -- ele se perguntou em voz alta.
        -- No, no -- disse uma voz do canto. -- Batatas. Ella no gosta
de batatas.
        A harpia tinha feito um cesto para si mesma entre dois bas velhos.
Ela estava sentada em uma pilha de pergaminhos chineses, lendo sete ou oito
de uma vez.
        -- Ella -- Frank disse -- onde esto os outros?
        -- Telhado. -- Ela olhou para cima, ento voltou a ler,
alternadamente tocando as penas e virando pginas. -- Telhado. Vendo
ogros. Ella no gosta de ogros. Batatas.
        -- Batatas? -- Frank no entendeu at girar a metralhadora. Seus
oito barris estavam carregados com batatas. Na base da arma, uma cesta
estava cheia com mais munio comestvel.
         Ele olhou para fora da janela  a mesma janela que sua me o havia
assistido quando ele encontrou com o urso.
       No jardim, os ogros estavam se batendo, socando uns os outros,
ocasionalmente gritando para a casa, e atirando bolas de canho de bronze
que explodiam no meio do ar.
       -- Eles tm bolas de canho -- Frank disse. -- E ns temos uma
arma de batata.
                                                                        301
           -- Amido -- Ella disse pensativa. -- Amido  mau para ogros.
        A casa sacudiu com outra exploso. Frank precisava chegar no
telhado e ver como Percy e Hazel estavam se saindo, mas se sentiu mal de
deixar Ella sozinha.
           Ele ajoelhou perto dela, tomando cuidado de no chegar muito perto.
       -- Ella, no  seguro aqui com os ogros. Vamos voar para o Alasca
logo. Vai vir com a gente?
           Ella se contorceu desconfortvel.
      -- Alasca. Um milho e setecentos quilmetros quadrados.
Mamfero do estado: o alce.
      De repente ela trocou para o latim, que Frank s conseguiu
acompanhar graas s aulas do Acampamento Jpiter.
        -- Para o norte, alm dos deuses, jaz a coroa da legio. Cado no
gelo, o filho de Netuno deve se afogar... -- Ela parou e coou seu cabelo
vermelho bagunado. -- Hmm. Queimado. O resto est queimado.
           Frank conseguiu respirar com dificuldade.
           -- Ella, essa... essa era uma profecia? Onde leu isso?
           -- Alce -- Ella disse, saboreando a palavra. -- Alce. Alce. Alce.
       A casa sacudiu novamente. P choveu das vigas. Do lado de fora,
um ogro clamou:
           -- Frank Zhang! Aparea!
           -- No -- Ella disse. -- Frank no deve. No.
           -- S... fique aqui, certo? -- Frank disse. -- Tenho que ajudar Hazel
e Percy.
           Ele puxou a escada de mo para o telhado.


        -- Bom dia -- Percy disse sombriamente. -- Lindo dia, no? -- Ele
vestia as mesmas roupas do dia anterior - jeans, sua camiseta roxa, e jaqueta
Polartec65 - mas elas obviamente tinham sido lavadas. Ele segurava sua
espada em uma mo e uma mangueira de jardim na outra. Por que havia uma
mangueira de jardim no telhado, Frank no tinha certeza, mas toda vez que
os gigantes lanavam uma bola de canho, Percy invocava uma poderosa

65
     Polartec: Marca de um tecido resistente, quente e resistente  gua.

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rajada de gua e detonava a esfera no meio do ar. Ento Frank lembrou  a
famlia dele descendia de Poseidon, tambm. A vov disse que sua casa
tinha sido atacada antes. Talvez eles tivessem colocado uma mangueira l
em cima por essa razo.
        Hazel patrulhava a varanda entre as duas frontes do sto. Ela
parecia to bonita que fez o peito de Frank doer. Ela vestia jeans, uma
jaqueta cor de creme e uma camisa branca que fazia sua pele parecer to
quente quanto cacau. Seu cabelo encaracolado caa sobre os ombros. Quando
chegou mais perto, Frank pde sentir o cheiro do xampu de jasmim.
        Ela agarrou a espada. Quando olhou para Frank, seus olhos
brilharam com preocupao.
        -- Est tudo bem? -- ela perguntou. -- Por que est sorrindo?
        -- Ah, h, nada -- ele disse. -- Valeu pelo caf da manh. E as
roupas. E... por no me odiar.
        Hazel pareceu perplexa.
        -- Por que eu te odiaria?
       O rosto de Frank queimou. Ele desejou ter mantido a boca fechada,
mas era tarde demais agora. No deixe ela se afastar, sua av havia dito.
Voc precisa de mulheres fortes.
         --  que... na noite passada -- ele gaguejou -- Quando eu invoquei
o esqueleto. Achei... achei que voc achou... que eu fui repulsivo... ou algo
do tipo.
        Hazel ergueu as sobrancelhas. Ela sacudiu a cabea assustada.
        -- Frank, talvez eu tenha ficado surpresa. Talvez assustada com isso.
Mas com repulsa? Do jeito que comandou aquilo, to confiante e tudo --
tipo Ah, de qualquer forma, caras, tenho todos esses spartus que podemos
usar. Eu no acreditei. No fiquei com repulsa, Frank. Fiquei impressionada.
        Frank no teve certeza que ouviu direito.
        -- Voc ficou... impressionada... comigo?
        Percy riu.
        -- Cara, voc foi muito incrvel.
        -- Honestamente? -- Frank perguntou.
       -- Honestamente -- Hazel prometeu. -- Mas agora temos outros
problemas com que nos preocupar. Certo?


                                                                        303
       Ela apontou para o exrcito de ogros, que estavam ficando cada vez
mais ousados, chegando mais e mais perto da casa.
         Percy preparou a mangueira de jardim.
         -- Tenho mais um truque na manga. Esse gramado tem um sistema
de irrigao. Posso ligar e causar alguma confuso ali embaixo, mas isso vai
destruir a presso de gua. Sem presso, sem mangueira, e aquelas bolas de
canho vo acabar com a casa.
       O elogio de Hazel ainda estava zunindo nos ouvidos de Frank,
deixando difcil de pensar. Dzias de ogros estavam acampados no gramado,
esperando para dilacer-lo, e Frank mal pde controlar a vontade de sorrir.
         Hazel no o odiava. Ela estava impressionada.
        Ele forou-se a se concentrar. Lembrou do que sua av havia dito
sobre a natureza de seu dom, e como ele a tinha deixado ali para morrer.
         Voc tem um papel a desempenhar, Marte tinha dito.
       Frank no conseguiu acreditar que ele era a arma secreta de Juno, ou
que essa Grande Profecia dos Sete dependia dele. Mas Hazel e Percy
estavam contando com ele. Ele tinha que fazer seu melhor.
        Ele pensou sobre aquela parte da profecia estranha que Ella tinha
recitado no poro, sobre o filho de Netuno se afogando.
       Voc no entende seu verdadeiro valor, Fineu lhe disse em Portland.
O velho cego achava que controlar Ella faria dele um rei.
        Todas aquelas peas do quebra cabea giravam pela mente de Frank.
Ele teve a impresso que quando finalmente se encaixassem, ele criariam
uma figura que ele no gostaria.
        -- Pessoal, tenho um plano de fuga. -- Ele contou a seus amigos
sobre o avio esperando no campo de pouso, e a nota de sua av para o
piloto. -- Ele  veterano da legio. Vai nos ajudar.
      -- Mas Arion no voltou -- Hazel disse. -- E a sua av? No
podemos simplesmente deix-la aqui.
         Frank sufocou um soluo.
       -- Talvez... talvez Arion nos encontre. Quanto  minha av... ela foi
bem clara. Ela disse que vai ficar bem.
         Isso no era exatamente verdade, mas foi o mximo que Frank pde
dizer.


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        -- Tem outro problema -- Percy disse. -- No sou bom em viajar
no ar.  perigoso para um filho de Netuno.
       -- Vai ter que arriscar... e eu tambm -- Frank disse. -- Pelo jeito,
somos parentes.
       Percy quase caiu do telhado.
       -- O qu?
       Frank contou uma verso de cinco segundos.
       -- Poriclimeno. Ancestral do lado da minha me. Argonauta. Neto
de Poseidon.
       Hazel ficou de boca aberta.
       -- Voc  um... um descendente de Netuno? Frank, isso ...
       -- Loucura? . E h esse dom que minha famlia tem, supostamente.
Mas no sei como usar. Se eu pudesse descobrir...
        Outra enorme agitao veio dos Lestriges. Frank percebeu que
estavam olhando para ele, apontando, acenando e rindo. Eles tinham
avistado seu caf da manh.
       -- Zhang! -- eles gritavam. -- Zhang!
       Hazel chegou mais perto dele.
       -- Eles continuam fazendo isso. Por que esto gritando seu nome?
         -- No importa -- Frank disse. -- Escuta, temos que proteger Ella,
lev-la com a gente.
       -- Claro -- Hazel disse -- A pobrezinha precisa da nossa ajuda.
        -- No -- Frank disse. -- Quer dizer, , mas no  s isso. Ela
recitou uma profecia l embaixo. Acho... acho que  sobre essa misso.
       Ele no queria contar a Percy sobre a m notcia, sobre um filho de
Netuno se afogando, mas repetiu as linhas.
       A mandbula de Percy se contraiu.
         -- No sei como um filho de Netuno pode se afogar. Consigo
respirar debaixo d'gua. Mas a coroa da legio...
       -- Deve ser a guia -- Hazel disse.
       Percy assentiu.



                                                                         305
       -- E Ella recitou algo assim uma vez em Portland -- uma linha da
Grande Profecia.
       -- Da o qu? -- Frank perguntou.
        -- Te conto depois. -- Percy ligou a mangueira de jardim e acertou
outra bola de canho no cu.
        Ela explodiu em uma bola de fogo laranja. Os ogros aplaudiram com
apreciao e gritaram:
       -- Lindo! Lindo!
        -- O negcio  -- Frank disse -- Ella lembra de tudo o que leu. Ela
disse algo sobre a pgina estar queimada, como se tivesse lido um texto de
profecias danificado.
       Os olhos de Hazel alargaram.
       -- Livros de profecia queimados? Voc no acha... mas isso 
impossvel!
       -- Os livros que Octavian queria, no acampamento? -- Percy
adivinhou.
       Hazel respirou profundamente.
       -- Os livros sibilinos perdidos que esboaram o destino inteiro de
Roma. Se Ella na verdade leu uma cpia de algum jeito, e memorizou...
        -- Ento ela  a harpia mais valiosa do mundo -- Frank disse. --
No   toa que Fineu quis captur-la.
        -- Frank Zhang! -- um ogro gritou l em baixo. Ele era maior que o
resto, vestindo uma capa de leo como um estandarte romano em um
babador de plstico com uma lagosta dentro.
        -- Desa, filho de Marte! Estivemos esperando por voc. Venha,
seja nosso honorvel convidado!
       Hazel agarrou o brao de Frank.
        -- Por que tenho a impresso que `honorvel convidado'  o mesmo
que `jantar'?
         Frank desejou que Marte estivesse ali. Ele podia usar algum para
estalar os dedos e fazer esse nervosismo de batalha ir embora.
       Hazel acredita em mim, ele pensou. Eu posso fazer isso.
       Ele olhou para Percy.


                                                                       306
         -- Consegue dirigir?
         -- Claro. Por qu?
        -- O carro da minha av est na garagem.  um Cadillac velho. O
troo  como um tanque. Se puder lig-lo...
         -- Ainda vamos ter que passar por uma linha de ogros -- Hazel
disse.
         -- O sistema de irrigao -- Percy disse. -- Usar como distrao?
        -- Exatamente -- Frank disse. -- Vou tomar o maior tempo que
puder. Peguem Ella e coloquem-na no carro. Vou tentar encontrar vocs na
garagem, mas no esperem por mim.
         Percy franziu o cenho.
         -- Frank...
       -- Nos d sua resposta, Frank Zhang! -- o ogro gritou. -- Desa, e
vamos poupar os outros  seus amigos, sua pobre vovozinha. S queremos
voc!
         -- Eles esto mentindo -- Percy murmurou.
         -- , eu sei disso -- Frank concordou. -- Vo!
         Seus amigos correram para a escada.
        Frank tentou controlar o batimento do corao. Ele sorriu
ironicamente e gritou:
       -- Ei, a embaixo! Quem est com fome? -- Os ogros aplaudiram
enquanto Frank passeava pela varanda e acenava como uma estrela do rock.
         Frank tentou invocar o dom da famlia. Ele se imaginou como um
drago que cospe fogo. Ele esticou e cerrou os punhos e pensou sobre
drages, gotas de suor apareceram na testa. Ele queria derrubar e destru-los.
Isso seria muito legal. Mas nada aconteceu. Ele no tinha dica de como fazer
aquilo. Ele nunca tinha visto um drago de verdade. Por um momento de
pnico, ele se perguntou se a vov tinha pregado alguma pea cruel nele.
Talvez ela tivesse subestimado o dom. Talvez Frank fosse o nico membro
da famlia que no tinha herdado. Seria bem a sua sorte.
        Os ogros comearam a se agitar. Os aplausos viraram vaias. Alguns
Lestriges ergueram as bolas de canho.
        -- Calma a! -- Frank gritou. -- Vocs no querem me reduzir a
carvo, no ? No vou ter gosto desse jeito.


                                                                         307
        -- Desce! -- eles gritaram -- Fome!
        Hora do Plano B. Frank desejou ter um.
        -- Prometem poupar meus amigos? -- Frank perguntou. -- Juram
pelo Rio Estige?
        Os ogros riram. Um atirou uma bola de canho que passou raspando
pela cabea de Frank e atingiu a chamin. Por algum milagre, Frank no foi
acertado pelos estilhaos.
        -- Vou tomar isso como um no -- ele murmurou. Ento gritou:
        -- T bom, tudo bem! Vocs venceram! Vou ir a embaixo. Esperem
a! -- Os ogros aplaudiram, mas seu lder na pele de leo fez uma careta
suspeita. Frank no teria muito tempo. Ele desceu a escada para o sto. Ella
tinha ido embora. Ele esperava que isso fosse um bom sinal. Talvez eles
tivessem levado-a para o Cadillac. Ele pegou uma aljava extra de flechas que
estava marcada como diversificadas com a caligrafia elegante de sua me.
Ento correu para a metralhadora.
       Ele girou a metralhadora, mirou no ogro lder e apertou o gatilho.
Oito batatas acertaram o gigante no peito com tanta fora que ele caiu em
um grupo de bolas de canho de bronze, que na hora explodiram, deixando
uma cratera soltando fumaa no jardim
        Aparentemente amido era ruim para ogros.
        Enquanto o resto dos monstros corria para todos os lados confusos,
Frank puxou seu arco e fez chover flechas neles. Algumas delas detonaram
com o impacto. Outras estilhaaram como chumbo e deixaram os gigantes
com novas tatuagens dolorosas. Uma acertou um ogro e instantaneamente o
transformou em uma roseira.
        Infelizmente, os ogros se recuperaram rapidamente. Comearam a
atirar bolas de canho -- dzias por vez. A casa inteira gemeu com o
impacto. Frank correu para as escadas. O sto se desintegrou atrs dele.
Fumaa e fogo pairavam pelo segundo andar.
        -- V! -- ele gritou, mas o calor estava to intenso que ele no pde
alcanar o quarto. Ele correu para o piso trreo, agarrado ao corrimo
enquanto a casa sacudia e blocos enormes do teto caram.
        A base da escada era uma cratera fumegante. Ele saltou e cambaleou
pela cozinha. Tossindo por causa das cinzas e da fuligem, ele disparou para a
garagem. Os faris do Cadillac estavam ligados. O motor estava
funcionando e a porta da garagem estava abrindo.


                                                                        308
        -- Entra! -- Percy gritou.
        Frank mergulhou no banco de trs do lado de Hazel. Ella estava
encolhida na frente, sua cabea aninhada debaixo das asas, murmurando:
        -- Credo. Credo. Credo.
        Percy ligou o motor. Eles dispararam da garagem antes de estar
totalmente aberta, deixando um buraco na madeira lascada em forma de
Cadillac.
        Os ogros correram para interceptar, mas Percy gritou o mximo que
seus pulmes podiam aguentar, e o sistema de irrigao explodiu. Centenas
de cilindros d'gua foram jogados no ar com nuvens de p, peas de tubo e
pulverizadores bem pesados.
         O Cadillac estava chegando a quarenta por hora quando acertaram o
primeiro ogro, que desintegrou com o impacto. Quando os monstros
superaram a confuso, o Cadillac estava a meio quilmetro de distncia na
estrada. Bolas de canho flamejantes queimavam atrs deles.
        Frank olhou para trs e viu a manso de sua famlia incendiando, as
paredes colidindo e fumaa subindo no cu. Ele viu um enorme cisco preto
-- talvez um urubu -- circulando o incndio. Devia ter sido imaginao de
Frank, mas ele achou que o urubu saiu voando da janela do segundo andar.
        -- Vov? -- ele murmurou.
       Parecia impossvel, mas ela prometeu que morreria do seu jeito, no
nas mos dos ogros. Frank esperava que ela estivesse certa.
        Eles dirigiram pelas rvores e rumaram para o norte.
        -- Quase cinco quilmetros! -- Frank disse. -- No pode esquecer
isso!
        Atrs deles, mais exploses rompiam a floresta. Fumaa subia ao
cu.
        -- A que velocidade os Lestriges podem correr? -- Hazel disse.
        -- No vamos descobrir -- Percy disse.
        As portas do campo de pouso apareceram antes deles -- s alguns
metros de distncia. Um jato privado estava parado na pista de decolagem.
Suas escadas estavam abaixadas.
        O Cadillac atingiu uma lombada e foi para o ar. A cabea de Frank
bateu no teto. Quando os pneus tocaram o cho, Percy pisou nos freios, e
eles deslizaram at parar do lado de dentro das portas.

                                                                       309
       Frank desceu e pegou seu arco.
       -- Vamos para o avio! Eles esto vindo!
        Os Lestriges estavam chegando perto em velocidade alarmante. A
primeira linha de ogros apareceu das rvores e cercaram o campo de pouso
-- quinhentos metros de distncia, quatrocentos metros de distncia...
        Percy e Hazel ajudaram Ella a sair do Cadillac, mas assim que a
harpia viu o avio, comeou a guinchar.
       -- N-n-no! -- ela gritou. -- Voar com asas! S-s-sem avies.
       -- Est tudo bem -- Hazel prometeu. -- Vamos te proteger!
       Ella deu um choro horrvel e doloroso como se estivesse sendo
queimada.
       Percy ergueu as mos, exasperado.
       -- O que vamos fazer? No podemos for-la.
       -- No -- Frank concordou. Os ogros esto a trezentos metros.
        -- Ela  muito valiosa para ser deixada para trs -- Hazel disse.
Ento ela encolheu com suas prprias palavras. -- Deuses, me desculpe,
Ella. Falei como o Fineu. Voc  um ser vivo, no um tesouro.
       -- Sem avies. S-s-sem avies. -- Ella estava hiperventilando.
       Os ogros estavam quase perto o bastante para atirar.
       Os olhos de Percy clarearam.
        -- Tive uma ideia. Ella, pode se esconder nas rvores? Vai estar a
salvo dos ogros?
        -- Esconder -- ela concordou. -- Salva. Esconder  bom para
harpias. Ella  rpida. E pequena. E rpida.
       -- Certo -- Percy disse. -- S fique por perto dessa rea. Posso
mandar um amigo para te encontrar e te levar para o Acampamento Jpiter.
       Frank ergueu o arco e pegou uma flecha.
       -- Um amigo?
       Percy fez um gesto de te conto depois.
        -- Ella, gostaria de fazer isso? Gostaria que meu amigo te levasse
para o Acampamento Jpiter e te mostrasse a nossa casa?



                                                                        310
       -- Acampamento -- Ella murmurou. Ento em latim: -- A filha da
sabedoria caminha sozinha, a Marca de Atena queima por Roma.
        -- H, certo -- Percy disse. -- Isso soa importante, mas vamos falar
sobre isso depois. Vai estar a salvo no acampamento. Todo livro e comida
que quiser.
       -- Sem avies -- ela insistiu.
       -- Sem avies -- Percy concordou.
        -- Ella vai se esconder agora. -- Simples assim, ela se foi -- um
borro vermelho desaparecendo nas rvores.
       -- Vou sentir falta dela -- Hazel disse tristemente.
        -- Vamos v-la de novo -- Percy prometeu, mas franziu o cenho
desconfortavelmente, como se estivesse realmente incomodado com essa
ltima parte da profecia  a parte sobre Atena.
       Uma exploso lanou as portas do campo de pouso para o ar.
       Frank deu a carta de sua av para Percy.
        -- Mostre isso ao piloto! Mostre a carta de Reyna tambm! Temos
que sair agora.
       Percy assentiu. Ele e Hazel correram para o avio.
       Frank foi para trs do Cadillac e comeou a atirar nos ogros. Ele
mirou na maior horda de inimigos e atirou uma flecha em forma de tulipa.
Assim como esperava, era uma hidra.
       Cordas atacaram como tentculos de lula, e a frente inteira da horda
de monstros viraram p na hora.
       Frank ouviu os motores do avio rodarem.
        Ele atirou mais trs flechas o mais rpido que pde, explodindo
crateras enormes nas fileiras de monstros. Os sobreviventes s estavam a
cem metros de distncia, e alguns dos mais brilhantes cambalearam at
parar, percebendo que agora estavam sendo atacados.
       -- Frank! -- Hazel gritou. -- Vamos!
        Uma bola de canho em chamas foi atirada nele em arco. Frank
soube instantaneamente que acertaria o avio. Ele tirou uma flecha. Eu posso
fazer isso, ele pensou. Ele deixou a flecha voar. Ela interceptou a bola de
canho no meio do ar, detonando em uma enorme bola de fogo. Outras duas
bolas de fogo foram lanadas na direo dele. Frank correu.


                                                                       311
       Atrs dele, o metal grunhiu enquanto o Cadillac explodia. Ele
mergulhou no avio bem quando as escadas comeavam a erguer.
       O piloto devia ter entendido a situao muito bem. No houve
anncio de segurana, nem bebida pr-voo, e o avio correu pela pista. Outra
exploso acertou a pista atrs deles, mas ento eles j estavam no ar.
       Frank olhou pra baixo e viu o campo de pouso repleto de crateras
como uma pea de queijo suo. Trechos do Lynn Canyon Park estavam em
chamas. Alguns quilmetros no sul, uma pilha de chamas rodopiando e
fumaa preta era tudo o que restava da manso da famlia Zhang.
        Muito para Frank estar impressionado. Ele tinha falhado em salvar
sua av. Ele tinha falhado em usar seus poderes. Ele no tinha nem mesmo
salvo sua amiga harpia. Quando Vancouver desapareceu debaixo das nuvens,
Frank escondeu sua cabea nas mos e comeou a chorar.
       O avio virou para a esquerda.
       Direto do intercomunicador a voz do piloto disse:
        -- Senatus Populusque Romanus, meus amigos. Bem-vindos a
bordo. Prxima parada: Anchorage, Alasca.




                                                                       312
                                  XXXVII



AVIES OU CANIBAIS? SEM DISCUSSO.
        Percy preferiria dirigir o Cadillac da av de Zhang todo o caminho
at o Alasca com Ogros Atiradores-de-Bolas-de-Fogo na sua cola em vez de
estar sentado em um luxuoso Gulfstream66.
        Ele j havia voado antes. Os detalhes estavam vagos, mas ele se
lembrava de um pgaso chamado Blackjack. Ele j havia estado em um
avio uma ou duas vezes. Mas um filho de Netuno (ou Poseidon, tanto faz)
no deveria ficar no ar. Toda vez que o avio passava por um ponto de
turbulncia, o corao de Percy acelerava, e ele tinha certeza de que Jpiter
estava os derrubando.
        Ele tentou se focar na conversa de Frank e Hazel. Hazel estava
consolando Frank dizendo que ele tinha feito tudo que podia pela sua av.
Frank os tinha salvado dos Lestriges e os tirado de Vancouver. Ele tinha
sido inacreditavelmente corajoso.
        Frank manteve sua cabea baixa como se ele estivesse envergonhado
por ter estado chorando, mas Percy no o culpava. O pobre garoto tinha
acabado de perder a av e ver a sala de casa pegar fogo. No que diz respeito
a Percy, ele estava derramando algumas lgrimas, mas no por coisas que o
fariam parecer fraco, especialmente quando voc acabou de se defender de
um exrcito de ogros que queriam te comer como caf da manh.
        Percy ainda no conseguia se recompor do fato de que Frank era um
parente distante. Frank seria... o que? Um sobrinho de milsimo grau? Muito
estranho de se dizer.
        Frank se recusou a dizer o que exatamente era o Dom de sua famlia,
mas antes de eles voarem para o norte, Frank os contou sobre sua conversa
com Marte na noite anterior. Ele explicou a profecia que Juno tinha emitido
quando ele era um beb  sobre sua vida estar vinculada a um pedao de
lenha e como ele pediu para que Hazel cuidasse disso para ele.


66
     Gulfstream: Mais caro Jatinho particular do mundo.

                                                                        313
        Um pouco disso, Percy j havia descoberto. Hazel e Frank
obviamente tinham compartilhado muitas experincias loucas quando tinham
desmaiado juntos e eles tinham feito algum tipo de acordo. Ele tambm
explicou por que mesmo agora, por fora do hbito, se mantinha verificando
o bolso do casaco, e por que ele ficava to nervoso a cerca do fogo. Percy
no podia imaginar que tipo de coragem Frank tinha tomado para embarcar
em uma misso, sabendo que uma pequena chama poderia extinguir sua
vida.
        -- Frank -- ele disse. -- Eu estou orgulhoso de ter voc ao meu
lado.
        As orelhas de Frank ficaram vermelhas. Com a cabea baixa, seu
corte de cabelo militar formava uma flecha afiada negra apontando para
baixo.
        -- Juno tem algum tipo de plano para ns, sobre a Profecia dos Sete.
        -- Sim, -- Percy resmungou. -- Eu no gostava dela como Hera. Eu
ainda no gosto dela como Juno.
        Hazel enfiou o p debaixo de si mesma. Ela estudou Percy com seus
luminescentes olhos dourados e ele se perguntou como ela poderia estar to
calma. Ela era a mais jovem na busca, mas ela sempre estava os mantendo
juntos e confortando-os. Agora eles estavam voando para o Alasca, onde ela
tinha morrido uma vez antes. Eles tentariam libertar Tnatos, que poderia
lev-la de volta para o Mundo Inferior. No entanto, ela no demonstrava
qualquer medo. Isso fez Percy se sentir bobo por estar com medo da
turbulncia.
      -- Voc  um filho de Poseidon, no ? Ela perguntou. -- Voc 
um semideus grego.
        Percy agarrou seu colar de couro. -- Comecei a lembrar em
Portland, depois do sangue da Grgona. Foi voltando para mim lentamente
desde ento. H outro acampamento, O Acampamento Meio Sangue.
         Apenas dizer o nome fez Percy sentir-se quente por dentro. Boas
lembranas que foram tiradas dele: o cheiro dos campos de morango no sol
quente de vero, fogos de artifcio iluminando a praia no Quatro de Julho,
stiros tocando as flautas de P na fogueira todas as noites, e um beijo no
fundo do lago de canoagem.
       -- Outro acampamento, -- Hazel repetiu. -- Um acampamento
grego? Deuses, se Octavian descobrir...



                                                                        314
        -- Ele declararia guerra -- disse Frank. -- Ele sempre teve certeza
de que os gregos estavam por a, conspirando contra ns. Ele pensou que
Percy era um espio.
         --  por isso que Juno me enviou -- disse Percy. -- Uh, eu quero
dizer, no para espionar. Acho que foi algum tipo de troca. Seu amigo
Jason... Eu acho que ele foi enviado para o meu acampamento. Em meus
sonhos, eu vi um semideus que poderia ser ele. Ele estava trabalhando com
alguns outros semideuses em um navio de guerra voador. Eu acho que eles
esto vindo para o Acampamento Jpiter para ajudar.
        Frank bateu nervosamente na parte de trs de seu assento. -- Marte
disse que Juno quer unir os gregos e romanos para combater Gaia. Mas,
caramba  gregos e romanos tm uma longa histria sangrenta.
        Hazel respirou fundo. -- Isso  provavelmente porque os deuses nos
mantiveram separados tanto tempo. Se um navio de guerra grego aparecer no
cu, acima do Acampamento Jpiter, e Reyna no souber que  amigvel...
       -- Sim -- concordou Percy. -- Temos que ter cuidado com a forma
que explicaremos isso quando voltarmos.
        -- Se conseguirmos voltar -- disse Frank. Percy assentiu com
relutncia. -- Quero dizer, eu confio em vocs. Espero que vocs confiem
em mim. Eu me sinto... bem, eu me sinto to perto de vocs dois como com
qualquer um dos meus velhos amigos no Acampamento Meio-Sangue. Mas
com os outros semideuses, em ambos os acampamentos, l vai haver um
monte de suspeita.
        Hazel fez algo que no estava esperando. Ela se inclinou e o beijou
na bochecha. Foi totalmente um beijo fraternal. Mas ela sorriu com tanto
carinho, que isso desarmou Percy.
        --  claro que ns confiamos em voc -- disse ela. -- Somos uma
famlia agora. Ns no somos, Frank?
       -- Claro -- disse ele. -- Eu ganho um beijo?
       Hazel riu, mas havia uma tenso nervosa nisso. -- Enfim, o que
fazemos agora?
       Percy respirou fundo.O tempo estava se esvaindo.
        Eles estavam quase na metade de 23 de junho, e amanh seria a
Festa da Fortuna. -- Eu tenho que entrar em contato com um amigo, para
manter a minha promessa  Ella.
       -- Como? -- Frank disse. -- Uma dessas mensagens de ris?

                                                                       315
         -- Ainda no est funcionando, -- Percy disse com tristeza. --Eu
tentei a noite passada na casa de sua av. Sem sorte. Talvez seja porque as
minhas memrias ainda esto confusas. Ou os deuses no esto permitindo
uma conexo. Espero que eu possa contatar o meu amigo em meus sonhos.
        Outra turbulncia o fez agarrar seu assento. Abaixo deles, montanhas
cobertas de neve romperam um cobertor de nuvens.
        -- Eu no tenho certeza que posso dormir, -- disse Percy. --Mas eu
preciso tentar. No podemos deixar Ella sozinha com os ogros ao redor.
         -- Sim -- disse Frank. -- Ainda temos horas para voar. Pegue o
sof cara. -- Percy assentiu. Ele tinha sorte de ter Hazel e Frank olhando por
ele. O que ele lhes disse era verdade, ele confiava neles. Na estranha,
aterrorizante, horrvel experincia de perder sua memria e ser arrancado
fora de sua antiga vida, Hazel e Frank foram os pontos positivos.
      Ele se esticou, fechou os olhos, e sonhou que estava caindo de uma
montanha de gelo em direo a um mar frio.
        O sonho mudou. Ele estava de volta a Vancouver, em p na frente
das runas da manso Zhang. O Lestriges tinham ido embora. A manso
estava reduzida a uma concha queimada. Uma equipe de bombeiros estava
arrumando seus equipamentos, se preparando para sair. O gramado parecia
uma zona de guerra, com crateras fumegantes e trincheiras das tubulaes de
irrigao estouradas. Na borda da floresta, um co peludo negro gigante
estava andando ao redor, farejando as rvores. Os bombeiros o ignoravam
completamente.
        Ao lado de uma das crateras ajoelhava-se um Ciclope em jeans
enormes, botas e uma camisa de flanela gigante. Seu cabelo castanho
bagunado estava respingado com chuva e lama. Quando ele levantou a
cabea, seus olhos marrons grandes estavam vermelhos de tanto chorar.
        -- Perto -- ele gemeu. -- To perto, mas ele j foi!
        Partiu o corao de Percy ouvir a dor e a preocupao na voz do cara
grande, mas ele sabia que eles tinham apenas alguns segundos para falar. As
bordas da viso j estavam se dissolvendo. Se o Alasca era a terra alm dos
deuses, Percy imaginou que quanto mais ao norte ele fosse, mais difcil seria
para se comunicar com seus amigos, mesmo em seus sonhos.
        -- Tyson, -- ele chamou.
        O Ciclope olhou ao redor freneticamente. -- Percy? Irmo?
        -- Tyson, eu estou bem. Estou aqui  bem, no realmente.


                                                                         316
       Tyson agarrou o ar como se estivesse tentando pegar borboletas. --
No  possvel v-lo! Onde est meu irmo?
         -- Tyson, eu estou voando para o Alasca. Eu estou bem. Eu vou
voltar. Basta encontrar Ella. Ela  uma harpia com penas vermelhas. Ela est
se escondendo na floresta em torno da casa.
        -- Encontrar uma harpia? Uma harpia vermelha?
        -- Sim! A proteja, ok? Ela  minha amiga. Leve-a de volta para a
Califrnia. H um Acampamento de semideuses na Oakland Hills  o
Acampamento Jpiter. Encontre-me acima do tnel Caldecott.
       -- Oakland Hills... California... tnel Caldecott. -- Ele gritou para o
cachorro:
        -- Sra. O'Leary! Temos que encontrar uma harpia!
        -- WOOF! -- Disse o co.
      O rosto de Tyson comeou a se dissolver. -- Meu irmo voc est
bem? Meu irmo voc est voltando? Sinto saudades de voc!
       -- Sinto saudades de voc tambm. -- Percy tentou manter a voz
normal. -- Vejo voc em breve. Basta ter cuidado! H um exrcito de
Gigantes marchando para o sul. Diga a Annabeth...
        O sonho mudou.
        Percy viu-se nas colinas ao norte do Acampamento Jpiter, olhando
para o Campo de Marte e Nova Roma. No forte da legio, trompas estavam
soprando. Campistas se esforavam para se reunir.
        O exrcito de Gigantes estava  esquerda e  direita de Percy 
centauros com chifres de touro, os nascidos da terra de seis braos, e
Ciclopes malignos em armaduras de sucata metlica. A torre de cerco dos
Ciclopes lanava uma sombra em todo o p do gigante Polybotes, que sorria
para o acampamento romano. Ele andava ansiosamente por todo o morro,
soltando cobras de seus dreadlocks verdes, e com suas pernas de drago
pisando as rvores de pequeno porte. Em sua armadura Verde-azulada, as
faces decorativas de monstros famintos pareciam piscar nas sombras.
       -- Sim -- ele riu, plantando seu tridente no cho. -- Soprem suas
pequenas trompas, romanos. Eu vim para destru-los! Stheno!
        A grgona saiu dos arbustos. Seu cabelo verde limo de vbora e
colete do Bargain Mart remexiam-se horrivelmente com o esquema de cores
do gigante.


                                                                         317
       -- Sim, senhor! -- Disse. -- Gostaria de um filhote de cachorro
com cobertura? -- Ela ergueu uma bandeja de amostras grtis.
          -- Hmm, -- Polybotes disse. -- Que tipo de cachorro?
        -- Ah, eles no so realmente filhotes. Eles so pequenos cachorros-
quentes em rolos crescentes, mas eles esto  venda esta semana...
          -- Bah! No importa, ento! As nossas foras Esto prontas para
atacar?
       -- Oh... -- Stheno recuou rapidamente para evitar ser esmagada
pelos ps do gigante. -- Quase, falta s uma. Ma Gasket e metade dos
Ciclopes dela pararam em Napa. Algo sobre um tour vincola? Eles
prometeram estar aqui amanh  noite.
       -- O qu? -- O gigante olhou ao redor, como se apenas observasse
que uma grande parte de seu exrcito estava faltando. -- Gah! Aquela
mulher Ciclope vai me dar uma lcera. Tour vincola?
        -- Acho que havia queijo e biscoitos, tambm -- disse Stheno
proveitosamente. -- Embora o Bargain Mart tenha um negcio muito
melhor.
        Polybotes arrancou um carvalho do cho e atirou-o para o vale. --
Ciclopes! Digo-vos, Stheno, quando eu destruir Netuno e assumir os
oceanos, vamos renegociar o contrato de trabalho dos Ciclopes. Ma Gasket
vai aprender qual  o seu lugar! Agora, quais as notcias do norte?
       -- Os semideuses foram para o Alasca -- disse Stheno. -- Eles
voam direto para a sua morte. Ah, a pequena morte, eu quero dizer. No o
nosso prisioneiro Morte. Embora, eu acho que eles esto voando para ele
tambm.
        Polybotes rosnou. --  melhor que Alcioneu poupe o filho de
Netuno, como prometeu. Eu quero ele acorrentado aos meus ps, para que eu
possa mat-lo quando for o momento oportuno. O seu sangue cair como
gua das pedras do Monte Olimpo e despertar a Me Terra! Alguma
palavra das Amazonas?
        -- S o silncio -- disse Stheno. -- Ns ainda no sabemos qual a
vencedora do duelo de ontem  noite, mas  apenas uma questo de tempo
antes de Otrera prevalecer e vir em nosso auxlio.
        -- Hmm. -- Polybotes distraidamente arrancou algumas vboras
fora de seu cabelo. -- Talvez seja melhor esperar, ento. Amanh ao
entardecer  a Festa da Fortuna. At ento, devemos invadir com Amazonas


                                                                       318
ou no. Nesse meio tempo, cavem trincheiras! Montamos acampamento
aqui, em terreno alto.
       -- Sim, Grandioso -- Stheno anunciou para as tropas:
       -- Filhotes de cachorro com cobertura para todos!
       Os monstros aplaudiram.
        Polybotes abriu as mos em frente a ele, tendo o vale como uma foto
panormica. -- Sim, soprem suas pequenas trompas, semideuses. Logo, o
legado de Roma ser destrudo pela ltima vez!
       O sonho desvaneceu.
       Percy acordou com uma sacudida quando o avio comeou a descer.
       Hazel colocou a mo em seu ombro. -- Dormiu bem?
       Percy se sentou meio grogue. -- Quanto tempo estive fora?
        Frank estava no corredor, enrolando sua lana e o arco novo em seu
saco de esqui. -- Poucas horas, -- disse ele. -- Estamos quase l.
        Percy olhou pela janela. Uma brilhante entrada do mar serpenteava
entre as montanhas nevadas. Ao longe, uma cidade foi esculpida em um
ermo, cercada por uma floresta verde luxuriante em um lado e geladas praias
negras do outro.
       -- Bem vindo ao Alasca, -- disse Hazel. -- Estamos alm da ajuda
dos deuses.




                                                                       319
                             XXXVIII




O PILOTO DISSE QUE O AVIO NO PODIA AGUARDAR por eles,
mas estava tudo bem para Percy. Se sobrevivessem at o dia seguinte, ele
esperava que eles pudessem descobrir uma nova maneira de voltar 
qualquer coisa, exceto um avio.
        Ele deveria estar deprimido. Ele estava preso no Alasca, territrio da
casa do gigante, sem contato com seus antigos amigos justamente quando
suas memrias estavam voltando. Ele tinha visto uma imagem do exrcito de
Polybotes que est prestes a invadir o Acampamento Jpiter. Ele havia visto
que os gigantes planejavam us-lo como algum tipo de sacrifcio de sangue
para despertar Gaia. Alm disso, amanh  noite ser a Festa da Fortuna. Ele,
Frank e Hazel tinham uma tarefa impossvel de concluir at l. Na melhor
das hipteses, eles iriam libertar a Morte que pode levar dois amigos de
Percy dois amigos para o Mundo Inferior. No h muito o que esperar.
        Ainda assim, Percy sentia-se estranhamente revigorado. Seu sonho
com Tyson tinha levantado seu nimo. Ele se lembrava de Tyson, o seu
irmo. Eles lutaram juntos, comemoraram vitrias, compartilharam bons
momentos no Acampamento Meio-Sangue. Ele lembrou-se de sua casa, o
que lhe deu uma nova determinao para ter sucesso. Ele estava lutando por
dois acampamentos agora, duas famlias.
        Juno tinha roubado sua memria e enviado-o para o Acampamento
Jpiter por uma razo. Ele entendia agora. Ele ainda queria dar um soco em
sua cara divina, mas pelo menos ela tinha suas razes. Se os dois
acampamentos pudessem trabalhar juntos, eles teriam a chance de parar seus
inimigos mtuos. Separadamente, ambos os acampamentos estavam
condenados.
         Havia outras razes para Percy querer salvar o Acampamento
Jpiter. Razes pelas quais ele no se atrevia a colocar em palavras  ainda
no, de qualquer maneira. De repente, ele viu um futuro para si e para
Annabeth que ele nunca tinha imaginado antes.
       Quando eles tomaram um txi em Anchorage, Percy falou para
Frank e Hazel sobre seus sonhos. Eles pareceram ansiosos, mas no

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surpresos quando ele lhes disse sobre o exrcito gigante se aproximando do
acampamento.
        Frank engasgou quando ouviu falar de Tyson. -- Voc tem um
meio-irmo que  um Ciclope?
         -- Claro, -- disse Percy. -- O que faz com que ele seja seu tatara-
tatara-tatara...
        -- Por favor. -- Frank tapou os ouvidos. -- Basta.
       -- Contanto que ele possa levar Ella para o Acampamento, -- disse
Hazel. -- Estou preocupada com ela.
        Percy assentiu. Ele ainda estava pensando sobre as linhas da profecia
que a harpia tinha recitado  sobre o filho de Netuno se afogando, e a marca
de Athena queimando atravs de Roma.
        Ele no sabia o que significava a primeira parte, mas ele estava
comeando a ter uma ideia sobre a segunda. Ele tentou deixar a questo de
lado. Ele teria que sobreviver a esta misso primeiro.
        O txi foi pela Rodovia Um, que parecia mais como uma pequena
rua para Percy, e os levou ao norte em direo ao centro da cidade. Era fim
de tarde, mas o sol ainda estava alto no cu.
      -- Eu no posso acreditar no quanto este lugar cresceu -- Hazel
murmurou.
       O taxista sorriu no espelho retrovisor. -- Faz tempo que voc no
vem aqui, senhorita?
        -- Cerca de setenta anos, -- disse Hazel.
        O motorista fechou a divisria de vidro e dirigiu em silncio.
        De acordo com Hazel, quase nenhum dos edifcios eram os mesmos,
mas ela apontou caractersticas da paisagem: vastas florestas circulando a
cidade, as guas frias e cinzentas da Enseada de Cook traando a borda norte
da cidade, e as Montanhas Chugach crescendo azul-acizentadas na distncia,
tampadas com neve mesmo em junho. Percy nunca tinha cheirado um ar
limpo como este antes. A cidade em si parecia maltratada pelo tempo, com
lojas fechadas, carros enferrujados e um gasto complexo de apartamentos
que circundavam a estrada, mas ainda era bonita. Lagos e trechos enormes
de matas cortavam no meio. O cu do rtico era uma incrvel combinao de
azul-turquesa e ouro.



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        Ento havia os gigantes. Dezenas de homens azul-brilhantes, cada
um com 9 metros de altura com o cabelo cinza gelado, estavam vadeando
atravs das florestas, pescando na baa, e caminhando nas montanhas. Os
mortais no pareciam not-los. O txi passou a poucos metros de um que
estava sentado na margem de um lago de lavando seus ps, mas o motorista
no entrou em pnico.
        -- Hum... -- Frank apontou para o cara azul.
       -- Hiperbreos, -- disse Percy. Ele ficou surpreso por lembrar o
nome. -- Gigantes do Norte. Eu lutei algumas vezes contra eles quando
Cronos invadiu Manhattan.
        -- Espere, -- disse Frank. -- Quando quem fez o qu?
        --  uma longa histria. Mas esses caras parecem... eu no sei...
pacficos.
        -- Eles geralmente so, -- Hazel concordou. -- Eu me lembro
deles. Eles esto em toda parte no Alasca, como os ursos.
        -- Ursos? -- Frank disse nervosamente.
        -- Os gigantes so invisveis para os mortais, -- disse Hazel. --
nunca me incomodaram, apesar de um ter praticamente pisado em mim por
acidente uma vez.
         Isso soou bastante incmodo para Percy, mas o txi continuou indo
em frente. Nenhum dos gigantes deu-lhes qualquer ateno. Um estava 
direita no cruzamento da Estrada Luzes do Norte, com uma perna de cada
lado da estrada, e eles passaram entre suas pernas. O Hiperbreo estava
embalando um mastro de totem indgena envolto em peles, cantarolando a
ele como um beb. Se o cara no fosse do tamanho de um prdio, ele seria
quase fofo.
         O txi dirigiu pelo centro da cidade, passando por um monte de lojas
de turistas anunciando peles, arte Nativa Americana e ouro. Percy esperava
que Hazel no ficasse agitada e fizesse as lojas de jias explodirem.
        Quando o motorista se virou e foi em direo ao litoral, Hazel bateu
na divisria de vidro.
        -- Aqui est bom. Voc pode nos deixar sair?
        Eles pagaram o motorista e desceram na Rua Quatro. Comparada 
Vancouver, Anchorage era minscula  mais como um campus universitrio
do que uma cidade, mas Hazel olhou espantada.



                                                                        322
        -- Est enorme, -- disse ela. -- Aqui... Aqui  onde o Hotel
Gitchell costumava ser. Minha me e eu ficamos l na nossa primeira
semana no Alasca. E eles mudaram o City Hall. Ele costumava ser l.
        Ela levou-os pasmada por alguns quarteires. Eles realmente no
tinham um plano alm de encontrar o caminho mais rpido para a Geleira
Hubbard, mas Percy sentiu cheiro de algum cozinhando perto  salsicha,
talvez? Ele percebeu que no tinha comido desde aquela manh na casa da
av de Zhang.
        -- Comida -- disse ele. -- Vamos.
       Eles encontraram um caf junto  praia. Estava lotado de pessoas,
mas eles dividiram uma mesa na janela e folhearam os menus.
        Frank gritou com prazer. -- Caf da manh vinte e quatro horas!
        -- , tipo, hora do jantar -- disse Percy, embora no pudesse dizer
s de olhar para fora. O sol estava to alto, que poderia ser meio-dia.
        -- Eu amo caf da manh -- disse Frank. -- Eu comeria caf da
manh, caf da manh e caf da manh se eu pudesse. Apesar de, hum, eu
tenho certeza que a comida aqui no  to boa quanto a da Hazel.
        Hazel deu uma cotovelada nele, mas seu sorriso era brincalho.
        V-los assim deixava Percy feliz. Aqueles dois definitivamente
precisavam ficar juntos. Mas tambm o deixava triste. Ele pensou em
Annabeth, e perguntou se ele viveria por tempo o suficiente para v-la
novamente.
        Pense positivo, ele disse a si mesmo.
        -- Voc que sabe -- disse ele, -- caf da manh parece timo.
        Todos eles pediram enormes pratos de ovos, panquecas e salsichas
de rena67, embora Frank parecesse um pouco preocupado sobre as renas. --
Voc acha que est tudo bem estarmos comendo Rudolph68?
      -- Cara -- Percy disse. -- Eu poderia comer Prancer e Blitzen69,
tambm. Estou com fome.
        A comida estava excelente. Percy nunca tinha visto ningum comer
to rpido como Frank. A rena de nariz vermelho no teve chance.


67
   Salsichas de Rena: Feitas com carne de Rena.  comum no Alasca.
68
   Rudolph: Rena de nariz vermelho do Papai Noel.
69
   Prancer e Blitzen: Outras duas renas do Papai Noel.

                                                                          323
        Entre mordidas de panquecas de amora, Hazel desenhou umas
curvas irregulares e um X no seu guardanapo. -- Ento  isso que eu estou a
pensando. Ns estamos aqui. -- Ela mostrou o X. -- Anchorage.
        -- Isso parece uma cara de gaivota -- disse Percy. -- Ns estamos
no olho.
        Hazel olhou para ele. --  um mapa, Percy. Anchorage  no topo
deste pedao de mar, Enseada de Cook. H uma grande pennsula de terra
abaixo de ns, e minha velha cidade natal, Seward, est na parte inferior da
pennsula, aqui. -- Ela desenhou outro X na base da garganta da gaivota. --
Essa  a cidade mais prxima da Geleira Hubbard. Ns poderamos ir ao
redor pelo mar, eu acho, mas para isso seria necessrio muito tempo. No
temos esse tipo de tempo.
        Frank terminou o ltimo pedao de seu Rudolph. -- Mas a terra 
perigosa -- disse ele. -- Terra significa Gaia.
          Hazel assentiu. -- No vejo que temos muita escolha. Poderamos
ter pedido para o nosso piloto ter nos deixado mais para baixo, mas eu no
sei... o seu avio pode ser muito grande para o pequeno aeroporto de Seward.
E se ns fretarmos outro avio...
       -- Sem mais avies -- disse Percy. -- Por favor.
        Hazel ergueu a mo num gesto apaziguador. -- Tudo bem. H um
trem que vai daqui para Seward. Ns poderamos ser capazes de pegar um
hoje  noite. Leva apenas um par de horas.
       Ela desenhou uma linha pontilhada entre os dois cromossomos X.
       -- Voc acabou de cortar a cabea da gaivota, -- Percy observou.
         Hazel suspirou. --  a linha do trem. Olha, a partir de Seward, a
Geleira Hubbard  aqui em algum lugar. -- Ela bateu no canto inferior
direito do guardanapo. --  a que Alcioneu est.
       -- Mas voc no tem certeza do quo distante? -- Frank perguntou.
        Hazel franziu a testa e balanou a cabea. -- Tenho certeza de que 
acessvel somente por barco ou avio.
       -- Barco -- disse Percy imediatamente.
       -- Tudo bem -- disse Hazel. -- No deve ser muito longe de
Seward. Se ns pudermos chegar a Seward em segurana.
        Percy olhou pela janela. Tanta coisa para fazer, e s 24 horas
restantes.  esta hora, amanh, a Festa da Fortuna estaria comeando. A

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menos que eles soltem a Morte e voltem para o acampamento, o exrcito do
gigante ir inundar o vale. Os romanos seriam o prato principal em um jantar
de monstro.
        Do outro lado da rua, uma gelada praia de areia preta descia para o
mar, que era to liso como o ao. O oceano aqui parecia diferente  ainda
poderoso, mas congelando, lento e primitivo. Nenhum deus controlava
aquela gua, pelo menos no os deuses que Percy conhecia. Netuno no seria
capaz de proteg-lo. Percy se perguntava se ele poderia at mesmo
manipular a gua aqui, ou respirar debaixo d'gua.
        Um gigante Hiperbreo se movia devagar do outro lado da rua.
Ningum no caf notou. O gigante entrou na baa, quebrando o gelo sob suas
sandlias, e meteu as mos na gua. Ele trouxe uma baleia assassina em um
punho. Aparentemente no era isso que ele queria, porque ele jogou a baleia
de volta e continuou vadeando.
       -- Bom caf da manh, -- disse Frank. -- Quem est pronto para
uma carona de trem?


        A estao no estava longe. Eles chegaram bem a tempo de comprar
bilhetes para o ltimo trem sul. Quando seus amigos subiram a bordo, Percy
disse:
           -- Estarei com vocs em um segundo -- e correu de volta para a
estao.
        Ele conseguiu fazer cmbio na loja de presentes e ficou na frente do
telefone pblico.
         Ele nunca tinha usado um telefone pblico antes. Eles eram
antiguidades estranhas para ele, como os toca-discos de sua me ou seu as
fitas cassete de Frank Sinatra de seu professor Chiron. Ele no estava certo
de quantas moedas precisaria, ou se ele poderia at mesmo fazer a chamada,
assumindo que ele lembrasse do nmero correto.
           Sally Jackson, ele pensou.
           Esse era o nome de sua me. E ele tinha um padrasto... Paul.
        O que eles pensavam que tinha acontecido  Percy? Talvez eles j
tivessem realizado um servio memorial. Tanto quanto ele podia imaginar,
ele tinha perdido sete meses de sua vida. Claro, a maioria disso tinha sido
durante o ano letivo, mas ainda assim... no  legal.



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        Ele pegou o receptor e digitou o nmero do apartamento da sua me
em Nova York. Correio de voz. Percy devia ter imaginado. Seria tipo, meia-
noite em Nova York. Eles no iriam reconhecer esse nmero.
       Ouvir a voz de Paul na gravao acertou to forte no estmago de
Percy que ele mal pode falar aps o sinal.
        -- Me -- disse ele. -- Hey, eu estou vivo. Ela, hum, me fez dormir
por um tempo, e ento ela pegou a minha memria, e... -- Sua voz vacilou.
Como ele poderia explicar tudo isso? -- De qualquer forma, eu estou bem.
Sinto muito. Estou em uma misso. -- Ele fez uma careta. Ele no deve ter
dito isso. Sua me sabia tudo sobre suas misses, e agora ela estaria
preocupada. -- Vou chegar em casa. Eu prometo. Te amo.
        Ele desligou o telefone. Ele olhou para o telefone, esperando que ele
tocasse de volta. O apito do trem soou. O condutor gritou:
        -- Todos a bordo.
        Percy correu. Ele conseguiu exatamente quando eles estavam
puxando para cima os degraus, em seguida, subiu at o alto do vago de dois
andares e deslizou em seu assento.
        Hazel franziu a testa. -- Voc est bem?
        -- Sim, -- ele resmungou. -- Apenas... fiz uma ligao.
        Ela e Frank pareciam entender isso. Eles no pediram detalhes.
       Logo eles estavam indo para o sul ao longo da costa, observando a
paisagem passar. Percy tentou pensar sobre a misso, mas para uma criana
com TDAH como ele, o trem no era o lugar mais fcil de se concentrar.
        Coisas legais continuavam acontecendo l fora. guias subiam. O
trem corria sobre pontes e ao longo penhascos onde cachoeiras glaciais
caiam por milhares de metros nas rochas. Passaram florestas enterradas em
montes de neve, grandes armas de artilharia (para detonar pequenas
avalanches e prevenir as descontroladas, Hazel explicou), e lagos to claros
que refletiam as montanhas como espelhos, como se o mundo parecesse de
cabea para baixo.
        Os ursos pardos se moviam devagar atravs dos prados. Gigantes
Hiperbreos continuavam aparecendo nos lugares mais estranhos. Um deles
estava relaxando em um lago como se fosse uma banheira de gua quente.
Outro estava usando um pinheiro como um palito de dentes. Um terceiro
estava sentado em um monte de neve, jogando com dois alces vivos como se
fossem figuras de ao. O trem estava cheio de turistas fazendo exclamaes


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e tirando fotos, mas Percy sentia pena por eles no poderem ver os
Hiperbreos. Eles estavam perdendo fotos muito boas.
        Enquanto isso, Frank estudava um mapa do Alasca, que tinha
encontrado no bolso do assento. Ele localizou a Geleira Hubbard, que
parecia desanimadoramente longe de Seward. Ele continuou correndo o dedo
ao longo da costa, franzindo a testa com concentrao.
       -- O que voc est pensando? -- Percy perguntou.
       -- Apenas... possibilidades. -- Disse Frank.
       Percy no sabia o que aquilo significava, mas deixou quieto.
        Aps cerca de uma hora, Percy comeou a relaxar. Eles compraram
chocolate quente do carrinho de jantar. Os assentos estavam quentes e
confortveis, e ele pensou em tirar uma soneca.
        Em seguida, uma sombra passou em cima. Turistas murmuraram
excitados e comearam a tirar fotos.
       -- guia! -- Um gritou.
       -- guia? -- Disse outro.
       -- guia enorme! -- Disse um terceiro.
       -- Isso no  guia. -- disse Frank.
       Percy olhou para cima a tempo de ver a criatura fazer uma segunda
passagem. Era definitivamente maior do que uma guia, com um corpo
negro lustroso do tamanho de um labrador. Sua envergadura era, pelo
menos, de trs metros de dimetro.
       -- H outra! -- Frank apontou. -- Veja isso. Trs, quatro. Ok,
estamos em apuros.
        As criaturas circulavam o trem como abutres, deliciando os turistas.
Percy no estava feliz. Os monstros tinham brilhantes olhos vermelhos,
bicos afiados, garras e calcanhares odiosos.
        Percy sentiu sua caneta no bolso. -- Essas coisas parecem
familiares...
        -- Seattle -- disse Hazel. -- As Amazonas tinham um em uma
gaiola. Eles so...
        Em seguida, vrias coisas aconteceram ao mesmo tempo. O freio de
situao de emergncia guinchou, lanando-os para frente. Turistas gritaram



                                                                       327
e caram pelos corredores. Os monstros mergulham, quebrando o telhado de
vidro do vago, e o trem inteiro caiu para fora dos trilhos.




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                            XXXIX




PERCY SE SENTIU LEVE.
        Sua viso ficou turva. Patas agarraram seus braos e o
puxaram no ar. Embaixo, as rodas do trem guincharam e o metal
colidiu. Copos destrudos. Passageiros gritando.
       Quando sua viso clareou, viu o monstro que o estava
carregando. Tinha o corpo de uma pantera  suave, preta e felina 
com asas e cabea de uma guia. Seus olhos brilhavam em um tom
vermelho sangue.
        Percy se contorceu. As garras da frente do monstro estavam
envolvendo seus braos como tiras de ao. Ele no conseguia se
libertar ou alcanar sua espada. Ele subiu mais alto e mais alto no
vento gelado. Percy no tinha ideia de onde o monstro o estava
levando, mas tinha certeza absoluta que no gostaria quando chegasse
l.
        Ele gritou  mais por frustrao. Ento algo assobiou perto de
seu ouvido. Uma flecha brotou no pescoo do monstro. A criatura
gritou e o largou. Percy caiu, quebrando trs galhos at pousar em um
monte de neve. Ele grunhiu, olhando para cima, para o pinheiro
enorme com que tinha trombado.
       Ele tentou se levantar. Nada parecia quebrado. Frank estava 
sua esquerda, derrubando as criaturas o mais rpido que podia. Hazel
estava atrs dele, girando sua espada para qualquer monstro que
chegasse perto, mas havia muitos fervilhando ao redor deles  pelo
menos uma dzia.
      Percy pegou Contracorrente. Ele fatiou a asa de um monstro e
o mandou espiralando para uma rvore, ento fatiou outro, que virou
p. Mas os derrotados comearam a se reformar imediatamente.


                                                                  329
       -- O que so essas coisas?
       -- Grifos! -- Hazel disse. -- Temos que afast-los do trem!
        Percy viu o que ela queria dizer. Os vages do trem tinham
cado, e suas coberturas esmagadas. Os turistas estavam tropeando
em choque. Percy no viu ningum seriamente ferido, mas os grifos
estavam mergulhando na direo de qualquer coisa que se mexia. A
nica coisa que os mantinha longe dos mortais era um guerreiro
brilhante de cinza camuflado  o spartus de estimao de Frank.
       Percy olhou e notou que a lana de Frank se fora.
       -- Usou sua ltima carga?
       -- . -- Frank acertou outro grifo no cu. -- Tive que ajudar
os mortais. A lana simplesmente se dissolveu.
        Percy assentiu. Parte dele ficou aliviada. Ele no gostava do
guerreiro esqueleto. Parte dele ficou desapontada. Porque era uma
arma a menos que eles tinham  disposio. Mas no era culpa de
Frank. Frank tinha feito a coisa certa..
        -- Vamos mudar a luta de lugar! -- Percy disse. -- Longe dos
trilhos! -- Eles tropearam pela neve, esmagando e dilacerando grifos
que se reformavam do p toda vez que eram mortos.
       Percy no havia tido experincia alguma com grifos. Ele
sempre os imaginou como enormes animais nobres, como lees com
asas, mas essas coisas o lembravam mais um bloco de caadores 
hienas voadoras.
        Cerca de cinco metros dos trilhos, as rvores davam para um
pntano aberto. O cho estava to esponjoso e gelado e Percy sentiu
que estava correndo dentro de um plstico bolha. Frank estava sem
flechas. Hazel estava respirando pesado. A prpria espada de Percy
oscilava, deixando-o lento. Ele percebeu que s estavam vivos porque
os grifos no estavam tentando mat-los. Os grifos queriam peg-los e
carreg-los para algum lugar.
       Talvez para seus ninhos, Percy pensou.
        Ento ele tropeou em alguma coisa na grama alta  um
crculo de sucata de metal do tamanho de um pneu de trator. Era um
ninho de pssaros enorme  o ninho de um grifo  o centro cheio de

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peas antigas de jia, uma adaga de ouro imperial, um distintivo de
centurio amassado e dois ovos do tamanho de abboras que pareciam
ser feitos de ouro de verdade.
      Percy pulou no ninho. Ele pressionou a ponta da espada contra
um dos ovos.
        -- Para trs, ou eu quebro isso!
        Os grifos grasnaram furiosos. Eles rodaram pelo ninho e
estalaram os bicos, mas no atacaram. Hazel e Frank ficaram costa a
costa com Percy, as armas prontas.
        -- Os grifos colecionam ouro -- Hazel disse. -- So loucos
por isso. Olha... mais ninhos ali.
        Frank colocou sua ltima flecha no arco.
       -- Ento se esses so os ninhos, para onde eles estavam
tentando levar Percy? Essa coisa estava fugindo com ele.
        Os braos de Percy latejavam onde o grifo tinha agarrado ele.
        -- Alcioneu -- ele adivinhou. -- Talvez eles estejam
trabalhando para ele. Essas coisas so espertas o bastante para
obedecer  ordens?
       -- No sei -- Hazel disse. -- Nunca lutei com eles quando
morei aqui. S li sobre eles no acampamento.
        -- Fraquezas? -- Frank perguntou. -- Por favor me diga que
eles tm fraquezas.
        Hazel fez uma careta.
       -- Cavalos. Eles odeiam cavalos  inimigos naturais, ou algo
assim. Queria que Arion estivesse aqui!
      Os grifos grasnaram. Eles rodearam o ninho com seus olhos
vermelhos brilhando.
        -- Pessoal -- Frank disse nervoso -- estou vendo relquias da
legio nesse ninho.
        -- Eu sei -- Percy disse.
        -- O que quer dizer que outros semideuses morreram aqui,
ou...
                                                                   331
       -- Frank, vai ficar tudo bem -- Percy prometeu.
        Um dos grifos mergulhou. Percy ergueu a espada, pronto para
destruir o ovo. O monstro recuou, mas os outros grifos estavam
perdendo a pacincia. Percy no podia mant-los longe por muito
tempo.
        Ele olhou para os campos, desesperadamente tentando
formular um plano. H cerca de 400 metros de distncia, um gigante
hiperbreo estava sentado no pntano, pacificamente tirando lama de
entre os dedos com um tronco quebrado de rvore.
       -- Tive uma ideia -- Percy disse. -- Hazel  todo o ouro
naqueles ninhos. Acha que pode us-los para causar uma distrao?
       -- Eu... acho que sim.
        -- S nos d tempo o suficiente de vantagem. Quando eu
disser vo, corram para o gigante.
       Frank ficou boquiaberto.
       -- Voc quer que a gente corra na direo do gigante?
       -- Acredite em mim -- Percy disse. -- Prontos? Vo!
       Hazel ergueu a mo. De uma dzia de ninhos no pntano,
objetos dourados foram lanados no ar  jias, armas, moedas, pepitas
de ouro, e mais importante, ovos de grifo. Os monstros grasnaram e
voaram para os ovos, frenticos para salv-los.
         Percy e seus amigos correram. Seus ps espirravam e
trituraram o pntano congelado. Percy correu mais rpido, mas podia
ouvir os grifos chegando perto deles, e agora os monstros estavam
realmente furiosos.
        O gigante ainda no tinha notado a comoo. Ele estava
inspecionando os dedos procurando por lama, seu rosto sonolento e
pacfico, seu bigode cintilando com cristais de gelo. Em seu pescoo
estava um colar de objetos encontrados  latas de lixo, portas de carro,
chifres de alce, at uma privada. Aparentemente ele no tinha se
limpado muito bem.




                                                                    332
       Percy odiou perturb-lo, especialmente porque significava que
teriam que se abrigar debaixo das coxas do gigante, mas eles no
tinham muita escolha.
       -- Debaixo! -- ele disse a seus amigos. -- Engatinhem para
baixo dele!
       Eles se envolveram entre as pernas azuis gigantes e se
achataram na lama, engatinhando o mais perto que puderam da tanga
do gigante. Percy tentou respirar pela boca, mas aquele no era o
esconderijo mais agradvel.
       -- Qual  o plano? -- Frank sussurrou. -- Ser achatado por
um traseiro azul?
       -- Fale baixo -- Percy disse. -- S se mexa se precisar.
        Os grifos chegaram em uma onda de bicadas, garras e asas
furiosas, rodeando o gigante, tentando entrar debaixo de suas pernas.
       O gigante retumbou de surpresa. Ele mudou de lugar. Percy
teve que rolar para evitar ser esmagado pelo enorme traseiro peludo. O
hiperbreo grunhiu um pouco mais irritado. Ele golpeou os grifos,
mas eles grasnaram de ultraje e comearam a bicas suas pernas e
mos.
       -- H? -- o gigante berrou. -- H!
        Ele respirou profundamente e lanou uma onda de ar gelado.
At debaixo da proteo das pernas do gigante, Percy sentiu a
temperatura cair. Os guinchos dos grifos pararam abruptamente,
substitudo pelo tof, tof, tof de objetos pesados caindo na lama.
       -- Vamos -- Percy disse a seus amigos. -- Com cuidado.
       Eles se contorceram saindo debaixo do gigante. Tudo ao redor
do pntano, at as rvores estavam envidraadas de gelo. Uma faixa
enorme do pntano estava coberta de neve fresca. Grifos congelados
estavam estendidos no cho como picols de penas, as asas ainda
extensas, bicos abertos e olhos largos de surpresa.
       Percy e seus amigos se afastaram cambaleando, tentando se
manter fora da viso do gigante, mas o garoto estava muito ocupado
para not-los. Ele estava tentando descobrir como amarrar um grifo
congelado no colar.

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       -- Percy... -- Hazel limpou o gelo e lama do rosto. -- Como
voc sabia que o gigante podia fazer isso?
       -- Eu quase fui acertado pelo sopro de um hiperbreo uma vez
-- ele disse. --  melhor irmos. Os grifos no vo ficar congelados
para sempre.




                                                               334
                                    XL




ELES ANDARAM POR TERRA POR aproximadamente uma hora,
mantendo os trilhos do trem  vista, mas mantendo-se cobertos pelas rvores
tanto quanto possvel. Por um momento eles escutaram um helicptero
voando na direo dos destroos do trem. Duas vezes eles escutaram o grito
dos grifos, mas eles soavam muito longe.
          Pelo o que Percy pode deduzir, era quase meia noite quando o sol
finalmente se ps. Ficou frio no bosque. As estrelas estavam brilhantes,
Percy estava tentado a parar e ficar admirando. Depois as luzes do norte
fizeram uma curva. Elas fizeram Percy se lembrar do fogo a gs de sua
me, quando ela mantinha as chamas em temperatura baixa  chamas azuis
fantasmagricas danando de baixo para cima.
          -- Isso  incrvel, -- Frank disse.
          -- Ursos, -- Hazel apontou.
          Com certeza, um casal de ursos marrons estava derrubando
rvores a algumas centenas de metros dali, suas peles brilhando na luz das
estrelas.
         -- Eles no vo nos incomodar, -- Hazel prometeu. -- Apenas
passem longe deles.
          Percy e Frank no argumentaram.
          Enquanto eles marchavam, Percy pensou sobre todos os locais
malucos que ele j vira. Nenhum deles o deixou sem palavras como o
Alasca. Ele podia ver porqu isso era uma terra alm dos deuses. Tudo aqui
era bruto e indomado. No havia regras, nenhuma profecia, nenhum destino
 apenas duros desertos e um bando de animais e monstros. Mortais e
semideuses vinham aqui por sua prpria conta e risco.
          Percy pensou se isso era o que Gaia queria  que o mundo todo
fosse assim. Ele pensou se isso seria uma coisa to ruim.
           Mas depois ele deixou a ideia de lado. Gaia no era uma deusa
gentil. Percy ouvira o que ela planejava fazer. Ela no era como a Me Terra

                                                                       335
que voc deve ter lido em um conto de fadas infantil. Ela era vingativa e
violenta. Se ela algum dia acordasse completamente, ela destruiria a
civilizao humana.
           Depois de algumas horas, eles se depararam com uma pequena
vila entre os trilhos de trem e uma rodovia de mo dupla. A placa de limite
da cidade dizia: PASSAGEM DE ALCES. Parado perto da placa estava um
alce de verdade. Por um segundo, Percy pensou que ele poderia ser alguma
espcie de esttua. Ento o animal foi para dentro do bosque.
         Eles passaram por algumas casas, um correio e alguns trailers.
Tudo estava escuro e fechado. No outro lado da cidade tinha uma loja com
uma mesa de piquenique e uma bomba de gasolina velha e enferrujada na
frente.
      A loja tinha um letreiro feito  mo que dizia: GASOLINA DA
PASSAGEM DE ALCES
          -- Isso est errado, -- Frank disse.
         Em um acordo silencioso eles se sentaram em volta da mesa de
piquenique.
          Os ps de Percy pareciam como blocos de gelo  blocos de gelo
doloridos. Hazel apoiou a cabea nas mos e desmaiou, roncando. Frank
tomou os seus ltimos refrigerantes e algumas barras de cereal da viagem de
trem e as dividiu com Percy.
          Eles comeram em silncio, olhando as estrelas, at que Frank
disse:
          -- Voc realmente quis dizer o que disse antes?
          Percy olhou para o outro lado da mesa. -- Sobre o qu?
          Sob a luz das estrelas, o rosto de Frank poderia ser um alabastro,
como uma esttua romana velha. -- Sobre... estar orgulhoso de sermos
parentes.
          Percy bateu a sua barra de cereal na mesa. -- Bem, vamos ver.
Voc sozinho pegou trs basiliscos enquanto eu estava tomando ch verde e
germe de trigo. Voc segurou um exrcito de Lestriges para que o nosso
avio pudesse levantar voo de Vancouver. Voc salvou a minha vida ao
acertar aquele grifo. E voc desistiu da ltima carga da sua lana mgica
para poder ajudar alguns mortais indefesos. Voc  o filho mais legal do
deus da guerra que eu j conheci... talvez o nico legal. Ento o que voc
acha?


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          Frank olhou para as luzes do norte, ainda cozinhando as estrelas
em fogo baixo. --  s que... eu deveria ser o responsvel por esta misso, o
centurio, e tudo mais. Eu sinto como se vocs tivessem que me carregar.
          -- No  verdade, -- Percy disse.
          -- Eu supostamente tenho esses poderes que eu no descobri
como usar, -- Frank disse amargamente. -- Agora eu no tenho uma lana,
e eu estou quase sem flechas. E... eu estou assustado.
          -- Eu estaria preocupado se voc no estivesse assustado, --
Percy disse. -- Todos ns estamos.
          -- Mas a Festa da Fortuna ... -- Frank pensou sobre isso.
          -- J  depois da meia-noite, no ? Isso significa que  vinte e
quatro de julho agora. A festa comea esta noite ao anoitecer. Ns
precisamos achar o nosso caminho para a Geleira Hubbard, derrotar o
gigante que no pode ser derrotado no seu territrio natal, e voltar para o
Acampamento Jpiter antes que eles sejam invadidos  tudo em menos de
dezoito horas.
          -- E quando ns libertarmos Tnatos, -- Percy disse, -- ele pode
clamar a sua vida. E a de Hazel. Acredite em mim, eu estive pensando sobre
isso.
          Frank olhou para Hazel, ainda roncando de leve. O rosto dela
estava enterrado embaixo de uma massa de cabelos marrons cacheados.
        -- Ela  a minha melhor amiga, -- Frank disse. -- Eu perdi a
minha me, minha av... Eu no posso perd-la tambm.
          Percy pensou sobre a sua vida antiga  sua me em Nova Iorque,
Acampamento Meio-Sangue, Annabeth. Ele perdera tudo isso por oito
meses. At mesmo agora, com a sua memria voltando... Ele nunca esteve
to longe de casa antes. Ele fora para o Mundo Inferior e voltara. Ele
enfrentara a morte milhares de vezes. Mas sentado nessa mesa de
piquenique, milhares de quilmetros longe, alm do poder do Olimpo, ele
nunca esteve to sozinho  exceto por Hazel e Frank.
         -- Eu no vou perder nenhum de vocs, -- ele prometeu. -- Eu
no vou deixar que isso acontea. E, Frank, voc  um lder. Hazel diria a
mesma coisa. Ns precisamos de voc.
         Frank abaixou a cabea. Ele parecia perdido em pensamentos.
Finalmente ele inclinou-se para frente at que sua cabea se chocou contra a
mesa de piquenique. Ele comeou a roncar em harmonia com Hazel.


                                                                        337
          Percy suspirou. -- Outro discurso inspirador de Jackson, -- ele
disse para si mesmo. -- Descanse Frank. Vai ser um grande dia amanh.


          Ao amanhecer, a loja abriu. O dono ficou um pouco surpreso de
encontrar trs adolescentes cados sobre a mesa de piquenique, mas quando
Percy explicou que eles tinham fugido do acidente de trem da noite passada,
o cara sentiu pena e fez um caf da manh para eles. Ele chamou um amigo
dele, um nativo que tinha uma cabine fechada para Seward. Logo eles j
estavam na estrada em uma picape da Ford que devia ser nova na poca que
Hazel nascera.
          Hazel e Frank sentaram atrs. Percy ia na frente com o homem
velho, que cheirava a salmo defumado. Ele contou  Percy a histria sobre
Bear e Raven, os Deuses Inuits, e tudo o que Percy podia pensar era que ele
esperava no conhec-los. Ele j tinha inimigos o suficiente.
           A camionete quebrou  alguns quilmetros de Seward. O
motorista no pareceu surpreso, j que isso acontecia a ele vrias vezes por
dia. Ele disse que eles podiam esperar at que ele concertasse o motor, mas
como Seward era s h alguns quilmetros dali, eles decidiram ir andando.
          No meio da manh, eles escalaram uma elevao na estrada e
viram uma pequena baa cercada de montanhas. A cidade era uma meia-lua
na margem direita, com um cais se estendendo at a gua e um navio de
cruzeiro no porto.
          Percy estremeceu. Ele tinha tido experincias ruins com cruzeiros.
          -- Seward, -- Hazel disse. Ela no soava feliz ao ver o seu antigo
lar.
          Eles j tinham perdido muito tempo, e Percy no estava gostando
como o sol estava subindo rpido. A estrada dava a volta na encosta, mas
parecia que eles chegariam mais rpido na cidade indo direto pelo pasto.
          Percy foi para fora da estrada. -- Vamos.
          O cho estava mole, mas ele no pensou muito sobre isso at que
Hazel gritou:
          -- Percy, no!
         O prximo passo dele foi direto para dentro do cho. Ele afundou
como uma pedra at que a terra se fechou sobre a sua cabea  e a terra o
engoliu.



                                                                        338
                               XLI




-- SEU ARCO! -- HAZEL GRITOU.
       Frank no fez perguntas. Ele largou sua mochila e deslizou o
arco para fora de seu ombro.
        O corao de Hazel disparou. Ela no tinha pensado sobre esse
solo alagadio  pantanoso  desde antes que ela tinha morrido.
Agora, tarde demais, ela se lembrou das advertncias terrveis que os
moradores tinham dado a ela. Lodo pantanoso e plantas em
decomposio faziam uma superfcie que parecia completamente
slida, mas era ainda pior do que areia movedia. Poderia ter 6 metros
de profundidade ou mais, era impossvel escapar.
       Ela tentou no pensar no que aconteceria se fosse mais
profundo do que o comprimento do arco.
       -- Segure na ponta -- disse Frank. -- No solte.
       Ela agarrou a outra extremidade, respirou fundo, e saltou para
o pntano. A terra se fechou sobre sua cabea.
       Imediatamente, ela foi congelada em uma memria.
      No agora! Ela queria gritar. Ella disse que os apages tinham
acabado!
      Ah, mas minha cara, disse a voz de Gaia, isto no  um de seus
apages. Este  um presente meu.
       Hazel estava de volta  Nova Orleans. Ela e sua me sentadas
no parque perto de seu apartamento, fazendo um piquenique no caf
da manh. Ela se lembrava disso. Ela tinha sete anos de idade. Sua
me acabara de vender a primeira pedra preciosa de Hazel: um
pequeno diamante. Nenhuma delas tinha ainda percebido a maldio
de Hazel.

                                                                  339
       A Rainha Marie estava com um humor excelente. Ela tinha
comprado suco de laranja para Hazel e champanhe para si mesma, e
rosquinhas polvilhada com chocolate em p e acar. Ela at comprou
uma caixa de lpis de cor e um bloco de papel novos para Hazel. Elas
sentaram-se juntas, Rainha Marie estava cantarolando alegremente
enquanto Hazel desenhava.
       O Bairro Francs acordou em torno deles, pronto para o Mardi
Grs. Bandas de jazz ensaiavam. Carros alegricos estavam sendo
decorados com flores recm-colhidas. As crianas riam e perseguiam
umas s outras, adornadas em tantos colares coloridos que mal
conseguiam andar. O nascer do sol voltou ao cu vermelho-ouro, o ar
quente e mido cheirava  magnlias e rosas.
       Havia sido a manh mais feliz da vida de Hazel.
       -- Voc pode ficar aqui. -- Sua me sorriu, mas seus olhos
estavam brancos, vazios. A voz era de Gaia.
       -- Isso  falso -- disse Hazel.
       Ela tentou se levantar, mas a cama macia de grama a deixava
preguiosa e sonolenta. O cheiro de po e chocolate derretendo era
inebriante. Era a manh do Mardi Gras, e o mundo parecia cheio de
possibilidades. Hazel quase podia acreditar que tinha um futuro
brilhante.
       -- O que  real? -- Perguntou Gaia, falando atravs do rosto
de sua me. --  a sua segunda vida real, Hazel? Voc deveria estar
morta.  real que voc est afundando em um pntano, sufocante?
       -- Deixe-me ajudar o meu amigo! -- Hazel tentou forar-se de
volta  realidade. Ela poderia imaginar sua mo fechada no fim do
arco, mas mesmo isso estava comeando a parecer indistinto. Seu
aperto estava afrouxando. O cheiro de magnlias e rosas era
avassalador.
       Sua me ofereceu-lhe uma rosquinha.
      No, Hazel pensou. Esta no  minha me. Esta  Gaia me
enganando.
       -- Voc quer sua antiga vida de volta -- disse Gaia. -- Eu
posso dar isso. Este momento pode durar anos. Voc pode crescer em

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Nova Orleans, e sua me vai adorar voc. Voc nunca vai ter de lidar
com o fardo de sua maldio. Voc pode ficar com Sammy...
      --  uma iluso! -- Hazel disse, engasgando com o doce
aroma de flores.
        -- Voc  uma iluso, Hazel Levesque. Voc foi apenas trazida
de volta  vida porque os deuses tm uma tarefa para voc. Eu posso
ter usado voc, mas Nico usou voc e mentiu sobre isso. Voc deve
estar contente por eu t-lo capturado.
      -- Capturado? -- Um sentimento de pnico cresceu no peito
de Hazel. -- O que voc quer dizer?
       Gaia sorriu, bebendo seu champanhe. -- O garoto deveria ter
sabido melhor como procurar as Portas. Mas no importa, no 
realmente uma preocupao sua. Uma vez que voc solte Tnatos,
voc vai ser jogada de volta no Mundo Inferior para apodrecer para
sempre. Frank e Percy no vo impedir isso de acontecer. Amigos
verdadeiros teriam lhe pedido para desistir de sua vida? Diga-me
quem est mentindo, e quem diz a verdade.
       Hazel comeou a chorar. Amargura brotou dentro dela. Ela
perdeu a vida uma vez. Ela no queria morrer novamente.
        --  isso mesmo, -- Gaia ronronou. -- Voc estava destinada
a se casar com Sammy. Voc sabe o que aconteceu com ele depois
que voc morreu no Alasca? Ele cresceu e se mudou para o Texas. ele
casou e teve uma famlia. Mas ele nunca esqueceu voc. Ele sempre
quis saber por que voc desapareceu. Ele est morto hoje, teve um
ataque cardaco nos anos sessenta. A vida que vocs poderiam ter
juntos sempre o perseguia.
       -- Pare com isso! -- Hazel gritou. -- Voc tirou isso de mim!
        -- E voc pode t-lo novamente -- disse Gaia. -- Eu tenho
voc no meu abrao, Hazel. Voc vai morrer de qualquer jeito. Se
voc desistir, pelo menos eu posso tornar isso agradvel para voc.
Esquea salvar Percy Jackson. Ele pertence a mim. Eu vou mant-lo
seguro na terra at que eu esteja pronta para us-lo. Voc pode ter uma
vida inteira em seus momentos finais, voc pode crescer, se casar com
Sammy. Tudo o que voc tem que fazer  soltar-se.


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       Hazel apertou seu punho sobre o arco. Abaixo dela, algo
agarrou seus tornozelos, mas ela no entrou em pnico. Ela sabia que
era Percy, sufocando, desesperadamente segurando uma oportunidade
de vida. Hazel olhou para a deusa.
       -- Eu nunca vou cooperar com voc! NOS  DEIXE  IR!
        O Rosto da me de Hazel se dissolveu. A manh de Nova
Orleans derreteu na escurido. Hazel estava se afogando na lama, uma
mo sobre o arco, as mos de Percy em torno de seus tornozelos,
profundamente na escurido. Hazel balanou o fim do arco
freneticamente. Frank puxou-a com tanta fora que quase tirou seu
brao para fora da cavidade.
       Quando ela abriu os olhos, ela estava deitada na grama, coberta
de lama. Percy deitado a seus ps, tossindo e cuspindo lama.
       Frank pairava sobre eles, gritando:
       -- Oh, deuses! Oh, deuses! Oh, deuses!
       Ele arrancou algumas roupas extras de sua bolsa e comeou a
passar a toalha do rosto de Hazel, mas no fez muito bem. Ele arrastou
Percy mais para longe do pntano.
       -- Voc ficou l tanto tempo! -- Frank chorou. -- Eu no
pensei  oh, deuses, nunca faa algo assim de novo!
       Ele embrulhou Hazel em um abrao de urso.
       -- No posso... respirar. -- ela sufocou.
       -- Desculpe! -- Frank voltou  passar a toalha neles.
Finalmente ele conseguiu lev-los para o lado da estrada, onde eles
sentaram e tremeram e cuspiram torres de barro.
       Hazel no conseguia sentir suas mos. Ela no tinha certeza se
ela estava com frio ou em estado de choque, mas ela conseguiu
explicar sobre o pntano, e a viso que tinha visto enquanto ela estava
sob a terra. No a parte sobre Sammy  que ainda era muito dolorosa
para dizer em voz alta  mas ela lhes contou sobre a oferta de Gaia de
uma falsa vida, e a afirmao da deusa que ela tinha capturado seu
irmo Nico. Hazel no queria manter isso para si mesma. Ela estava
com medo que o desespero a dominasse.


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       Percy esfregou os ombros. Seus lbios estavam azuis. --
Voc... voc me salvou Hazel. Ns vamos descobrir o que aconteceu
com Nico, eu prometo.
       Hazel olhou para o sol, que agora estava alto no cu. O calor
parecia bom, mas no a impedia de tremer.
       -- No parece que Gaia nos deixou ir com muita facilidade?
        Percy arrancou um torro de lama de seu cabelo. -- Talvez ela
ainda nos queira como pees. Talvez ela estivesse apenas dizendo
coisas para mexer com sua mente.
      -- Ela sabia o que dizer, -- Hazel concordou. -- Ela sabia
como para chegar a mim.
       Frank colocou seu casaco sobre os ombros dela. -- Esta  uma
vida real. Voc sabe disso, certo? Ns no vamos deixar voc morrer
novamente.
       Ele parecia to determinado. Hazel no queria discutir, mas ela
no conseguia ver como Frank iria conseguir parar a Morte. Ela
pressionou o bolso do casaco, onde a lenha meio queimada de Frank
ainda estava bem embrulhada. Ela perguntou o que teria acontecido
com ele se tivesse afundado na lama para sempre. Talvez isso tivesse
salvado-o. Fogo no poderia queimar com a madeira l embaixo.
       Ela teria feito qualquer sacrifcio para manter Frank seguro.
Talvez ela no tivesse sempre sentido isso fortemente, mas Frank
havia confiado nela com sua vida. Ele acreditava nela. Ela no podia
suportar a ideia de algum mal vindo para ele.
       Ela olhou para o sol nascente. O tempo estava se esgotando.
Ela pensou em Hylla, a Rainha das Amazonas em Seattle. Hylla teria
duelado com Otrera duas noites seguidas agora, supondo que ela tenha
sobrevivido. Ela estava contando com Hazel para liberar a Morte.
       Ela conseguiu ficar de p. O vento que vinha da Baa da
Ressurreio era to frio quanto ela se lembrava.
       -- Ns devemos ir. Estamos perdendo tempo.
       Percy olhou para baixo da estrada. Seus lbios estavam
voltando para sua cor normal. -- Qualquer hotel ou algum lugar onde


                                                                  343
pudssemos nos limpar? Quero dizer... hotis que aceitam pessoas
cheias de lama?
       -- Eu no tenho certeza -- admitiu Hazel.
        Ela olhou para a cidade l embaixo e no podia acreditar no
quanto ela tinha crescido desde 1942. O porto principal tinha se
mudado para o leste conforme a cidade se expandiu. A maioria dos
edifcios eram novos para ela, mas a grade de ruas do centro parecia
familiar. Ela pensou que reconheceu alguns armazns ao longo da
costa.
        -- Eu devo conhecer um lugar em que ns poderemos no
refrescar.




                                                                344
                               XLII




QUANDO ELES CHEGARAM NA CIDADE, Hazel seguiu o
mesmo caminho que usou 70 anos atrs  a ltima noite de sua vida,
quando chegou de sua casa nas colinas e descobriu que sua me tinha
desaparecido.
        Ela levou seus amigos ao longo da Terceira Avenida. A
Estrada de Ferro e a Estao ainda estavam l. O grande e branco
Hotel Seward que tinha dois andares ainda estava em funcionamento,
mas havia sido ampliado para o dobro de seu tamanho. Eles pensaram
em parar ali, mas Hazel no achou que seria uma boa ideia caminhar
pelo saguo com os sapatos cobertos de lama, e ela tambm tinha
certeza que o hotel no daria uma sala para trs menores.
         Em vez disso, eles continuaram a caminhar em direo ao
litoral. Hazel no podia acreditar, mas sua antiga casa ainda estava l,
apoiando-se sobre o per incrustado de cracas. O teto cedeu. As
paredes estavam perfuradas com furos como se fossem balas. A porta
estava fechada com tbuas, e uma placa pintada  mo que dizia:
QUARTOS - ARMAZM - DISPONVEL.
       -- Vamos l -- disse ela.
       -- Ei, tem certeza que  seguro? -- Frank perguntou.
        Hazel encontrou uma janela aberta e pulou para dentro. Seus
amigos a seguiram. O quarto no tinha sido usado por um longo
tempo. Os seus ps levantavam poeira que rodopiava na luz dos feixes
de luz solar. Caixas de papelo estavam abandonadas, empilhadas ao
longo das paredes. Em seus rtulos desbotados, podia-se ler:
CARTES DE FELICITAES, FERIADOS SORTIDOS. Por que
vrias centenas de caixas de cartes de Boas Festas tinham acabado se
desintegrando  poeira em um armazm no Alasca, Hazel no tinha
ideia, mas parecia uma piada cruel: Como se os cartes fossem para

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suprir todos os feriados que ela nunca chegou a comemorar  dcadas
de Natais, Pscoas, Aniversrios, Dias dos Namorados.
        --  mais quente aqui, pelo menos, -- disse Frank. -- Acho
que no h gua corrente. Talvez eu possa ir s compras. Eu no estou
to enlameado como vocs. Eu poderia encontrar algumas roupas para
ns.
       Apenas metade de Hazel o ouviu.
       Ela subiu em cima de uma pilha de caixas no canto que
costumava ser sua rea de dormir. Uma antiga placa estava apoiada
contra a parede: SUPRIMENTOS PARA PROSPECO DE OURO.
Ela pensou que ia encontrar uma parede nua por trs disso, mas
quando ela moveu a placa, a maioria de suas fotos e desenhos ainda
estavam presos ali. A placa deveria t-los protegido dos raios solares e
dos elementos. Eles pareciam no ter envelhecido. Seus desenhos de
Nova Orleans em giz de cera pareciam to infantis. Ela tinha
realmente os feito? Sua me olhava para ela de uma fotografia,
sorrindo na frente da placa de seu negcio: GRIS-GRIS RAINHA
MARIE  VENDA DE FEITIO, LEITURA DA SORTE.
       Ao lado tinha uma foto de Sammy no carnaval. Ele estava
congelado no tempo, com seu sorriso ansioso, seus cabelos
encaracolados pretos, e aqueles olhos lindos. Se Gaia estava dizendo a
verdade, Sammy havia morrido h mais de 40 anos. Teria ele
realmente se lembrado de Hazel durante todo esse tempo? Ou ser que
ele havia esquecido a garota peculiar com quem ele costumava
cavalgar  a garota que compartilhou um beijo e um bolinho de
aniversrio com ele antes de desaparecer para sempre?
       O dedo de Frank pairou sobre a foto. -- Quem...? -- Mas ele
viu que ela estava chorando e voltou atrs em sua pergunta. --
Desculpe, Hazel. Isto deve ser muito difcil. Voc quer um pouco de
tempo...
       -- No, -- ela resmungou. -- No, est tudo bem.
       -- Essa  sua me? -- Percy apontou para a foto da Rainha
Marie. -- Ela parece com voc. Ela  linda.
       Ento Percy estudou a imagem de Sammy. -- Quem  esse?
       Hazel no entendia por que ele parecia to assustado.
                                                                    346
       -- Esse ... esse  Sammy. Ele era meu, h, amigo de Nova
Orleans. -- Ela se forou a no olhar para Frank.
       -- Eu o vi antes -- disse Percy.
      -- Voc no poderia ter visto ele -- disse Hazel. -- Isso foi
em 1941. Ele est... ele est morto agora, provavelmente.
       Percy franziu a testa. -- Eu acho. Ainda... -- Ele balanou a
cabea como se o pensamento fosse muito desconfortvel.
       Frank limpou a garganta. -- Olha, ns passamos por uma loja
no ltimo quarteiro. Temos um pouco de dinheiro restante. Talvez eu
devesse ir buscar um pouco de comida e roupas para vocs e, no sei,
uma centena de caixas de lenos umedecidos ou algo assim?
        Hazel recolocou a placa de prospeco de ouro sobre suas
recordaes. Ela se sentia culpada, mesmo olhando para aquela foto
antiga de Sammy, com Frank tentando ser to doce e apoiador. No
lhe fazia bem pensar sobre sua vida antiga.
       -- Isso seria timo, -- disse ela. -- Voc  o melhor, Frank.
       O assoalho rangeu sob seus ps. -- Bem, eu sou o nico que
no est completamente coberto de lama, de qualquer maneira. Estarei
de volta em breve.
        Uma vez que ele tinha ido embora, Percy e Hazel fizeram um
acampamento temporrio. Eles despiram os casacos e tentaram raspar
a lama. Eles encontraram alguns cobertores velhos em uma caixa e
comearam a limp-los. Eles descobriram que as caixas de Cartes de
Felicitaes eram lugares muito bons para descansar, s precisavam
arranj-las como camas.
       Percy ps sua espada no cho, onde brilhava com uma luz
bronze. Ento ele se estendeu sobre uma cama de caixas de Feliz Natal
de 1982.
        -- Obrigado por me salvar -- disse ele. -- Eu deveria ter te
falado isso antes.
       Hazel deu de ombros. -- Voc teria feito o mesmo por mim.
       -- Sim -- ele concordou. -- Mas quando eu estava no meio da
lama, eu lembrei da linha da profecia de Ella sobre o filho de Netuno

                                                                   347
se afogar. Eu pensei. `Isto  o que ela quis dizer. Estou me afogando
na terra.' Eu tinha certeza que estava morto.
        Sua voz tremia como se estivesse no seu primeiro dia no
Acampamento Jpiter, quando Hazel tinha lhe mostrado o templo de
Netuno. Naquela poca ela tinha se perguntado se Percy era a resposta
para seus problemas  o descendente de Netuno que Pluto prometeu
que tiraria sua maldio um dia. Percy tinha parecido to intimidante e
poderoso, como um verdadeiro heri.
       Somente agora, ela soube que Frank era um descendente de
Netuno, tambm. Frank no era o heri mais impressionante para o
futuro do mundo, mas ele confiava nela com sua vida. Ele trabalhava
muito duro para proteg-la. Mesmo a falta de jeito dele era cativante.
       Ela nunca se sentiu to confusa  e desde que ela esteve
confusa por toda a sua vida, isso dizia muito.
      -- Percy -- disse ela, -- Aquela profecia poderia no estar
completa. Frank pensou que Ella estava lembrando de uma pgina
queimada. Talvez voc vai afogar algum.
       Ele olhou para ela com cautela. -- Voc acha?
       Hazel se sentiu estranha tentando tranquiliz-lo. Ele era muito
mais velho, e tinha mais esprito de comando. Mas ela balanou a
cabea com confiana. -- Voc est indo e vai retornar para casa.
Voc vai ver sua namorada Annabeth.
       -- Voc vai retornar, tambm, Hazel -- ele insistiu. --
Estamos juntos, no vou deixar nada acontecer com voc. Voc 
muito valiosa para mim, para o acampamento, e especialmente para
Frank.
        Hazel pegou um dos antigos Cartes de Dia dos Namorados. O
papel rendado branco se desfez em suas mos. -- Eu no perteno a
este sculo. Nico s me trouxe de volta para que eu pudesse corrigir os
meus erros, talvez entrar no Elsio.
        -- H muito mais para o seu destino do que isso, -- disse ele.
-- Ns devemos lutar com Gaia juntos. Eu vou precisar de voc ao
meu lado mais do que nunca. E Frank  voc pode ver que o garoto
est louco com isso. Vale a pena lutar por esta vida, Hazel.


                                                                   348
       Ela fechou os olhos. -- Por favor, no fique me dando muitas
esperanas. Eu no posso.
       A janela se abriu. Frank escalou para dentro, triunfante
segurando algumas sacolas de compras. -- Sucesso!
       Ele mostrou seus prmios. De uma loja de caa, ele obteve um
novo conjunto de setas para si mesmo, alguma comida e um rolo de
corda.
        -- Para a prxima vez que ns atravessarmos um pntano --
disse ele.
        De uma loja de turismo local, ele havia comprado trs
conjuntos de roupas frescas, algumas toalhas, sabo, algumas garrafas
de gua, e, sim, uma enorme caixa de lenos umedecidos. No era
exatamente um chuveiro quente, mas Hazel se escondeu atrs de uma
parede de caixas de cartes para se limpar e se trocar. Logo ela estava
se sentindo muito melhor.
       Este  o seu ltimo dia, lembrou a si mesma. No fique muito
confortvel.
        A Festa de Fortuna  toda a sorte que acontecesse hoje, boa ou
m, era suposta ser um pressgio do ano inteiro por vir. De uma forma
ou de outra, a busca terminaria esta noite. Ela colocou o pedao de
lenha no bolso de seu casaco. De alguma forma, ela teria que se
certificar de que ficasse seguro, no importa o que acontecesse com
ela. Ela podia suportar sua prpria morte, enquanto seus amigos
sobrevivam.
       -- Ento -- disse ela. -- Agora ns encontramos um barco
para a Geleira Hubbard.
       Ela tentou soar confiante, mas no foi fcil. Ela desejou que
Arion ainda estivesse com ela. Ela preferiria cavalgar para batalha
naquele seu lindo cavalo. Desde que tinha deixado Vancouver, ela
estava chamando por ele em seus pensamentos, esperando que ele iria
ouvi-la e vir encontr-la, mas isso foi apenas iluso.
       Frank bateu seu estmago. -- Se vamos para a batalha at a
morte, eu quero primeiro almoar. Eu encontrei o lugar perfeito.



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        Frank os levou a um centro comercial perto do cais, onde um
vago de trem velho tinha sido convertido em uma lanchonete. Hazel
no lembrava desse lugar em 1940, mas o cheiro da comida era
incrvel. Enquanto Frank e Percy faziam o pedido, Hazel vagou at as
docas e fez algumas perguntas. Quando voltou, ela precisava se
animar. Mesmo o cheeseburger com batatas fritas no fez seu humor
mudar.
       -- Estamos em apuros -- disse ela. -- Eu tentei pegar um
barco. Mas... calculei mal.
       -- No podemos pegar um barco? -- Frank perguntou.
        -- Oh, ns podemos pegar um barco -- disse Hazel. -- Mas a
geleira  mais longe do que eu pensava. Mesmo em alta velocidade,
no conseguiremos chegar l at amanh de manh.
       Percy ficou plido. -- Talvez eu pudesse fazer o barco ir mais
rpido?
       -- Sim, voc poderia -- disse Hazel, -- Mas, pelo que os
capites me disseram,  perigoso  icebergs, labirintos de canais para
navegar. Voc teria que saber onde est indo.
       -- Um avio? -- Frank perguntou.
       Hazel balanou a cabea. -- Eu perguntei para os capites dos
barcos sobre isso. Eles disseram que poderamos tentar, mas  uma
pista pequena. Ns teramos que fretar um avio com duas, trs
semanas de antecedncia.
       Eles comeram em silncio depois disso. Para Hazel, o
cheeseburger estava excelente, mas ela no conseguia se concentrar
nele. Ela havia dado cerca de trs mordidas quando um corvo pousou
no poste de telefone acima e comeou a grasnar para eles.
       Hazel estremeceu. Ela estava com medo de que esse corvo
fosse falar com ela como o outro corvo, tantos anos atrs: A ltima
noite. Hoje  noite. Ela se perguntou se os corvos sempre apareciam
para filhos de Pluto, quando eles estavam prestes a morrer. Ela
esperava que Nico ainda estivesse vivo, e Gaia estivesse mentindo
para deix-la perturbada. Hazel tinha um mau pressentimento que a
deusa estava dizendo a verdade.


                                                                  350
       Nico tinha dito a ela que ele iria procurar as Portas da Morte
do outro lado. Se ele tivesse sido capturado pelas foras de Gaia,
Hazel poderia ter perdido a nica famlia que ela tinha.
       Ela olhou para o cheeseburger.
       De repente, o grasnar do corvo se alterou para um grito
estrangulado.
       Frank levantou-se to rpido que ele quase derrubou a mesa de
piquenique. Percy puxou sua espada.
        Hazel seguiu seus olhos. Empoleirado no topo do poste onde o
corvo tinha estado, um grifo gordo e feio olhava para baixo, para eles.
Ele arrotou e penas de corvo voaram de seu bico.
       Hazel ficou de p e desembainhou sua spatha.
       Frank pegou uma seta. Ele mirou, mas o grifo gritou to alto
que o som ecoou nas montanhas. Frank se encolheu, e seu tiro passou
longe.
      -- Eu acho que  um pedido de ajuda -- advertiu Percy. --
Temos que sair daqui.
       Sem nenhum plano claro, eles correram para o cais. O grifo
mergulhou depois deles. Percy cortou com sua espada, mas o grifo
desviou para fora do alcance.
        Eles foram para o cais mais prximo e correram at o fim. O
grifo mergulhou depois deles, suas garras da frente estendidas para
matar. Hazel levantou a espada, mas uma parede de gelo bateu
lateralmente no grifo e o jogou dentro da baa. O grifo gritou e bateu
suas asas. Ele conseguiu subir para o cais, onde ele balanou o seu
plo negro como um cachorro molhado.
       Frank grunhiu. -- Muito bem, Percy.
       -- Sim -- disse ele. -- No sabia se eu ainda podia fazer isso
no Alasca. Mas as ms notcias... olhe l em cima. -- Quase um
quilmetro de distncia, sobre as montanhas, uma nuvem negra estava
vindo em sua direo  era um bando de grifos, dezenas, pelo menos.
No havia como eles lutarem contra tantos, e nenhum barco poderia
lev-los embora rpido o suficiente.


                                                                   351
       Frank pegou outra seta. -- No vamos desistir sem lutar.
       Percy levantou Contracorrente. -- Eu estou com voc.
       Hazel ento ouviu um som na distncia semelhante a relinchos
de um cavalo. Ela deveria estar imaginando, mas ela gritou
desesperadamente:
       -- Arion! Por aqui!
        Um borro bronzeado veio rasgando da rua para o cais. O
garanho se materializou logo atrs do grifo, ergueu seus cascos da
frente, e bateu no monstro, que virou p.
      Hazel nunca tinha ficado to feliz em sua vida. -- Bom cavalo!
Realmente bom cavalo!
       Frank se moveu para trs e quase caiu do cais. -- Como...?
       -- Ele me seguiu! -- Hazel vibrou. -- Porque ele  o melhor 
cavalo  SEMPRE! Agora, subam!
        -- Todos os trs de ns? -- Percy disse. -- Ser que ele pode
lidar com isso?
       Arion relinchou indignado.
      -- Tudo bem, no h necessidade de ser rude -- disse Percy.
-- Vamos.
        Eles subiram em Arion, Hazel na frente, Frank e Percy se
equilibrando precariamente atrs dela. Frank passou os braos em
volta da cintura de Hazel, e ela pensou que se esse ia ser o seu ltimo
dia na Terra, no era uma maneira ruim de partir.
       -- Corra, Arion! -- ela gritou. -- Para a Geleira Hubbard!
       O cavalo disparou atravs da gua, seus cascos transformando
a superfcie do mar em vapor.




                                                                    352
                                   XLIII




MONTANDO ARION, HAZEL SE SENTIA PODEROSA,
incontrolvel, absolutamente no controle  uma perfeita combinao
de cavalo e humano. Ela se perguntou se era assim que os centauros se
sentiam.
       Os capites do barco em Seward tinham avisado-a que eram
300 milhas nuticas at a Geleira Hubbard, uma viagem dura e
perigosa, mas Arion no teve problemas. Ele corria fora da gua na
velocidade do som, aquecendo tanto o ar em torno deles que Hazel
nem sequer sentia o frio. A p ela nunca teria se sentido to corajosa.
 cavalo ela mal podia esperar para uma batalha.
       Frank e Percy no pareciam to felizes. Quando Hazel olhou
para trs eles estavam de dentes cerrados e de olhos saltados. As
bochechas de Frank sacudiam com a fora da gravidade. Percy estava
sentado na traseira, segurando firme, desesperadamente tentando no
escorregar do cavalo. Hazel esperava que isso no acontecesse. Pela
maneira como Arion corria, ela no perceberia que ele cara at terem
se passado uns cinquenta ou sessenta quilmetros.
        Eles correram atravs de estreitos de gelo, passando por
fiordes70 azuis e penhascos com cachoeiras derramando no mar. Arion
saltou sobre uma baleia jubarte e manteve o galope, um grupo de
focas surpreendidas se desintegrou de um iceberg. Poucos minutos
depois eles corriam por uma baa estreita. A gua voltara a uma
consistncia de gelo raspado, num azul consistente e pegajoso. Arion
parou sobre uma placa turquesa congelada.
     A quase um quilmetro de distncia estava a Geleira Hubbard.
Mesmo Hazel que j tinha visto geleiras antes, no conseguia

70
  Um fiorde corresponde a um antigo vale glacial que, devido  fuso do gelo, foi
invadido pelas guas do mar.

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processar o que via. Montanhas roxas cobertas de neve, cobriam todo
o horizonte, com nuvens flutuando em torno de seus vos, como
correias macias. Em um enorme vale entre dois picos, um muro
irregular de gelo se erguia do mar, enchendo toda a garganta. A
geleira era azul e branca com listras em preto, de modo que parecia
uma cobertura de neve suja deixada para trs numa calada, aps um
removedor de neve passar, s que quatro milhes de vezes maior.
       Assim que Arion parou, Hazel sentiu a queda de temperatura.
Todo aquele gelo enviava ondas de frio, transformando assim a baa
no maior frigorfico do mundo. A coisa mais deslumbrante era o som
de um trovo que rolava atravs da gua.
        -- O que  isso? -- Frank olhou para as nuvens acima da
geleira. -- Uma tempestade?
      -- No, -- Hazel disse. -- Gelo rachando e se deslocando.
Milhes de toneladas de gelo.
       -- Voc quer dizer que a coisa est quebrando? -- Frank
perguntou.
        Como se fosse por causa de sua sugesto, uma camada de gelo
silenciosa desgrudou da geleira e caiu no mar, pulverizando a gua
congelada e estilhaando varias camadas. Um milsimo de segundo
depois o som da batida chegou at eles  um BOOM quase to
chocante quanto Arion atingindo a barreira do som.
        -- No podemos chegar perto daquela coisa! -- Frank disse.
        -- Ns temos, -- Percy disse. -- O gigante est l no topo.
        Arion relinchou.
        -- Droga Hazel. -- Percy disse. -- Diga para o seu cavalo
falar na sua lngua.
        Hazel tentou no rir. -- O que ele disse?
        -- Sem o palavro? Ele disse que pode nos levar ao topo.
        Frank olhou incrdulo. -- Eu pensei que esse cavalo no podia
voar!
       Arion relinchou to furiosamente, que at Hazel podia
adivinhar que ele estava xingando.

                                                                      354
       -- Cara, -- Percy apontou para o cavalo. -- Eu fui suspenso
por dizer menos do que isso. Hazel, ele prometeu que voc ver o que
ele pode fazer, assim que voc disser.
       -- Hum, segurem-se ento rapazes, -- disse Hazel
nervosamente. -- Arion, corra!
       Arion disparou em direo  montanha como um foguete em
fuga, embarricando em linha reta  lama, como se ele quisesse brincar
com a montanha de gelo.
        O ar ficou mais frio. O crepitar do gelo mais forte. Conforme
Arion fechava a distncia, a geleira se aproximava to grande, que
Hazel ficou com vertigem, tentado apenas no vomitar. A lateral
estava repleta de fendas e cavernas, enriquecidas com cristais
irregulares, tais como lminas de machado. Pedaos estavam
constantemente se desintegrando  alguns no maiores do que bolas
de neve, alguns do tamanho de casas.
      Quando eles estavam a 50 metros da base, um trovo sacudiu
os ossos de Hazel, e uma cortina de gelo que teria coberto o
Acampamento Jpiter facilmente, veio na direo deles.
       -- Cuidado! -- Frank gritou, o que parecia um pouco
desnecessrio para Hazel.
       Arion estava muito a frente dela. Numa exploso de
velocidade, ele ziguezagueou entre os escombros, pulando sobre
pedaos de gelo e escalando a face da geleira.
        Percy e Frank gritaram como cavalos, se segurando
desesperadamente, enquanto Hazel colocava os braos ao redor de
Arion. De alguma forma, eles conseguiram no cair com Arion
pulando de ponto de apoio, para ponto de apoio com uma velocidade e
agilidade impossveis. Foi como cair de uma montanha russa em
sentido inverso.
       Em seguida tinha acabado. Arion estava orgulhosamente no
topo de uma montanha que pairava sobre o vazio. O mar estava agora
a 100 metros abaixo deles.
       Arion relinchou um desafio que ecoou pelas montanhas. Percy
no traduziu, mas Hazel tinha certeza que Arion estava dizendo para


                                                                 355
qualquer outro cavalo que poderia estar na baa: faam melhor que
isso, otrios!
      Ento ele correu por toda superfcie da geleira, pulando um
abismo de 15 metros de dimetro.
        -- L! -- Percy apontou.
        O cavalo parou,  frente deles havia um acampamento romano
congelado, como uma rplica gigante e medonha do Acampamento
Jpiter. As muralhas de tijolos de neve encaravam o ofuscante branco
das muralhas de gelo. Torres de vigilncia, bandeiras de pano azul
congeladas brilhavam no sol rtico.
        No havia nenhum sinal de vida. Os portes estavam abertos.
Nenhuma sentinela andava no alto das paredes. Ainda assim, Hazel
tinha um sentimento desconfortvel em seu interior. Ela se lembrou da
caverna na baa da ressurreio, onde ela havia trabalhado para
levantar Alcioneu  o opressivo sentimento de malcia e o constante
boom, boom, boom, como os batimentos cardacos de Gaia. Esse lugar
parecia familiar, como se a terra estivesse tentando acordar e consumir
tudo, como se as montanhas de ambos os lados quisessem esmag-los
e fazer toda a geleira em pedaos.
        Arion trotou com energia.
        -- Frank -- Percy disse, -- Que tal ir de a p a partir daqui?
       Frank suspirou de alivio. -- Pensei que voc nunca fosse
perguntar.
       Eles desmontaram e experimentaram dar alguns passos. O gelo
parecia estvel, coberto com um tapete fino de neve e ele no estava
muito escorregadio.
       Hazel pediu para Arion ir em frente. Percy e Frank andaram
em ambos os lados, com a espada e o arco prontos. Eles se
aproximaram dos portes sem nenhum desafio. Hazel era treinada
para localizar poos, armadilhas, trip lines71, e todos os tipos de
armadilhas que outras legies romanas tinham enfrentado por eras em


71
  Trip Lines: Armadilha que consiste em uma corda no cho na qual a pessoa ou
animal ficam presos e so suspensos nas rvores quando pisam em cima.

                                                                            356
territrio inimigo, mas ela no viu nada, apenas as portas de gelo
abertas. E o crepitar do vento nas bandeiras congeladas.
      Ela podia ver diretamente abaixo a Via Praetoria. No
cruzamento, em frente  Principia de tijolos de neve, uma figura alta
em uma roupa escura estava presa em correntes de gelo.
       -- Tnatos, -- Hazel murmurou.
        Ela sentiu como se sua alma estivesse sendo puxada para
frente, atrada pela Morte como poeira em direo a um vcuo. Sua
viso escureceu. Ela quase caiu de Arion, mas Frank a pegou em
apoio.
        -- Ns estamos com voc, -- ele prometeu. -- Ningum te
levar embora.
       Hazel segurou sua mo. Ela no queria ir. Ele era to slido,
to reconfortante, mas Frank no podia proteg-la da Morte. Sua
prpria vida era to frgil quanto um pedao queimado de madeira.
       -- Eu estou bem, -- Ela mentiu.
     Percy olhou ao redor inquieto. -- No tem defensores?
Nenhum gigante? Isso tem que ser uma armadilha.
       -- bvio, -- Frank disse. -- Mas eu no acho que ns temos
escolha.
        Antes que Hazel pudesse mudar de ideia, ela guiou Arion
atravs dos portes.
       A planta parecia familiar  quartis de Coortes, casas de
banho, arsenal. Era uma rplica exata do Acampamento Jpiter,
exceto que trs vezes maior. Mesmo em cima do cavalo, Hazel se
sentiu pequena e insignificante, como se estivesse se movendo por
uma cidade modelo construda pelos deuses.
       Eles pararam a 3 metros da figura vestida.
        Agora que ela estava aqui, Hazel sentia uma vontade
imprudente de terminar a misso. Ela sabia que estava em mais perigo
do que quando ela estava lutando contra as Amazonas, ou contra os
grifos ou escalando o gelo nas costas de Arion. Instintivamente ela
sabia que Tnatos poderia simplesmente toc-la, e ela iria morrer.

                                                                 357
        Mas ela tambm tinha um sentimento de que se ela no
conseguisse terminar a misso, Se ela no encarasse o seu destino de
frente e com coragem, ela ainda iria morrer  na covardia e fracasso.
Os juzes dos mortos no seriam brandos uma segunda vez.
       Arion galopou para frente e para trs, sentindo sua inquietao.
       -- Ol?-- Hazel forou a palavra para fora. -- Sr. Morte?
       A figura encapuzada estava com sua cabea erguida.
        Imediatamente, todo o acampamento despertou para a vida.
Figuras romanas surgiram dos quartis, da Principia, arsenal e da
cantina, mas eles no eram humanos. Eles eram sombras  Hazel tinha
vivido tagarelando com fantasmas nos Campos de Asfdelos. Seus
corpos no eram mais do que fios pretos de vapor, mas eles
conseguiam unir conjuntos de armaduras escamadas, perneiras e
capacetes. Espadas cobertas de gelo estavam amarradas na cintura.
Pilos e escudos amassados flutuavam em suas mos esfumaadas. As
plumas do elmo estavam congeladas e esfarrapadas. A maioria das
sombras estavam a p, mas dois soldados irromperam dos estbulos
em uma carruagem de ouro puxada por dois cavalos negros
fantasmagricos. Quando Arion viu os cavalos, ele bateu na terra em
indignao.
       Frank agarrou seu arco. -- Sim, aqui est a armadilha.




                                                                   358
                                   XLIV




OS FANTASMAS FORMARAM FILEIRAS e cercaram a encruzilhada.
Havia ao menos cem ao todo  no era uma legio inteira, mas mais que uma
Coorte. Alguns carregavam o estandarte esfarrapado com o raio da
Duodcima Legio, Quinta Coorte  Michael.
        A expedio condenada de Varus nos anos oitenta. Outros
carregavam estandartes e insgnias que Hazel no reconhecia, como se
tivessem morrido em tempos diferentes, em diferentes misses  talvez nem
fossem do Acampamento Jpiter.
        A maioria estava armada com armas de ouro imperial  mais ouro
imperial que a Duodcima Segunda Legio possua. Hazel podia sentir o
poder de todo aquele ouro combinado sussurrando ao seu redor, ainda mais
assustador que o estalar da geleira. Ela pensou se poderia usar seu poder para
controlar as armas, talvez desarmar os fantasmas, mas ela estava assustada
para tentar. Ouro imperial no era s um metal precioso. Era letal contra
monstros e semideuses. Controlar aquela quantidade de uma vez seria como
controlar plutnio em um reator. Se ela falhasse, ela poderia varrer a Geleira
Hubbard e matar seus amigos.
        -- Tnatos! -- Hazel se virou para a figura encapuzada. -- Ns
estamos aqui para te resgatar, se voc controla essas criaturas, diga para
elas...
        Sua voz vacilou. O capuz do deus caiu e o seu robe caiu enquanto
ele abria suas asas, deixando-o com somente uma tnica negra sem mangas
com um cinto na cintura. Ele era o homem mais bonito que Hazel j havia
visto.
         Sua pele era da cor da madeira de teca72, escura e brilhante como a
antiga mesa das sesses da Rainha Marie. Os seus olhos eram to mel
dourado como os de Hazel. Ele era magro e musculoso, com uma face rgia
e o seu cabelo negro cado pelos seus ombros. Suas asas brilhavam em preto,
azul e roxo.

72
     Teca: Tipo de madeira marrom-amarelada.

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        Hazel lembrou a si mesma de respirar.
        Lindo era a palavra certa para Tnatos  no bonito, ou intenso, ou
alguma outra coisa do tipo. Ele era lindo como um anjo  lindo  atemporal,
perfeito, remoto.
        -- Oh, -- ela disse em uma voz fraca.
        Os pulsos do deus estavam algemados em algemas de gelo, com
correntes que iam direto ao cho da geleira. Seus ps estavam descalos,
algemados nos tornozelos e tambm acorrentados.
        --  o Cupido, -- disse Frank.
        -- Um Cupido bem lustroso, -- concordou Percy.
       -- Vocs me elogiam, -- disse Tnatos. Sua voz era to
deslumbrante quanto ele  grave e melodiosa. -- Eu sou frequentemente
confundido com o deus do amor. Morte tem mais em comum com o amor
que vocs podem imaginar. Mas eu sou a Morte. Eu posso lhes assegurar.
       Hazel no duvidou. Ela sentiu como se fosse feita de cinzas. A
qualquer segundo ela poderia se desfazer e ser sugada pelo vcuo. Ela
duvidava que Tnatos precisasse toc-la para mat-la. Ele poderia
simplesmente lhe dizer para morrer. Ela se ajoelharia no instante, sua alma
obedecendo quela linda voz e aqueles olhos amveis.
         -- Ns estamos... Ns estamos aqui para te salvar, -- ela conseguiu
dizer. -- Onde est Alcioneu?
        -- Me salvar...? -- Tnatos estreitou seus olhos. -- Voc entende o
que est dizendo, Hazel Levesque? Voc entende o que isso significa?
        Percy deu um passo a frente. -- Ns estamos desperdiando tempo.
         Ele balanou sua espada em direo s correntes do deus. O Bronze
celestial retiniu contra o gelo, mas Contracorrente ficou presa na corrente
como cola. O gelo comeou a subir pela espada. Percy puxou
freneticamente. Frank correu para ajudar. Juntos, eles s conseguiram liberar
Contracorrente antes do gelo alcanar suas mos.
        -- Isso no vai ajudar, -- disse Tnatos simplesmente. -- Quanto ao
gigante, ele est perto. Essas sombras no so minhas. So dele.
         Os olhos de Tnatos exploraram os soldados fantasmas. Eles
tremeluziram desconfortavelmente, como se um vento rtico passasse pelas
suas fileiras.
        -- Ento como te liberamos? -- demandou Hazel.

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       Tnatos mudou sua ateno de volta a ela. -- Filha de Pluto, filha
do meu mestre, voc de todas as pessoas no deveria me querer livre.
        -- Voc no acha que eu sei disso? -- Os olhos de Hazel picavam,
mas ela j estava farta de estar assustada. Ela havia sido uma garotinha
assustada setenta anos atrs. Ela perdeu a sua me porque agiu muito tarde.
Agora ela era uma soldada de Roma. Ela no ia falhar de novo. Ela no ia
desapontar seus amigos.
       -- Escute, Morte. -- Ela desembainhou sua espada de cavalaria, e
Arion relinchou desafiante. -- Eu no voltei do Mundo Inferior e viajei
milhares de quilmetros, para que me digam que sou estpida por te libertar.
Se eu morro, eu morro. Eu vou lutar com todo esse exrcito se for
necessrio. S nos diga como quebrar suas correntes.
        Tnatos a estudou durante um batimento. -- Interessante. Voc
entende que estas sombras uma vez foram semideuses como vocs. Eles
lutaram por Roma. Eles morreram sem completar a sua misso herica.
Como voc, foram mandados para os Asfdelos. Agora Gaia prometeu uma
segunda vida a eles se eles lutarem por ela hoje.  claro, se voc me libertar
e derrot-los, eles tero que voltar ao Mundo Inferior onde pertencem. Por
traio aos deuses, eles enfrentaro punio eterna. Eles no so to
diferentes de voc, Hazel Levesque. Voc tem certeza que quer me libertar e
condenar todas estas almas para sempre?
        Frank fechou seus punhos. -- Isso no  justo! Voc quer ser
libertado ou no?
         -- Justo... -- ponderou Morte. -- Voc ficaria fascinado com a
frequncia que eu ouo essa palavra, Frank Zhang, e o quo sem sentido ela
.  justo que a sua vida vai queimar to brilhante e curta? Foi justo quando
eu guiei a tua me para o Mundo Inferior?
        Frank cambaleou como se tivesse sido golpeado.
        -- No, -- disse Morte tristemente. -- No foi justo. Mesmo assim,
era a hora. No h justia na Morte. Se vocs me libertarem, eu vou cumprir
com meu dever. Mas  claro que essas sombras vo tentar par-los.
       -- Ento se te deixamos ir, -- acrescentou Percy. -- Seremos
atacados por um monte de caras feitos de vapor negro com espadas de ouro.
Tudo bem. Como quebramos essas correntes?
       Tnatos sorriu. -- Somente o fogo da vida pode quebrar as correntes
da morte.
        -- Sem enigmas, por favor? -- pediu Percy.

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          Frank respirou trmulo. -- No  um enigma.
          -- No, Frank, -- disse Hazel fracamente. -- Tem que ter outro
meio.
          Risos explodiram do outro lado da geleira. Uma voz rouca disse:
          -- Meus amigos. Eu esperei tanto!
        Parado nos portes do acampamento estava Alcioneu. Ele era ainda
maior que o gigante Polybotes que eles tinham visto na Califrnia. Ele tinha
uma pele de metal dourado, uma armadura feita de ligas de platino, e um
cajado de ferro do tamanho de um poste totmico. Suas pernas vermelho-
ferrugem de drago martelaram o gelo enquanto entrava no acampamento.
Pedras preciosas brilhavam no seu cabelo vermelho tranado.
         Hazel nunca o havia visto completamente formado, mas ela o
conhecia melhor do que conhecia os seus prprios pais. Ela o havia feito. Por
meses, ela elevou ouro e gemas da terra para criar aquele monstro. Ela
conhecia os diamantes que havia usado para o corao. Ela conhecia o leo
que corria em suas veias ao invs de sangue. Mais do que tudo, ela queria
destru-lo.
          O gigante se aproximou, sorrindo para ela com seus dentes de prata
slida.
         -- Ah, Hazel Levesque, -- disse ele. -- Voc me custou muito caro!
Se no fosse por voc eu teria me erguido dcadas atrs, e esse mundo j
seria de Gaia. Mas no importa!
       Ele esticou suas mos, mostrando as linhas de soldados fantasmas.
-- Bem-vindo Percy Jackson! Bem-vindo Frank Zhang! Eu sou Alcioneu, a
desgraa de Pluto, o novo mestre da Morte. E essa  sua nova legio.




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                                 XLV




NO H JUSTIA NA MORTE. Essas palavras ficaram zunindo na
cabea de Frank.
        O gigante dourado no o assustava. O exrcito de fantasmas no o
assustava. Mas o pensamento de libertar Tnatos o fazia se encolher em
posio fetal. O deus havia levado a sua me.
       Frank entendia o que tinha que fazer para quebrar aquelas correntes.
Marte havia lhe avisado. Ele havia explicado porque amava tanto Emily
Zhang: Ela sempre colocava o seu dever em primeiro lugar,  frente de tudo.
Mesmo da sua vida.
       Agora era a vez de Frank.
        A medalha de sacrifcio de sua me estava quente no seu bolso. Ele
finalmente entendia a escolha de sua me, salvar os seus companheiros ao
custo de sua prpria vida. Ele finalmente entendia o que Marte havia tentado
lhe dizer  Dever. Sacrifcio, eles significam alguma coisa.
        No peito de Frank, um forte n de ira e ressentimento  um caroo
de dor que ele vinha carregando desde o funeral  finalmente comeou a se
dissolver. Ele entendeu porque sua me nunca voltou para casa. Valia  pena
morrer por algumas coisas.
       -- Hazel. -- ele tentou manter a sua voz firma. -- Aquele pacote
que voc tem carregado por mim? Eu preciso dele.
       Hazel olhou para ele desanimada. Sentada em Arion, ela parecia
uma rainha, poderosa e bonita, seu cabelo castanho varrido sobre seus
ombros e uma coroa de nvoa gelada ao redor de sua cabea. -- Frank, no.
Tem que haver outra forma.
       -- Por Favor. Eu... Eu sei o que estou fazendo.
       Tnatos sorriu e levantou seus pulsos algemados. -- Voc est certo,
Frank Zhang. Sacrifcios tm que ser feitos.



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        Perfeito. Se a Morte aprovava os seus planos ele sabia que no ia
gostar dos resultados.
        O gigante Alcioneu deu um passo  frente, seus ps reptilianos
balanando no cho. -- De que pacote falas, Frank Zhang? Trouxe um
presente para mim?
       -- Nada para voc, Garoto Dourado, -- disse Frank. -- A no ser
uma grande quantidade de dor.
       O gigante rugiu em riso. -- Falou como um filho de Marte! Muito
ruim que eu tenha que te matar. E esse aqui... meu, meu, eu estive esperando
para matar o famoso Percy Jackson.
        O gigante sorriu, seus dentes de prata faziam a sua boca parecer uma
grade de carro.
        -- Eu acompanhei o seu progresso, filho de Netuno, -- disse
Alcioneu. -- Voc lutou contra Cronos? Bem feito. Gaia te odeia mais que
os outros... a no ser talvez por aquele arrogante Jason Grace. Lamento no
poder te matar de uma vez, mas meu irmo, Polybotes, deseja te ter como
um animal de estimao. Ele acha que vai ser engraado ter o filho favorito
de Netuno na coleira quando o destruir. Depois disso, Gaia tem planos para
voc.
       -- Sim, lisonjeiro. -- Percy levantou Contracorrente. -- Mas na
verdade eu sou filho de Poseidon. Sou do Acampamento Meio-Sangue.
       Os fantasmas se mexeram. Alguns puxaram espadas levantaram
escudos. Alcioneu levantou sua mo, gesticulando para esperarem.
        -- Grego, Romano, no importa, -- o gigante disse facilmente. --
Ns vamos esmagar ambos os acampamentos sob nossos ps. Voc v, os
Tits no pensavam grande o suficiente. Eles planejavam destruir o pecado
dos deuses, sua nova casa na Amrica. Ns gigantes sabemos melhor! Para
destruir a erva daninha, voc tem que puxar a raiz. Mesmo agora, enquanto
minhas foras destroem seu pequeno acampamento Romano, meu irmo
Porfrio est se preparando para a verdadeira batalha nas terras antigas! Ns
vamos destruir os deuses na sua fonte.
       Os fantasmas bateram suas espadas em seus escudos. O som ecoou
pelas montanhas.
        -- Sua fonte? -- perguntou Frank. -- Voc quer dizer Grcia?
        Alcioneu engasgou. -- Voc no precisa se preocupar com isso,
filho de Marte. Voc no viver o suficiente para ver a nossa vitria final. Eu
vou substituir Pluto como lorde do Mundo Inferior. Eu j tenho a Morte sob

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minha custdia. Com Hazel Levesque ao meu servio, eu vou ter todas as
riquezas sob a terra tambm.
        Hazel se aferrou a sua spatha, -- Eu no fao o servio.
        -- Oh, mas voc me deu a vida! -- disse Alcioneu. --  verdade,
ns queramos despertar Gaia durante a segunda guerra mundial. Teria sido
glorioso. Mas na verdade, o mundo est quase em to m forma agora. Logo,
sua civilizao ser varrida. As portas da Morte estaro abertas. Aqueles que
nos servem, nunca perecero. Vivos ou mortos, vocs trs se juntaro ao
meu exrcito.
         Percy negou com a cabea. -- Sem chance, Garoto Dourado. Voc
vai cair.
        -- Espere. -- Hazel estimulou seu cavalo diante do gigante. -- Eu
levantei este monstro da terra. Eu sou a filha de Pluto.  minha obrigao
mat-lo.
        -- Ah, pequena Hazel. -- Alcioneu plantou seu cajado no gelo. Seu
cabelo brilhou com milhes de dlares em gemas. -- Voc tem certeza que
no se juntar a ns por vontade prpria? Voc poderia ser bastante...
preciosa para ns. Por que morrer de novo? -- Os olhos de Hazel brilharam
com fria. Ela olhou para Frank abaixo dela e puxou o pedao de lenha
embrulhado do seu casaco.
        -- Voc tem certeza?
        -- Sim, -- ele disse.
        Ela franziu seus lbios. -- Voc  o meu melhor amigo tambm,
Frank. Eu deveria ter te dito isso. -- Ela lhe lanou o graveto. -- E Percy...
voc pode proteg-lo?
       Percy olhou para as filas de fantasmas Romanos. -- Contra um
pequeno exrcito? Claro, sem problemas.
        -- Ento eu cuido do Garoto Dourado, -- disse Hazel.
        Ela avanou contra o gigante.




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                                XLVI




FRANK DESEMBRULHOU A LENHA e se ajoelhou aos ps de Tnatos.
        Ele estava ciente de Percy em p por ele, balanando a espada e
gritando em desafio enquanto os fantasmas se aproximavam. Ele ouviu o
berro do gigante e relincho de Arion com raiva, mas ele no ousava olhar.
        Suas mos estavam trmulas, ele segurou seu pedao de lenha ao
lado das correntes sobre a perna direita da Morte. Ele pensou em chamas, e
imediatamente a madeira ardeu.
      Um calor horrvel se espalhou pelo corpo de Frank. O metal gelado
comeou a derreter, a chama to brilhante que era mais ofuscante do que o
gelo.
        -- Bom, -- Tnatos disse. -- Muito bom, Frank Zhang.
        Frank tinha ouvido falar sobre a vida das pessoas piscando diante de
seus olhos, mas agora ele experimentou literalmente. Ele viu sua me no dia
em que partiu para o Afeganisto. Ela sorriu e abraou-o. Ele tentou respirar
seu perfume de jasmim para que ele nunca a esquecesse.
        Eu sempre estarei orgulhosa de voc, Frank, disse ela. Algum dia,
voc vai viajar para ainda mais longe do que eu. Voc vai completar o ciclo
da nossa famlia. Anos a partir de agora, nossos descendentes estaro
contando histrias sobre o heri Frank Zhang, seu tatara, tatara, tatara 
Ela cutucava sua barriga por causa dos velhos tempos. Foi a ltima vez que
Frank sorriu por meses.
         Ele se viu no banco de piquenique em Moose Pass, observando as
estrelas e as luzes do norte enquanto Hazel roncava suavemente ao lado dele,
Percy dizendo, Frank, voc  um lder. Ns precisamos de voc.
        Ele viu Percy desaparecendo no pntano, ento o mergulho de Hazel
depois dele. Frank lembrou de como ele se sentia sozinho segurando o arco,
totalmente impotente. Ele apelou aos deuses do Olimpo, at mesmo Marte,
para que ajudassem seus amigos, mas ele sabia que eles estavam fora do
alcance dos deuses.

                                                                        366
       Com um barulho, a primeira corrente quebrou. Rapidamente, Frank
golpeou a lenha na corrente da outra perna da Morte.
       Ele arriscou um olhar sobre seu ombro.
        Percy estava lutando como um redemoinho. Na verdade... ele era um
turbilho. Um furaco em miniatura de gua e vapor de gelo agitados em
torno dele enquanto ele vadeava com o inimigo, batendo fantasmas romanos
para longe, desviando flechas e lanas. Desde quando ele tem esse poder?
        Ele se moveu atravs das linhas inimigas, e mesmo que ele parecesse
estar deixando Frank indefeso, o inimigo estava completamente focado em
Percy. Frank no tinha certeza por que, ento ele viu objetivo de Percy. Um
dos fantasmas de vapor negro estava vestindo a capa de pele de leo de um
porta-estandarte e segurando um basto com uma guia dourada, gelo
congelado nas suas asas. O estandarte da legio.
        Frank observou enquanto Percy arava atravs de uma linha de
legionrios, espalhando seus escudos com seu ciclone pessoal. Ele derrubou
o porta-estandarte e agarrou a guia.
       -- Vocs querem isso de volta? -- Ele gritou para os fantasmas. --
Venham busc-lo!
        Ele chamou-os, e Frank no pode deixar de se intimidar por sua
estratgia ousada. Tanto quanto as sombras queriam manter Tnatos
acorrentado, eles eram espritos romanos. Suas mentes estavam difusas na
melhor das hipteses, como os fantasmas que Frank tinha visto nos
Asfdelos, mas eles se lembravam de uma coisa claramente: eles deveriam
proteger sua guia.
         Ainda assim, Percy no poderia lutar contra muitos inimigos para
sempre. Manter uma tempestade como essa tinha que ser difcil. Apesar do
frio, seu rosto j estaca frisado com o suor.
       Frank olhou para Hazel. Ele no podia v-la ou o gigante.
       -- Cuidado com o fogo, garoto, -- Morte advertiu. -- Voc no
tem nada para desperdiar.
       Frank amaldioou. Ele tinha ficado to distrado, ele no tinha
notado que a segunda corrente havia derretido.
        Ele mudou o fogo para as algemas na mo direita do deus. O pedao
de estopa estava quase na metade agora. Frank comeou a tremer. Mais
imagens passaram pela sua mente. Ele viu Marte sentado na cabeceira de sua
av, olhando para Frank com aqueles olhos de exploso nuclear: Voc  a
arma secreta de Juno. J descobriu o seu dom?

                                                                      367
        Ele ouviu sua me dizer: Voc pode ser qualquer coisa.
        Ento ele viu o rosto severo da av, sua pele fina como papel de
arroz, seu cabelo branco espalhado por seu travesseiro. Sim, Fai Zhang. Sua
me no vaesta simplesmente aumentando sua auto-estima. Ela estava
dizendo a verdade literal.
        Ele pensou no urso pardo que sua me tinha interceptado na borda
da floresta. Pensou no grande pssaro preto circulando sobre as chamas da
manso de sua famlia.
       A terceira corrente estalou. Frank empurrou a lenha na ltima
algema. Seu corpo estava dilacerado pela dor. Manchas amarelas danaram
em seus olhos.
        Ele viu Percy no final da Via Principalis, adiando o exrcito de
fantasmas. Ele virou a carruagem e destruiu vrias construes, mas cada
vez que ele jogava fora uma onda de atacantes em seu furaco, os fantasmas
simplesmente levantavam-se e atacavam novamente. Toda vez que Percy
cortava um deles para baixo com sua espada, o fantasma se reformava
imediatamente. Percy tinha ido quase to longe quanto podia ir. Atrs dele
estava o porto lateral do acampamento, e cerca de seis metros, alm disso, a
borda da geleira.
        Quanto  Hazel, ela e Alcioneu conseguiram destruir a maior parte
do quartel em sua batalha. Agora eles estavam lutando em meio aos
destroos no porto principal. Arion estava jogando um jogo perigoso,
cobrando em torno do gigante, enquanto Alcioneu golpeava-os com seu
basto, derrubando paredes e fendendo abismos enormes no gelo. Apenas a
velocidade de Arion os mantinha vivos.
       Finalmente, o ltimo elo da Morte quebrou. Com um grito
desesperado, Frank espetou sua lenha em uma pilha de neve e apagou a
chama. Sua dor desapareceu. Ele ainda estava vivo. Mas quando ele pegou o
pedao de lenha, no era mais do que um toco, menor do que uma barra de
chocolate.
        Tnatos levantou os braos.
        -- Livre, -- disse ele com satisfao.
        -- timo. -- Frank piscou os pontos de seus olhos. -- Ento faa
alguma coisa!
       Tnatos lhe deu um sorriso calmo. -- Fazer alguma coisa?  claro.
Eu vou assistir. Aqueles que morrerem nessa batalha vo ficar mortos.


                                                                        368
        -- Obrigado -- murmurou Frank, deslizando sua lenha em seu
casaco. -- Muito til.
       -- De nada, -- disse Tnatos agradavelmente.
       -- Percy! -- Frank gritou. -- Eles podem morrer agora!
       Percy assentiu, mas ele parecia muito cansado. Seu furaco estava
abrandando. Seus ataques estavam ficando mais lentos. Todo o exrcito
fantasmagrico o havia rodeado, forando-o gradualmente em direo 
borda da geleira.
        Frank tirou seu arco para ajudar. Ento ele o deixou cair. Flechas
normais de uma loja de caa em Seward no ajudariam. Frank teria que usar
o seu dom.
         Ele pensou que ele entendeu seus poderes finalmente. Talvez ver a
madeira queimar, cheirar a fumaa estpida de sua prpria vida, o fez se
sentir estranhamente confiante.
        justo sua vida queimar to curta e clara? A Morte havia
perguntado.
       -- Nada  justo -- Frank disse a si mesmo. -- Se vou morrer, deve
ser bem claro.
        Ele deu um passo  frente para Percy. Ento, do outro lado do
acampamento, Hazel gritou de dor. Arion gritava enquanto o gigante lhe
dava um belo golpe com o cajado que mandou cavalo e cavaleiro deslizando
no gelo, quebrando as plataformas.
        -- Hazel! -- Frank olhou para Percy, desejando que tivesse sua
lana. Se ele pudesse invocar Cinzento... Mas ele no podia estar em dois
lugares de uma vez.
       -- V ajud-la! -- Percy gritou, segurando a guia dourada no ar.
-- Vou cuidar desses caras!
        Percy no conseguiria. Frank sabia disso. O filho de Poseidon estava
prestes a ser dilacerado, mas Frank correu em socorro de Hazel.
       Ela estava meio escondida em uma pilha de tijolos de neve
quebrados. Arion estava sobre ela, tentando proteg-la, batendo com o rabo e
dando patadas com suas patas dianteiras no gigante.
       O gigante riu.
       -- Ol, pequeno pnei. Quer brincar?

                                                                       369
       Alcioneu ergueu o cajado congelado.
        Frank estava muito longe para ajudar... Mas se imaginou correndo
para frente, seus ps deixando o cho.
       Seja qualquer coisa.
        Ele se lembrou das guias que tinha visto sobre o passeio de trem.
Seu corpo tornou-se menor e mais leve. Os braos esticaram em asas, e sua
viso tornou-se mil vezes mais ntida. Ele disparou para cima, em seguida,
mergulhou no gigante com suas garras estendidas, suas garras afiadas
arranharam atravs dos olhos do gigante.
       Alcioneu urrou de dor. Ele cambaleou para trs quando Frank
pousou na frente de Hazel e voltou  sua forma normal.
        -- Frank... -- Ela olhou para ele com espanto, um quepe de neve
escorrendo da sua cabea. -- O que apenas... como  que?
        -- Louco! -- Alcioneu gritou. Seu rosto foi cortado, o leo preto
escorria de seus olhos em vez de sangue, mas as feridas j estavam fechando.
-- Eu sou imortal em minha terra natal, Frank Zhang! E graas  sua amiga
Hazel, minha nova ptria  o Alasca. Voc no pode matar-me aqui!
       -- Vamos ver -- disse Frank. Poder percorria seus braos e pernas.
-- Hazel, volte ao seu cavalo.
        O gigante atacou, e Frank atacou de encontro  ele. Ele lembrou-se
do urso que tinha conhecido cara a cara, quando ele era criana. Enquanto
corria, seu corpo tornou-se mais pesado, mais grosso, ondulando com os
msculos. Ele colidiu com o gigante como um urso adulto, 500 quilos de
fora pura. Ele ainda era pequeno quando comparado com Alcioneu, mas ele
bateu no gigante com tal fora que Alcioneu derrubou uma torre de gelo que
desabou em cima dele.
       Frank saltou na cabea do gigante. Um golpe de sua garra era como
um lutador peso pesado balanando uma moto-serra. Frank bateu no rosto do
gigante para frente e para trs at seus traos metlicos comearem a
amassar.
       -- Urgg -- resmungou o gigante em um estupor.
        Frank mudou para sua forma regular. Sua mochila ainda estava com
ele. Ele agarrou a corda que tinha comprado em Seward, rapidamente fez
uma forca, e prendeu-a ao redor do p de drago escamoso do gigante.
       -- Hazel, aqui! -- Ele atirou-lhe a outra extremidade da corda. --
Eu tenho uma idia, mas vamos ter de...

                                                                       370
        -- Matarei... uh...uh... voc... -- Alcioneu murmurou.
         Frank correu para a cabea do gigante, pegou o objeto pesado mais
prximo que pode encontrar  um escudo da legio e bateu no nariz do
gigante.
        O gigante disse:
        -- Urgg.
        Frank olhou para Hazel. -- At que ponto pode Arion puxar esse
cara?
       Hazel apenas olhou para ele. -- Voc, voc era um pssaro. Ento,
um urso. E...
         -- Eu vou explicar mais tarde, -- disse Frank. -- Precisamos
arrastar esse cara para o interior, mais rpido e at onde pudermos.
        -- Mas Percy! -- Hazel disse.
        Frank amaldioou. Como ele poderia ter esquecido? Atravs das
runas do arraial, viu Percy, de costas para a borda do penhasco. Seu furaco
havia desaparecido. Ele segurava Contracorrente em uma mo e a guia
dourada da legio na outra. Todo o exrcito de sombras avanava, suas
armas eriadas.
        -- Percy! --Frank gritou.
       Percy olhou por cima. Ele viu o gigante cado e pareceu entender o
que estava acontecendo. Ele gritou algo que ficou perdido no vento,
provavelmente: Vo!
        Ento ele bateu Contracorrente no gelo a seus ps. A geleira inteira
estremeceu. Fantasmas caram de joelhos. Atrs de Percy, uma onda surgiu a
partir da baa  uma parede de gua cinza ainda mais alta do que a geleira.
gua tirada de abismos e fendas no gelo. Quando a onda atingiu, a metade
de trs do acampamento se desintegrou. Toda a borda da geleira descolou,
transbordando para o vazio  carregando os edifcios, fantasmas e Percy
Jackson sobre a borda.




                                                                        371
                             XLVII




FRANK ESTAVA TO ATORDOADO QUE Hazel teve que gritar
o nome dele uma dzia de vezes antes que ele se desse conta de que
Alcioneu esta se levantando novamente.
       Ele bateu com o escudo no nariz do gigante at Alcioneu
comear a roncar. Enquanto isso a geleira continuava a ruir, a borda
ficando cada vez mais prxima. Tnatos planou em direo a eles com
suas asas negras, sua expresso era serena.
       -- Ah, sim, -- ele disse com satisfao. -- L se vo algumas
almas. Se afogando, se afogando.  melhor vocs se apressarem, meus
amigos, ou se afogaro tambm.
       -- Mas Percy... -- Frank mal conseguia falar o nome do
amigo. -- Ele est...?
       -- Muito cedo para dizer. Agora, quanto a este... -- Tnatos
olhou para Alcioneu com desgosto. -- Vocs nunca o mataro aqui.
Vocs j sabem o que vo fazer?
       Frank acenou com a cabea, -- Eu acho que sim.
       -- Ento, est tudo resolvido. -- Frank e Hazel se
entreolharam nervosos.
       -- Hum... -- Hazel hesitou. -- Quer dizer que voc no...
que voc no vai...
        -- Reivindicar a sua vida? -- Tnatos perguntou. -- Bem,
vejamos... -- Ele fez surgir do ar um iPad. A Morte tocou a tela
algumas vezes, e em todas Frank pensou: Por favor, que no haja um
aplicativo para recolher almas.
       -- Vocs no esto na lista, -- disse ele. -- Pluto me deu
ordens especficas para pegar as almas fugitivas. Por alguma razo ele

                                                                  372
no emitiu um mandado para as suas almas. Talvez ele ache que as
suas vidas ainda no chegaram ao fim, ou pode ter havido um
equvoco. Se quiserem posso cham-lo e perguntar...
       -- No! -- Hazel gritou. -- Tudo bem.
       -- Vocs tm certeza? -- Ele perguntou amavelmente. -- Eu
tenho uma vdeo conferncia habilitada. Tenho o endereo do Skype
dele em algum lugar...
      -- Realmente, no. -- Parecia que milhares de quilos de
preocupao haviam sido retirados dos ombros de Hazel. -- Obrigada.
      -- Urgg, -- Alcioneu resmungou. Frank bateu na cabea dele
novamente.
       A Morte ainda procurava algo no seu iPad. -- Quanto a voc,
Frank Zhang, tambm no chegou a sua hora, ainda. Voc ainda tem
um pouco de combustvel para queimar. Mas no pensem que estou
fazendo um favor a vocs. Ns nos encontraremos novamente em
circunstncias menos agradveis.
       O penhasco continuava a desmoronar, agora s estavam a uns
seis metros da borda. Arion relinchou impaciente. Frank sabia que eles
tinham que ir, mais ainda tinha uma coisa que ele gostaria de
perguntar.
       -- E sobre as Portas da Morte? -- ele disse. -- Onde esto? E
como vamos fech-las?
        -- Ah, sim. -- Uma expresso de irritao perpassou o rosto
de Tnatos. -- As minhas Portas. Seria bom fech-las, mas eu temo
que isso esteja alm do meu poder. Como voc faria isso, no fao a
menor ideia. Eu no posso contar exatamente onde elas esto. A
localizao exata no ... bem, no  um lugar completamente fsico.
Elas podem ser localizadas atravs de uma busca. E posso dizer que a
sua busca comea em Roma. A Roma original. Voc precisar de um
guia especial. Apenas um tipo de semideus pode ler os sinais e por fim
conduzi-lo s Minhas Portas.
        Rachaduras apareceram no gelo debaixo dos seus ps. Hazel
deu tapinhas no pescoo de Arion para acalm-lo. -- E o meu irmo?
-- ela perguntou. -- Nico est vivo?


                                                                  373
       Tnatos olhou-a estranhamente  provavelmente pena, mas
isso no parecia ser uma emoo que a Morte entendesse. -- Voc
encontrar as respostas em Roma. E agora eu tenho que voar para o
sul, para o seu Acampamento Jpiter. Estou sentindo que haver
muitas almas para ceifar, muito em breve. Adeus semideuses, at o
nosso prximo encontro.
       Tnatos dissipou-se em fumaa negra.
       As rachaduras avanaram at os ps de Frank.
       -- Depressa! -- disse Hazel a ele. -- Ns temos que levar
Alcioneu a cerca de 20 quilmetros ao norte! -- Ele subiu no peito do
gigante e Arion levou-os, correndo pelo gelo, arrastando Alcioneu
como se fosse o tren mais feio do mundo.


       Foi uma viagem curta.
        Arion corria pela geleira como se estivesse em uma auto-
estrada, zunindo pelo gelo, saltando fendas e derrapando pelas
encostas de modo que faria os olhos de um snowboarder brilharem.
Frank no teve que nocautear Alcioneu muitas vezes, por que a cabea
do gigante ficava batendo no gelo.  medida que eles continuavam, o
semi-consciente Garoto Dourado ficava resmungando uma msica que
soava como "Jingle Bells".
       Frank sentia-se atordoado. Ele havia se transformado em uma
guia e em um urso. Ele ainda sentia a energia fluindo atravs do seu
corpo, como se ele estivesse a meio caminho entre o estado slido e o
lquido. No era apenas isso: ele e Hazel haviam libertado a Morte, e
ambos estavam vivos. E Percy... Frank engoliu o medo. Percy havia
saltado da geleira para salv-los.
       O filho de Netuno deve se afogar.
       No. Ele se recusava a acreditar que Percy estivesse morto.
Eles no tinham feito todo esse caminho s para perder o amigo.
Frank o encontraria... mas primeiro eles teriam que lidar com
Alcioneu.
      Ele visualizou o mapa que estivera estudando no trem em
Anchorage. Ele sabia mais ou menos para onde eles estavam indo,

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mas no havia sinais ou marcas nos cumes das geleiras. Ele teria que
dar o seu melhor palpite.
        Finalmente Arion passou rapidamente entre duas montanhas
atravs do vale de gelo e rochas, que lembrava uma tigela sorvete com
pedaos de chocolate. O gigante de pele dourada empalideceu como se
transformasse em bronze. Frank sentiu uma sbita vibrao, como se
pressionassem algo contra o seu peito. Ele sabia que estava entrando
em territrio amigo, o seu territrio.
        -- Aqui! -- Frank gritou.
       Arion desviou para o lado. Hazel cortou a corda e Alcioneu foi
derrapando. Frank saltou um pouco antes de o gigante se chocar
contra uma rocha.
        Imediatamente Alcioneu saltou de p. -- O que? Onde?
Quem?
        Seu nariz estava em uma direo estranha. Seus ferimentos
foram curados, mas sua pele dourada havia perdido um pouco do
brilho. Ele procurou ao redor o seu basto de ferro, que ainda estava
na Geleira Hubbard. Ento ele desistiu e bateu na rocha mais prxima
com os punhos, deixando-a em pedaos.
        -- Vocs me levaram para um passeio de tren? -- Ele ficou
tenso e cheirou o ar. -- Este cheiro... almas extintas. Tnatos est
livre? Bah! Isso no importa. Gaia tem o controle das Portas da Morte.
Agora, porque me trouxe aqui, filho de Marte?
       -- Para matar voc, -- Frank respondeu. -- Mais alguma
pergunta? -- O gigante cerrou os olhos.
       -- Eu nunca conheci um filho de Marte que pudesse mudar de
forma, mas isso no quer dizer que voc pode me derrotar. Voc pensa
que seu estpido pai soldado lhe deu a fora para me enfrentar um a
um em um combate?
        Hazel sacou sua espada. -- Que tal dois contra um?
       O gigante rosnou e atacou Hazel, mas Arion agilmente desviou
para fora do caminho. Hazel brandiu sua espada nas panturrilhas do
gigante. leo negro jorrou do ferimento. Alcioneu tropeou.
        -- Voc no pode me matar, nem mesmo Tnatos!

                                                                  375
        Hazel fez o gesto de agarrar com a mo livre. Uma fora
invisvel agarrou o cabelo incrustado de jias do gigante e puxou para
trs. Ento ela cortou-lhe a outra perna e correu antes que ele pudesse
recuperar o equilbrio.
      -- Pare com isso! -- gritou Alcioneu. -- Isto  o Alasca. Eu
sou imortal na minha terra natal!
       -- Na verdade, -- Frank disse, -- Eu tenho ms notcias sobre
isso. Veja, eu tenho mais do que a fora do meu pai.
       O gigante rosnou. -- Do que voc est falando, fedelho?
       -- Tticas, -- respondeu Frank. -- Este  o meu dom dado por
Marte. A batalha pode ser vencida antes da luta acontecer se
escolhermos o terreno certo. -- Ento ele apontou por cima do ombro.
-- Ns passamos a fronteira a poucas centenas de metros. Voc no
est mais no Alasca. No pode sentir isso, Al? Se voc quiser chegar
ao Alasca, ter que passar por mim.
       Lentamente a compreenso chegou aos olhos do gigante. Ele
olhou incrdulo para baixo, para as pernas feridas. leo ainda escorria
de suas panturrilhas tornando o gelo negro.
       -- Impossvel! -- o gigante esbravejou. -- Eu vou... eu vou...
Gah!
        Ele virou-se para Frank, determinado a alcanar a fronteira.
Por uma frao segundo Frank duvidou do seu plano. Se ele no
usasse seu dom novamente, se ele congelasse, ele estaria morto. Ento
ele se lembrou do que sua av havia lhe dito:
       Ajuda se voc conhecer bem a criatura. Checado.
       Ajuda tambm se voc estiver em uma situao entre a vida e a
morte, como o combate. Checado novamente.
       O gigante estava se aproximando. Vinte metros. Dez metros.
        -- Frank? -- Hazel chamou nervosamente.
       Frank permaneceu firme. -- Eu posso fazer isso.
        Pouco antes que Alcioneu trombasse nele, Frank transformou-
se. Ele sempre se sentiu grande e desengonado. Agora ele usara esse
sentimento. Seu corpo aumentou de tamanho, ficou enorme. Sua pele

                                                                   376
tornou-se mais grossa. Seus braos transformaram-se em patas
dianteiras. Presas surgiram de sua boca e seu nariz se alongou. Ele se
tornou o animal que ele melhor conhecia, um que ele havia, cuidado,
alimentado, dado banho e at mesmo causando certa indigesto no
Acampamento Jpiter.
       Alcioneu havia se chocado contra um elefante adulto de dez
toneladas.
       O gigante cambaleou para o lado. Ele rugiu de frustrao e se
chocou contra Frank novamente, mas Alcioneu estava completamente
fora da sua categoria de peso. Frank deu uma cabeada nele, to forte
que Alcioneu voou para trs e aterrissou de braos abertos no gelo.
       -- Voc... no pode... me matar, -- Alcioneu gritou. -- Voc
no pode...
       Frank retornou a sua forma normal. Ele caminhou at o
gigante, cujas feridas oleosas pareciam comear a soltar vapor. As
gemas caram do seu cabelo e chiavam na neve. Sua pele dourada
comeou a rachar, quebrando em pedaos.
       Hazel desmontou e ficou prxima a Frank, com sua espada
preparada. -- Posso?
       Frank acenou afirmativamente. Ele olhou dentro dos olhos do
gigante. -- Uma dica Alcioneu. Da prxima vez escolha um estado
maior para sua casa, no a construa onde s tenha 15 quilmetros de
extenso. Bem vindo ao Canad, idiota.
       A espada de Hazel desceu sobre o pescoo do gigante.
Alcioneu se dissolveu em uma grande pilha de pedras preciosas.
       Hazel e Frank permaneceram um tempo juntos, assistindo os
resqucios do gigante derreterem no gelo. Frank pegou sua corda.
         -- Um elefante? -- Hazel perguntou.
         Ele coou o pescoo. -- Sim. Eu achei que seria uma boa
ideia.
        Frank no conseguiu ler a expresso dela. Ele tinha medo de
que tivesse feito alguma coisa to estranha que fizesse com que ela
nunca mais quisesse estar perto dele. Frank Zhang: desajeitado dos
desajeitados, filho de Marte, e em parte do tempo um paquiderme.

                                                                  377
       Ento ela o beijou, um beijo de verdade na boca, muito melhor
do que o beijo que ela havia dado em Percy no avio.
        -- Voc  incrvel, -- ela disse, -- e voc faz um elefante
muito bonito. -- Frank sentiu-se to perturbado que achou que suas
botas poderiam derreter o gelo. Antes que ele pudesse dizer alguma
coisa, uma voz ecoou atravs do vale:
       Vocs no venceram.
      Frank olhou para cima. Sombras estavam se modificando na
montanha mais prxima, formando a face de uma mulher adormecida.
      Vocs nunca chegaro  sua casa a tempo, provocou a voz de
Gaia. Neste instante Tnatos est cuidando das mortes no
Acampamento Jpiter, a destruio final dos seus amigos romanos.
      A montanha rugiu como se toda a terra estivesse rindo. Ento
as sombras desapareceram.
       Hazel e Frank se entreolharam. No disseram nem uma
palavra. Eles montaram em Arion e voltaram rapidamente para a Baa
da Geleira.




                                                                378
                            XLVIII




PERCY ESTAVA ESPERANDO POR ELES. Ele parecia maluco.
        Ele estava na beirada da geleira, apoiando-se no basto da
guia dourada, contemplando a destruio que ele causara: centenas
de acres recentemente descampados de gua pontilhados com icebergs
e destroos das runas do acampamento.
       Sobraram sobre a geleira apenas os portes principais, que
estavam ao lado, e uma bandeira azul esfarrapada deitada sobre tijolos
de neve.
       Quando eles correram at ele, Percy disse:
       -- Hey, -- como se eles estivessem se encontrando apenas
para almoar ou algo do tipo.
        -- Voc est vivo! -- disse Frank maravilhado, Percy franziu
a testa. -- A queda? Aquilo no foi nada. Eu ca duas vezes do Arco
em St. Louis.
       -- Voc fez o que? -- perguntou Hazel.
       -- Esquea. O importante  que eu no me afoguei.
      -- Ento a profecia estava incompleta! -- Hazel sorriu. --
Provavelmente significava algo como: O filho de Netuno ir afogar
um monte de fantasmas.
      Percy deu de ombros. Ele ainda estava olhando para Frank
como se estivesse irritado.
        -- Eu ainda tenho algo a perguntar a voc, Zhang. Voc pode
se transformar em uma guia? E em um urso?
       -- E um elefante, -- disse Hazel orgulhosamente.



                                                                  379
      -- Um elefante. -- Percy balanou a cabea em descrena. --
 o dom de sua famlia? Voc pode mudar de forma?
       Frank arrastou os ps. -- Hum... sim. Poriclimeno, meu
antepassado, o Argonauta  ele tambm podia fazer isso. Ento foi
passando essa habilidade para as prximas geraes.
       -- E ele tem esse dom que foi dado por Poseidon, -- disse
Percy. -- Isso  completamente injusto. Eu no posso me transformar
em animais.
       Frank o encarou. -- Injusto? Voc pode respirar embaixo
d'gua e explodir geleiras e convocar furaces, e voc acha injusto
que eu possa me transformar em um elefante?
      Percy considerou. -- Ok. Eu entendo o seu ponto. Mas da
prxima vez eu digo que voc  completamente um animal...
       -- Cala a boca, -- disse Frank. -- Por favor.
       Percy esboou um sorriso.
       -- Se vocs j terminaram, -- disse Hazel, -- ns precisamos
ir agora. O Acampamento Jpiter ainda est sob ataque. E eles
poderiam usar a guia de ouro.
        Percy assentiu. -- No entanto, h uma coisa a pensar em
primeiro lugar. Hazel, tem quase uma tonelada de armas e armaduras
feitas de ouro Imperial no fundo da baa agora, e uma biga realmente
boa. E eu apostaria que isso poderia vir a calhar...
        Eles levaram um longo tempo  muito longo  mas todos
sabiam que aquelas armas poderiam fazer a diferena entre a vitria e
a derrota se eles conseguissem levar aquilo de volta ao acampamento 
tempo.
       Ento, Hazel usou suas habilidades de levitao para trazer
alguns objetos do fundo do mar. Percy nadou at o fundo e trouxe
mais alguns. E mesmo Frank ajudou se transformando em uma foca, o
que foi bem legal, embora Percy tenha dito que seu hlito cheirasse a
peixe.
        Os trs se juntaram para levantar a biga, e finalmente eles
conseguiram transportar tudo para terra firme, para uma praia de
areias negras, prxima  base da geleira. Nem tudo cabia na biga, mas

                                                                 380
eles usaram a corda de Frank para amarrar a maior parte das armas de
ouro e as melhores peas das armaduras.
       -- Parece o tren do Papai Noel, -- disse Frank, -- Arion
pode puxar tudo isso? -- Arion bufou.
       -- Hazel, -- Percy disse, -- Srio, eu vou lavar a boca do seu
cavalo com sabo. Ele disse que sim, pode levar, mas ele precisa de
comida.
       Ela pegou um velho punhal Romano, um pugio. Estava torto e
amorfo, e por isso no seria muito bom em uma luta, mas parecia ser
de ouro Imperial slido.
       -- Aqui est, Arion. -- Ela disse. -- Combustvel de alta
qualidade.
      O cavalo pegou o punhal com os dentes e comeou a mastig-
lo como se fosse uma ma.
       Frank jurou silenciosamente que nunca colocaria sua mo
prxima  boca do cavalo. -- Eu no estou duvidando da fora de
Arion, -- disse ele cautelosamente, -- mas a biga vai aguentar? Da
ltima vez...
       -- Isto tem as rodas e o eixo de ouro Imperial, -- disse Percy.
-- Isso deve suportar.
       -- Se no, -- disse Hazel, -- esta ser uma viagem curta. Mas
ns estamos sem tempo. Vamos! -- Os garotos subiram na biga.
Hazel subiu para as costas de Arion.
       -- Avante e rpido! -- ela gritou.
       A exploso snica do cavalo ecoou atravs da baa. Eles
aceleraram rumo ao sul, avalanches desmoronavam das montanhas
enquanto eles passavam.




                                                                  381
                             XLIX



QUATRO HORAS.
       Esse foi o tempo que levou para o cavalo mais rpido do
mundo ir do Alasca at a baa de So Francisco, indo direto pela gua
sob a Costa Noroeste.
        Esse tambm foi o tempo que levou para Percy recuperar toda
a sua memria. O processo que havia comeado em Portland quando
ele havia bebido o sangue da grgona, naquele momento a sua vida
passada ainda estava irritantemente confusa. Agora enquanto eles
entravam no territrio dos deuses Olimpianos, Percy se lembrou de
tudo: a guerra contra Cronos, seu dcimo sexto aniversrio no
Acampamento Meio-Sangue, seu treinador Quiron, o centauro, seu
melhor amigo Grover, seu irmo Tyson, e mais que tudo, Annabeth 
dois meses perfeitos namorando, e ento BOOM. Ele foi abduzido
pela aliengena conhecida como Hera. Ou Juno... Seja l o que for.
       Oito meses de sua vida foram roubados. A prxima vez que
Percy visse a Rainha do Olimpo, ele iria definitivamente dar um tapa
sobre a cabea da deusa.
      Seus amigos e famlia deveriam estar ficando loucos. Se o
Acampamento Jpiter estava com tantos problemas, ele s podia
imaginar o que o Acampamento Meio-Sangue estaria enfrentando sem
ele.
        Ainda pior: Salvar ambos os acampamentos seria s o comeo.
De acordo com Alcioneu, a guerra real aconteceria muito longe, na
terra natal dos deuses. Os gigantes pretendiam atacar o Monte Olimpo
original e destruir os deuses para sempre.
        Percy sabia que os gigantes no poderiam morrer a no ser que
semideuses e deuses os enfrentassem juntos. Nico havia lhe dito
aquilo. Annabeth tambm o havia mencionado, em agosto, quando ela

                                                                 382
havia especulado que os gigantes poderiam ser parte da nova Grande
Profecia  que os Romanos chamavam de a Profecia dos Sete. (Esse
era o lado ruim de namorar a garota mais inteligente do acampamento:
Voc aprendia coisas.)
       Ele entendia o plano de Juno: Unir os semideuses Gregos e
Romanos para criar um time de heris de elite, e ento de alguma
forma convencer os deuses  lutarem ao seu lado. Mas primeiro, eles
tinham que salvar o Acampamento Jpiter.
        A costa comeou a ficar familiar. Eles passaram correndo pelo
farol de Mendocino. Pouco depois, o Monte Tam, os promontrios de
Marn se assomavam pela nvoa. Arion passou direto sob a Ponte
Golden Gate na baa de So Francisco.
       Eles rasgaram atravs de Berkeley e dentro do Okland Hills.
Quando eles alcanaram o topo sobre o Tnel Caldecott, Arion
estremeceu como um carro quebrado e parou, ele espirava
pesadamente.
        Hazel deu um tapinha em seus flancos amorosamente. -- Voc
foi perfeito, Arion.
        O cavalo estava to cansado at para maldizer:  claro que fui
perfeito. O que voc esperava?
        Percy e Frank pularam da biga. Percy desejou que houvesse
assentos confortveis ou refeies de meio-vo. Suas pernas estavam
trmulas. Suas juntas estavam to tensas que ele mal podia andar. Se
ele fosse para a batalha daquele jeito, os inimigos o chamariam de O
Homem Velho Jackson.
       Frank no estava muito melhor. Ele mancou at o topo da
colina e espiou o acampamento l embaixo. -- Pessoal... vocs
precisam ver isso.
       Quando Percy e Hazel se juntaram a ele, o corao de Percy
afundou. A batalha havia comeado e no estava indo bem. A
Duodcima Legio estava disposta no Campo de Marte, tentando
proteger a cidade. Escorpies atiravam entre as linhas dos Nascidos da
Terra. Hannibal, o elefante, arava monstros  direita e a esquerda, mas
os defensores estavam em grande desvantagem numrica.


                                                                   383
        No seu pgaso Scipio, Reyna voava ao redor do gigante
Polybotes, tentando mant-lo ocupado. Os lares formavam brilhantes
filas roxas contra uma multido negra e vaporosa de sombras em
armaduras antigas. Semideuses veteranos da cidade se juntaram 
batalha, e estavam empurrando sua parede de escudos contra uma
investida de centauros selvagens. guias gigantes circulavam pelo
campo de batalha, em combate areo contra duas mulheres com
cabelo-de-serpente em vestes verdes do Bargain Mart  Stheno e
Euryale.
        A legio estava suportando a violncia do ataque, mas a sua
formao estava se rompendo. Cada Coorte era uma ilha em um mar
de inimigos. A torre de assalto dos Ciclopes estava atirando balas de
canho de um verde brilhante na cidade, abrindo crateras no frum,
reduzindo casas  runa. Enquanto Percy assistia, uma bala de canho
atingiu a Casa do Senado e o domo caiu parcialmente.
       -- Chegamos muito tarde, -- disse Hazel.
        -- No, -- disse Percy -- Eles ainda esto lutando. Podemos
fazer isso.
       -- Onde est Lupa? -- perguntou Frank, o desespero tomando
a sua voz. -- Ela e os lobos... eles deveriam estar aqui.
        Percy pensou no seu tempo com a deusa loba. Ele havia
comeado a respeitar os seus ensinamentos, mas ele tambm aprendeu
que os lobos tinham limites. Eles no eram lutadores de linha de
frente. Eles s atacavam quando tinham uma vasta superioridade
numrica, e usualmente sob a cobertura da escurido. Alm do mais, a
primeira regra de Lupa era a auto-suficincia. Ela iria ajudar as suas
crias o mximo que pudesse, trein-las para lutar  mas no fim, elas
seriam presa ou predador. Romanos tinham que lutar por si mesmos.
Eles tinham que provar o seu valor ou morrer. Esse era o caminho de
Lupa.
        -- Ela fez o que pde, -- disse Percy. -- Ela atrasou os
inimigos no seu caminho ao sul. Agora  por nossa conta. Temos que
levar a guia dourada e essas armas para a legio.
     -- Mas Arion est sem combustvel! -- disse Hazel. -- No
podemos arrastar estas coisas ns mesmos.

                                                                  384
       -- Talvez no precisemos. -- Percy verificou os cumes das
colinas. Se Tyson havia recebido a sua mensagem de sonho em
Vancouver, a ajuda talvez estivesse prxima.
       Ele assobiou o mais forte que pde  um bom assobio de txi
nova iorquino que poderia ser ouvido desde a Times Square at o
Central Park.
       Sombras ondularam entre as rvores. Uma grande sombra
negra se formou do nada  um mastim do tamanho de um utilitrio
esportivo, com um Ciclope e uma harpia nas costas.
       -- Co Infernal! -- Frank cambaleou para trs.
       -- Est tudo bem! -- sorriu Percy. -- Eles so amigos.
        -- Irmo! -- Tyson desmontou e correu em direo a Percy.
Percy tentou se preparar, mas no foi muito bem. Tyson bateu nele e
suavizou com um abrao. Por alguns segundos, Percy s podia ver
pontos pretos e montes de flanela. Ento Tyson o deixou e riu com
deleite, olhando Percy de cima com seu enorme olho castanho de
beb.
       -- Voc no est morto! -- disse ele. -- Eu gosto quando voc
no est morto!
       Ella voou para o cho e comeou a arrumar suas penas. -- Ella
encontrou um cachorro, -- anunciou ela. -- Um cachorro grande. E
um Ciclope.
       Ela estava corando? Antes que Percy pudesse decidir, sua
grande cadela pulou nele, derrubando Percy no cho e latindo to alto
que at Arion recuou.
       -- Ei, Sra. O'Leary, -- disse Percy. -- Sim, eu tambm te
amo, garota. Boa cadela.
       Hazel deu um chiado. -- Voc tem um Co Infernal chamado
Sra. O'Leary?
       -- Longa histria. -- Percy conseguiu ficar de p e limpar a
baba de cachorro. -- Voc pode perguntar ao seu irmo...
       Sua voz tremeu quando viu a expresso de Hazel. Ele quase
esqueceu que Nico di Angelo estava desaparecido.

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       Hazel havia lhe dito o que Tnatos havia falado sobre buscar
as Portas da Morte em Roma, e Percy estava ansioso por encontrar
Nico pelas suas prprias razes  para apertar o pescoo do garoto por
fingir que no conhecia Percy na primeira vez que chegou ao
acampamento. Ainda assim, ele era irmo de Hazel, e encontr-lo era
conversa para outra hora.
       -- Desculpe, -- disse ele. -- Mas sim, est  minha cadela,
Sra. O'Leary. Tyson... estes so meus amigos, Frank e Hazel.
      Percy se virou para Ella, que estava contando as barbelas em
uma das suas penas.
      -- Voc est bem? -- perguntou ele. -- Ns estvamos
preocupados com voc.
       -- Ella no  forte, -- ela disse. -- Ciclopes so fortes. Tyson
encontrou Ella. Tyson cuidou de Ella.
          Percy arqueou as sobrancelhas. Ella estava corando.
          -- Tyson, -- disse ele. -- Voc  um grande encantador,
voc...
        Tyson se tornou da mesma cor que a plumagem de Ella. --
Hum... No. -- Ele se inclinou para baixo e sussurrou nervosamente,
alto o suficiente para que todos os outros pudessem ouvir. -- Ela 
bonita.
       Frank deu um tapa em sua cabea como se estivesse com medo
que sua cabea tivesse dado um curto-circuito. -- De qualquer forma,
tem essa batalha acontecendo.
      -- Certo, -- Percy concordou. -- Tyson, onde est Annabeth?
Tem alguma outra ajuda vindo?
       Tyson fez beicinho. Seu grande olho castanho ficou nublado.
-- O grande barco ainda no est pronto. Leo diz amanh, talvez dois
dias. Ento eles viro.
        -- Ns no temos nem dois minutos, -- disse Percy. -- Bem,
este  o plano.
       To rpido como ele pde, ele apontou quem eram os caras
bons e maus no campo de batalha. Tyson ficou alarmado em saber que

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haviam Ciclopes maus e centauros maus no exrcito inimigo. -- Eu
tenho que bater em homens-ponei?
       -- S os faa fugir de medo, -- disse Percy.
       -- Hum, Percy? -- Frank olhou para Tyson com agitao. --
Eu s... no quero que o nosso amigo aqui fique ferido. Tyson  um
lutador?
       Percy sorriu. -- Se ele  um lutador? Frank, voc est olhado
para o General Tyson do exrcito Ciclope. E por falar nisso, Tyson,
Frank  um descendente de Poseidon.
       -- Irmo! -- Tyson amassou Frank em um abrao.
         Percy abafou o riso. -- Na verdade ele  mais como um tatara-
tatara... Oh, esquea. Sim, ele  o seu irmo.
        -- Obrigado, -- murmurou Frank atravs de um bocado de
flanela. -- Mas se a legio confundir Tyson com um inimigo...
       -- Eu cuido disso! -- Hazel correu para a biga e cavou o
maior elmo romano que ela pode encontrar, e mais uma velha
bandeira Romana bordada com SPQR.
       Ela os entregou para Tyson. -- Coloque esses, garoto. Ento
os nossos amigos vo saber que voc  do nosso time.
       -- Yay! -- disse Tyson. -- Estou no seu time!
       O elmo era ridiculamente pequeno, e ele colocou a capa ao
contrario, como um babador SPQR.
       -- Isso vai dar conta, -- disse Percy. -- Ella, s fique aqui.
Fique segura.
      -- Segura. -- Repetiu Ella. -- Ella gosta de estar segura.
Segurana em nmeros. Depsitos de segurana. Ella vai com Tyson.
       -- Qu? -- disse Percy. -- Oh... bem. S no se machuque. E
Sra. O'Leary...
       -- ROOOF!
       -- Como voc se sente puxando uma biga?



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                                 L



ELES ERAM, SEM DVIDA, o mais estranho grupo de reforo em
toda a histria militar Romana. Hazel montava Arion, que tinha se
recuperado o suficiente para transportar uma pessoa, na velocidade
normal de um cavalo, embora ele amaldioasse seus cascos doendo
por todo o caminho colina abaixo.
         Frank se transformou em uma guia careca  o que Percy
ainda achava totalmente injusto  sobrevoava acima deles. Tyson
corria descendo a colina, acenando com o seu cassetete e gritando:
        -- Pnei do mal!AAAHH! -- Enquanto Ella flutuava ao redor
dele, recitando fatos do Almanaque no Velho Fazendeiro.
         Quanto a Percy, ele cavalgou em Sra. O'Leary para a batalha
com uma biga cheia de equipamentos de ouro Imperial retinindo e
tilintando atrs deles, a guia dourada, estandarte da Duodcima
Legio erguida no alto acima dele.
        Eles contornaram o permetro do acampamento e pegaram a
ponte norte sobre o Pequeno Tibre, entrando no Campo de Marte na
borda ocidental da batalha. Uma horda de Ciclopes estava martelando
os campistas da Quinta Coorte, que estavam tentando manter seus
escudos juntos s para permanecerem vivos.
         Vendo-os em apuros, Percy sentiu uma onda de proteo e
raiva. Estes eram os semideuses que o tinham abrigado. Esta era a
famlia dele. Ele gritou:
       -- Quinta Coorte! -- E bateu no Ciclope mais prximo. As
ltimas coisas que o pobre monstro viu foram os dentes da Sra.
O'Leary.
        Aps o Ciclope se desintegrar, e ficar desintegrado, graas 
Morte, Percy pulou para fora do seu co infernal e golpeou
descontroladamente os outros monstros.

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        Tyson se encarregou da lder dos Ciclopes, Ma Gasket com o
seu vestido de cota de malha respingado de lama e decorado com
lanas quebradas.
       Ela olhou assombrada para Tyson e comeou a dizer:
       -- Quem...?
       Tyson bateu na cabea dela com tanta fora, que ela girou em
um crculo e pousou no seu traseiro.
     -- Senhora Ciclope ruim -- ele gritou. -- General Tyson diz:
V EMBORA!
        Ele bateu nela de novo, e Ma Gasket se partiu em cinzas.
         Enquanto isso Hazel atacava em torno de Arion, fatiando com
sua spatha um Ciclope aps o outro. E Frank cegava os inimigos com
as suas garras.
         Uma vez que cada Ciclope dentro de cinquenta metros tinha
sido reduzido a cinzas, Frank pousou na frente de suas tropas e se
transformou em humano. O emblema de centurio e a Coroa Mural
brilharam em sua jaqueta de inverno.
       -- Quinta Coorte! -- Ele gritou. -- Obtenham suas armas de
ouro Imperial aqui!
        Os campistas se recuperaram do choque e atacaram a biga.
Percy fez o seu melhor para distribuir equipamentos rapidamente.
        -- Vamos, vamos! -- Dakota pediu, sorrindo como um louco
e bebendo do seu frasco de Kool-Aid vermelho. -- Nossos camaradas
precisam de ajuda!
        Logo a Quinta Coorte estava equipada com novas armas,
escudos e capacetes. Eles no eram exatamente consistentes. Na
verdade, eles pareciam ter feito compras em uma venda de atacado do
Rei Midas. Mas mesmo assim, de repente eles eram a Coorte mais
poderosa de toda a Legio.
       -- Sigam a guia! -- Frank ordenou. -- Para a batalha!
        Os campistas aplaudiram. Com Percy e a Sra. O'Leary
colocados na frente, toda a Coorte seguindo, quarenta guerreiros
extremamente brilhantes gritando por sangue.

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        Eles bateram em um rebanho de centauros selvagens que
estavam atacando a Terceira Coorte. Quando os campistas da Terceira
Coorte viram o estandarte da guia, eles gritaram insanamente e
comearam a lutar com um esforo renovado.
         Os centauros no tiveram chance. As duas Coortes os
esmagaram como baratas. Logo no havia mais nada, apenas pilhas de
p alm de variados cascos e chifres. Percy esperava que Quiron o
perdoasse, mas estes centauros no eram como os Pneis de Festa que
ele tinha conhecido antes. Eles eram de alguma outra raa. Eles
tinham de ser derrotados.
       -- Formem frentes! -- Os centuries gritaram. As duas
Coortes se juntaram, ligando todo o seu treino militar. Escudos
fechados, eles marcharam para a batalha contra os Nascidos da Terra.
        Frank gritou:
       -- Pilos!
        Cem lanas se ergueram. Quando Frank gritou: -- Fogo! --
eles navegaram atravs do ar  uma onda de morte at os monstros de
seis braos. Os campistas pegaram suas espadas e avanaram em
direo ao centro da batalha.
       Na base do aqueduto, a Primeira e a Segunda Coortes estavam
tentando cercar Polybotes, mas eles estavam apanhando. Os Nascidos
da Terra restantes estava jogando as pedras da barragem e lama. Os
Karpoi, espritos do gro, horrveis cupidos-piranha, estavam correndo
na grama alta para sequestrar campistas ao acaso, levando-os para
longe da linha. O gigante se mantinha soltando basiliscos agitados do
seu cabelo. Cada vez que um caia, os romanos entravam em pnico e
corriam. A julgar por seus escudos corrodos e as plumas
chamuscadas em seus capacetes, eles j haviam aprendido sobre o
veneno e o fogo dos basiliscos.
       Reyna voava em cima do gigante, mergulhando com seu dardo
sempre que o gigante voltava sua ateno para as tropas terrestres. O
seu manto prpura se debatia com o vento. Sua armadura dourada
brilhava. Polybotes espetou seu tridente e jogou o seu lquido mortal,
mas Scipio era quase to gil quanto Arion.



                                                                  390
       Reyna, em seguida, notou o marchar da Quinta Coorte em seu
auxlio com a guia. Ela ficou to atordoada que o gigante quase a
golpeou para fora do ar, mas Scipio se esquivou. Reyna fixou seus
olhos em Percy e lhe deu um enorme sorriso.
       -- Romanos! -- A voz dela cresceu atravs do campo. -- Se
reagrupem na guia!
        Semideuses e monstros viraram-se e observaram pasmos Percy
 frente em seu co infernal.
           -- O que  isso? -- Polybotes exigiu. -- O que  isso?
       Percy sentiu uma onda de energia cruzando o mastro do
estandarte. Ele levantou a guia e gritou:
           -- Duodcima Legio Fulminata!
       Um trovo sacudiu o vale. A guia soltou um flash ofuscante,
e mil tentculos de relmpago explodiram de suas asas douradas na
frente de Percy, como os ramos de uma enorme rvore morta,
conectando os mais prximos monstros, saltando de um para outro,
ignorando completamente as foras romanas.
       Quando o relmpago parou, a Primeira e a Segunda Coortes
estavam enfrentando um gigante surpreendido e vrias pilhas de
cinzas enfumaadas. O centro da linha inimiga tinha sido carbonizado
ao esquecimento.
        O olhar no rosto de Octavian era inestimvel. O centurio
olhou para Percy em choque, depois com indignao. Ento, quando
suas tropas comearam a aplaudir, ele no teve escolha exceto gritar:
           -- Roma! Roma!
       O gigante Polybotes cambaleou incerto, mas Percy sabia que a
batalha ainda no havia terminado.
        A Quarta Coorte ainda estava cercada por Ciclopes. Mesmo
para Hannibal, o elefante, estava sendo difcil andar atravs de tantos
monstros. Sua armadura de Kevlar negro estava rasgada, ento onde
antes estava escrito ELEFANTE agora apenas dizia ANT73.


73
     Ant: Formiga em ingls.

                                                                    391
        Os veteranos e Lares no flanco oriental estavam sendo
empurrados em direo  cidade. Os monstros nas Torres de Cerco
ainda estavam arremessando bolas de fogo verde explosivas para as
ruas.
        As grgonas tinham incapacitado as guias gigantes e agora
voavam sobre os centauros e os Nascidos da Terra que ainda
restavam, tentando reuni-los.
          -- Vamos sair daqui! -- Stheno gritou. -- Eu tenho amostras
grtis!
        Polybotes berrou. Uma dzia de basiliscos frescos caram para
fora do seu cabelo, assim transformando a grama em puro veneno
amarelo. -- Voc acha que isso muda alguma coisa, Percy Jackson?
Eu no posso ser destrudo! Venha para c, filho de Netuno. Eu irei
destru-lo!
       Percy desmontou. Ele entregou o estandarte a Dakota. -- Voc
 o centurio snior da Coorte. Cuide disto. -- Dakota piscou, ento
ele se endireitou com orgulho. Ele largou a garrafa de Kool-Aid e
tomou a guia. -- Vou cuidar disso com a maior honra.
       -- Frank, Hazel, Tyson -- disse Percy, -- ajudem a Quarta
Coorte. Eu tenho que matar um gigante.
       Ele levantou Contracorrente, mas antes que pudesse avanar,
trompas sopraram nas montanhas do norte. Outro exrcito apareceu no
cume, centenas de guerreiras em uma camuflagem preta-e-cinza,
armadas com lanas e escudos. Intercaladas entre as suas fileiras
estavam uma dzia de empilhadeiras de batalha, seus dentes afiados
brilhavam ao sol e setas flamejante se encaixavam em seus arcos.
          -- Amazonas -- disse Frank. -- timo.
      Polybotes riu. -- Voc, viu? Nossos reforos j chegaram!
Roma cair hoje!
        As Amazonas ergueram suas lanas e atacaram, correndo
colina baixo. Suas empilhadeiras entraram para a batalha. O exrcito
do gigante aplaudiu at que as Amazonas mudaram de rumo e se
dirigiram em linha reta para os monstros no flanco oriental intacto.



                                                                 392
        -- Amazonas, em frente! -- Na maior empilhadeira estava
uma garota que se parecia com uma verso mais velha de Reyna, em
uma armadura negra com um cinto de ouro reluzente em volta da
cintura.
       -- Rainha Hylla! -- Hazel disse. -- Ela sobreviveu!
       A rainha das Amazonas gritou:
       -- Para ajudar a minha irm! Destruam os monstros!
       -- Destruir! -- o grito de suas tropas ecoou pelo vale.
        Reyna dirigiu o seu pgaso na direo de Percy. Seus olhos
brilhavam. Sua expresso dizia: Eu poderia te abraar agora. Ela
gritou:
       -- Romanos! Avante!
        O campo de batalha mergulhou no caos absoluto. Amazonas e
linhas romanas avanavam em direo ao inimigo, como se fossem as
Portas da Morte.
       Mas Percy tinha apenas um objetivo. Ele apontou para o
gigante. -- Voc. Eu. At o fim.


       Eles se juntaram no aqueduto, que tinha sobrevivido  batalha
at agora. Polybotes se fixou l. Ele golpeou com seu tridente e
quebrou o arco de tijolos mais prximos, desencadeando uma cascata
de gua.
       -- V em frente, ento, filho de Netuno! -- Polybotes o
insultou. -- Deixe-me ver o seu poder! Ser que a gua cumpre os
seus comandos? Ser que ela te cura? Mas eu nasci para ficar no lugar
de Netuno.
        O gigante enfiou a mo em baixo d'gua.  medida que a
torrente passou por entre os seus dedos ele ficou verde escuro. Ele
jogou a gua em Percy, que, instintivamente, desviou-a com a sua
vontade. O lquido se espalhou no cho  sua frente. Com um
desagradvel silvo, o capim secou e chamuscou.
      -- Meu toque transforma a gua em veneno -- disse
Polybotes. -- Vamos ver o que ele faz ao seu sangue!

                                                                 393
        Ele jogou o lquido em Percy, mas Percy saiu do caminho. Ele
desviou a cachoeira direto para o rosto do gigante. Enquanto
Polybotes estava cego, Percy atacou. Ele enterrou Contracorrente na
barriga do gigante, em seguida, retirou-a e saltou para longe, deixando
o gigante rugir de dor.
       O ataque teria dissolvido qualquer monstro menor, mas
Polybotes apenas cambaleou e olhou para o icor dourado  o sangue
dos imortais  derramando do seu ferimento. O corte j estava se
fechando.
        -- Boa tentativa, semideus -- ele rosnou. -- Mas eu ainda vou
te destruir.
       -- S se me pegar primeiro -- disse Percy.
       Ele se virou e saiu correndo em direo  cidade.
       -- O qu? -- O gigante gritou incrdulo. -- Voc corre
covarde? Fique quieto e morra!
       Percy no tinha inteno de fazer isso. Ele sabia que sozinho
no podia matar Polybotes. Mas ele tinha um plano.
       Ele montou na Sra. O'Leary, que olhou para cima
curiosamente com uma grgona se contorcendo em sua boca.
      -- Eu estou bem! -- Percy gritou enquanto corria seguido de
um gigante gritando ameaas.
        Ele pulou um escorpio em chamas e se abaixou quando
Hannibal jogou um Ciclope em seu caminho. Com o canto do olho,
viu Tyson batendo em um Nascido da Terra no cho como um jogo de
`acerte o alvo'. Ella sobrevoava acima dele, se esquivando dos msseis
e gritando conselhos:
       -- A virilha. A virilha do Nascido da Terra  sensvel.
       SMASH!
       -- Bom. Sim. Tyson encontrou a virilha.
       -- Percy precisa de ajuda? -- Tyson chamou.
       -- Eu estou bem!



                                                                   394
        -- Morra! -- Polybotes gritou, se aproximando rapidamente.
Percy continuou correndo.
          distncia, ele viu Hazel e Arion galopando pelo campo de
batalha, cortando centauros e karpois. Um esprito de gros gritou: --
Trigo! Vou te dar trigo! -- mas Arion pisou em uma pilha de cereais
matinais. A rainha Hylla e Reyna uniram foras, empilhadeira e
pgaso conduzindo juntos, espalhando as sombras escuras dos
guerreiros cados. Frank se transformou em um elefante e atravessou
pisando em alguns Ciclopes, e Dakota levantou a guia dourada no
alto, explodindo com um relmpago monstros que ousaram desafiar a
Quinta Coorte.
         Tudo aquilo era timo, mas Percy precisava de um tipo
diferente de ajuda. Ele precisava de um deus.
        Ele olhou para trs e viu o gigante a quase um brao de
distncia. Para ter algum tempo, Percy se abaixou detrs de uma das
colunas do aqueduto. O gigante balanou seu tridente. Quando a
coluna desmoronou, Percy usou a gua liberada para guiar o colapso,
derrubando vrias toneladas de tijolos na cabea gigante.
        Percy fugiu para os limites da cidade.
        -- Trminus -- ele gritou.
        A mais prxima esttua do deus estava vinte metros  frente.
Seus olhos de pedra se abriram quando Percy correu para ele.
       -- Completamente inaceitvel -- ele reclamou. -- Edifcios
pegando fogo! Invasores! Tire-os daqui, Percy Jackson!
       -- Estou tentando -- disse ele. -- Mas h esse gigante,
Polybotes.
        -- Sim, eu sei! Espere um momento. -- Trminus fechou os
olhos em concentrao. Uma bala de canho verde flamejante
navegou de cima e de repente se vaporizou. -- Eu no posso parar
todos os msseis, -- Trminus reclamou. -- Por que eles no podem
ser civilizados e atacar mais lentamente? Eu sou apenas um deus.
       -- Ajude-me a matar o gigante, -- Percy disse, -- e tudo isso
acabar. A obra de um deus e um semideus juntos, essa  a nica
maneira de mat-lo.

                                                                  395
        Trminus cheirou. -- Eu guardo fronteiras. Eu no mato
gigantes. Isto no est no meu currculo.
       -- Trminus, vamos! -- Percy deu mais um passo em frente, e
o deus gritou indignado.
      -- Pare a, rapaz! Nenhuma arma no interior da Linha
Pomeriana!
       -- Mas estamos sob ataque.
       -- Eu no me importo! Regras so regras. Quando as pessoas
no seguem as regras, eu fico muito, muito zangado.
        Percy sorriu. -- Segure esse pensamento.
        Ele correu de volta para o gigante. -- Ei, feioso!
        -- Rarrr! -- Polybotes apareceu a partir das runas do
aqueduto. A gua ainda estava derramando sobre ele, virando veneno
e criando um pntano de vapor em torno dos seus ps.
       -- Voc... voc vai morrer lentamente -- o gigante prometeu.
Ele pegou seu tridente, agora com um veneno verde escorrendo.
          sua volta, a batalha estava se desenrolando.  medida que os
monstros foram varridos, os amigos de Percy comearam a formar
fileiras em volta, formando um anel ao redor do gigante.
       -- Vou lev-lo preso, Percy Jackson -- Polybotes rosnou. --
Eu vou tortur-lo em baixo do mar. Todos os dias a gua ir te curar, e
todos os dias vou trazer a morte mais perto de voc.
        -- Grande oferta -- disse Percy. -- Mas eu acho que vou te
matar primeiro.
         Polybotes gritou de raiva. Ele balanou a cabea, e mais
basiliscos voaram de seu cabelo.
        -- Para trs! -- Frank advertiu.
        O caos se espalhou atravs das fileiras. Hazel estimulou Arion
a se colocar entre os basiliscos e os campistas. Frank mudou de forma,
algo pequeno, magro e peludo... uma doninha? Percy pensou que
Frank havia enlouquecido, mas quando Frank atacava os basiliscos,



                                                                   396
eles absolutamente se apavoravam. Eles deslizavam se afastando com
Frank os perseguindo
      Polybotes apontou seu tridente e correu em direo a Percy.
Quando o gigante chegou  Linha Pomeriana, Percy saltou de lado
como um toureiro. Polybotes atravessou os limites da cidade.
    --  ISSO A! -- Trminus chorou. -- Isso  CONTRA AS
REGRAS!
        Polybotes franziu a testa, obviamente confuso por ser
repreendido por uma esttua. -- O que  voc? -- Ele rosnou. -- Cale
a boca!
        Ele empurrou a esttua e se voltou para Percy.
         -- Agora eu estou ENFURECIDO! -- Trminus gritou. --
Estou sufocando voc. Sente isso? Essas so minhas mos em seu
pescoo, seu grande brigo. Venha aqui! Vou cabecear voc to
forte...
       -- Basta! -- O gigante pisou na esttua e quebrou Trminus
em trs pedaos: pedestal, cabea e corpo.
       -- VOC NO...! -- Gritou Trminus. -- Percy Jackson, ns
temos um acordo! Vamos matar esse arrogante.
         O gigante riu tanto que ele no percebeu que Percy o estava
atacando at que fosse tarde demais. Percy levantou-se, saltando sobre
o joelho do gigante, e enfiou Contracorrente atravs de uma das bocas
de metal na couraa de Polybotes, afundando o Bronze Celestial no
fundo de seu peito. O gigante tropeou para trs, tropeando no
pedestal de Trminus e batendo no cho.
        Enquanto ele estava tentando se levantar, agarrando a espada
no peito, Percy levantou a cabea da esttua.
      -- Voc nunca vai ganhar! -- O gigante gemeu. -- Voc no
pode me derrotar sozinho.
      -- Eu no estou sozinho. -- Percy levantou a cabea de pedra
acima da cara do gigante. -- Eu gostaria que voc conhecesse meu
amigo Trminus. Ele  um deus!



                                                                  397
        Tarde demais, conscientizao e medo apareceram no rosto do
gigante. Percy esmagou a cabea do deus o mais forte que pode no
nariz de Polybotes, e o gigante se dissolveu, desmoronando em uma
pilha fumegante de algas, pele de rptil e veneno.
        Percy cambaleou para longe, completamente exausto.
       -- H! -- Disse a cabea de Trminus. -- Isso vai ensin-lo a
obedecer s regras de Roma.
        Por um momento, o campo de batalha ficou em silncio,
exceto por poucos incndios, e alguns monstros recuando gritando em
pnico.
       Um crculo irregular de romanos e Amazonas estavam em
torno de Percy. Tyson, Ella e a Sra. O'Leary estavam l. Frank e Hazel
estavam sorrindo para ele com orgulho. Arion estava mordiscando
contente um escudo de ouro.
        Os romanos comearam a cantar:
       -- Percy! Percy!
       Eles o cercaram. Antes que ele percebesse, eles o estavam
levantando com um escudo. O grito se alterou para:
       -- Pretor! Pretor!
         Entre eles estava Reyna, que agarrou sua mo e apertou Percy
em congratulao. Em seguida, a multido de romanos aplaudindo o
levou ao redor da Linha Pomeriana, evitando cuidadosamente as
fronteiras de Trminus, e o escoltando para casa de volta ao
Acampamento Jpiter.




                                                                  398
                                LI



A FESTA DA FORTUNA NO TINHA NADA a ver com tuna74, o
que estava bom para Percy.
       Campistas, Amazonas e Lares lotaram o refeitrio para um
jantar de luxo. At os faunos foram convidados, tendo ajudado
colocando bandagens nos feridos depois da batalha. Ninfas do vento
zuniam pela sala entregando pedidos de pizza, hambrgueres, bifes,
saladas, comida chinesa e burritos, sempre voando em velocidade
extrema.
        Apesar da batalha exaustiva, todos estavam em bom esprito.
As baixas tinham sido leves, e alguns campistas que tinham morrido e
voltado  vida, como Gwen, no tinham sido levados ao Mundo
Inferior. Talvez Tnatos tivesse feito vista grossa. Ou talvez Pluto
tivesse dado a essa gente um passe, como tinha feito com Hazel. Seja
l qual era o caso, ningum reclamou.
       Estandartes coloridos das Amazonas e dos romanos estavam
pendurados lado a lado nas vigas. A guia dourada que fora restaurada
estava orgulhosamente atrs da mesa do pretor, e as paredes estavam
decoradas com cornucpias  chifres mgicos de fartura que
derramavam frutas, chocolate e biscoitos recm sados do forno em
cachoeiras contnuas.
        As coortes se misturaram livremente com as Amazonas,
pulando de div em div  vontade, e pela primeira vez os soldados da
Quinta eram bem-vindos em todo lugar. Percy mudou de assento
tantas vezes que perdeu sinal de seu jantar.
       Havia muitos flertes e lutas greco-romanas  que parecia ser a
mesma das Amazonas. Em um ponto Percy ficou encurralado por
Kinzie, a Amazona que o tinha desarmado em Seattle. Ele teve que

74
     Tuna: Atum em ingls.

                                                                 399
explicar que j tinha namorada. Felizmente Kinzie levou na boa. Ela
contou o que havia acontecido depois de sarem de Seattle  como
Hylla derrotou sua adversria Otrera em dois duelos consecutivos at
a morte, ento as Amazonas a chamam agora de sua Rainha Hylla, a
que matou duas vezes.
        -- Otrera continuou morta da segunda vez -- Kinzie disse,
piscando. -- Temos que agradecer vocs por isso. Se precisar de uma
nova namorada um dia desses... bem, acho que voc fica timo de
colar prata e macaco laranja.
       Percy no sabia dizer se ela estava brincando ou no. Ele a
agradeceu educadamente e trocou de assento.
       Assim que todos tinham comigo e os pratos pararam de voar,
Reyna fez um pequeno discurso. Ela formalmente deu as boas-vindas
s Amazonas, agradecendo pela ajuda. Ento ela abraou sua irm e
todos aplaudiram.
       Reyna ergueu as mos pedindo silncio.
       -- Minha irm e eu nem sempre nos vimos olhos a olho...
       Hylla riu.
       -- Foi um desentendimento.
        -- Ela entrou para as Amazonas -- Reyna continuou. --
Entrei para o Acampamento Jpiter. Mas olhando por essa sala, acho
que ns duas fizemos boas escolhas. Estranhamente, nossos destinos
foram possivelmente feitos por um heri que todos ns acabamos de
eleger para pretor no campo de batalha  Percy Jackson.
       Mais aplausos. As irms ergueram suas taas para Percy e
acenaram para ele vir  frente.
        Todos pediram por um discurso, mas Percy no sabia o que
dizer. Ele protestou dizendo que no era realmente o melhor para
pretor, mas os campistas o afogaram em aplausos. Reyna tirou seu
colar prateado do probatio.
        Octavian deu a ele um olhar obsceno e se virou para o povo e
sorriu como se fosse tudo ideia dele. Ele rasgou um ursinho de pelcia
e pronunciou bons pressgios para o ano que viria -- Fortuna estaria
abenoando-os! Ele passou sua mo sobre o brao de Percy e gritou:

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       -- Percy Jackson, filho de Netuno, primeiro ano de servio!
        Os smbolos romanos queimaram no brao de Percy: um
tridente, SPQP, e uma faixa. Pareceu que algum estava pressionando
ferro quente na sua pele, mas Percy tentou no gritar.
       Octavian o abraou e sussurrou:
       -- Espero que tenha dodo.
        Ento Reyna deu a ele uma medalha de guia e um manto
roxo, smbolos do pretor.
       -- Voc merece, Percy.
       A rainha Hylla deu tapinhas nas costas.
       -- E decidi no te matar.
       -- H, valeu -- Percy disse.
       Ele rodou pelo refeitrio mais uma vez, porque todos os
campistas o queriam na sua mesa. Vitellius, o lar, seguiu, tropeando
na toga roxa brilhante e reajustando a espada, dizendo a todos como
ele havia previsto a grandiosidade da ascenso de Percy.
        -- Exigi que ele entrasse para a Quinta Coorte! -- o fantasma
disse orgulhoso. -- Direcionei seu talento no caminho certo!
       Don, o fauno, apareceu em um chapu de enfermagem e uma
pilha de biscoitos em cada mo.
       -- Cara, parabns e tudo de bom! Incrvel! Ei, voc tem algum
trocado?
        Toda aquela ateno deixava Percy com vergonha, mas ele
estava feliz de ver o quo bem Hazel e Frank estavam sendo tratados.
        Todos os chamavam de os salvadores de Roma, e eles
mereciam isso. Haviam at mesmo falado sobre restabelecer o bisav
de Frank, Shen Lun,  lista de honra da legio. Aparentemente ele no
tinha causado o terremoto de 1906.
       Percy se sentou por um momento com Tyson e Ella, que eram
convidados honrados na mesa de Dakota. Tyson ficou pedindo por
sanduches de amendoim, comendo to rpido que as ninfas mal


                                                                 401
acreditavam. Ella empoleirou no ombro div e mordiscava
furiosamente alguns rolos de canela.
       -- Rolos de canela so bons para harpias -- ela disse. -- Vinte
e quatro de Junho  um bom dia. Aniversrio de Roy Disney, a Festa
da Fortuna e o Dia da Independncia do Zanzibar. E Tyson.
       Ela olhou para Tyson, corou e desviou o olhar.
        Depois do jantar, a legio inteira tirou a noite de folga. Percy e
seus amigos foram para a cidade, que no tinha se recuperado da
batalha, mas os incndios j tinham sido apagados, a maioria dos
detritos varridos, e os cidados estavam dispostos a comemorar.
        Na Linha Pomeriana, a esttua de Trminus vestia um chapu
de festa de papel.
       -- Bem-vindo, pretor! -- ele disse. -- Se precisar de algumas
caras esmagadas de gigantes enquanto estiver na cidade, me deixe
saber.
       -- Obrigado, Trminus -- Percy disse. -- Vou pensar nisso.
       -- , bom. Sua capa de pretor est uma polegada curta demais
na esquerda. Aqui -- assim est melhor. Onde est minha assistente?
Julia!
      A garotinha saiu correndo de trs do pedestal. Estava usando
um vestido verde quela noite, e seu cabelo ainda estava tranado.
Quando ela sorriu, Percy viu que seus dentes da frente estavam
comeando a nascer. Ela ergueu uma caixa cheia de chapus de festa.
       Percy tentou recusar, mas Julia usou seus grandes olhos
adorveis.
       -- Ah, claro -- ele disse. -- Vou levar a coroa azul.
       Ela ofereceu um chapu de pirata dourado para Hazel.
       -- Vou ser como Percy Jackson quando eu crescer -- ela disse
a Hazel solenemente. Hazel sorriu e bagunou seu cabelo.
       --  uma coisa boa para ser, Julia.
       -- Apesar disso -- Frank disse, pegando um chapu em forma
de cabea de urso polar -- Frank Zhang tambm seria bom.

                                                                      402
       -- Frank! -- Hazel disse.
        Eles colocaram seus chapus e continuaram andando at o
frum, que estava repleto de lanternas multicoloridas. As fontes
brilhavam em roxo. As lojas de caf estavam fazendo um negcio
rpido, e os msicos das ruas enchiam o ar com sons de guitarra, lira,
flautas de P, e barulhos de sovaco. (Percy no tinha certeza do
ltimo. Talvez fosse uma antiga tradio musical romana.)
        A deusa ris devia estar em alguma festa tambm. Enquanto
Percy e seus amigos caminharam at a danificada Casa do Senado, um
arco-ris deslumbrante apareceu no cu  noite. Infelizmente a deusa
mandou outra bno, tambm  uma chuva suave com gosto de
bolinhos da A.C.O.E.V. sem glten, que fez Percy se perguntar se
limpar aquilo seria mais difcil ou reconstruir seria mais fcil. Os
bolinhos fariam timos tijolos.
       Por um momento, Percy vagou pelas ruas com Hazel e Frank,
que ficaram ombro a ombro.
       Finalmente ele disse:
       -- Estou um pouco cansado, pessoal. Podem ir em frente.
       Hazel e Frank protestaram, mas Percy podia dizer que eles
queriam algum tempo sozinhos.
        Enquanto ele voltava para o acampamento, ele viu a Sra.
O'Leary brincando com Hannibal no Campo de Marte. Finalmente,
ela tinha achado um parceiro que pudesse fazer baguna. Eles
brincavam, batendo um no outro, quebrando fortificaes, e se
divertindo muito.
       Nos portes, Percy parou e olhou o vale. Pareceu fazer muito
tempo desde que ele estivera ali com Hazel, tendo sua primeira boa
vista do acampamento. Agora ele estava mais interessado em ver o
horizonte oeste.
       Amanh, talvez no prximo dia, seus amigos do Acampamento
Meio-Sangue chegariam. Mesmo com ele preocupado com o
Acampamento Jpiter, no podia esperar para ver Annabeth de novo.
Ele ansiava pela sua antiga vida  Nova York e Acampamento Meio-
Sangue  mas algo dizia que devia levar um tempo antes de voltar


                                                                  403
para casa. Gaia e os gigantes no tinham parado de causar problemas 
no por um bom tempo.
       Reyna tinha dado a ele a segunda casa de pretor na Via
Principalis, mas assim que Percy olhou para dentro, soube que no
podia ficar ali. Era legal, mas estava cheio de coisas do Jason Grace.
Percy j se sentia desconfortvel pegando o ttulo de pretor de Jason.
Ele no queria tomar a casa do cara, tambm. As coisas j seriam
estranhas o bastante quando Jason voltasse  e Percy tinha certeza que
seria em um navio de guerra com a cabea de um drago.
       Percy rumou para os quartis da Quinta Coorte e subiu no
beliche. Ele caiu no sono na hora.


       Ele sonhou que estava carregando Juno pelo Pequeno Tibre.
Ela estava disfarada como uma senhora maluca, sorrindo e cantando
uma antiga cano de ninar grega enquanto passava as mos pelo colar
de Percy.
       -- Ainda quer me bater, querido? -- ela perguntou.
       Percy parou no crrego. Ele jogou a deusa no rio.
      Assim que atingiu a gua, ela desapareceu e reapareceu na
margem.
       -- Oh, o que  isso -- ela gargalhou. -- isso no foi muito
herico, mesmo em um sonho!
      -- Oito meses -- Percy disse. -- Voc roubou oito meses da
minha vida para uma misso que levou uma semana. Por qu?
       Juno resmungou desaprovando.
       -- Vocs mortais e suas vidinhas. Oito meses no  nada, meu
querido. Perdi oito sculos uma vez, esquecida pela maioria do
Imprio Bizantino.
       Percy invocou o poder do rio. Girou ao seu redor, em uma
corrente de guas bravas.
     -- Calma, calma -- Juno disse. -- No fique irritado. Se
vamos derrotar Gaia, nossos planos devem estar perfeitamente


                                                                  404
combinados. Primeiro, precisava que Jason e seus amigos me
libertassem da priso...
       -- Da priso? Voc estava presa e te deixaram sair?
       -- No soe to surpreso, querido! Sou uma doce senhora. De
qualquer maneira, voc no era preciso no Acampamento Jpiter at
agora, para salvar os romanos de seu momento de crise. Entre esses
oito meses... bem, eu tive outros planos sendo preparados, meu garoto.
Ao contrrio de Gaia, trabalhando nas costas de Jpiter, protegendo
seus amigos   um trabalho completo! Se eu tivesse que te guardar
dos monstros de Gaia e fazer esquemas ao mesmo tempo, e te deixar
escondido de seus amigos no oeste toda hora  no, era melhor te
manter a salvo. Voc teria sido uma distrao  um canho solto.
        -- Uma distrao. -- Percy sentiu a gua subindo com sua
fria, girando mais rpido a seu redor. -- Um canho solto.
       -- Exatamente. Estou orgulhosa que tenha entendido.
       Percy mandou uma onda na direo da senhora, mas Juno
simplesmente desapareceu e se materializou mais longe da margem.
       -- Oh -- ela disse -- est de mau humor. Mas voc sabe que
estou certa. Seu timing aqui foi perfeito. Eles acreditam em voc
agora. Voc  um heri de Roma. E enquanto voc estava adormecido,
Jason Grace aprendeu a confiar nos gregos. Eles tiveram tempo para
construir o Argo II. Juntos, voc e Jason uniro os acampamentos.
      -- Por que eu? -- Percy exigiu. -- Voc e eu nunca nos demos
bem. Por que voc iria querer um canho solto no seu time?
        -- Porque eu te conheo, Percy Jackson. De vrios jeitos, voc
 impulsivo, mas quando est com seus amigos, fica to constante
quando uma agulha de bssola. Voc tem uma lealdade inabalvel, e
inspira lealdade. Voc  a cola que vai unir os sete.
       -- timo -- Percy disse. -- Sempre quis ser uma cola.
       Juno atou os dedos tortos.
        -- Os Heris do Olimpo devem se unir! Depois de sua vitria
sobre Cronos em Manhattan... bem, temo que feriu a auto-estima de
Jpiter.


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          -- Porque eu estava certo -- Percy disse. -- E ele estava
errado.
          A velha encolheu os ombros.
        -- Ele deveria estar acostumado a isso, depois de tantas eras
casado comigo, mas que nada! Meu orgulhoso e teimoso marido se
recusa a pedir ajuda a meros semideuses de novo. Ele acredita que
pode lutar contra os gigantes sem vocs, e Gaia pode ser forada a
voltar a seu sono. Mas eu o conheo. Mas voc deve se provar. S
navegando para as antigas terras e chegando mais perto das Portas da
Morte vocs convencero Jpiter que so dignos de lutar lado a lado
dos deuses. A ser a maior misso desde Enias navegar de Tria!
       -- E se falharmos? -- Percy disse. -- E se os romanos e
gregos no se derem bem?
       -- Ento Gaia j ter ganhado. Vou te dizer, Percy Jackson. A
nica que vai te causar mais problemas  a que est mais prxima de
voc  a que mais me odeia.
       -- Annabeth? -- Percy sentiu sua fria aumentando de novo.
-- Voc nunca gostou dela. Agora est chamando ela de
problemtica? Voc no a conhece completamente. Ela  a pessoa que
eu mais quero por perto.
          A deusa sorriu secamente.
      -- Voc ver, jovem heri. Ela tem uma tarefa difcil  frente
quando chegar a Roma. Se ela estiver  altura... no sei.
      Percy invocou um punho de gua e esmagou a senhora.
Quando a onde desapareceu, ela tinha ido embora.
      O rio saiu do controle de Percy. Ele afundou na escurido do
redemoinho de gua.




                                                                 406
                                LII



NA MANH SEGUINTE, PERCY, HAZEL E FRANK fizeram o
desjejum cedo, e ento se dirigiram para a cidade antes que o senado
fosse devidamente convocado. Como Percy era um pretor agora, ele
podia ir muito bem onde quer que ele quisesse, quando quisesse.
       No caminho, eles passaram pelos estbulos, onde Tyson e Sra.
O'Leary estavam dormindo. Tyson roncava na cama de feno ao lado
dos unicrnios, um olhar feliz em seu rosto como se ele estivesse
sonhando com pneis. Sra. O'Leary tinha rolado de costas e coberto
seus ouvidos com as patas. No telhado do estbulo, Ella estava
pousada em uma pilha de pergaminhos romanos antigos, com a cabea
enfiada debaixo das asas.
        Quando chegaram ao frum, se sentaram perto das fontes e
assistiram o sol nascer. Os cidados j estavam ocupados varrendo
simulaes de cupcakes, confetes e chapus de festa da noite anterior.
O corpo de engenheiros estava trabalhando em um novo arco que iria
comemorar a vitria sobre Polybotes.
       Hazel disse que ela tinha at ouvido falar de um triunfo formal
para os trs  um desfile ao redor da cidade seguido de uma semana de
jogos e celebraes  mas Percy sabia que eles nunca teriam chance.
Eles no tinham tempo.
       Percy contou a eles sobre seu sonho com Juno.
       Hazel franziu a testa. -- Os deuses estavam ocupados na noite
passada. Mostre a ele, Frank.
       Frank enfiou a mo no bolso de seu casaco. Percy pensou que
ele poderia tirar seu pedao de lenha, mas ao invs disso ele mostrou
um fino livro de bolso e uma nota em papel vermelho.
       -- Estavam em meu travesseiro, esta manh. -- Ele os passou
para Percy. -- Como uma visita da Fada do Dente.

                                                                  407
        O livro era A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Percy nunca tinha
ouvido falar dele, mas ele podia adivinhar quem o enviara. A carta
dizia: Bom trabalho, filho. A melhor arma de um homem de verdade 
sua mente. Esse era o livro favorito de sua me. D uma lida. P.S. 
Espero que seu amigo Percy tenha aprendido um pouco de respeito
por mim.
       -- Uau. -- Percy devolveu o livro. -- Talvez Marte seja
diferente de Ares. No acho que Ares saiba ler.
        Frank folheou as pginas. -- H muita coisa sobre sacrifcios,
conhecimento do custo da guerra. Em Vancouver, Marte me disse que
eu tenho que colocar o meu dever  frente da minha vida ou toda a
guerra iria para os lados. Eu pensei que ele estava querendo dizer
libertar Tnatos, mas agora... eu no sei. Eu ainda estou vivo, ento
talvez o pior ainda esteja por vir.
         Ele olhou nervosamente para Percy, e Percy teve a sensao de
que Frank no estava lhe dizendo tudo. Ele se perguntou se Marte
teria dito algo sobre ele, mas Percy no tinha certeza se queria saber.
        Alm do mais, Frank j tinha dado o bastante. Ele havia
assistido a casa de sua famlia queimar. Ele perdeu sua me e sua av.
       -- Voc arriscou sua vida, -- Percy disse. -- Voc estava
disposto a se incendiar para salvar a misso. Marte no pode esperar
mais do que isso.
       -- Talvez, -- Frank disse cheio de dvidas.
       Hazel apertou a mo de Frank.
       Eles pareciam mais confortveis perto um do outro essa
manh, no to nervosos e desajeitados. Percy se perguntou se eles
tinham comeado a namorar. Ele esperava que sim, mas ele decidiu
que era melhor no perguntar.
       -- Hazel, e voc? -- Percy perguntou. -- Alguma palavra de
Pluto?
        Ela olhou para baixo. Vrios diamantes surgiram do cho 
seus ps. -- No, -- ela admitiu. -- De certa forma, acho que ele
enviou uma mensagem atravs de Tnatos. Meu nome no estava na
lista de almas que escaparam. Deveria estar.

                                                                   408
       -- Acha que seu pai est te dando uma permisso? -- Percy
perguntou.
        Hazel deu de ombros. -- Pluto no pode me visitar ou at
mesmo falar comigo sem reconhecer que estou viva. Ento ele teria
que cumprir as leis da morte e Tnatos me traria de volta ao Mundo
Inferior. Acho que meu pai est deixando um olho fechado. Eu acho...
acho que ele me quer para encontrar Nico.
       Percy olhou para o nascer do sol, esperando ver um navio de
guerra descendo do cu. At agora, nada.
      -- Ns vamos encontrar seu irmo, -- Percy prometeu. --
Assim que o navio chegar aqui, vamos embarcar para Roma.
       Hazel e Frank trocaram olhares inquietos, como se eles j
tivessem falado sobre isso.
       -- Percy... -- Frank disse. -- Se voc quiser que a gente v,
ns estamos dentro. Mas voc tem certeza? Quero dizer... ns
sabemos que voc tem toneladas de amigos no outro acampamento. E
voc poderia escolher qualquer um no Acampamento Jpiter agora. Se
ns no fizermos parte dos sete, vamos entender...
      -- Vocs esto brincando? -- Percy disse. -- Vocs acham
que eu deixaria minha equipe para trs? Depois de sobreviver aos
germens de trigo da Fleecy, fugir de canibais e se esconder debaixo de
bundas de gigantes azuis no Alasca? Qual !
        A tenso se quebrou. Todos os trs comearam a se exaltar,
talvez um pouco demais, mas era um alvio estar vivo, com o sol
quente brilhando, e no se preocupar  pelo menos no momento  com
rostos sinistros aparecendo nas sombras das colinas.
        Hazel respirou fundo. -- A profecia que Ella nos deu  sobre a
filha da sabedoria, e a marca de Athena queimando atravs de Roma...
voc sabe sobre o que  isso?
        Percy se lembrou de seu sonho. Juno tinha avisado que
Annabeth teria um trabalho difcil pela frente, e que ela iria causar
problemas para a misso. Ele no podia acreditar nisso, mas ainda
assim... isso o preocupava.



                                                                  409
       -- Eu no tenho certeza, -- ele admitiu. -- Acho que h mais
na profecia. Talvez Ella possa lembrar o resto dela.
        Frank enfiou seu livro para dentro do bolso. -- Ns
precisamos lev-la conosco -- quero dizer, para sua prpria
segurana. Se Octavian descobre que Ella memorizou os livros
Sibilinos...
       Percy estremeceu. Octavian usava profecias para manter seu
poder no acampamento. Agora que Percy tinha tirado sua chance
como pretor, Octavian estaria procurando por outras maneiras de
exercer influncia. Se ele pegasse Ella...
       -- Voc est certo, -- Percy disse. -- Temos que proteg-la.
S espero que ns possamos convenc-la...
        -- Percy! -- Tyson veio correndo do outro lado do frum, Ella
batia as asas atrs dele com um rolo de pergaminho em suas garras.
Quando eles chegaram  fonte, Ella deixou cair o rolo de pergaminho
no colo de Percy.
       -- Entrega especial, -- ela disse. -- De uma aura. Um esprito
do vento. Sim, Ella tem uma entrega especial.
       -- Bom dia, irmos! -- Tyson tinha feno em seu cabelo e
pasta de amendoim em seus dedos. -- O pergaminho  de Leo. Ele 
engraado e pequeno.
        O pergaminho parecia normal, mas quando Percy o desdobrou
em seu colo, uma gravao de vdeo cintilou sobre o pergaminho. Um
garoto em armadura grega sorriu para eles. Ele tinha um rosto
travesso, cabelos pretos encaracolados, e olhos selvagens, assim como
se ele tivesse tomado vrias xcaras de caf. Ele estava sentado em
uma sala escura com paredes de madeira, como uma cabine de navio.
Lamparinas  leo oscilavam de um lado para outro no teto.
       Hazel sufocou um grito.
       -- O que? -- Frank perguntou. -- O que est errado?
        Lentamente, Percy percebeu que o garoto de cabelos
encaracolados parecia familiar  e no apenas dos seus sonhos. Ele
tinha visto aquele rosto em uma antiga foto.


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       -- Ei! -- Disse o cara no vdeo. -- Saudaes de seus amigos
no Acampamento Meio-Sangue, et cetera. Este  Leo. Sou o... -- Ele
olhou para fora da tela e gritou: -- Qual  o meu ttulo? Eu sou como
almirante, capito, ou...
       A voz de uma menina gritou de volta: -- Garoto de Reparos.
       -- Muito engraado, Piper, -- Leo resmungou. Ele se voltou
para a tela de pergaminho. -- Ento, eu sou ... ah... Supremo
Comandante do Argo II. , gostei disso! De qualquer modo, ns
vamos estar navegando em sua direo em cerca de, sei l, uma hora,
nessa grande nave-me de guerra. Ns apreciaramos se vocs, tipo,
no nos atirassem para fora do cu ou algo parecido. Ento tudo bem!
Se voc puder conte isso aos romanos. At logo, e tudo isso. Adeus.
       O pergaminho ficou branco.
       -- No pode ser, -- Hazel disse.
       -- O que? -- Frank perguntou. -- Voc conhece aquele cara?
       Hazel aparentava como se tivesse visto um fantasma. Percy
entendia o porqu. Ele se lembrava da foto na casa abandonada de
Hazel em Seward. O garoto no navio de guerra parecia exatamente
com o antigo namorado de Hazel.
       -- Ele  Sammy Valdez, -- ela disse. -- Mas como... como...
       -- No pode ser, -- Percy disse. -- O nome desse cara  Leo.
E aquilo foi h setenta-e-alguns anos. Tem que ser uma...
       Ele queria dizer uma coincidncia, mas ele no podia fazer
com que si prprio acreditasse nisso. Ao longo dos ltimos anos ele
tinha visto um monte de coisas: destino, profecias, magia, monstros,
destino. Mas ele nunca havia se deparado com uma coincidncia.
       Eles foram interrompidos por trompas soprando  distncia. Os
senadores vinham marchando para dentro do frum com Reyna na
liderana.
        --  hora da reunio, -- Percy disse. -- Vamos l. Temos que
avis-los sobre o navio de guerra.




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       -- Porque ns deveramos confiar nesses gregos? -- Octavian
estava dizendo.
       Ele tinha estado andando pelo senado por cinco minutos, indo
aqui e ali, tentando contrariar o que Percy havia lhes dito sobre o
plano de Juno e a Profecia dos Sete.
       O senado mudou de posio impacientemente, mas a maior
parte deles estava com medo demais para interromper Octavian
enquanto ele estava tendo sucesso. Enquanto isso o sol subia no cu,
brilhando atravs do telhado quebrado do senado e dando a Octavian
um holofote natural.
       A Casa do Senado estava lotada. Rainha Hylla, Frank e Hazel
sentaram-se na fila da frente com os senadores. Veteranos e fantasmas
ocupavam as fileiras mais atrs. At mesmo  Tyson e Ella foi
permitido que se sentassem nos fundos. Tyson manteve-se acenando e
sorrindo para Percy.
      Percy e Reyna ocupavam as cadeiras de pretores no estrado, o
que Percy fez auto-consciente. No foi fcil parecer digno vestindo
um lenol e uma capa roxa.
        -- O acampamento est seguro, -- Octavian continuou. -- Eu
serei o primeiro a parabenizar nossos heris por trazer de volta a guia
da legio e muito Ouro Imperial! Realmente temos sido abenoados
com boa sorte. Mas por que fazer mais? Porque tentar a sorte?
        -- Estou contente que voc tenha perguntado, -- Percy ficou
de p, deixando a pergunta em aberto.
       Octavian balbuciou, -- Eu no sou...
        -- ...parte da misso, -- Percy disse. -- Sim, eu sei. E voc 
sbio para me deixar explicar, j que eu sou. -- Alguns dos senadores
riram silenciosamente. Octavian no tinha escolha seno sentar e
tentar no olhar desconcertado.
        -- Gaia est acordando, -- Percy disse. -- Ns j derrotamos
dois de seus gigantes, mas isso  s o comeo. A verdadeira guerra
ter lugar na antiga terra dos deuses. A misso vai nos levar a Roma, e
eventualmente, para a Grcia.
       Uma murmurao apreensiva se espalhou pelo senado.

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       -- Eu sei, eu sei, -- Percy disse. -- Vocs sempre pensaram
nos gregos como seus inimigos. E h uma boa razo para isso. Acho
que os deuses tem mantido nossos dois acampamentos separados
porque sempre que nos encontramos, ns lutamos. Mas isso pode
mudar. Tem que mudar, se vamos derrotar Gaia.  isso que a Profecia
dos Sete quer dizer. Sete semideuses, gregos e romanos, tero que
fechar as Portas da Morte, juntos.
        -- H! -- gritou um Lar das fileiras de trs. -- Da ltima vez
que um pretor tentou interpretar a Profecia dos Sete, foi Michael
Varus, quem perdeu nossa guia no Alasca! Por que deveramos
acreditar em voc agora?
       Octavian sorriu, pretensioso. Alguns de seus aliados no Senado
comearam a acenar e resmungar. At mesmo alguns dos veteranos
olharam incertos.
       -- Eu carreguei Juno atravs do Tibre, -- Percy lembrou-lhes,
falando to firme quanto pde. -- Ela me disse que a Profecia dos
Sete est prxima de acontecer. Marte tambm apareceu para vocs
em pessoa. Vocs acham que dois de seus deuses mais importantes
iriam aparecer no acampamento se a situao no fosse grave?
       -- Ele est certo, -- Gwen disse da segunda fileira. -- Eu, por
exemplo, confio na palavra de Percy. Grego ou no, ele restaurou a
honra da legio. Vocs viram-no no campo de batalha na noite
passada. Algum aqui diria que ele no  um heri de Roma?
      Ningum argumentou. Alguns balanaram a cabea em
concordncia.
       Reyna se levantou. Percy olhava para ela ansiosamente. Sua
opinio poderia mudar tudo  para melhor ou pior.
       -- Voc afirma que essa  uma misso combinada, -- ela
disse. -- Voc afirma que Juno tem a inteno de que ns trabalhemos
com esse  esse outro grupo, Acampamento Meio-Sangue. Ainda que
os gregos tenham sido nossos inimigos por eras. Eles so conhecidos
por suas fraudes.
       -- Talvez sim, -- Percy disse. -- Mas inimigos podem se
tornar amigos. Uma semana atrs, voc teria pensado que romanos e
Amazonas estariam lutando lado a lado?

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       Rainha Hylla riu. -- Ele tem um ponto.
       -- Os semideuses do Acampamento Meio-Sangue j estiveram
trabalhando com o Acampamento Jpiter, -- Percy disse. -- Ns
simplesmente no percebemos isso. Durante a Titanomaquia no vero
passado, enquanto vocs estavam atacando o Monte tris, ns
estvamos defendendo o Monte Olimpo em Manhattan. Lutei com
Cronos eu mesmo.
       Reyna recuou, quase tropeando em sua toga. -- Voc... o
qu?
        -- Eu sei que  difcil de acreditar, -- Percy disse. -- Mas
acho que ganhei sua confiana. Estou do seu lado. Hazel e Frank...
Tenho certeza de que eles esto destinados a irem comigo nessa
misso. Os outros quatro esto agora no seu caminho vindo do
Acampamento Meio Sangue agora mesmo. Um deles  Jason Grace,
seu antigo pretor.
        -- Ah, qual ! -- Octavian gritou. -- Ele est inventando
coisas agora.
       Reyna franziu a testa. --  muito para acreditar. Jason est
voltando com um bando de semideuses gregos? Voc diz que vo
aparecer no cu em um navio de guerra fortemente armado, mas que
no devemos nos preocupar.
       -- Sim. -- Percy olhou para as fileiras, nervoso, os
espectadores incertos. -- Apenas deixe-os aterrissarem. Oua-os.
Jason vai confirmar tudo que eu estou dizendo  vocs. Juro pela
minha vida.
       -- Pela sua vida? -- Octavian olhou significativamente para o
senado. -- Ns vamos lembrar disso, se isso se mostrar um truque.
       Logo em seguida, um mensageiro correu para dentro da Casa
do Senado, ofegando como se tivesse corrido todo o caminho do
acampamento. -- Pretores! Sinto interromper, mas nossos batedores
informaram...
       -- Navio! -- Tyson disse alegremente, apontando para o
buraco no teto. -- Yay!



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       Sem dvida, um navio de guerra grego apareceu das nuvens, a
cerca de meia milha de distncia, descendo em direo  Casa do
Senado. Quando ele se aproximou, Percy podia ver escudos de bronze
brilhando ao longo dos lados, velas ondulando, e uma figura de
aparncia familiar com a forma de um drago de metal. No mastro
mais alto, uma grande bandeira branca de trgua balanava ao vento.
       O Argo II. Era o navio mais incrvel que ele jamais tinha visto.
       -- Pretores! -- O mensageiro gritou. -- Quais so suas
ordens?
       Octavian atirou-se aos seus ps. -- Voc precisa perguntar? --
Seu rosto estava vermelho de raiva. Ele estava estrangulando seu
ursinho de pelcia. -- Os pressgios so horrveis! Isso  um truque,
uma fraude. Cuidado com os gregos trazendo presentes!
        Ele apontou um dedo para Percy. -- Seus amigos esto
atacando em um navio de guerra. Ele os levou at aqui. Ns temos de
atacar!
       -- No, -- Percy disse com firmeza. -- Vocs todos me
elevaram a pretor por uma razo. Eu vou lutar para defender este
acampamento com a minha vida. Mas estes no so inimigos. Digo
que estejamos prontos, mas no ataquemos. Deixe-os aterrissarem. Se
for um truque, ento eu vou lutar com vocs, como eu fiz na noite
passada. Mas no  um truque.
       Todos os olhos se voltaram para Reyna.
       Ela estudou a aproximao do navio. Sua expresso endureceu.
Se ela vetasse as ordens de Percy... bem, ele no sabia o que iria
acontecer. Caos e confuso no mnimo.
        Muito provavelmente, os romanos seguiriam suas ordens. Ela
tinha sido sua lder muito mais tempo do que Percy.
       -- Segure o fogo, -- Reyna disse. -- Mas tenha a legio
pronta. Percy Jackson  seu pretor devidamente escolhido. Vamos
confiar nessa palavra  a menos que nos seja dada razo clara para o
contrrio. Senadores, vamos adiar o frum e conhecer nossos... novos
amigos.



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       Os senadores correram para fora do auditrio  se de excitao
ou pnico, Percy no tinha certeza. Tyson correu atrs deles, gritando,
-- Yay! Yay! -- com Ella esvoaando ao redor de sua cabea.
       Octavian deu a Percy um olhar aborrecido, ento jogou no
cho seu ursinho de pelcia e seguiu a multido.
         Reyna estava parada no ombro de Percy.
       -- Eu apoio voc, Percy, -- ela disse. -- Eu confio em seu
julgamento. Mas por todos os motivos, espero que ns possamos
manter a paz entre nossos campistas e seus amigos gregos.
         -- Ns vamos, -- ele prometeu. -- Voc vai ver.
       Ela olhou para o navio de guerra. Sua expresso ficou um
pouco pensativa. -- Voc diz que Jason est a bordo... espero que seja
verdade. Tenho sentido sua falta.
         Ela marchou para fora, deixando Percy sozinho com Hazel e
Frank.
       -- Eles esto descendo  direita do frum, -- Frank disse
nervosamente. -- Trminus vai ter um ataque cardaco.
       -- Percy, -- Hazel disse, -- voc jurou pela sua vida.
Romanos levam isso a srio. Se alguma coisa der errado, mesmo que
por acidente, Octavian vai mat-lo. Voc sabe disso, certo?
       Percy sorriu. Ele sabia que as apostas eram altas. Ele sabia que
esse dia poderia dar horrivelmente errado. Mas ele tambm sabia que
Annabeth estava naquele navio. Se as coisas dessem certo, este seria o
melhor dia da sua vida.
         Ele jogou um brao em volta Hazel e um brao em torno de
Frank.
        -- Vamos l --, disse ele. -- Deixe-me apresent-los  minha
outra famlia.




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                               Glossrio

Absurdus fora de lugar, discordante
Alcioneu o mais velho dos gigantes nascidos de Gaia, destinado a lutar com
Pluto
Amazonas uma nao s de mulheres guerreiras
Anaklusmus Contracorrente. O nome da espada de Percy Jackson.
Aquiles o semideus Grego mais poderoso que lutou na guerra de Tria
Argentum prata
Argonautas um bando de heris Gregos que acompanharam Jaso na sua
misso para achar o Velocino de Ouro. Seu nome vm do seu barco, o Argo,
que foi nomeado pelo seu criador, Argus.
Augrio um sinal de que algo est vindo, um pressgio; a prtica de
adivinhao
Aurae espritos invisveis do vento
Aurum ouro
Balista escorpio uma arma de msseis de assalto que lanava grades
projteis a alvos distantes
Basilisco cobra, literalmente "pequena coroa"
Belerofonte semideus Grego, filho de Poseidon, que derrotou monstros
montado em Pgaso
Belona a deusa Romana da guerra
Bizncio o imprio oriental que durou outros mil anos depois da queda de
Roma, sob influncia Grega
Bronze Celestial um metal raro, letal para monstros
Campo de Asfdelos a seo do Mundo Inferior em que pessoas que
viveram uma vida de igualmente boa e m descansam
Campos de Punio a seo do Mundo Inferior em que as almas ruins so
eternamente torturadas
Campos Elsios lugar de descanso final para as almas dos heris e virtuosos
no Mundo Inferior


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Caronte barqueiro de Hades que carrega as almas dos recm falecidos
atravs do rio Estige e Aqueronte, que divide o mundo dos vivos do mundo
dos mortos
Centauro uma raa de criaturas metade homem, metade cavalo
Centurio um oficial do exrcito Romano
Crbero o co de trs cabeas que guarda os portes do Mundo Inferior
Ceres a deusa Romana da agricultura
Ciclope um membro da raa primordial dos gigantes (Ciclopes pl.), cada um
deles/elas com um olho no meio da testa
Cinto da Rainha Hiplita Hiplita vestia um cinto de ouro, um presente do
seu pai, Ares, que significava o seu reinado Amaznico e tambm lhe dava
fora
Cognomen terceiro nome
Coorte uma unidade militar Romana
Denrios (denarii pl.) o sistema monetrio mais comum em Roma
Dracma moeda prateada da Grcia antiga
rebo um lugar de escurido entre a Terra e Hades
Esculpio  o deus Romano da medicina e da cura
Spatha uma espada de cavalaria
Fauno deus Romano das florestas, parte cabra, parte homem. Forma Grega:
stiro
Ferro Estgio como bronze celestial e ouro Imperial, um metal mgico
capaz de matar monstros
Fineu um filho de Poseidon, que tinha o dom da profecia. Quando ele
revelou muito dos planos dos deuses, Zeus o puniu deixando-o cego
Fortuna a deusa Romana da fortuna e boa sorte
Fulminata armado com raio. Uma Legio Romana sob o comando de Jlio
Cesar cujo emblema era um raio (fulmen).
Gaia a deusa terra; me dos Tits, gigantes, Ciclopes, e outros monstros.
Conhecida pelos romanos como Terra
Gegenes monstros nascidos da terra
Gldio uma espada curta

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Grgonas trs irms monstruosas (Stheno, Euryale e Medusa) que tem o
cabelo de cobras venenosas vivas; os olhos de Medusa podem transformar a
quem os ver em pedra
Graecus Grego; inimigo; forasteiro
Greva armadura para canelas e joelhos
Gris-gris um amuleto vodu que protege contra o mal ou traz sorte
Guerra de Tria a guerra que foi travada contra a cidade de Tria depois
que Pris de Tria tomou Helena do seu marido, Menelau, o rei de Esparta.
Comeou com uma disputa entre as deusas Atena, Hera e Afrodite.
Harpia uma criatura fmea alada que arrebata coisas
Hrcules o equivalente romano de Hracles; filho de Jpiter e Alcmena, que
nasceu com grande fora
Hiperbreos gigantes pacficos do norte
Icor o sangue dourado dos imortais
ris a deusa do arco-ris
Juno deusa Romana da mulher, casamento e fertilidade; irm e esposa de
Jpiter; me de Marte. Forma Grega: Hera
Jpiter rei romano dos deuses; tambm chamado de Jpiter Optimus
Maximus (o melhor e maior). Forma Grega: Zeus
Karpoi espritos dos gros
Lar divindade da casa, esprito ancestral (Lares pl.)
Legio a maior unidade do exrcito Romano, consiste de tropas de infantaria
e cavalaria
Legionrio membro da legio
Lestriges altos canibais norte, possvel origem da lenda do p grande
Liberalia festival Romano que celebra a passagem de um garoto para a sua
masculinidade
Livros Sibilinos uma coleo de profecias em rima escritas em Grego.
Tarqunio, o Soberbo, um rei de Roma, os comprou de uma profetiza
chamada Sibla e os consultava em tempos de grande perigo.
Lupa a sagrada loba Romana que cuidou dos gmeos abandonados Rmulo
e Remo


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Marte o deus Romano da guerra; tambm chamado de Marte Ultor. Patrono
do imprio; pai divino de Rmulo e Remo. Forma Grega: Ares
Minerva deusa Romana da sabedoria. Forma Grega: Atena
Monte tris a base dos Tits durante a guerra de dez anos contra os deuses
Olimpianos; quartel general de Saturno
Nebulae ninfas das nuvens
Netuno o deus Romano dos mares; Forma Grega: Poseidon
Nvoa fora mgica que disfara coisas dos mortais
Otrera primeira rainha das Amazonas, filha de Ares
Ouro Imperial um metal raro, mortal para monstros, consagrado no
Panteo; sua existncia era mantida em segredo pelos imperadores
Pallium uma capa ou manto usado pelos Romanos
Panteo um templo para todos os deuses na Antiga Roma
Pentesileia a rainha das Amazonas; filha de Ares e Otrera, outra rainha
Amazona
Pilo uma lana Romana
Pluto o deus Romano da morte e das riquezas. Forma Grega: Hades
Polybotes o gigante filho de Gaia, a Me Terra.
Poriclimeno um prncipe Grego de Pilos e filho de Poseidon que lhe deu a
habilidade de se transformar. Ele foi renomado pela sua fora e por
participar da viagem dos Argonautas
Pretor um magistrado Romano eleito e comandante do exrcito
Pramo rei Troiano durante a Guerra de Tria
Principia quartel geral de um acampamento Romano
Probatio perodo de teste de um recruta da legio
Pugio uma adaga Romana
Retiarius gladiador Romano que lutava com uma rede e um tridente
Rio Estige o rio que forma o limite entre a Terra e o Mundo Inferior
Rio Tibre o terceiro rio mais longo da Itlia. Roma foi fundada a suas
margens. Na Roma antiga, os criminais executados eram jogados nesse rio.



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Rmulo e Remo os filhos gmeos de Marte e a sacerdotisa Rhena Silvia que
foram lanados ao Rio Tibre pelo seu pai humano, Amulius. Eles foram
resgatados e criados pela loba Lupa e ao alcanar a idade adulta, fundaram
Roma
Saturno o deus Romano da agricultura, filho de Urano e Gaia e pai de
Jpiter. Equivalente Grego: Cronos
Senatus Populusque Romanus (SPQR) "O Senado e o Povo de Roma"; se
refere ao governo da Repblica Romana e  usado como emblema oficial de
Roma
Sombras espritos
Apartus um esqueleto guerreiro
Trtaro marido de Gaia; esprito do abismo; pai dos gigantes; tambm  a
regio mais profunda do mundo
Trminus o deus Romano dos limites e balizas
Tnatos o deus Grego da morte. Equivalente Romano: Letus
Trirreme um tipo de barco de guerra
Triunfo um cortejo cerimonial para os generais romanos em celebrao a
uma grande vitria militar




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